o ambivalente baile de máscaras tropicalista

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  • Iara Revista de Moda, Cultura e Arte - So Paulo V.3 N2 dez. 2010 - Dossi

    24

    O CARNAVAL DO DESENCANTO: O AMBIVALENTE BAILE DE MSCARAS

    TROPICALISTA

    Andr Rocha Haudenschild

    RESUMO

    Neste artigo so feitas reflexes sobre o carter revolucionrio do Tropicalismo,

    mediadas pela constituio da gnese desse movimento cultural atravs das obras

    pr-tropicalistas de Glauber Rocha, Jos Celso Martinez Correa e Hlio Oiticica

    (produzidas em 1967), assim como, a partir da anlise da lrica de algumas canes

    tropicalistas de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Z (de 1968 e 1969) e de

    canes ps-tropicalistas de Jards Macal e Waly Salomo (do incio dos anos 70).

    Deste modo, poderemos compreender a potencialidade da resistncia destas

    poticas musicais como estratgias ambivalentes de mascaramento da luta e do luto

    frente situao opressora da vida nacional neste perodo.

    Doutorando em Teoria Literria na Universidade Federal de Santa Catarina,

    exercendo pesquisa orientada sobre a experincia da modernidade na lrica da Bossa

    Nova.

    arsolar@gmail.com

  • Iara Revista de Moda, Cultura e Arte - So Paulo V.3 N2 dez. 2010 - Dossi 25

    CARNIVAL OF DISENCHANTMENT: THE AMBIVALENT TROPICALIST

    MASQUERADE

    Andr Rocha Haudenschild

    ABSTRACT

    This paper presents reflections on the revolutionary character of Tropicalia, mediated

    by the formation of the genesis of this cultural movement through the pre-

    tropicalists works of Glauber Rocha, Jos Celso Martinez Correa and Hlio Oiticica

    (produced in 1967), as well as from the analysis of the Tropicalia lyrics of Caetano

    Veloso, Gilberto Gil and Tom Z (1968 and 1969) and the post-tropicalist songs of

    Jards Macal and Waly Salomo (early '70s). Thus, we understand the capability of

    resistance of these musical poetics like ambivalent strategies masking the fight and

    the mourning against the oppressive situation of national life during this period.

    Doutorando em Teoria Literria na Universidade Federal de Santa Catarina,

    exercendo pesquisa orientada sobre a experincia da modernidade na lrica da Bossa

    Nova.

    arsolar@gmail.com

  • Iara Revista de Moda, Cultura e Arte - So Paulo V.3 N2 dez. 2010 - Dossi 26

    E meu pas / Do verde dos olivais foi toldado /

    O verde foi ficando violento / De violento... negro... /

    O azul do cu no conseguiu iluminar o dia

    (placa Abril de Hlio Oiticica, em Tropiclia, 1967)

    Uma celebrao exuberante

    A festa tropicalista eclodiu em meio efervescncia cultural de diversos

    setores artsticos nacionais na segunda metade dos anos 60, no cinema, no teatro,

    nas artes plsticas e, principalmente, na msica popular: Artistas e intelectuais

    comearam a reavaliar os fracassos de projetos polticos e culturais do passado e

    buscavam transformar o Brasil em uma nao igualitria, justa e economicamente

    soberana. A Tropiclia foi tanto uma crtica desses defeitos quanto uma celebrao

    exuberante, apesar de muitas vezes irnica, da cultura brasileira e suas contnuas

    permutaes (DUNN, 2009, p.19). Como aponta ironicamente o trecho da seminal

    cano-manifesto de Caetano, Tropiclia, em meio descrio da paisagem

    tropical surrealista: Na mo direita tem uma roseira / Autenticando a eterna

    primavera / E nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira / Entre os girassis...

    (LP Caetano Veloso, 1968). O lirismo ingnuo da mo direita, assim como, a

    tradio familiar burguesa, autenticando a imutvel primavera de nosso fictcio locus

    amoenus tropical, enquanto os carcars da ditadura passeavam sobre as cabeas

    mais criativas, musicais e pensantes, subvertendo o poder das flores.

  • Iara Revista de Moda, Cultura e Arte - So Paulo V.3 N2 dez. 2010 - Dossi 27

    Entre as manifestaes artsticas de 1967 que contriburam decisivamente

    para a gestao e parto do movimento, constituindo como que uma abenoada

    trindade pr-tropicalista, esto: o filme Terra em transe (de Glauber Rocha), a pea

    teatral O rei da vela (do Teatro Oficina), e a instalao Tropiclia (de Hlio Oiticica).

    Todas estas obras sinalizam com vigor uma revitalizao da alegoria moderna como

    crtica ao sistema ento vigente, afinal, nem todas as alegorias tropicalistas da

    histria e da cultura brasileira so to custicas e desesperadoras como Terra em

    transe e O rei da vela (DUNN, Op. cit., p.110). Assim como, a enigmtica instalao

    Tropiclia de Oiticica, que propunha ao seu espectador interagir pisando em areia,

    pedra e gua, cruzando plantas, araras, lendo frases inscritas em paredes, assistindo

    a uma TV ligada no fim do labirinto, caminho teleolgico rumo ao ps-moderno

    (SANCHES, 2000, p.47). Conforme polemiza o prprio artista ao defender a

    paternidade do movimento: Eu que inventei. Depois, o Caetano, que eu nem

    conhecia e o nome ficou conhecido. De modo que eu inventei a Tropiclia e eles

    inventaram o Tropicalismo (Oiticica apud BRITO, 1992, p.65); referindo-se sua

    obra por ocasio da mostra coletiva Nova Objetividade Brasileira, realizada no

    Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em abril de 1967, reconhecida atualmente

    como um dos marcos fundadores do movimento.

    H nessas trs obras tropicalistas avant la lettre - Terra em transe, O rei

    da vela e Tropiclia - um claro procedimento de revalidao esttica e de

    questionamento do objeto artstico em sua funo histrica e performtica1. Ou seja,

    1 Conforme apregoava o legado glauberiano na poca, no artigo Reviso crtica do

    cinema brasileiro: O autor o maior responsvel pela verdade: sua esttica uma

    tica, sua mise-en-scne uma poltica (Glauber Rocha apud PAIANO, 1996, p.20).

    Terra em transe evidencia a profunda distopia do cineasta baiano frente ao contexto

    poltico dos anos ps-golpe militar de 64, atravs de um tom radicalmente

    messinico impregnado nos discursos fragmentados do protagonista Paulo Martins,

    atuando como seu alter-ego: Vejo campos de agonia, velejo mares do No. Assim

    como, a pea dirigida por Jos Celso Martinez Correa (escrita por Oswald de

    Andrade, em 1933), que aborda a dependncia econmica e o cinismo dos interesses

    da classe dominante representados pelas figuras dos agiotas, Abelardo e Abelardo II,

  • Iara Revista de Moda, Cultura e Arte - So Paulo V.3 N2 dez. 2010 - Dossi 28

    o questionamento do papel scio-histrico da arte e de suas relaes com a moderna

    vida cotidiana, j estava no cerne do movimento, conforme sinaliza a crtica de Joo

    Adolfo Hansen:

    (...) O tropicalismo sabia que a forma artstica histrica e

    enfrentou a questo de frente. A principal caracterstica deste

    movimento foi incorporar a estrutura dos modernos meios

    tcnicos de comunicao na forma, para representar com as

    incongruncias de meio/forma/contedo os arcasmos que a

    modernizao do pas produzia e mantinha fora da

    represso e das mortes (HANSEN, 2005, p.73).

    Ao negar a autonomia total do objeto artstico, o Tropicalismo ir assumir a

    tenso entre vida e arte de forma performtica e explicitar a antinomia entre os

    arcasmos e as modernidades da vida nacional (a bossa & a palhoa), em pleno

    processo de massificao da cultura pelos meios de comunicao - a divina

    maravilhosa televiso -, e de secularizao da arte e da cultura:

    (...) Ocorria uma desierarquizao da cultura. A grande arte

    era citada, mas reflua, pois a coisa barata de massa tambm

    passava a interesar, porque no era totalmente kitsch ou s

    de massa, nela agora havia outra coisa e era dissonante. O

    tropicalismo juntava a crtica social dos CPCs com os

    experimentalismos de vanguarda. E isso era novo (HANSEN,

    2005, p.73).

    Vale atentar que os tropicalistas iro comer no mesmo prato a crtica social

    dos Centros Populares de Cultura da U.N.E., a tradio da cultura popular nordestina

    e a vanguarda construtivista internacional, mais a contracultura dos

    e do investidor norte-americano, Mr. Jones. Na poca de sua encenao, em meio ao

    espetculo do desencanto generalizado entre o meio artstico brasileiro, seu diretor

    dizia que a nica possibilidade ideolgica que ainda lhe restava era o teatro da

    crueldade brasileira, do absurdo brasileiro, o teatro anrquico (Z Celso apud

    DUNN, Op.cit., p.100). Afinal, a tal brutalidade jardim poetizada por Oswald nos

    anos 20 (em um dos versos de Memrias sentimentais de Joo Miramar, de 1924) e

    recapitulada nos versos finais da cano tropicalista Gelia Geral (de Gil e Torquato

    Neto), comeava a mostrar sua face mais cruel e truculenta, vide a usurpao total

    dos direitos civis perpetuada pelo Ato Institucional n.5, em dezembro de 1968.

  • Iara Revista de Moda, Cultura e Arte - So Paulo V.3 N2 dez. 2010 - Dossi 29

    experimentalismos da pop art americana e a da psicodelia do rock britnico (via

    Beatles). Sem, no entanto, buscar uma sntese concreta dessas mltiplas veredas

    dialticas, como afirma ostensivamente a cano Cultura e civilizao, de Gilberto

    Gil: A cultura e a civilizao / Elas que se danem / Ou no... (LP Gilberto Gil, 1969)2.

    Transformar o complexo caldo da cultura contempornea em um r