noite escura

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Em meio a um pântano da Panônia, no final do século II d.C., Sertórius, soldado da XII Legião de Roma, reflete sobre sua escolha. Havia partido para aquela missão por pura camaradagem. Ele e seus amigos deveriam exterminar um bando de soldados desertores que aterrorizavam a região. Tudo poderia parecer muito simples, se os chefes do bando não fossem os terríveis Gêmeos, famosos por suas atrocidades. Alguns diziam que eram tão maus que só podiam ser deuses. Enfiado em meio à lama, ele reflete sobre o destino, a vida, a morte, e o que é ser homem. E mesmo de má vontade, acaba por assumir o seu papel. Não era por simples camaradagem que ele deveria ir. Era necessário dar um basta nas ações daqueles monstros. Para isso eles precisariam enfrentar a si mesmos. Esta não era uma simples missão, em meio a uma complexa trama, onde deuses atuam de forma sorrateira, ele e seus amigos participarão de uma grande aventura. Uma aventura que os colocará diante da condição humana.

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  • NoiteE s c u r a

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  • S o P a u l o , 2013

    NoiteE s c u r a

    L u i z Va d i c o

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  • 2013IMPRESSO NO BRASILPRINTED IN BRAZIL

    DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIO NOVO SCULO EDITORA LTDA.

    CEA Centro Empresarial Araguaia IIAlameda Araguaia 2190 11 Andar

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    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Vadico LuizNoite Escura / Luiz vadico. Barueri, SP: Novo Sculo Editora, 2013

    1. Fico brasileira I. Ttulo.

    13-12199 CCD-869.93

    ndices para catlogo sistemtico:1. Fico: Lieratura brasileira 869.93

    Copyright 2013 by Luiz Vadico

    Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa (Decreto Legislativo n 54, de 1995)

    Coordenao Editorial Letcia Tefilo Diagramao Project Nine Capa Fernando Gaspar / caro Cavalcante por Studio Doze Reviso Mnica Vieira/Project Nine Thiago Fraga

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  • suMrio

    Prembulo ............................................................................9

    PartE i

    captulo i EM torno da FoguEira .......................... 17

    captulo ii EM Marcha ............................................... 36

    captulo iii a PELEja ..................................................... 57

    PartE ii

    captulo iV trEVisiuM .................................................. 79

    captulo V FErMEnto ............................................... 104

    captulo Vi a tEia da aranha ................................... 124

    PartE iii

    captulo Vii uMa FLEcha ............................................ 147

    captulo Viii noitE Escura ......................................... 164

    captulo iX a EsPErana ........................................... 186

    PartE iV

    captulo X a Luta ...................................................... 207

    captulo Xi o rito ....................................................... 228

    captulo Xii a dana da MortE ................................. 254

    PartE V

    captulo Xiii a caVErna ............................................... 277

    captulo XiV FEridos .................................................... 303

    captulo XV a BataLha ................................................ 324

    Eplogo ..............................................................................342

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  • 9PrEMBuLo

    Pannia, provncia do Imprio Romano, fins do sc. II d.C.Ao final do governo do imperador Marcus Aurelius, pouco

    antes da sua morte em 180 d.C., em meio guerra movida con-tra a sublevao dos Quados e Marcomanos (povos nmades das fronteiras da provncia da Pannia, atual Hungria), um pequeno destacamento de soldados da Legio, a Duodcima Fulminata, foi designado para dizimar um grupo de bandoleiros formado por desertores do exrcito. Esta a sua estria.

    Sertrius, tu vens?! depois de dois dias em meio ao pntano aquela pergunta de Victorinus me voltava mente. E no era toa, pois eu estava exausto. Meu corpo enregelava naquela gua nojenta. Descalo, eu pisava o lodo gelado do fundo, e tinha de sentir a cada passo a lama fria entrar por entre os dedos dos ps. Meus coturnos? Pendurados pelos cadaros no pescoo. E ainda tinha de carregar toda aquela tralha de soldado: lana, gldio, barraca, cobertor, panelas, elmo e escudo...

    Quando Salustianus se preparava para a misso, alguns homens foram voluntrios e outros ele convocou. Na verdade, os voluntrios foram convidados a virem, no tiveram muito como recusar. Eu no fui nem con-vocado e nem convidado, e havia prometido a mim mesmo no vir. Mas meus companheiros no tiveram a mesma sorte. E, ao ser questionado por Victorinus, senti que no poderia deix-los nessa hora, no depois de tantos anos de amizade. Vim por companheirismo e cumplicidade. Agora, aquela pergunta ficava ribombando nos meus ouvidos Sertrius, tu vens?!. Aps dois dias e noites enfiados at o pescoo na gua podre e mal cheirosa do pntano, comeava a lamentar minha deciso.

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  • 10

    Quando comeou a guerra contra os Quados ningum imaginava ficar mergulhado numa charneca sem-fim. O imperador contou demais com a nossa boa vontade. Apesar das vrias cidades importantes, boa parte da Pannia formada por pntanos, plancies e alguns escarpados. E a misso no era contra os Quados ou qualquer outro povo brbaro, e sim contra o bando dos Gmeos. Um bando de desertores do exrcito romano. Fazia alguns anos que eles aterrorizavam a regio. A misso era importante, mas no h glria nesse tipo de luta, no h triunfo. No entanto, no era um bando qualquer. Tanto fizeram que, no suportando mais as reclamaes vindas de todos os lados, o imperador no teve esco-lha se no mandar nosso pequeno grupo de oitenta homens para lhes dar fim. Outros destacamentos j haviam sido enviados antes da guerra. Mas de uns no tinham notcias e de outros soubemos apenas que foram des-troados. amos com m vontade, pois quando nos alistamos no para acabar com malfeitores comuns. Sonhamos com a glria. E essa misso era despida de qualquer glria, porque a nica finalidade era matar os Gmeos. Bem, de um jeito ou de outro a misso sempre matar.

    E com a lama fria me entrando por entre os dedos dos ps, eu no podia deixar de pensar: O que nos faz soldados essa familiaridade com a morte. Achamos que a intimidade ser com a conquista, mas no, nos acostumamos com a morte. E eu me questionava por que havia desejado ser soldado. Sendo um pensava que iria combater os inimigos de Roma, mas no... Em meio lama eu sabia, soldados todos somos e combate-mos todos os dias no mundo aquilo de que mais temos medo. E tenho medo, muito medo de ser igual queles a quem fui enviado para des-truir. As suas imagens me visitavam constantemente, como um pesadelo cruel que ecoa o tempo todo em cada parte do meu ser. Os Gmeos... Por que eles tanto me perturbavam? Ser que tenho tanto dio ao gnero humano quanto eles? Ser que eu desejei ser soldado apenas para mer-gulhar minha espada nas entranhas dos homens? O que surge primeiro, a guerra ou a vontade de lutar?

    a ocasio que faz o soldado. Mas at sentir nas mos o sangue morno do teu semelhante, e at a encontrar algum prazer, quem saber dizer o quanto em nossa alma no reside o desejo de matar impiedosamente?

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  • 11

    Quem?! Matar para no ser morto. Ter o prazer de matar primeiro. O prazer de no ter sido morto... Esse o nosso prazer. Engana-se quem diz que o prazer dos homens so as mulheres. O prazer dos homens matar. Matar outros homens. As mulheres so um alvio, nada mais. E a vitria nem sempre nos garante tranquilidade. Sou filho do medo e do desespero. A nica vitria que posso ter a desesperada. E, depois de alcan-la, a ordem que recebemos Matem os velhos e as crianas! Estuprem as mulheres!. E elas sempre esto por ltimo... E nem sempre temos vigor para estupr-las...

    O mais importante nessa misso sairmos vivos. No era sem motivo que no encontraram voluntrios. No ardor das batalhas muitos fogem e no voltam ao lar, por vergonha ou por medo, pois a punio para a desero a morte. Ento, perambulam pelas estradas, matas e bosques, vitimando os infelizes, atacando pequenos povoados. Formam bandos. Assaltam, matam, sobrevivem, e parecem ter nenhuma lei. So covardes, pois apenas os covardes fogem. E nada mais cruel que um covarde. Ele mata pelas costas traio, jamais luta de forma digna.

    Os Gmeos so os chefes do bando. So a verdadeira causa do meu tormento e no este maldito pntano. Durante vrias noites antes de vir, acordei sobressaltado. Sonhos e pesadelos foram aos poucos me trazendo a sua presena. No entendo nada de sonhos, mas sempre os tive. E eles costumam surgir como um aviso das coisas que esto por vir. Nunca so claros. No saberia dizer se previra meu encontro com os Gmeos, ou se apenas estava perturbado pelas coisas que ouvi falar sobre eles. As suas atrocidades causavam medo e revolta. Por vezes, chegava ao forte algum batedor assustado com o que vira em meio ao pntano: pedaos de cor-pos, vsceras, cabeas, rostos descarnados... Homens destroados, jamais mulheres. Aos poucos a sua fama foi se tornando lenda, e se contavam estrias...

    Desconhecamos seus nomes, ento os chamvamos de os Gmeos, s a sua meno era suficiente para inspirar horror. Deles ape-nas sei o que ouvi: so perversos. Chegamos a apelid-los de Deimos e Phobos, Medo e Pnico, os companheiros de Marte nas batalhas, seus filhos com Vnus. Deuses dos corpos, um os dilacera e o outro deles

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  • 12

    arranca o prazer. Os irmos desertores tinham fama de serem muito maus. J fizeram tantas crueldades, e com tal perversidade, que nenhum ser humano conseguia olh-los seno como semideuses. No eram humanos, no podiam ser.

    Uma vez contaram-me que aps um massacre numa vila, eles vio-lentaram uma mulher, revezaram-se horas a fio sobre ela. Nem para seu bando era claro por que o faziam. Mantiveram-na prisioneira numa jaula de ferro. Quando os homens viram a barriga da mulher crescer a sua inteno se revelou: queriam ter um filho. Uma criana dos dois ao mesmo tempo, gerada pelas suas sementes misturadas no ventre da me. Eles cuidaram dela como se fosse um animal de estimao. Depois de meses de agonia a mulher sentiu as dores do part