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  • Educao & SociedadeISSN: 0101-7330revista@cedes.unicamp.brCentro de Estudos Educao e SociedadeBrasil

    DE REZENDE PINTO, JOS MARCELINOO ACESSO EDUCAO SUPERIOR NO BRASIL

    Educao & Sociedade, vol. 25, nm. 88, octubre, 2004, pp. 727-756Centro de Estudos Educao e Sociedade

    Campinas, Brasil

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=87314214005

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    Sistema de Informao CientficaRede de Revistas Cientficas da Amrica Latina, Caribe , Espanha e Portugal

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  • 727Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 88, p. 727-756, Especial - Out. 2004Disponvel em

    Jos Marcelino de Rezende Pinto

    O ACESSO EDUCAO SUPERIOR NO BRASIL

    JOS MARCELINO DE REZENDE PINTO*

    RESUMO: Este trabalho, elaborado com base nos indicadores da edu-cao superior produzidos pelo INEP, IBGE e UNESCO, analisa a situaodo acesso educao superior no Brasil nos ltimos 40 anos, conside-rando as diferenas nas matrculas e oferta de vagas entre as depen-dncias administrativas e os cursos, o perfil dos concluntes e a qualifi-cao dos docentes. Comparam-se tambm os indicadores de taxa deescolarizao e grau de privatizao do setor no Brasil com os de outrospases da Amrica Latina e do mundo. Por fim, feita uma breve dis-cusso sobre as ltimas aes do MEC (gesto Tarso Genro), com vistasa ampliar a oferta e democratizar o acesso. O que os dados apresenta-dos mostram que, muito embora desde a dcada de 1960 a polticado governo federal para o setor tem sido a ampliao de vagas viaprivatizao, a Taxa de Escolarizao Bruta na Educao Superior dopas ainda uma das mais baixas da Amrica Latina, embora o grau deprivatizao seja um dos mais altos do mundo. O resultado deste pro-cesso foi uma grande elitizao do perfil dos alunos, em especial noscursos mais concorridos e nas instituies privadas, onde muito pe-quena a presena de afrodescendentes e de pobres. As propostas apre-sentadas at o momento pelo MEC norteiam-se pelo princpio de ex-panso de vagas, sem recursos adicionais, no setor pblico, e subsdiosao setor privado, em troca de bolsas de estudo. Para democratizar operfil dos alunos propem-se quotas, tanto no setor pblico quanto noprivado. Trata-se de medidas paliativas, que no enfrentam a questocentral que a expanso do setor pblico sem perda de qualidade, oque implica sair do atual 0,8% do PIB gasto com o ensino de gradua-o para um patamar de cerca de 1,4% do PIB.

    Palavras-chave: Acesso educao superior. Educao superior. Perfildos alunos da educao superior. Privatizao do en-sino. Ensino de graduao.

    * Professor do Departamento de Psicologia e Educao da FFCLRP, da Universidade de SoPaulo (USP). E-mail: jmrpinto@ffclrp.usp.br

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    O acesso educao superior no Brasil

    ACCESS TO HIGHER EDUCATION IN BRAZIL

    ABSTRACT: Based on higher education indicators produced by theINEP, IBGE and UNESCO, this study analyzes the problem of access tohigher education in Brazil these last 40 years, considering the differ-ences in admission and enrollment according to the administrativeregions and fields of study, graduates profiles and teacher qualifica-tions. The gross enrolment ratio and level of privatization indicatorsfor this sector in Brazil are also compared to those of other countriesin Latin America and the world. Lastly, the latest actions of theMinistry of Education and Culture (MEC Tarso Genro administra-tion), aimed at increasing supply and democratizing access arebriefly discussed. The data show that, although the federal govern-ment policy for this sector since the 1960s has been to increase en-rollment via privatization, Brazils Gross Schooling Rate for HigherEducation is still one of the lowest in Latin America, while its levelof privatization is one of the highest in the world. This process hasresulted in an overall elitization of the profile of students, especiallyin the fields with the highest demand and in private institutions,where the presence of African-descendant or poor students is stillvery low. The proposals presented thus far by the MEC reflect a guid-ing principle oriented toward an increase in enrollment without ad-ditional resources for the public sector, and the granting of subsidiesto the private sector in exchange for scholarships, as well as quotas,in both the public and private sectors. These are palliative measuresthat do not address the main point: expanding the public sectorwithout losing quality. This would mean an increase in higher edu-cation expenditures, from the current 0.8% of GDP to about 1.4%of GDP.

    Key words: Access to higher education. Higher education. Profile ofundergraduate students. Privatization of education. Un-dergraduate education.

    ara um pas que viu surgir seus primeiros cursos superiores (noteolgicos) no sculo XIX e sua primeira universidade apenas nosculo XX, ao passo que nas colnias espanholas da Amrica,

    quando da nossa independncia, j havia mais de duas dezenas de uni-versidades (Cunha, 1980), no de se estranhar que o Brasil apresenteuma to baixa Taxa de Escolarizao Bruta1 na Educao Superior, mes-mo quando comparada com aquela de nossos vizinhos latino-america-nos, conforme mostra a Tabela 1.

  • 729Educ. Soc., Campinas, vol. 25, n. 88, p. 727-756, Especial - Out. 2004Disponvel em

    Jos Marcelino de Rezende Pinto

    Os dados apresentados indicam que o pas ocupa uma posioextremamente desfavorvel, com uma oferta prxima apenas quela doParaguai e da frica do Sul, entre os pases selecionados. No obstanteestes baixos ndices de oferta, a situao j foi bem pior. Assim que,em 1960, a Taxa de Escolarizao Bruta na Educao Superior era deapenas 1% (INEP, 2004). Em especial nos ltimos 40 anos, o pasapresentou uma grande expanso nas matrculas de graduao con-forme mostra a Tabela 2, de tal forma que de 1960 a 2002 as matr-culas cresceram 37 vezes. Cabe ressaltar, contudo, que este aumentose deu de forma distinta entre as redes pblica e privada. Assim que,enquanto, no mesmo perodo, as matrculas na rede privada cresce-ram 59 vezes, na rede pblica o aumento foi de 20 vezes. O resulta-do deste processo que, se em 1960 o setor privado respondia por44% das matrculas de graduao, em 2002, essa participao pas-sou para 70%, tornando o Brasil um dos pases com mais elevado

    Tabela 1Taxa de Escolarizao Bruta na Educao

    Superior de pases selecionados 1999/2000

    Fonte: UNESCO, Global Education Digest, 2003.Nota 1: Razo entre o total de matrculas na EducaoSuperior e a populao na faixa etria correspondente.

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    O acesso educao superior no Brasil

    grau de privatizao desse nvel de ensino, conforme mostra a Tabela3. Basta dizer que a participao do setor privado nas matrculas noBrasil quase trs vezes maior que a da mdia dos pases da Organi-zao para Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE).

    Assim, pelos dados apresentados, podemos concluir que o modelode expanso da educao superior adotado no Brasil, em especial a partirda Reforma Universitria de 1968 (Lei n. 5.540/68), em plena ditaduramilitar, e intensificado aps a aprovao da LDB (Lei n. 9.394/96), nogoverno Fernando Henrique Cardoso, que teve como diretriz central aabertura do setor aos agentes do mercado, no logrou sequer resolver oproblema do atendimento em nveis compatveis com a riqueza do pasalm de ter produzido uma privatizao e mercantilizao sem preceden-tes, com graves conseqncias sobre a qualidade do ensino oferecido esobre a eqidade.

    Com relao ainda Tabela 2, e analisando os dados do setor p-blico, cabe comentar tambm a presena das redes estaduais e munici-pais. As primeiras surgem, sem a menor dvida, como o grande fato novono setor pblico. Assim que, ao passo que em 1974 elas representavamapenas 44% das matrculas da rede federal, em 2002 este ndice chegoua 78%. Quanto s instituies de educao superior (IES) municipais, es-tas apresentaram um grande crescimento no perodo entre 1974 e 1998(2,7 vezes), quando iniciam uma queda abrupta, recuperada, em parte,em 2002. Essa queda pode ser atribuda, em parte, aprovao da LDB(Lei n. 9.394/96) que, entre outros aspectos, estabelece em seu art. 11,inciso V, que os municpios s podero atuar nos nveis de ensino mdioe superior se atendidas plenamente as necessidades relativas educaoinfantil e ao ensino fundamental e, mesmo assim, com recursos acimado porcentual de 25% vinculado manuteno e ao desenvolvimentodo ensino. Outra possvel explicao para a queda pode ser a entrada emvigor, em 1998, do Fundo de Manuteno e Desenvolvimento do Ensi-no Fundamental e de Valorizao do Magistrio (FUNDEF), que vincula orepasse de seus recursos matrcula no ensino fundamental regular. Porfim, cabe comentar que tanto as IES estaduais como as municipais repre-sentam um segmento bastante heterogneo no qual se mesclam institui-es essencialmente pblicas (como as universidades estaduais paulistas,por exemplo) com outras de natureza claramente privada, que cobrammensalidades, por exemplo. Alm disso, boa parte delas no de insti-tuies de pesquisa mas apenas de ensino. H inclusive que se questionar

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    Jos Marcelino de Rezende Pinto

    Tabela 2Evoluo da matrcula na educao superior de graduao presencial,

    por categoria administrativa(Brasil 1960/2002)

    o carter pblico dessas instituies, adotado pelo Censo da EducaoSuperior do MEC/INEP. Muitas delas organizam-se sob a forma de funda-es de direito privado como meio de burlar a norma constitucional quedetermina a gratuidade do ensino pblico em estabelecimentos oficiais