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  • 3

    o Cdigo de Defesa do Consumidor pela Jurisprudncia do Superior Tribunal de Justia: alguns apontamentos

    Ftima Nancy Andrighi

    Sumrio: 1 Introduo. 2 O Superior Tribunal de Justia e o Cdigo de Defesa do Consumidor. 3 Da extenso do conceito de consumidor: a vulnerabil idade das pessoas jurdicas para efeitos de aplicao do CDe. 4 Da" inverso do nus da prova: a verossimilhana da alegao e a hi possuficincia do consu-midor como requisitos alternativos e no cumulativos. 5 Do exerccio do direito de arrepend imento, previsto no art. 49 do CDC, no contrato de financiamento com clusula de alienao " fiduciria em garantia. 6 Do direito do consumidor informa-o clara e precisa. Referncias.

    1 Introduo

    Muito me honra participar desta obra coletiva em homenagem a um dos mais conceituados autores do anteprojeto que originou a Lei n2 8 .078/90 (Cdi-

    1 Mestranda do Master Latinoamericano Europeo em Med iacin pelo Instituto Universitaire Kun Bosch (Sua). Ps-graduada em Direito Civil pela Universidade Catlica do Distrito Federal (1999). Ps-graduada pela Universidade de Ensino Unificado de Braslia (1996). Ps-graduada pela Univer-sidade Vale dos Sinos - Unisinos (1976). Ministra do Superior Tribunal de Justia, Membro da 3i

    Thrma, da 2 1 Seo e da Corte Especial, Membro titular da Comisso de Regimento Incemo.

    In: 20 anos do Cdigo de defesa do consumidor: estudos em homenagem ao professor Jos Geraldo Brito Filomeno. So Paulo: Atlas, 2010. p. 22-33.

  • o Cdigo de Defesa do Consumidor pela Jurisprudncia do Superior Tribuna l de Justia 23

    go de Defesa do Consumidor), o amigo estimado e eminente Prof. Jos Geraldo Brito Filomeno.

    A justa lembrana que ora se defere ao Prof. Filomeno e que se materializa neste livro em reflexes que floresceram com desvelo - e que certamente ainda florescem - nas atividades acadmico-profissionais de seus coautores representa, sobretudo, o sincero reconhecimento pelo seu trabalho diururno e pela sua plena dedicao intelectual dirigida aos estudos do Direito do Consumidor e recebe maior significado porque se concretiza no ano em que o Cdigo de Defesa do Consumidor (CDC) completa vinte anos de plena efetividade.

    Em escala mundial, o grande avano tecnolgico para o progresso da hu-manidade que se inicia na segunda metade do sculo XX j prenunciava modi-ficaes significativas na sociabilidade humana, com destaque, nas relaes de consumo inerentes vida cotidiana.

    Tpico da sociedade ps-moderna, o aumento da demanda de consumo' por novos produtos e servios considerados (in)dispensveis nos novos tempos pe em relevo a necessidade de um regramento normativo idneo a dar especial pro-teo figura do consumidor e a debelar toda sorte de incivilidade peculiar a uma sociedade consumista que, alicerada no hedonismo-materialismo, menos-preza as mais singelas qualidades do ser humano ensimesmado.

    2 O Superior Tribunal de Justia e o Cdigo de Defesa do Consumidor

    o CDC, conduzido pela Lei nQ 8.078/90 ao ordenamento jurdico inaugura-do pela Constituio cidad de 1988, vem atingindo o seu escopo em termos de efetividade normativa. Vislumbra-se que nessas duas dcadas de sua vigncia, a lei consumerista buscou semear a harmonia e a civilidade nas relaes entre os agentes econmicos consumidor e fornecedor que outrora digladiavam-se na aridez de um consumo em massa desregrado. Sem hesitar, faz-se mister anotar que essa novel codificao sempre aspirou a um processo de humanizao das re-laes de consumo e, por assim dizer, efetivao do princpio constitucional da dignidade da pessoa humana pela aplicao de institutos prprios e especficos disciplinados em seus dispositivos legais.

    Com efeito, Jos Geraldo Brito Filomeno enfatiza que o Cdigo do Consu-midor, antes de tudo, apresenta-se aos seus destinatrios como uma ''filosofia de ao" voltada ao escopo de harmonizar as relaes de consumo, verbis:

    "Trata ainda o Cdigo de uma 'poltica nacional de relaes de coTlSumo', justificando nossa assertiva j feita no prtico do presente tpico no senti-

    2 Decorrente de novas formas de produo em massa de bens de consumo. .

  • 24 20 Anos do Cdigo de Defesa do Consumidor . Morato e Neri

    do de que se trata em ltima anlise de uma 'filosofia de ao', exatamente porque no se trata to somente do consumidor, seno da almejada har-monia das sobreditas 'relaes de consumo'.

    Assim, embora se fale das necessidades dos consumidores e do respeito sua dignidade, sade e segurana, proteo de seus interesses econmicos, melhoria da sua qualidade de vida, j que sem dvida so eles a parte vul-nervel, no mercado de consumo, justificando-se dessarte um tratamento desigual para partes manifestamente desiguais, por outro lado se cuida de compatibilizar a mencionada tutela com a necessidade de desenvolvimento econmico e tecnolgico, viabilizando-se os princpios da ordem econmica de que trata o art. 170 da Constituio Federal, e educao-informao de fornecedores e consumidores quanto aos seus direitos e obrigaes. "3

    Na consecuo dessa nobre misso, o Superior Tribunal de Justia - no exer-ccio de suas atribuies constitucionais de guardio da legislao federal - vem desempenhando papel de extrema importncia enquanto intrprete e aplicador da legislao consumerista na defesa de direitos_ Como restar a seguir demons-trado pela anlise de alguns institutos jurdicos acerca do tema, a jurisprudncia dessa Colenda Corte sinaliza que o CDC, ao longo dessas duas dcadas, entre-meou-se eficazmente no cotidiano de todos os brasileiros para coibir prticas econmico-comerciais abusivas e predatrias dos direitos do consumidor.

    3 Da extenso do conceito de consumidor: a vulnerabilidade das pessoas jurdicas para efeitos de aplicao do CDC

    No julgamento do RMS 27.S12/BA, de minha relatoria, publicado no DJ de 23-9-2009, cingia-se a questo na extenso do conceito de consumidor e em sua vulnerabilidade para o regime jurdico do CDC.

    Na oportunidade, sustentei que h duas teorias acerca da configurao da definio de consumidor: a subjetiva ou finalista, que exige apenas a existncia de destinao final ftica do produto ou servio, e a objetiva ou maximalista, mais restritiva, que exige a presena de destinao final ftica e econmica.

    Com isso, quer-se dizer que, para o conceito subjetivo ou finalista, exige-se total desvinculao entre o destino do produto ou servio consumido e qualquer atividade produtiva desempenhada pelo utente ou adquirente. J para o conceito objetivo ou maximalista, basta o ato de consumo, com a destinao final ftica do produto ou servio para algum, que ser considerado consumidor destes, pouco importando se a necessidade a ser suprida de natureza pessoal ou profissional.

    3 GRlNOVER, Ada Pellegrini et aI. Cdigo brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitria, 2007. p. 17.

  • o Cd igo de Defesa do Consumidor pela Jurisprudncia do Superior Tribunal de Justia 25

    Aps um perodo de divergncia entre a 3' e a 4' Turmas - naquela prepon-derava a corrente maximalista, enquanto esta tendia a seguir a teoria finalista - a 2' Seo, no julgamento do REsp 541.867/BA, Re. Min. Antnio de Pdua Ribei-ro, ReI. pl acrdo Min. Barros Monteiro, Dl de 16-5-2005, acabou por fazer pre-valecer a doutrina finalista, em situao ftica na qual se analisava a prestao de servios de empresa administradora de carto de crdito a estabelecimento comercial. Naquela ocasio, ficou assentado que a facilidade relativa oferta de meios de crdito eletrnico como forma de pagamento devia ser considerada um incremento da atividade empresarial, afastando, dessa forma, a existncia de destinao final do servio.

    Depois disso, levando em conta que a funo precpua do STJ pacificar o entendimento acerca da interpretao da Lei Federal, eu mesma, a despeito de minha ressalva pessoal, considerei superados os precedentes da 3' Turma e, no julgamento do CC 64.524/MT, 2' Seo, de minha relatoria, publicado no Dl de 9-2-2006, reconheci a predominncia, nesta Corte, da interpretao restritiva, im-pondo a necessidade de destinao final ftica e econmica do produto ou servio.

    Ainda assim, em muitos dos precedentes que se seguiram uniformizao do entendimento pela 2' Seo, ambas as Turmas que a compem vm admitindo a aplicao extensiva do CDC a hipteses em que, no obstante haja atividade empresarial, esteja presente a vulnerabilidade de uma das partes frente outra. Confira-se, guisa de exemplo, o AgRg no REsp 687.239IRJ, 3' Turma, de minha relatoria, Dl de 2-5-2006; e REsp 661.145/RJ, 4' Turma, ReI. Min. Jorge Scarte-zzini, Dl de 28-3-2005.

    Em outras palavras, tem havido o temperamento da teoria finalista , com ful-cro no art. 4", I, do CDC, fazendo a lei consumerista incidir sobre situaes em que, apesar do produto ou servio ser adquirido no curso do desenvolvimento de uma atividade empresarial, haja vulnerabilidade de uma parte frente outra.

    Nesse aspecto, uma interpretao sistemtica e teleolgica do CDC aponta, a rigor, para a existncia de uma vulnerabilidade presumida do consumidor. O art. 4" do CDC, ao estabelecer a Poltica Nacional das Relaes de Consumo, enumera entre seus objetivos a harmonia dessas relaes, fixando como prin-cpio, em seu inciso I, o "reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo".

    Quando se trata de profissionais e pessoas jurdicas, no entanto, parte da doutrina v essa presuno com reservas. Cludia Lima Marques, por exem-plo, entende que a vulnerabilidade tcnica (aquela consistente na ausncia de conhecimento especfico acerca das caractersticas do prprio bem adquirido) s excepcionalmente alcana tais pessoas, bem como que, em relao a elas, a vulnerabilidade jurdica (caracterizada pela falta de conhecimentos especficos ou de experincia nas reas jurdicas, econmicas e contbeis) seria presumida "ao contrrio", ou seja, deve-se partir do pres