O desenvolvimento das Cidades e os meios de transporte

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  • Curso de Gesto da Mobilidade Urbana

    Ensaio Crtico - Turma 9

    As cidades e sua implantao em funo do desenvolvimento de seus meios de transporte

    Roberto Mazzilli Pelosini (*)

    O desenvolvimento e a organizao das cidades sempre foi uma decorrncia da necessidade do homem em viver em sociedade. As comunicaes e os meios de transporte foram os vetores que orientaram a organizao das cidades, impondo suas regras na sua implantao e no seu desenvolvimento. As cidades foram constitudas tendo como referncia a escala humana, a trao animal, a circulao de pessoas e mercadorias e suas rotas. O seu traado foi sendo implantado como conseqncia da necessidade de sua organizao em funo dos deslocamentos naturais. E a evoluo desses deslocamentos, no incio focados na dimenso humana do passo, e posteriormente ampliados na velocidade dos deslocamentos mecnicos, imps a necessidade de uma reviso no conceito de expanso das cidades.

    A dinmica dos deslocamentos mudou drasticamente o modo como as pessoas interagem com o meio urbano. Desde a implantao das cidades como plos comercias na Antiguidade, a formao dos burgos na Idade Mdia, a Revoluo Industrial a partir do sculo XVIII e a conseqente modernizao e expanso dos meios de transporte impuseram sua marca no desenvolvimento e implantao das cidades, at chegarmos nossa conformao atual.

    A discusso sobre os problemas do assentamento urbano e a necessidade de sua ordenao s teve incio a partir do sculo XX, quando comeou a se pensar na necessidade de dar-se um tratamento adequado ao desenvolvimento urbano, com o objetivo de identificar os itens fundamentais que dariam forma a uma concepo comum do conceito de cidade. Dessa forma, urbanistas e arquitetos fizeram um diagnstico da situao das cidades, identificando debilidades e problemas, bem como as respectivas solues. Em 1931 foi assim redigida a Carta de Atenas, que estabelecia linhas de orientao sobre o exerccio e o papel do urbanismo dentro da sociedade. O modelo de urbanismo adotado ento a partir da dcada de 30 acabou priorizando o uso do transporte individual, pois considerava a cidade como um organismo a ser concebido de modo funcional, preconizando a separao das reas residenciais, de lazer e de trabalho, propondo, em lugar do carter e da densidade das cidades tradicionais, uma cidade, na qual os edifcios se desenvolvem em altura e inscrevem em reas verdes, por esse motivo, pouco densas, o que gerou, como conseqncia, a necessidade de deslocamentos entre as diversas reas.

  • Esse conceito de urbanismo e a conseqente dinmica de seus deslocamentos foi o vetor que orientou todo o traado e a implantao das cidades. A nfase no transporte individual em detrimento ao transporte pblico, a partir das bases urbansticas lanadas na Carta de Atenas provou-se inadequada, face ao desenvolvimento contnuo dos transportes e principalmente, com a mudana dos meios de produo, trabalho e consumo dentro das cidades.

    A demanda de gerao de viagens modificou-se enormemente, em funo do desenvolvimento tecnolgico, modificando a maneira como as relaes humanas se inter-relacionam dentro da cidade. Enquanto espao de convivncia e interao, como seres sociais que somos, a polis se desenvolve segundo sua prpria dinmica, que realinhada em funo dos usos que sua populao desenvolve. A estrutura econmica, profundamente alterada com a evoluo da tecnologia, provocou uma mudana significativa nos modais de deslocamento da populao. Em 30 anos vimos o surgimento de servios de entrega de pizza, mercadorias, e-commerce de maneira que julgvamos improvvel na poca. Essa dinmica provoca um impacto direto na alterao do uso que temos do espao virio.

    A intensificao do setor de servios, por parte de prestadores e profissionais liberais, tambm gera uma demanda por transporte individual, que tambm no foi absorvida dentro desse impacto. O surgimento do transporte individual por motos, como uma resposta de parte da populao por transporte individual, se h dez anos no causava interferncia significativa no trnsito, agora j no pode ser desprezado, quando em um intervalo de dez anos de 1997 a 2007 saltou de 0,94% a 2,44% dentro da mdia de viagens motorizadas no municpio de So Paulo. E como foi pensado o virio para esse tipo de transporte? Ele foi-se adaptando s condies preexistentes, margem de polticas pblicas, passando a responder atualmente por 35% das mortes por acidente de trnsito no municpio. Isso demonstra claramente o que a falta de uma poltica adequada a esse sistema de transporte pode gerar.

    A alterao tambm se fez presente na implantao dos plos geradores de trfego, com a implementao em reas urbanas dos Centros de Distribuio de e-commerce, que acabam gerando uma demanda por transporte de cargas, que por sua vez geram a necessidade de criao de ptios de estacionamento/espera de caminhes, a circulao de cargas fracionadas pela cidade e por a vai... o incentivo das empresas a que os funcionrios trabalhem em casa, em grande parte proporcionados pelo desenvolvimento dos meios de comunicao (internet) e a demanda por delivery tambm poderiam ser citados, e por a vai.... a gerao de viagens modifica-se continuamente em funo da economia. At que ponto isso influencia na prpria ampliao da cidade? E com que velocidade podemos identificar e colocar em prtica as solues a esses problemas que se apresentam e se modificam em velocidade cada vez maior?

    E qual ser a tendncia para o futuro? Existe uma piada comum entre especialistas em trfego que diz que, se muito for feito, a situao continua como est; se nada for

  • feito, com certeza ir piorar. E qual seria a sada? As mudanas ocorrem em uma velocidade muito grande, os problemas se apresentam e no conseguimos resolve-los com a velocidade que necessitamos. A opo atual em priorizao do transporte pblico, como constatao da falncia do modelo de urbanismo adotado ao longo das ltimas dcadas, apresenta-se como a nica alternativa presente para podermos resolver e planejar a cidade do futuro.

    (*) Roberto Mazzilli Pelosini, Arquiteto e urbanista formado pelo Mackenzie. Diretor de Planejamento na Secretaria de Transportes e Mobilidade Urbana de Osasco - SP.

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