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  • ENTREVISTA

    O campo da Comunicao

    e os estudos de recepo

    Entrevista: Antonio Sardinha

    Mauro de Souza Ventura

    Vernica Alves Lima

    Produo e edio: Michelle Moreira dos Santos

    Tssia Caroline Zanini

    Realizada em: 27 jun. 2011

    Doutor em Cincias da Comunicao, Laan Mendes de

    Barros professor e coordenador do Programa de

    Ps-Graduao em Comunicao Social da UMESP e

    desenvolve pesquisas nas reas de teorias da

    comunicao, comunicao e cultura, estudos de

    recepo, msica e mdia.

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    9 Revista Comunicao Miditica, v.6, n.1, jan./abr. 2011

    ENTREVISTA O CAMPO DA COMUNICAO E OS ESTUDOS DE RECEPO

    Laan Mendes de Barros

    Os desafios tericos e epistemolgicos do campo da comunicao e

    apontamentos sobre os estudos de cultura, mdia e recepo so temas da entrevista do

    professor Laan Mendes de Barros Revista Comunicao Miditica.

    Parte I

    As dimenses do nosso campo esto nos contornos,

    mesmo hoje muito hbridos, muito fluidos dos meios

    Revista Comunicao Miditica Como o senhor hoje avalia o debate em torno da

    pesquisa em Comunicao enquanto campo cientfico? Comente seu olhar como

    pesquisador e tambm como suas pesquisas tm dialogado para essa preocupao.

    Laan Mendes de Barros Eu entendo que a discusso sobre o campo da Comunicao

    uma discusso permanente e dinmica. D-se ao longo de algumas dcadas e se dar

    ao longo de outras tantas dcadas, porque o nosso objeto de estudo bastante dinmico.

    H uma transio no momento presente de uma discusso que se fazia no contexto da

    cultura de massa para um universo de cultura em rede. Portanto, nosso objeto de estudo

    experimenta constantemente transformaes que nos obrigam tambm a olh-lo de

    maneira dinmica e em movimento. Mas, algo que me chama muito a ateno, quando

    ns discutimos o nosso objeto, ou o nosso campo de estudo, a questo da prpria

    natureza da nossa disciplina que nalgumas aproximaes parece reunir apenas

    conhecimentos tcnicos, que envolve sua dimenso terica. O prprio ttulo da

    disciplina, Comunicao, parece denominar um conjunto de saberes tcnicos, prticos.

    Alm de saber fazer comunicao, preciso saber pensar a comunicao. No convm

    que a comunicao seja pensada apenas por outros cientistas, de outras disciplinas que

    nos tomam como objeto de estudo. Venho trabalhando nos ltimos anos na perspectiva

    de pensarmos a Comunicao a partir de dentro da Comunicao. Ou ser que sempre

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    teremos que nos limitar condio de objetos de pesquisa de outras cincias, de outras

    disciplinas? Essa problematizao que venho trabalhando sobre a dimenso do

    comunicador comuniclogo que faz e capaz de pensar o seu fazer.

    Essa uma discusso

    epistemolgica porque quem vai

    discutir o prprio pensamento da

    Comunicao, a teoria da teoria da

    Comunicao. As dimenses,

    limitaes, e delimitaes do nosso

    campo envolvem um debate que

    extrapola, portanto, uma questo

    apenas dos enquadramentos

    profissionais. Seria a que teramos

    nosso enquadramento? na

    conduo das nossas atuaes

    profissionais que devemos nos

    organizar como campo de conhecimento? Este o centro das reflexes que tenho feito

    nos ltimos anos sobre a prpria natureza do campo da Comunicao. A maneira que

    muitas vezes ela tomada, lamentavelmente, vem favorecendo certa fragmentao do

    campo, especialmente na rea da graduao, em segmentos profissionais de

    jornalismo, de publicidade, de relaes pblicas, radialismo, etc. Isso tudo, nos leva a

    uma nfase na dimenso prtica, tcnica, do fazer da profisso, das demandas das

    estruturaes de mercado. E no, do pensar a prpria Comunicao como problemtica

    a ser estudada academicamente, cientificamente.

    Quando a nfase se d na dimenso profissional, corremos o risco de travar, de

    obstruir a caminhada do pensamento comunicacional construdo nas ltimas dcadas.

    No devemos voltar s categorias que estavam presentes nos anos 70, 80. E essa

    categorizao no cabe mais nestes tempos de sociedade em rede, tempos de

    comunicadores plurais. No contexto atual no d para entender que retornemos a

    trabalhar de maneira segmentada.

    Eu no estou dizendo que no deva haver espao para o recorte temtico de

    linhas de pesquisa, de pesquisas individuais, de grupos de pesquisa. Mas eu temo que

    essa fragmentao fragilize o nosso campo de estudos e nos leve a perder, em parte,

    algo que se construiu com muito debate ao longo dessas dcadas, que nos permite falar

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    de um campo autnomo, um campo que tem a sua especificidade, que tem objeto

    particular de estudo por mais que ele seja hbrido, fluido, dinmico; um campo que

    rene referenciais terico-metodolgicos prprios e desenvolvimento em pesquisa. Essa

    fragmentao pode, justamente, nos fazer dar um passo atrs. Onde que esto os

    limites dessa ou daquela rea profissional, desse ou daquele meio, em tempos de

    articulao, de sobreposio, de hibridaes que ns vivemos hoje? Portanto, eu creio

    que ns estamos num contexto de reafirmao da rea, que traz um desafio para quem

    estuda Comunicao hoje: pens-la para alm do que pensar o fazer comunicacional.

    A Comunicao mais do que s este ou aquele campo de atividades, de atuao

    profissional. O contexto da sociedade em rede em que vivemos implica em articulaes,

    um sistema de ns, de fluxos; no mais, de gavetinhas e escaninhos.

    RCM Seria ento um retrocesso pensarmos, ou buscarmos, uma Teoria do

    Jornalismo? Ou buscarmos uma teorizao originada das prticas, ou desses saberes

    profissionais? Se pensarmos que um campo se constitui na medida em que ele se

    constri teoricamente. Todas as nossas prticas profissionais precisariam para se

    estabelecer, enquanto cincia, gerar uma prtica terica especfica - esse um embate

    que dificulta nossa rea.

    LMB Volto questo: a Comunicao como elemento estruturante da vida em

    sociedade a mesma Comunicao que est presente em diferentes reas de atuao. A

    essncia dessas atividades profissionais, hoje cada vez mais sobrepostas, cada vez mais

    hbridas ou hibridizadas, a Comunicao. verdade que se pode dizer: ali se d uma

    dimenso mais informativa, ali mais artstica, ali a dimenso de entretenimento,

    naquele caso de natureza mais mercadolgica ou mais organizacional. Eu no digo

    que no haja espao para uma Teoria do Jornalismo, ou de uma Teoria das Relaes

    Pblicas e assim por diante. Mas essas teorias explicam parte do nosso campo, que em

    seu todo a Comunicao. Ento, na minha viso, essa fragmentao eu no sei se

    um retrocesso no nos ajuda na constituio e consolidao do campo. At porque,

    essas divises esto um tanto diludas no contexto da sociedade em rede, amparada por

    tecnologias digitais. Vamos ter o qu? Uma Teoria do Radialismo mas o que o

    rdio? rdio, televiso e tambm internet, aparatos mveis? O que o mundo do

    Rdio, da Televiso, do Radialismo, do Jornalismo nos dias de hoje? O prprio

    Jornalismo o qu nos tempos em que estamos? Ns estamos falando da redao, do

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    reprter, das clssicas funes desempenhadas? Eu acho que tudo isso reflete uma

    lgica um tanto funcionalista, na qual cada um cumpre seu papel, sua funo. Eu no

    diria que um retrocesso, que voltamos para trs, mas acho que isso nos fragiliza na

    consolidao da rea.

    RCM Teramos condies de afirmar com preciso: qual a natureza do saber

    comunicacional? Como que a Comunicao enquanto campo poderia ser pensada

    interdependente, autnoma diante das outras cincias? E que tipo de saber a

    Comunicao pode propor do ponto de vista cientfico que a caracterizaria como tal?

    LMB Eu creio que ela j tem um referencial terico prprio, mtodos e metodologias

    prprias que justificam ser entendida como campo independente, embora de dimenso

    interdisciplinar. Mas autnomo, onde a reflexo sobre os fenmenos da Comunicao

    pode ser feita de maneira singular, ou pelo menos particular, a partir de um ponto de

    vista, onde o prprio comunicador se coloca tambm, no s como objeto de pesquisa

    de outras disciplinas, mas tambm como sujeito da pesquisa, sujeito desse

    conhecimento que se constri. H um avano, na minha viso, quando pensamos

    Comunicao no s como campo de conhecimentos tcnicos; nela h um saber que

    tambm se projeta no entendimento dos fenmenos sociais, polticos e culturais em sua

    dimenso comunicacional. Os fenmenos sociais no tm desdobramentos de natureza

    comportamental, econmica, poltica, etc.; eles tambm se do na esfera

    comunicacional. Eu quero dizer que a Comunicao elemento hoje estruturante das

    relaes sociais. A Comunicao parte da estrutura da sociedade, da dinmica social.

    Entender os fenmenos comunicacionais entender, em parte, a vida na

    contemporaneidade. A contribuio da pesquisa em Comunicao est em construir

    saberes que ajudam a entender as relaes sociais, as relaes humanas no apenas de

    uma maneira sociolgica, antropolgica, ou psicolgica mas a partir do entendimento

    dos processos de produo de sentido, da articulao de conhecimentos nos espaos

    miditicos e tambm no miditicos. Enfim, a Comunicao se apresenta como

    elemento mediador das relaes sociais.

    RCM Esse seu raciocnio nos conduz ao conceito de mediao, ou de mediaes? Em

    caso positivo, como e em que medida esse conceito tem sido importante na sua

    trajetria como pesquisador da rea?

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    LMB Eu entendo que sim. Porque mais do que pensar a Comunicao como um

    campo de saberes e de domnios tcnicos, centrado nas tecnologias dos meios e numa

    viso instrumental, que se volta prtica de umacomunicao eficiente, entendo que

    quando pensamos para alm da dimenso tcnica, estamos falando, sim, da

    Comunicao como elemento mediador das relaes humanas e sociais. E,

    dialeticamente, podemos tambm pensar a Comunicao a partir das mediaes sociais

    e culturais com as quais os sujeitos do processo comunicacional se articulam com os

    fenmenos comunicacionais.

    RCM No haveria um risco ao se trabalhar com esse conceito de se alargar demais o

    territrio de pesquisa?

    LMB Pois . H mesmo alguns autores, como Martino, por exemplo, que questionam

    o risco de uma certa disperso quando voc desloca esse olhar dos meios para as

    mediaes, nas palavras de Martn-Barbero. Alis, Ciro Marcondes tambm faz

    questionamentos a respeito de uma sociologizao de nosso campo, de uma

    dependncia sociolgica do pensamento comunicacional, que resulta numa perda de

    identidade de uma disciplina autnoma. Eu reconheo que no possvel trabalhar com

    tudo, com uma disperso onde tudo vai ser visto como comunicao ou mediao; se

    assim fosse, as mediaes estariam descoladas dos fenmenos comunicacionais

    propriamente ditos. Entendo que falar de mediaes ir alm dos processos

    comunicacionais nas suas dimenses, ou nas limitaes, miditicas. Mas preciso

    pensar os meios mais as mediaes; e no, as mediaes contra os meios. Eu sigo

    entendendo que as dimenses do nosso campo esto nos contornos, mesmo

    hoje muito hbridos, muito fluidos dos meios. Ento, quando falamos de

    Comunicao, falamos da Comunicao no contexto miditico. No penso em

    Comunicao no campo dos transportes, da arquitetura, ou dos desenhos das nuvens, da

    movimentao dos ventos, ou coisa parecida. Penso Comunicao que de fato

    trabalhada de maneira intencional, de maneira institucionalizada, ou mesmo em carter

    de movimento, mas da Comunicao que se opera no campo das organizaes e das

    mdias. Mas, a disciplina mais do que Midiologia. Ela pode ser pensada como

    Comunicologia, com abrangncias que vo alm dos meios como elementos que

    limitam as abordagens s dimenses mais tcnicas, ou tecnolgicas, do nosso objeto de

    estudo.

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    RCM A Comunicao assume um papel de produtora de sentido contemporneo?

    Pensando-a como campo que se relaciona com outros campos, ela uma fonte

    produtora de sentido?

    LMB Quando disse que a Comunicao tem uma dimenso estruturante dentro da

    sociedade porque hoje as relaes de tempo, espao passam por mediaes que esto

    presentes nas relaes comunicacionais, sustentadas pelo aparato miditico e

    tecnolgico com os quais lidamos. Milton Santos j nos ensinara isso, ao observar que

    as nossas percepes do tempo, do espao, do outro, de ns mesmos, das instituies,

    das organizaes, da vida poltica, da cidadania, etc. passam pelos domnios das

    tcnicas e do aparato comunicacional. As percepes de cada um em relao ao seu do

    lugar social, do seu tempo histrico esto balizadas pelas mediaes presentes nas

    relaes comunicacionais. Ento, nesse sentido que digo que a Comunicao funciona

    hoje como elemento estruturante da vida em sociedade. E, a partir da, a possibilidade

    de estudarmos essa dimenso da estruturao e no todo e qualquer problema social, ou

    todo e qualquer problema cultural, mas essa dimenso estruturante da vida em

    sociedade que pode ser o nosso objeto de estudo, permeado por relaes que so

    tecnolgicas, verdade, mas que no se esgotam somente na sua dimenso miditica, ou

    midiatizada. A Comunicao

    vai alm dessa dimenso, ela

    tem a dimenso da produo

    de sentido, o que efetivamente

    vai gerar a ao e as

    transformaes da sociedade,

    que so importantes para a

    vida social. As percepes

    de tempo e espao esto

    nos sentidos que as

    informaes, ideias e

    sentimentos veiculados no

    espao miditico ganham

    no plo de chegada, no

    campo da recepo.

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    RCM Essa perspectiva que se delineia para a rea tambm traz um desafio

    metodolgico. Como abarcar todas essas questes, todas essas nuanas metodolgicas

    no trabalho de pesquisa?

    LMB A questo metodolgica uma questo ampla porque depende muito dos

    objetos e objetivos da pesquisa. Pode-se lanar mo desta ou daquela metodologia, deste

    ou daquele procedimento metodolgico. Tudo depende das questes que se colocam

    como prioridade, ou como problema de pesquisa. Se as questes esto, por exemplo, no

    espao da produo de sentido, dependendo da maneira como se v a Comunicao,

    cabem pesquisas que articulem os processos da produo da mensagem, da potica, com

    as perspectivas da recepo dessa mensagem, no campo da experincia esttica.

    Diferentes metodologias podem ser usadas, a partir de diferentes estratgias de estudos.

    Eu no sei se podemos hoje pensar num mtodo, numa metodologia (alis, mtodos e

    metodologia so coisas diferentes). O mtodo pressupe um entendimento conceitual-

    terico daquele campo, portanto, se entendemos aquilo dentro de uma concepo

    histrica, poltica, diacrnica, mais complexa. Ou no, se entendemos de uma maneira

    mais objetiva, sincrnica, pontual, formal pensando mais na perspectiva conjuntural,

    buscando maior objetividade. Enfim, depende muito. Eu creio que a Academia tem

    espao para todas essas perspectivas, ou vrias perspectivas metodolgicas. Eu no

    arriscaria dizer de uma metodologia ideal para se pensar a Comunicao na

    contemporaneidade, ou mesmo, em particular, as questes da produo de sentidos.

    Entendo que so vrias as metodologias, assim como so vrias as perspectivas tericas

    nas quais se pode lidar nesse campo.

    Parte II A recepo mais do que reinterpretar para os pares mais prximos

    a forma como uma informao foi apreendida e compreendida

    RCM Como voc v a influncia dos estudos culturais na pesquisa em Comunicao

    no Brasil?

    LMB inegvel a contribuio dos Estudos Culturais no pensamento comunicacional

    latino-americano. Alis, j est bastante consolidado, que existe essa contribuio,

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    sobretudo, nas articulaes de Comunicao e Cultura articulaes bem-vindas que

    nos levam a pensar a Comunicao em sua dimenso cultural. E, mais do que pensar

    Comunicao de maneira genrica na sua relao cultural, inserir, de fato, o debate da

    Cultura em uma perspectiva que ultrapasse a estratificao da cultura seja erudita,

    popular, massiva. Estou convencido de que as contribuies de Thompson, Williams,

    Hall so muito importantes para os estudos de Comunicao, tanto para entender as

    organizaes da mdia, as polticas de Comunicao, quanto os Estudos de Recepo.

    Os Estudos Culturais trazem uma contribuio relevante para pensar a Comunicao na

    sociedade. Aquela escola j est reconhecida e legitimada na construo do pensamento

    comunicacional latino-americano em geral. Creio, no entanto, que precisamos fazer

    articulaes tambm com outras correntes tericas. Entendo que o pensamento

    comunicacional latino-americano herdeiro, em boa medida, daqueles autores, que

    discutem questes de etnias, de gnero, de minorias e classes sociais, questes que

    trazem a Comunicao para a esfera da poltica cultura, mas no esvaziada de sua

    dimenso poltica. Mas o pensamento comunicacional em nosso continente tambm

    bebe das guas de outras escolas. Isso fica bem claro nos estudos de recepo, campo no

    qual venho trabalhado mais atentamente. Existem influncias importantes, nem sempre

    explicitadas, da Hermenutica francesa e da Escola de Konstanz, por exemplo. No caso

    desta escola alem, as articulaes se do com o universo da Literatura, em estudos que

    receberam o nome de Esttica da Recepo. Autores como Wolfgang Iser e Hans Jauss,

    deveriam comparecer com mais frequncia em nossos referenciais tericos, tanto nos

    estudos de Comunicao e Cultura, quanto nos estudos de recepo. O mesmo vale para

    o pensamento de Paul Ricouer e outros autores da hermenutica francesa. Seria bom. E

    o curioso que eles so contemporneos da Escola de Birmingham, e, de certa maneira,

    se sustentam numa mesma postura que vem do pensamento marxista no ortodoxo. Est

    na hora, talvez, de diversificarmos um pouco essas referncias, sem com isso

    desvalorizar o que o pensamento dos Estudos Culturais traz para a formao do

    pensamento comunicacional no Brasil e na Amrica Latina.

    RCM A sua vertente dos estudos de recepo est ligada a Escola de Konstanz?

    LMB Em parte. Eu no diria que s da Escola de Konstanz. Eu tenho procurado

    compreender de maneira mais plural os Estudos de Recepo, tanto bebendo das guas

    daquela escola, como tambm dos Estudos Culturais e da Hermenutica. Tenho

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    estudado, especialmente, Paul Ricoeur e

    outros autores franceses que trabalham

    com os processos de interpretao. Por

    exemplo, fazendo um paralelo entre o

    que o Martn-Barbero prope no

    descolamento dos meios s mediaes

    e o deslocamento do texto ao

    proposto por Paul Ricoeur. O sentido

    no est preso, contido no texto, mas

    est presente e vivo nas aes

    decorrentes das leituras que so feitas do

    texto. E isso no diferente do que os

    autores de Konstanz tambm

    apresentam como formulaes das apropriaes praticadas no campo da recepo, onde

    se d uma nova potica na experincia esttica. (Alis, na expresso esttica da

    recepo existe uma certa redundncia, afinal de contas, recepo j esttica, j

    aisthesis). Essa dimenso existe nos textos de Iser, Jauss e vo justamente propor a

    articulao entre poiesis, aisthesis e karthasis. A produo de sentido extrapola aquele

    esforo de entendimento por parte do receptor do que foi falado pelo emissor. Da,

    entendo que haja essa necessidade de articulao. O principal autor dos Estudos

    Culturais discutido no Brasil e na Amrica Latina, Stuart Hall, trabalha com o conceito

    de codificao/decodificao. No daquela maneira linear da Teoria da Informao, mas

    de uma maneira mais complexa, mais dialtica; no entanto, ele continua usando as

    ideias de codificao/decodificao. J em Ricoeur encontramos a ideia da

    interpretao, das apropriaes de sentido numa outra dimenso, que extrapola aquele

    regramento da ideia de explicao, de entendimento, para, de fato, pensar na

    apropriao como compreenso e efetivamente em processos de interpretao e

    produo de sentido. E a h uma interao entre os sujeitos que se encontram no

    espao-tempo da obra, que se ocupam da mensagem. E esse encontro se d numa dupla

    relao da produo de sentido, dupla poiesis.

    RCM Parece muito particular o recorte que voc faz dos Estudos de Recepo. Que

    outros pesquisadores pactuam com voc essa filiao muito pertinente ligada

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    Hermenutica francesa a Jauss, Iser e aos Estudos latino-americanos de recepo

    a Barbero, Canclini?

    LMB Martn-Barbero e Canclini no estudaram na Inglaterra. Martn-Barbero estudou

    na Blgica, na Frana e, alm de outros autores, claro que tambm estabelece dilogos

    com o pensamento dos Estudos Culturais. Mas fica bastante evidente que a reflexo dele

    (Martn-Barbero) vem da Hermenutica, que uma maneira mais complexa, dinmica

    de pensar esse recorte. O pensamento latino-americano no s uma atualizao dos

    Estudos Culturais, ou um desdobramento. H mesmo certa nfase na predominncia dos

    Estudos Culturais, talvez, porque a Escola Latino-americana o prprio Martn-

    Barbero, Canclini, Orozco tem a gnese desse pensamento no contexto poltico que

    nossos pases se encontravam nos anos 60, 70, 80. Os Estudos Culturais nos ajudam

    muito a pensar os fenmenos culturais da sociedade, sobretudo no que se refere aos

    estudos de recepo, trabalhando com grupos populares, suas identidades, o contexto

    das comunidades em que a Comunicao est inserida. Mas, na minha viso, muito

    dessa herana se baseia num pensamento poltico que, por um lado, questionava os

    poderes constitudos e, por outro, trabalhava a ideia de um imperialismo norte-

    americano, que levava s discusses sobre colonizao, ps-colonizao, e questo do

    reconhecimento nesse contexto. Talvez, precisemos aprofundar, fazer novas

    articulaes com outras perspectivas. E creio que eu no sou to singular nessa viso.

    Outros j se anteciparam. Entendo que algo que comea a suscitar discusso em vrios

    autores.

    RCM Diante desse contexto, como que os Estudos de Recepo podem se

    posicionar para compreender a produo de sentido nessa interface crtica entre

    Comunicao e Cultura?

    LMB Para pensar hoje a recepo, precisamos faz-lo de uma maneira complexa,

    porque o receptor contemporneo com o advento da sociedade em rede, das

    tecnologias que permitem interconexes, desintermediaes precisa ser visto como

    algum que no um mero ponto final de uma linha. Ele faz parte de uma rede que est

    estabelecida, mesmo que a conexo muitas vezes seja limitada, ou a participao seja

    pouco intensa, reduzida a manifestaes pontuais como gostei ou no gostei, de

    forma muito superficial. Tambm verdade que em tantos outros momentos existe

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    efetiva recriao, reelaborao dos sentidos e a produo de outros discursos. Manuel

    Castells um autor-chave para pensarmos isso, no contexto da sociedade em rede, o que

    nos leva a novas problemticas a serem tratadas pelos Estudos de Recepo. Repito: o

    receptor se caracteriza no mais como algum passivo, que no plo de chegada, fique

    reduzido a um receptculo. Na sociedade interconectada, ele algum capaz de

    reelaborar sentidos em seu pequeno grupo de influncia, e repercutir esses sentidos.

    Agora, mais do que nunca, essa reelaborao e difuso de sentidos se do em processos

    muito rpidos, ligeiros, de grande repercusso, em vrias reas da comunicao. E aqui,

    sim, a segmentao precisa ser explicitada e bem entendida, como por exemplo, quando

    pensamos a comunicao do ponto de vista mercadolgico, como na comunicao

    chamada viral, que impe dinmicas de informao cuja repercusso se d de maneira

    clere e com grande poder de proliferao.

    Tal cenrio tecnolgico e cultural obriga um redimensionamento dos estudos de

    recepo. Hoje eles devem ir muito alm da perspectiva lanada por Lasswell, em 1948,

    que caracterizava o receptor como aquele que atingido pelos meios. Hoje,

    ultrapassamos at mesmo o receptor ativo - que foi retrabalhado pelo grupo de

    Konstanz, nos estudos de Hermenutica, e pelo grupo de Birmingham. A recepo

    mais do que reinterpretar para os pares mais prximos a forma como uma

    informao foi apreendida e compreendida, como se deu o processo de

    apropriao para fins de interpretao e produo de sentidos. Isso agora fica

    potencializado na medida em que se d um passo adiante: a partir de uma informao

    possvel fazer novos discursos e repercuti-los. Ento, aquela ideia inicial da experincia

    esttica que estava presente nos estudos de recepo da Escola de Konstanz, por

    exemplo, ou nas reflexes sobre experincia esttica de Mikel Dufrene, pode ser

    retomada. Mas, essa recriao no se limita somente em constituir um novo sentido, a

    partir de uma nova poiesis criada, que possivelmente pode gerar comportamentos,

    reivindicaes, conquistas. Agora, os aparatos mveis, a telefonia celular, a

    interconexo dos meios, permitem outras dinmicas de captao, sistematizao,

    armazenamento, representao e repercusso, que no ficam limitadas somente ao

    momento de fruio, mas se reconstituem, ou se reelaboram, em novas produes de

    sentido difundidas na grande rede de informaes.

    Eu no quero dizer que todo o mundo dono da produo de contedo no sou

    to ingnuo em pensar o mundo da Comunicao dessa maneira. Mas eu creio que essas

  • Entrevista: O campo da Comunicao e os estudos de recepo

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    20 Revista Comunicao Miditica, v.6, n.1, jan./abr. 2011

    situaes nos obrigam a pensar a Comunicao para alm de uma relao emissor-

    receptor, que j era discutida nos anos 60,

    70, 80, nas correntes tericas que citamos.

    Hoje, esse redimensionamento dos

    meios de comunicao, do prprio

    sistema de comunicao, cheio de

    cruzamentos, sobreposies e

    articulaes, nos obriga a pensar a

    Comunicao de uma maneira cada

    vez menos fatalista, menos linear.

    um processo contnuo de produo/

    reproduo, criao/ recriao de

    sentidos.

    RCM Essa perspectiva traz para a arena de discusso a questo do consumo,

    principalmente no que diz respeito s negociaes sobre os sentidos em disputa na

    sociedade. Como a perspectiva dos Estudos Culturais trata essa questo?

    LMB A palavra consumo s vezes um pouco viciada porque um termo que ficou

    muito marcado pelas relaes de mercado. Se eu for pensar em consumo no sentido do

    consumismo, das relaes que envolvem aes de consumir e descartar produtos e

    servios, a questo toma um sentido mais restrito. Mas se pensarmos no consumo como

    um processo, como pontua Canclini, em Consumidores e Cidados, temos uma outra

    dimenso cultural e poltica nessa relao de consumo, como uma maneira de se inserir

    na realidade, exercer direitos. Nesse caso, o consumidor que no aquele alienado, em

    relao com um bem descartvel, bens de consumo. Eu penso que a palavra consumo

    ainda est muito marcada por um sentido de crtica ao capitalismo, lgica de mercado,

    embora no venha trabalhando tanto com essa problemtica do consumo no campo da

    comunicao. Vrios autores e grupos de pesquisa tm desenvolvido a discusso,

    articulando a ideia do consumo de bens simblicos no como um consumo

    necessariamente passivo, mas no entendimento do consumidor como algum que o

    reprodutor do seu ato de consumir, reproduzindo valores, atitudes. Ele tambm, de certa

    maneira, acaba sendo produtor de sentido nesse ato de consumo.

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