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  • 7/24/2019 Normas Gerais Antielisivas

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    Nmero 4 novembro/dezembro de 2005 e janeiro de 2006 Salvador Bahia Brasil

    NORMAS GERAIS ANTIELISIVAS

    P r o f . Ri c a r d o L o b o T o r r e s

    Professor Titular de Direito Financeiro na UERJ.

    Sumrio. I - A LEI COMPLEMENTAR No 104/01. II - O FUNDAMENTO METODOLGICO DASNORMAS ANTIELISIVAS. 1. As correntes tericas bsicas na interpretao do Direito Tributrio.1.1. A interpretao conceptualista. 1.2. A chamada interpretao econmica. 1.3. A interpretaovalorativa. 2. A teoria da eliso fiscal. III - O PRINCPIO DA TRANSPARNCIA E AGLOBALIZAO. 3. A transparncia fiscal e a sociedade de riscos. 4. A transparncia na atividadefinanceira. 4.1. A responsabilidade fiscal. 4.2. O Cdigo de Defesa do Contribuinte. 4.3. O combate corrupo. 5. O princpio da transparncia e os riscos fiscais provocados pelo contribuinte. 5.1.Normas anti-sigilo bancrio. 5.2. A corrupo ativa do contribuinte. 6. A transparncia fiscal e asnormas antielisivas. IV - A NORMA GERAL ANTIELISIVA. 7. Caractersticas. 8. A norma antielisivano direito alemo: proibio de abuso de forma jurdica. 9. Outros modelos estrangeiros. 9.1.

    Vedao de fraude lei (Espanha). 9.2. Desconsiderao da personalidade jurdica (Argentina). 9.3.Propsito mercantil (Estados Unidos, Canad, Inglaterra, Austrlia, Sucia). 9.4. Disposiesantielusivas do direito italiano. 9.5. Normas antiabuso em Portugal. 9.6. O modelo francs e a suarecepo no Brasil. V- AS NORMAS ANTIELISIVAS NO DIREITO BRASILEIRO. 10. Clusulasantielisivas no imposto de renda. 11. A recepo do princpio arms length. VI - A NORMAANTIELISIVA DO ART. 116, PARGRAFO NICO, DO CTN. 12. Regra antielisiva ou antievasiva?13. A necessidade de se escandir a norma antielisiva. 13.1. A autoridade administrativa... 13.2.poder desconsiderar... 13.3. ... atos ou negcios jurdicos praticados... a) Requalificao dos fatosgeradores concretos. b) Dois exemplos de qualificao abusiva. c) Eliso e simulao. 13.4. ... coma finalidade de dissimular... a) Dissimulao e simulao relativa. b) Dissimulao e eliso. 13.5. ... aocorrncia do fato gerador ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigao tributria... 13.6.... observados procedimentos a serem estabelecidos na lei ordinria. 14. A fenomenologia da normaantielisiva. 14.1. A contra-analogia. 14.2. A reduo teleolgica. VII CONCLUSES. VIII BIBLIOGRAFIA.

    I. LEI COMPLEMENTAR 104/01

    A Lei Complementar no104, de 10.01.01, introduziu no art. 116 do CdigoTributrio Nacional a norma geral antielisiva:

    Pargrafo nico A autoridade administrativa poder desconsiderar atosou negcios jurdicos praticados com a finalidade de dissimular aocorrncia do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos

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    constitutivos da obrigao tributria, observados os procedimentos a seremestabelecidos na lei ordinria.

    O dispositivo transcrito vem despertando inmeras dvidas quanto sualegitimidade e alcance.

    Pretendemos examinar neste trabalho o fundamento metodolgico (item II)e o princpio da transparncia (item III) que postulam e justificam as regrasantielisivas. Analisaremos, aps, as clusulas gerais antielisivas no direitoestrangeiro e a sua recepo no Brasil (itens IV e V). Finalmente dedicaremos aateno ao art. 116, pargrafo nico, do CTN, procurando escandir-lhe oenunciado normativo e desvendar a fenomenologia da sua aplicao (item VI).

    II. FUNDAMENTO METODOLGICO DAS NORMAS ANTIELISIVAS

    As normas antielisivas assumiram extraordinria importncia no direitotributrio durante a dcada de 90. O desenvolvimento da metodologia jurdica eda teoria de interpretao, com a superao dos positivismos economicistas econceptualistas, constituiu uma das principais causas para a nova viso danecessidade e da possibilidade de combate eliso e ao planejamento abusivos.

    1. AS CORRENTES TERICAS BSICAS NA INTERPRETAO DODIREITO TRIBUTRIO

    A interpretao do direito tributrio se faz a partir das posies firmadas nocampo da teoria geral da interpretao: a jurisprudncia dos conceitos, a

    jurisprudncia dos interesses e a jurisprudncia dos valores.

    A jurisprudncia dos conceitos projetou para o campo fiscal a interpretaoformalista e conceptualista. A jurisprudncia dos interesses se transformou nachamada interpretao econmica do fato gerador. A jurisprudncia dos valores,que nas ltimas dcadas passou a prevalecer em todas as naes cultas,substituiu as duas outras ao atrelar a interpretao jurdica aos princpios ticos e

    jurdicos vinculados liberdade, segurana e justia.

    1.1. A INTERPRETAO CONCEPTUALISTA

    A interpretao fundada na jurisprudncia dos conceitos parte da crena deque os conceitos e as categorias jurdicas expressam plenamente a realidadesocial e econmica subjacente norma, de modo que ao intrprete no cabe sepreocupar com os dados empricos. Aparece muita vez como interpretaosistemtica ou lgico-sistemtica, segundo a qual os conceitos e institutos devemser compreendidos em consonncia com o lugar que ocupam ou com o sistema

    de que promanam.

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    A jurisprudncia dos conceitos, com razes no pandetismo alemo,defende, no campo da fiscalidade, as teses do primado do direito civil sobre odireito tributrio, da legalidade estrita, da ajuridicidade da capacidade contributiva,da superioridade do papel do legislador, da autonomia da vontade e do carter

    absoluto da propriedade.Corresponde, historicamente, ao apogeu do Estado Liberal, que cultiva o

    individualismo possessivo.

    Seus grandes nomes no direito estrangeiro: Kruse1e A. D. Giannini2. NoBrasil : Gilberto de Ulhoa Canto3e A. R. Sampaio Dria.4

    1.2. A CHAMADA INTERPRETAO ECONMICA

    A interpretao fundada na jurisprudncia dos interesses, que se ops aospostulados da jurisprudncia dos conceitos, projetou-se para o campo dafiscalidade por meio da considerao econmica do fato gerador (wirtschaftlicheBetrachtungsweise), prevista no art. 4odo Cdigo Tributrio Alemo de 1919, poralguns apelidada, inclusive com sentido pejorativo, de "interpretao econmica".Despreocupou-se inteiramente dos conceitos e categorias jurdicas. Os italianosdesenvolveram teoria semelhante sob a denominao de interpretaofuncional.

    Suas teses principais: autonomia do direito tributrio frente ao direitoprivado; possibilidade de analogia; preeminncia da capacidade contributivasacada diretamente dos fatos sociais; funo criadora do juiz; interveno sobre apropriedade e regulamentao da vontade.

    Corresponde, historicamente, ao perodo do Estado de Bem-estar Social,que entrou em crise e se desestruturou a partir dos anos 70, tambm chamado deEstado-Providncia ou Estado Intervencionista.

    Seus grandes representantes so E. Becker,5na Alemanha; Griziotti,6 naItlia; D. Jarach,7na Argentina. No Brasil destaca-se Amilcar de Arajo Falco.8

    1Steuerrecht. Mnchen: C. H. Beck, 1969.2Istituzioni di Diritto Tributario. Milano: Giuffr, 1948.3 Legislao Tributria, sua Vigncia, sua Eficcia, sua Aplicao, Interpretao e

    Integrao. RevistaForense267: 25-30, 1979.4Eliso e Evaso Fiscal. So Paulo: Bushatsky, 1977.5Zur Auslegung der Steuergesetze. Steuer und Wirtschaft2: 145-180, 1924.6Princpios de Politica,Derecho y Ciencia de la Hacienda. Buenos Aires: Depalma, 1935.7

    Hermenutica no Direito Tributrio. In: MORAES, Bernardo Ribeiro etal. InterpretaonoDireitoTributrio. So Paulo: EDUC/Saraiva, 1975, p. 83-102.8Introduo ao Direito Tributrio. Rio de Janeiro: Forense, 1994.

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    1.3. A INTERPRETAO VALORATIVA

    As duas correntes tericas acima referidas caminharam para aexacerbao de suas teses, pretificando-se em posies positivistas normativistase conceptualistas, de um lado, ou positivistas historicistas e sociolgicas, de outraparte. O conceptualismo levou ao abandono da considerao da situaoeconmica e social e convico ingnua de que a letra da lei tributria captainteiramente a realidade, posto que existe a plena correspondncia entrelinguagem e pensamento. A tal interpretao econmica transformou-se nadefesa do incremento da arrecadao do Fisco, por se vincular vetente daatividade arrecadatria do Estado.9

    A partir da dcada de 1970, pela enorme influncia exercida nopensamento ocidental pelas obras de K. Larenz10 e J. Rawls,11 altera-se oparadigma na teoria geral do direito, na teoria da justia e na teoria dos direitos

    humanos, abrindo-se o campo para a reformulao das posies bsicas dainterpretao do direito tributrio.

    A jurisprudncia dos valores e a virada kantiana, com reaproximaoentre tica e direito sob a perspectiva do imperativo categrico, marcam o novomomento histrico da afirmao do Estado Democrtico de Direito, que oEstado da Sociedade de Riscos.12

    Algumas teses ps-positivistas passam a ser defendidas para a superaodo impasse a que fora levada a teoria da interpretao do direito tributrio:

    a) preeminncia dos princpios fundantes do Estado Democrtico deDireito, que no Brasil se expressam no art. 1o da CF: soberania, cidadania,dignidade humana, autonomia da vontade, valor do trabalho, pluralismo;

    b) ponderao entre o princpio da capacidade contributiva, vinculado idia de justia e obtido por argumentao democrtica,13 e o princpio dalegalidade, vinculado segurana jurdica em sua configurao de segurana daregra;14

    9

    Cf. LEHNER, Moris. Considerao Econmica e Tributria Conforme a CapacidadeContributiva. Sobre a Possibilidade de uma Interpretao Teleolgica de Normas com FinalidadesArrecadatrias. In : SCHOUERI, Lus Eduardo & ZILVETI, Fernando Aurlio (Coord.). DireitoTributrio. Estudos em Homenagem a Brando Machado. So Paulo: Dialtica, 1998, p. 148.

    10Methodenlehre der Rechtswissenschaft. Berlin: Springer-Verlag, 1983.11A Theory of Justice. Cambridge: Harvard University Press, 1980.12Cf. TORRES, Ricardo Lobo. Legalida

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