o desenvolvimento da regiÃo do pontal do 11/1865.pdf · gerou desenvolvimento e...

Download O DESENVOLVIMENTO DA REGIÃO DO PONTAL DO 11/1865.pdf · gerou desenvolvimento e subdesenvolvimento,

Post on 05-Dec-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • ISSN: 2175-8875 www.enanpege.ggf.br/2017

    3364

    O DESENVOLVIMENTO DA REGIO DO PONTAL DO PARANAPANEMA NO CONTEXTO DA REESTRUTURAO PRODUTIVA DO CAPITAL

    PAULO ROBERTO ROSA1

    Resumo: Objetiva-se refletir sobre as contradies inerentes ao modo de produo capitalista e como a reestruturao produtiva impacta as polticas de desenvolvimento, postos de trabalho, distribuio de renda e qualidade de vida. Pretende-se ainda identificar alternativas para superar um modelo de desenvolvimento excludente, que prioriza o mercado em detrimento das pessoas. Foram realizadas pesquisas bibliogrficas norteadas pelas temticas centrais desenvolvimento e reestruturao produtiva. Parte-se do plano global para verificar como esse processo influencia as polticas de desenvolvimento e determinante no avano do setor sucroenergtico no Pontal do Paranapanema. Uma aliana envolvendo o grande capital, latifundirios e o Estado possibilitou a territorializao e concentrao do capital canavieiro, aumentando a complexidade da questo agrria na regio ao possibilitar que o capital avance de forma predatria sobre os recursos disponveis.

    Palavras-chave: Desenvolvimento; Reestruturao produtiva; Sucroenergtico. Abstract: The goal of this work is to analyze the contradictions in the capitalist means o production and how the productive restructuration impacts the development policies, jobs, income distribution and quality of life. The intention is to identify alternatives to overcome and excluding development model, that gives priority to the market instead of the people. Bibliographical researches were made guided by the central thematic development and productive restructuration. Starting from the global plan to verify how this process influences the development policies and is determinant in the progress of the sugar and energy sector in Pontal do Paranapanema. An alliance involving great capital, farmers and state made possible the concentration of territory and capital from sugar cane production, enhancing the complexity of the Agrarian Issue in that region when it allows capital to progress in a predate way in the available resources.

    Key-words: Development; Productive restructuration; Sugar and energy.

    1 Introduo

    O objetivo deste texto refletir sobre as contradies presentes no modo de

    produo capitalista e como o processo de reestruturao produtiva impacta as

    polticas de desenvolvimento, postos de trabalho, distribuio de renda e qualidade

    de vida, maximizando a concentrao de renda e ampliando o fosso que separa o

    reduzido nmero de pessoas extremamente ricas da massa empobrecida. Pretende-

    se identificar e apontar caminhos para superar o atual modelo de desenvolvimento -

    excludente, que prioriza o mercado em detrimento das pessoas -, rumo a uma

    sociedade mais justa e igualitria, centrada na pessoa humana.

    1 - Acadmico do Programa de Ps-Graduao em Geografia da Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Cincias e Tecnologia, Presidente Prudente/SP. E-mail de contato: paulorosapp@hotmail.com

    http://www.enanpege.ggf.br/2017

  • ISSN: 2175-8875 www.enanpege.ggf.br/2017

    3365

    O texto encontra-se organizado em trs partes. A primeira apresenta uma

    aproximao caracterizao da sociedade/modo de produo capitalista e do

    conceito de desenvolvimento. Na segunda parte realizada uma discusso acerca

    da reestruturao produtiva e seus impactos sobre o mundo do trabalho. Na terceira

    parte realiza-se uma anlise da Regio do Pontal do Paranapanema e o papel

    historicamente por ela ocupado no contexto da reestruturao produtiva do capital.

    2 Desenvolvimento e modo de produo capitalista: uma breve

    aproximao conceitual

    As atuais relaes sociais de produo so predominantemente capitalistas,

    hegemnicas, mas no nicas. Segundo Smith (1988, p. 130), " a totalidade das

    relaes espaciais organizadas, num grau maior ou menor dentro de padres

    identificveis, que adequadamente constituem a expresso da estrutura e do

    desenvolvimento do modo de produo". Amin (1976, p. 48) define "[...] o modo de

    produo capitalista a partir da apropriao exclusiva por uma classe dos meios de

    produo os quais so produto do trabalho social", sendo passvel esta apropriao

    tanto na forma individual quanto coletiva. Para Hirsch (1979, p. 171), "o capitalismo

    de mercado nunca constitui a base exclusiva da economia poltica, em nenhum pas

    e em nenhum momento".

    As caractersticas bsicas do modo de produo capitalista so definidas por

    Amin (1976, p. 48) como sendo: "1) a generalizao da forma mercadoria a toda a

    produo social, 2) a aquisio da forma mercadoria prpria fora do trabalho [...]

    e 3) a aquisio da forma mercadoria pelos equipamentos [...]; o que define o

    capital". Segundo Hirsch (1976, p. 173), "a economia capitalista compreende a

    organizao da produo, acumulao e troca, por indivduos privados, que operam

    isoladamente ou em grupos, e que agem livremente base de contratos comerciais,

    motivados pelos lucros pecunirios", requerendo, para funcionar adequadamente,

    quatro tipos de capital: humano, financeiro, manufaturado e natural (HAWKEN;

    LOVINS; LOVINS, 2007).

    http://www.enanpege.ggf.br/2017

  • ISSN: 2175-8875 www.enanpege.ggf.br/2017

    3366

    Para Amin (1976, p. 51), "desde que o modo capitalista se tornou dominante,

    a forma dominante do excedente o lucro do capital". A busca pelo lucro a qualquer

    preo, resultante das relaes produo-consumo, constitui a essncia do

    capitalismo. "Na busca do lucro, o capital corre o mundo inteiro. Ele coloca uma

    etiqueta de preo em qualquer coisa que ele v [...]" (SMITH, 1988, p. 94). Quanto

    ao salrio, Smith (1988, p. 86) assevera que "[...] a medida do tempo de trabalho

    socialmente necessrio para a reproduo do seu trabalho". Trata-se do "[...] tempo

    de trabalho necessrio para produzir os objetos indispensveis manuteno

    contnua do trabalho, ou seja, para permitir que o trabalhador viva e propague a sua

    espcie" (MARX, 1985, p. 55). Resumindo, "o preo natural do trabalho o mnimo

    do salrio [...], a frmula da escravido moderna [...]" (MARX, 1985, p. 55-56).

    Assim, "o valor da fora de trabalho representa somente uma frao do exato

    valor produzido durante um dia de trabalho" (SMITH, 1988, p. 86). da relao entre

    a fora de trabalho requerida e da fora de trabalho efetivamente remunerada que

    surge o conceito da mais-valia - ou mais-produto - estabelecido por Marx. A

    extenso da jornada de trabalho tem, assim, o papel determinante no nvel de

    explorao, pois "quanto mais curto o dia de trabalho, menor a massa de mais-valia

    produzido sob a forma de lucro para a classe capitalista" (SMITH, 1988, p. 106).

    Apesar da tendncia geral apontada por Marx (1985) dos salrios serem

    mantidos ao nvel mnimo de subsistncia e reproduo, a classe trabalhadora

    totalmente dependente de vender a fora de trabalho para sobreviver. Dessa forma,

    "a universalizao da relao salrio-trabalho pressagia ao trabalhador uma

    liberdade oferecida com uma mo - a liberdade de comprar e vender sua fora de

    trabalho - mas tomada com a outra" (SMITH, 1988, p. 170).

    A lgica do lucro que guia as opes do modo de desenvolvimento capitalista

    gerou desenvolvimento e subdesenvolvimento, concentrou a riqueza nas mos de

    poucos, agravou as assimetrias entre continentes, pases, regies e cidades,

    dividindo-as entre poucos que tem e muitos que no tem. A desigualdade na

    distribuio e/ou acesso aos benefcios do desenvolvimento afeta as relaes e

    corri, pouco a pouco, os vnculos sociais. A humanidade precisa encontrar o

    caminho para um modelo de desenvolvimento que permita romper com a ditadura da

    http://www.enanpege.ggf.br/2017

  • ISSN: 2175-8875 www.enanpege.ggf.br/2017

    3367

    mercadoria imposta pelo modelo produtivista-consumista do capital, que solapa o

    tempo destinado ao lazer, famlia e outras atividades no laborais; corri laos

    sociais e a solidariedade, alm de degradar e levar os recursos naturais exausto.

    Considerado um fenmeno complexo e contraditrio, o desenvolvimento "[...]

    um reflexo das melhores aspiraes humanas e, exatamente porque grandes

    ideias formam a base do poder, objeto para a mais intensa manipulao e passvel

    de ser usado para propsitos que invertem o seu ideal original" (PEET apud

    GIRARDI, 2016, p. 12, grifo do autor). O desenvolvimento deve ser considerado

    como um fenmeno amplo e multidimensional, contemplando as dimenses

    econmica, social, cultural, cientfica, tecnolgica, ambiental, dentre outras.

    A insuficincia explicativa e a insustentabilidade da dimenso econmica

    isolada no processo de desenvolvimento esto presentes nas anlises de Rattner

    (1999), Sen (2010) e Girardi (2016), e apontam no sentido da necessidade de se

    romper com a tendncia de algumas vises reducionistas em restringir o conceito do

    desenvolvimento ao mbito do crescimento econmico. Rattner (1999, p. 23) aponta

    que "[...] o crescimento econmico no leva, necessariamente, reduo da

    pobreza, sobretu