NOTAS SOBRE GRAFFITI - ?· graffiti e o facto de qualquer compositor, ao escrever uma partitura, criar…

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  • NOTAS SOBRE GRAFFITI [JUST FORMS]

    1. Toda a gente sabe o que um graffiti. Embora existam tipos muito diversos h

    dois aspectos comuns a todos: so inscries grficas nas paredes e so ilegais.

    Quer sendo um grafismo indecifrvel, uma palavra de ordem ou outra coisa

    qualquer, desenham-se em locais no previstos para esse efeito. Nisso reside a sua

    ilegalidade. O aspecto mais interessante, no entanto, o facto de haver uma

    espcie de estilo graffiti obscuro e annimo no qual o significado no evidente

    aqueles graffiti arredondados e coloridos que existem nas longas paredes que

    antecedem as estaes dos comboios, nas partes interiores dos viadutos ou nas

    paredes dos edifcios industriais destinados demolio. Todos mostram um

    desejo de inscrio artstica fora dos lugares institudos para tal e, sendo

    annimos, tm uma autoria colectiva. O sub-ttulo [just forms] alude a uma

    posio de Boaventura de Sousa Santos sobre a cultura portuguesa no seu todo:

    uma cultura de fronteira no tem contedo, s tem forma sendo, segundo o

    autor, os portugueses dotados para manipular com criatividade o que recebem

    sempre de fora. No me possvel aqui tentar explicar melhor esta posio e

    remeto, por isso, para os seus livros. Nesta pea usei como metfora inicial estes

    dois aspectos principais: as semelhanas e diferenas inescrutveis no estilo

    graffiti e o facto de qualquer compositor, ao escrever uma partitura, criar

    inevitavelmente uma forma.

    2. Daqui decorrem vrias consequncias. Os sete graffiti tem semelhanas entre si,

    os materiais reaparecem em diferentes graffiti, mas cada um constitui uma forma

    e, simultneamente, uma parte da forma global. Uma terceira consequncia foi o

    desejo de usar materiais pobres, como por exemplo, um ou dois acordes-base

    que, por si s, no sero especialmente dotados de significao.

    3. A noo de objecto musical que tenho usado, de maneira puramente privada,

    enuncia, primeiro, a conscincia da historicidade dos materiais e, segundo, o

    campo de possibilidades que se abre perante um acorde, uma melodia particular,

    uma ideia rtmica ou um conjunto abstracto de notas fora de qualquer contexto

    concreto. As possibilidades de concretizao-em-obra de cada um destes pontos

  • de partida so tanto mais vastas quanto maior for o desapego em relao aos dois

    postulados definitivos de que tenho procurado fazer a crtica esttica (que no se

    dirige a obras particulares mas a orientaes gerais). Primeiro, a convico ps-

    adorniana de que s os princpios ps-seriais e seus derivados asseguram a

    produo do novo e, segundo, a convico oposta de que s o regresso

    tonalidade pode retirar a msica do beco-sem-sada a que a orientao anterior a

    conduziu. No partilho nenhuma destas posies e, se j ataquei que chegasse a

    primeira desde 1991, sinto cada vez mais a necessidade de criticar a segunda.

    Seguindo Foucault, penso que o novo no aquilo que somos mas aquilo em que

    nos vamos tornando. Quando digo que fao uma pequena teoria para cada pea,

    tento sublinhar que cada pea musical s uma pea musical o seu potencial

    transformador do mundo limitado na qual se produz a abertura ao contingente,

    ao indefinido, ao instvel que procuro no acto de fazer as obras, de lhes dar forma.

    4. No caso de Graffiti [just forms] o ponto de partida foi um acorde. Tal como os

    graffiti de muitas cidades do mundo tem similitudes surpreendentes, as minhas

    formas recorrem ao acorde-base, no como unidade temtica, mas como base

    figural para outro desenho. Cada desenho, cada devir-forma pode sublinhar as

    semelhanas ou as diferenas, as continuidades ou as interrupes. Um acorde

    hoje uma entidade dotada de um potencial que vai muito alm, da simples

    transposio, da modulao tonal ou da especulao aritmtica intervalar. Se

    permanece no tempo cria uma dobragem sobre si prprio, cria uma tenso musical

    na anttese do arrepio aristocrtico perante a modulao surpreendente do Sc.

    XVIII. Se muda, pode mudar para elementos dele derivados mas, por mutaes

    radicais de timbre, de tempo, de registo, se podem iluminar provisoriamente como

    outra coisa. A sobreposio de dois ou mais destes elementos pode criar novos

    graffiti. A mo do compositor que desenha um linha horizontal ou uma larga

    curva dinmica pode, do mesmo modo, traar uma abrupta linha vertical de corte.

    5. Se me alargo nestas consideraes fundamentalmente porque o espao pblico

    me reduzido. Pessoalmente no me posso queixar demasiado como bvio. Mas

    no disso que se trata. Falo de falta de interlocuo. Os compositores exprimem

    as suas ideias em curtas entrevistas de jornal ou em notas de programa. No actual

  • concerto das artes em Portugal a msica , talvez, a mais viva em pulso interna e

    a mais negligenciada, no s no espao pblico, como, ainda de forma mais

    evidente, pelos escritores, os poetas, actores, bailarinos, pintores, arquitectos ou

    filsofos. Trata-se de uma comunidade artstica que no existe enquanto tal no

    se organiza, no se faz representar nem consegue quebrar os atavismos

    profundos da cultura portuguesa que, historicamente, foi sempre sobretudo

    literria. Poucos conhecem a nossa msica, pouqussimos conhecem o que

    pensamos ou l o que escrevemos. Ningum leva a srio as nossas divergncias

    internas, ningum se interessa por elas. Quantos artistas-outros estaro hoje nesta

    primeira audio? Infinitamente menos do que em qualquer vernissage inaugural

    de arte/moda e tem sido sempre assim. Quando estes artistas ou intelectuais

    escrevem ou falam sobre msica, fazem-no quase exclusivamente sobre os

    grandes nomes do cnone ocidental. o que se passa tambm no espao pblico

    da crtica.

    6. Alis todos o fazemos. Cometemos um suicdio involuntrio porque, no mesmo

    lance em que criamos uma nova obra musical, alimentamos o veneno

    civilizacional que nos enfraquece mortalmente: a aceitao como natural de uma

    situao histrica de subalternidade perene. Vivemos uma espcie peculiar de

    cosmopolitismo-provinciano ou de provincianismo-cosmopolita que julgo ser a

    temtica que mais precisaria de debate.

    7. Por isso escrevi a frase de Peter Sloderdijk no h s aprendizagens positivas...

    ao lado h um verdadeiro curso de decepes em epgrafe do seguinte texto

    Sobre a melancolia fsica do artista de Setembro de 2004:

    ntima e desoladamente, vou estanto cada vez mais convencido da inutilidade da arte e da msica no quadro do espao-tempo em que vivo. Uma nova obra portuguesa, amputada quase sempre dos seus modos actuais de sobrevivncia a edio da partitura e a edio discogrfica destina-se categoria de desperdcio patrimonial virtual e acrescenta-se s anteriores como alimento para a persistncia do secular discurso lamentoso. tempo de considerar esta situao definitiva, irreformvel.

    Esta no uma boa notcia mas mais vale consider-la verdadeira para melhor se poder interpretar a hipocrisia dos discursos oficiais de sempre e a permanncia das insuficincias de todo o Sc.XX.

  • Resta ao criador considerar a sua obra como uma carta escrita aos amigos destinada a ser lida daqui por mil anos, na melhor das hipteses. No entanto, quando componho, sinto-me como que deslocado para fora das determinaes do real e concentrado na coisa-em-si e assim posto em sossego na atitude desinteressada kantiana.

    CODA: Este texto tem uma forma graffiti. No entanto, talvez seja dotado de algum

    contedo compreensvel e possa assim ser partilhvel. A pea divide-se em sete

    graffiti. S o graffifi II tem ttulo: petite musique negative de nuit. Cada um dos

    sete graffiti dedicado a um dos vrios msicos da OSP que nos ltimos anos tem

    estado presentes em vrios concertos com peas minhas. nessas relaes de

    trabalho que o compositor abandona provisriamente o isolamento prprio da

    natureza da sua actividade, mas tem sido pela sua repetio em diferentes obras que

    se acumulam os laos e os afectos que a execuo de uma s pea no permite, de tal

    modo curto o tempo de ensaios em todo o mundo. A mxima que prevalece

    actualmente tem nome e veio da Amrica: time is money. Como no h dinheiro no

    h tempo. Os dedicatrios dos sete Grafitti so: I- Katharine Rawdon, II- Elizabeth

    Davies, III- Irene Lima, IV- Pavel Arefiev, V- Antnio Qutalo, Paulo Guerreiro e

    Hugo Assumpo, VI- Pedro Wallenstein, VII- Ricardo Lopes e daqui lhes envio um

    abrao forte. A razo de ser musical das dedicatrias tanto pode ser bvia como

    discreta. H um jogo contra a falta de tempo.

    Antnio Pinho Vargas, 14 de Fevereiro, 2006