o Desenvolvimento Crítico Da Vontade Em Kant

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O DESENVOLVIMENTO CRTICO da vontade em kant

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  • 7O DESENVOLVIMENTO CRTICODA VONTADE EM KANT

    Juliano Fellini*

    RESUMO Segundo Kant, a possibilidade de a razopura prtica efetivamente determinar a vontadedepende, inicialmente, de uma profunda inves-tigao da faculdade de desejar na perspectiva desua filosofia transcendental. A fim de demonstrarisso, apresentaremos neste artigo o desen-volvimento crtico desta faculdade e, com ele, asbases sobre as quais os conceitos de uma boavontade e de uma razo pura prtica se relacionampara a constituio da moralidade.PALAVRAS-CHAVE Fundamentao tica. Moral.Razo e Vontade. Immanuel Kant.

    A investigao filosfica no mbito tico sinaliza o advento de um novo elementoconstituinte do sujeito racional: a faculdade volitiva. Em Kant, a dinmica da razopura prtica se resume na determinao racional da vontade para a constituio damoralidade. O objetivo deste artigo acompanhar a relao da razo e da vontadeem Kant para, com isso, entender o processo evolutivo deste conceito, o qualcaracterizamos como o desenvolvimento crtico da faculdade de desejar. Para afilosofia transcendental de Kant, no suficiente uma simples conformidade davontade com a razo. Somente se a vontade agir por motivos racionais, poderemosfalar em moralidade. Situada sob esse projeto crtico, a filosofia moral kantiana exigeda vontade uma disposio muito mais radical no seguimento dos princpiosracionais. Convm esclarecer que o ponto arquimediano do debate moral em Kantencontra-se j na lei moral, enquanto proposio sinttica a priori, e ser atravsdela que a vontade assumir um contorno crtico. No entanto, por razesmetodolgicas, o nosso ponto de partida encontra-se na faculdade de desejar,passando pela vontade livre at chegar ao conceito de vontade autnoma. Estasetapas refletem os distintos nveis da relao da vontade com a lei moral.

    ABSTRACT According to Kant, the possibility thatpure practical reason may effectively determine thewill depends, initially, upon an in-depthinvestigation of the faculty of desire within theperspective of his transcendental philosophy. Inorder to demonstrate this, we will present in thispaper the critical development of this faculty andwith it the bases upon which the concepts of a goodwill and of a pure practical reason relate themselvesto the constitution of morality.KEY WORDS Ethical Groundwork. Moral. Reasonand Will. Immanuel Kant.

    * Doutor em Filosofia, PUCRS.

    VERITAS Porto Alegre v. 53 n. 1 maro 2008 p. 92-102

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    IAo longo da histria da filosofia, o conceito de uma faculdade de desejar foi

    designado de diferentes maneiras. Plato diferenciou o querer do simples desejo.Em Aristteles, podemos encontrar uma diferenciao entre razo prtica(nospraktiks) e razo terica(nos theoretiks). Por sua vez, os Escolsticos se referem primeira como intellectus practicus ou como intellectus activus e ratio practica. Oswolffianos mantm a distino em sua terminologia de cognitio movens e cognitioiners, e reconhecem tanto elementos cognitivos como impulsivos na faculdade devolio, de modo que a expressam como appetitus rationalis. Em Kant, tal faculdade denominada de razo prtica(praktische Vernunft)1. Se, por ora, utilizamos aexpresso faculdade de desejar(Begehrungsvermgen), o fazemos apenas comintuitos propeduticos, isto , pretendemos acompanhar a evoluo deste conceitoat ao seu mximo desenvolvimento crtico2.

    No Prefcio da Crtica da Razo Prtica, Kant trata a faculdade de desejar emrelao ao sentimento de prazer. Ela se define como o poder (...) de ser, pelas suasrepresentaes, causa da realidade dos objectos dessas representaes 3. Osentimento de prazer intervm sobre a faculdade de desejar como a representaoda concordncia do objecto ou da ao com as condies subjectivas da vida, isto ,com o poder da causalidade de uma representao em relao realidade do seuobjecto(ou determinao das foras do sujeito para a aco de o produzir) 4. Aquiencontramos a descrio do que seja propriamente uma ao impulsiva, quando arepresentao do prazer ou dos impulsos vitais define um objetivo a ser alcanado emove a faculdade de desejar para sua realizao. Nesse sentido, a determinao dafaculdade de desejar pelo prazer denominada de apetite, e o apetite habitual denominado de inclinao. O entendimento pode encontrar uma regra entre taisinstncias (prazer e faculdade de desejar), mas que vlida apenas para o indivduo.Na contramo, surge o projeto crtico de Kant de encontrar um fundamento objetivopara a noo de ao voluntria, o que vai de encontro qualquer fundamentaodo tipo hedonista. Da a introduo do elemento racional como base de determinaoda faculdade de desejar.

    A definio da razo enquanto faculdade de princpios a priori possibilita acapacidade de agir, no apenas por representaes do agradvel, ao contrrio,podemos agir por representaes que esto acima da mera sensibilidade. Estacapacidade de sermos, por meio de uma representao racional, causa dos objetosdaquela representao define uma espcie de causalidade pertencente aos seresracionais que dispem de outro fundamento alm do simples impulso. Contudo, comoconceber o movimento da faculdade de desejar sem o expediente do impulso, do

    1 Cf. BECK, L. W. A Commentary on Kants Critique of Practical Reason. Chicago and London: The Universityof Chicago Press, 1984, p. 37.

    2 O prprio Kant refere-se a ela inicialmente nestes termos, faculdade de desejar, para acentuar que o seutratado filosfico no pertence a uma psicologia emprica, mas a uma filosofia transcendental.

    3 CRPr A 16.4 CRPr A 16.

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    interesse? A razo possibilita que seus princpios determinem a conduta e se tornemigualmente o seu motivo, o seu interesse, o seu impulso. Por isso, Kant afirmar aexistncia de um puro interesse da razo e poderamos design-lo como umainclinao livre dos sentidos (propensio intellectualis) 5.

    A possibilidade de um puro interesse da razo nos conduz seguinte distino:faculdade de desejar inferior e faculdade de desejar superior. A primeira estimediatamente relacionada com um objeto(do prazer) e, como tal, somente podefornecer regras de ao, mas nenhuma lei moral. O objeto constitui a matria dafaculdade de desejar e o desejo desse objeto precede a regra prtica. O problemaque ronda tais princpos prticos materiais, que podem ser designados sob o princpiogeral do amor de si ou da felicidade pessoal, a falta de objetividade. Mesmo reunidossob uma nica designao, na realidade eles esto sujeitos contingncia. Por outrolado, a faculdade de desejar superior, que se origina, quando a razo passa a serconsiderada como instncia de determinao, possibilita a capacidade de agir poroutros critrios que no os sensveis: A razo pura deve, por si mesma apenas, serprtica, isto , sem pressuposio de um sentimento qualquer, por conseguinte, semrepresentaes do agradvel ou desagradvel (...) 6.

    Desde a primeira Crtica, o emprico mostrou-se sinnimo do contingente, e seuequivalente no mbito prtico so os princpios materiais que se mostram ineficientesenquanto critrio objetivo da moralidade. Por isso, Kant quer demonstrar quefundamentos no-racionais no possuem consistncia interna, no sonecessariamente obrigatrios e nem universais em sua aplicao. Uma ordem moralobjetiva jamais poderia ser construda a partir de tais fundamentos. A razo, tantona esfera terica quanto prtica, serve para sistematizar, integrar e universalizar7.Portanto, dada a inconsistncia dos princpios prticos materiais, requer-se que elessejam excludos do processo de fundamentao moral.

    A razo, ento, proporciona uma regra puramente formal vlida para todos osseres racionais, sem distino, o que permite falar de uma faculdade de desejarsuperior: Se no existissem leis puramente formais que determinassemsuficientemente a vontade, tambm no poderia admitir-se uma faculdade de desejarsuperior 8. Isso vem ao encontro da necessidade de fundar a teoria moral em termoscientficos, no sentido de um fundamento seguro. O filosofar prtico no endossasimplesmente aquilo que o senso comum sabe ou como a razo vulgar age; ele vaialm e proporciona bases seguras para a questo do moralmente bom. A regra formalda razo, como princpio a priori universal e necessrio, constitui-se neste princpioque promete um critrio seguro para a soluo das questes morais.

    Se a determinao da faculdade de desejar, por meio de uma regra formal darazo, constitui um critrio objetivo de ao, precisamos encontrar na vontade as

    5 MC AB 4.6 CRPr A 44, 45.7 Cf. BECK, L. W. A Commentary on Kants Critique of Practical Reason. Chicago: The University of Chicago

    Press, 1984, p. 47.8 CRPr A 41.

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    propriedades que garantem a efetividade dessa determinao. Desse modo, oque nos conduz ao item subseqente ser a questo de como possvel haver umasntese entre elementos to dspares como o so razo e faculdade de desejar, oque demanda a exposio da liberdade como instncia fundamental da dinmicada razo pura prtica.

    IIComo visto anteriormente, a possibilidade de uma faculdade de desejar superior

    diz respeito ao conceito de vontade, que no outra coisa seno a prpria faculdadede desejar cujo fundamento determinante e da at mesmo o que lhe agradvel se encontra na razo do sujeito(...) 9. A condio que permite chegar a tal conceitode vontade a liberdade.

    Desde a Dialtica, na primeira Crtica, Kant explora a liberdade sistematicamenteassociada ao conceito de causalidade e, agora, no interior da filosofia prtica no diferente, uma vez que a vontade uma espcie de causalidade dos seres vivos,enquanto racionais, e liberdade seria a propriedade dessa causalidade, pela qualela pode ser eficiente, independentemente de causas estranhas que a determinem10.No contexto da razo em seu uso terico, ficou estabelecido que todas as mudanasacontecem de acordo com o princpio da ligao de causa e efeito 11. Da sedepreende que a sucesso dos fenmenos na natureza acontece sempre sob regras:A natureza inteira em geral nada mais , na verdade, do que uma conexo defenmenos segundo regras; e em nenhuma parte h irregularidade alguma 12.Estamos falando de uma sucesso objetiva de fenmenos, isto , da representaode um objeto em geral segundo uma regra universal. Essa regra provm doentendimento que, de uma base a priori, permite afirmar que no h irregularidadealguma, ou seja, que os fenmenos se sucedem um ao outro na relao de causa eefeito necessariamente.

    interessante notar que, na anlise do conceito de causalidade, outros conceitosesto a implicados: Esta causalidade leva ao conceito de ao, esta ltima aoconceito de fora e, desse modo, ao conceito de substncia 13. Kant quer chamar aateno para o conceito de substncia, no tanto pela caracterstica da permanncia,mas por sua propriedade ativa, isto , de produzir aes. No entanto, a causalidade,a partir do modelo da substncia, no afirma a ao como um comeo a partir delamesma. H um fundamento de determinao que est para alm da substnciamesma e que se explica pelo determinismo natural. A ao, enquanto causa dasmudanas no mundo, no se diferencia em nada da ao humana e ambas nosaparecem como simples processos da natureza, pois a diferena entre as aesnaturais e a ao humana no se deixa perceber nos seus efeitos, mas na propriedadede o agente racional ser uma causa incausada. neste ponto especfico, de afirmar

    9 MC AB 5.10 FMC BA 97.11 CRP B 233.12 L A 1.13 CRP A 204 B 249.

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    uma causalidade livre, que se concentram os esforos na busca de um fundamentode determinao da ao para alm do paradigma terico14.

    Com isso, retorna pauta a problemtica condio de um conceito para o qual arazo, em seu uso terico, se v incapaz de apresentar uma soluo definitiva, poisno basta verific-la por certas supostas experincias da natureza humana (...),mas sim temos que demonstr-la como pertencente actividade de seres racionaisem geral e dotados de uma vontade 15. O que gera uma especial dificuldade encontrar uma base para afirmar que determinados efeitos so procedentes de umaao, a partir de uma causalidade livre. Em se tratando de uma ao em sentidoterico, temos a possibilidade de, pelo encadeamento fsico, chegar causa, poisesta de natureza sensvel. Em sentido prtico, nos deparamos com uma dificuldadeirredutvel: encontrar sob determinados efeitos sensveis uma causa supra-sensvel.Contudo, esse procedimento j foi dispensado por Kant, pois tal conceito se define ese resolve apenas aprioristicamente, e a experincia unicamente nos d a conhecera lei dos fenmenos, por conseguinte, o mecanismo da natureza, que constituiprecisamente o contrrio da liberdade 16.

    Diante disso, Kant busca a idia da liberdade a partir de nossa condio deseres racionais. O fato de possuirmos a faculdade da razo, ainda que em sentidoterico, denota a existncia de uma pura atividade prpria, o que demonstra queno nos constitumos simplesmente de sensibilidade receptiva. Na conscincia denossa espontaneidade epistmica estamos diretamente conscientes de umacapacidade que nos subtrai aos condicionamentos sensveis17. Assim, podemosafirmar que a prova da liberdade se daria no prprio agir, visto que acompanhadode uma autoconscincia que exclui a subordinao s causas naturais. A liberdadepode ser compreendida no agir prprio e voluntrio, pois, pela deciso, possoperceber que as causas subalternas da natureza so superadas, dada a conscinciaque tenho de comear algo a partir de mim mesmo. O agir humano se distingue detodas as demais aes na natureza, porque vem acompanhado desta autoconscincia.O ato que brota de mim procede da espontaneidade de um eu que pensa e que no uma simples reao a outro ato qualquer, o que permite assumir outra perspectivaquando da reivindicao da liberdade: a perspectiva de um eu no simplesmentesujeito aos fluxos naturais. Pela perspectiva natural, a liberdade pareceria um auto-engano. Contudo, da perspectiva do prprio agir, no h como no me conceder talpropriedade, a de ser livre: sem ela, o prprio agir no se deixaria compreender18.

    A associao do agir idia da liberdade de tal forma intrnseca que, se algummentir, e, com isso, trouxer uma certa desordem sociedade, nenhuma justificaode ordem emprica (m educao, ms companhias, m ndole, circunstncias) sesustenta diante do fato de se tratar de uma ao voluntria e que poderia, no

    14 Ver: WILLASCHEK, M. Praktische Vernunft: Handlungstheorie und Moralbegrndung bei Kant. Stuttgart/Weimar: J. B. Metzler, 1992.

    15 FMC BA 100.16 CRPr A 53.17 Cf. ALLISON, H. E. Kants Theory of Freedom. New York: Cambridge University Press, 1995, p. 222.18 Cf. GERHARDT, V. Immanuel Kant Vernunft und Leben. Stuttgart: Reclam, 2002, p. 197s.

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    obstante todas as condies empricas, ser de outro modo, pois a ao atribudaao carcter inteligvel do autor19. O carter inteligvel, ao qual Kant se refere, dizrespeito ao Eu tal como ele seja constitudo em si(...), aquilo que chega conscincia,no por afeco dos sentidos, mas imediatamente 20. A partir da, podemoscompreender o levantar-se da cadeira como uma resoluo que no produto somentede uma seqncia natural. A causalidade humana situa-se em meio aosdeterminismos, mas no deriva deles simplesmente. A caracterstica dainteligibilidade o que define a personalidade do sujeito prtico, e as condies damoralidade devem se...