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  • 150 Revista da EMERJ, v.2, n.5, 1999

    no Processo Civil

    JORGE DE MIRANDA MAGALHESDesembargador do TJ/RJ. Professor de ProcessoCivil da EMERJ

    I. Introduo - No seria necessrio repetir que o comando jurdico, tanto mais geral e abstrato quanto seja, mais exige que o intrprete lhe pe-netre no mago para saber como aplic-lo ao caso concreto, quase sempre envolto em contornos no previstos pela lei.

    E dentre os recursos usados na interpretao do texto legal, para sua plena e correta aplicao, encontram-se os princpios gerais do direito, que tambm foram respeitados e atendidos na elaborao da norma.

    Diz ALCIDES MENDONA LIMA (Processo de Conhecimento e Processo de Execuo, p. 43) que todos os ramos jurdicos esto su-bordinados a princpios, que lhes servem de diretrizes, indispensveis elaborao, interpretao e aplicao de suas respectivas normas cogentes, esclarecendo ser evidente que, como trao comum a todas e a cada uma delas, dominam a base ideolgica do Estado em que tenham incidncia, segundo as estruturas sociais.

    Da decorre que os cdigos de um pas, de regime poltico capitalista ou de um socialista, no poderiam seguir a mesma orientao, como assi-nala o mestre, o que tem levado as minorias polticas, em cada um deles, a se insurgir contra os respectivos poderes judicirios, apontando-os como defensores da maioria, quando no so mais do que aplicadores das leis impostas por sua maioria.

    HERMES LIMA (Introduo Cincia do Direito, Edit. Freitas Bas-tos, 31 ed., p. 157) anuncia que, no direito privado, os princpios gerais do direito derivam, preferentemente, da lei escrita e no lhe constituem seno

    integrantes da lei ou do seu esprito e que ajudam a expresso lgica do

    COVIELLO (apud HERMES LIMA, op. cit., p. 958) esclarece que

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    tais princpios, embora no se achem formulados em nenhum lugar, formam o pressuposto lgico necessrio de vrias normas da legislao, neles sinte-tizando a construo doutrinria a causas econmicas, histricas e sociais que determinam as leis, valendo eles como foco de luz para iluminar o texto, ou a aplicao do mesmo.

    Mestre PONTES DE MIRANDA (Comentrios ao CPC, Edit. Fo-

    correspondentes a causas e fatos, deles se separam para poderem organizar a vida social segundo a prpria natureza (objetivo) e segundo o propsito dos que o organizaram. Atravs deles e de suas combinaes, o homem consegue, com esforo psquico, organizar, l fora, a vida. A cincia procura

    e das relaes entre eles, segundo a tcnica que se emprega. O papel da poltica legislativa mais o de transmitir proposies; portanto, ensejando a construo jurdica. A abstrao e a generalizao prestam-lhe servios

    -pios, pretende o legislador sintetizar a realidade mesma do direito; mas, em verdade, a introduo da abstrao, como se fossem realidade... Por

    teoria do conhecimento.

    II. - Considerando que atravs do pro-cesso que o Estado, aps assumir para si a fora da prestao jurisdicional, proibindo o exerccio privado das prprias razes, excetuadas as hipteses legalmente previstas, atende aos seus objetivos maiores de garantidor da paz social e das relaes jurdicas, resulta inequvoco ser o processo o deposi-trio de um sem nmero de princpios, ou pressupostos lgicos ou normas, buscando cumprir seus compromissos com a moral e a tica, valendo como algo anterior e externo ao sistema processual e, sobretudo, como bssola na aplicao das regras processuais em busca dos objetivos sociais e polticos do prprio sistema jurdico.

    Como assinala ADA GRINOVER (ADA GRINOVER/ DI-NAMARCO/A.C. ARAJO CINTRA, Teoria Geral do Processo, Editora R.T.), a experincia jurdica, segundo conhecidssimo pensamento iuris Sob o aspecto da norma, constitui-se a epistemologia (cincia do direito positivo), qual pertence a dogmtica jurdica, que estuda o direito como

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    ordem normativa. Os valores ticos do direito so objeto da deontologia jurdica. O fato estudado pela culturologia. Alguns dos princpios gerais do direito processual colocam-se entre a epistemologia e a deontologia, entre a norma e o valor tico, no limiar de ambos.

    As normas jurdicas, como assinala ARTHUR J. FAVERET CAVALCANTE no tm uma existncia objetiva e independente do conhe-cimento que se tenha, sendo impossvel dissociar o seu contedo da opinio que delas se faa, elas prescrevem aquilo que os integrantes ou coletividade supem que prescrevam.

    Da porque os princpios so, ao mesmo tempo, fonte de interpreta-o da norma, como direito positivo que esta , e seu critrio legitimador, ou seja, expresso de sua legitimidade e aceitao moral, como regra de conduta social.

    ARRUDA ALVIM (Cdigo de Processo Civil Comentado, vol. V, p. 54) at faz a distino entre princpios informativos e princpios fundamentais sendo, os primeiros, regras eminentemente tcnicas estruturais e, assim, universais, enquanto os segundos so plenos de carga ideolgica, conjuntural admitindo outros que a eles se antepem. Assim, para ele, a de-fesa da propriedade princpio fundamental nsito aos sistemas capitalistas, servindo de ncora para a interpretao de atos processuais, como v.g., a possibilidade ou no, de ser julgado de plano o pleito desapropriatrio, em casos de revelia enquanto o princpio da bilateralidade da audincia (ou do contraditrio) tcnico e inerente ao prprio processo, sendo apontado como informativo.

    A dissenso no ampla quanto ao contedo, eis que alguns, como LIEBMAN (Manuale, Tomo I, p. 227. n 124 ) e ADA GRINOVER (op. citCAPELLETTI (El processo civil, p. 16) e FREDERICO MARQUES os

    Prin-cpios, indo processo, no faltando os que, como ALCIDES DE MENDONA LIMA (op. cit.no procedimento.

    Conforme, porm, sua importncia quanto substncia da norma, tanto que ADA GRINOVER (op. cit., p. 51/52) os chama de informativos,

    a) princpio lgico, que consiste na escolha dos fatos e forma mais

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    aptas para descobrir a verdade e evitar o erro;b) princpio jurdico, que consiste em proporcionar aos litigantes

    igualdade na demanda e justia na deciso;c) princpio poltico, que consiste em prover os direitos privados da

    mxima garantia social com mnimo de sacrifcio da liberdade individual; ed) princpio econmico que consiste em fazer com que as lides no

    sejam to dispendiosas, a ponto de se poder dizer que a justia civil feita s para os ricos, possibilitando seu acesso a todos.

    Tais princpios, por alguns chamados meras regras informativas do processo, no se conformam ao princpio da deontologia, ultrapassando a dogmtica jurdica e exibindo-se aos estudiosos do direito na formao de

    ius positum. na Constituio de um estado que se encontram formulados tais

    princpios servindo eles de uma verdadeira plataforma comum, segundo a feliz expresso de CNDIDO DINAMARCO (op. cit., p. 49) a embasar todas as teorias processuais e permitir a elaborao de uma teoria geral do processo.

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    falhando a aplicao de qualquer um deles, tornar-se viciada a prestao, sem a devida e necessria proteo dos direitos das partes.

    Efetivamente, sem os meios aptos, como assinala ALCIDES MEN-DONA LIMA (op. cito erro evitado (princpio lgico); se os litigantes no foram tratados com igualdade, inclusive na sentena, ocorrer a injustia (princpio jurdico); se no for assegurada a mxima garantia defesa dos direitos, com sacrifcio desnecessrio da liberdade, o processo se tornar instrumento de opresso,

    forem to grandes que desestimulem os litigantes de poucos recursos, fadados a terem de suportar a iniqidade, sem poderem reagir em juzo, o processo se poder tornar, qui, em incentivo a atos de justia privada (poder econmico).

    So, portanto, tais regras, guardis dos princpios gerais e dos prprios textos legais que acodem no momento crucial em que a paz e as relaes jurdicas so violadas.

    Em verdade, quase todos os textos legais do nosso ordenamento esto

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    do princpio econmico, fazendo indenizar o vencedor de seus gastos feitos

    aos poderes do juiz, se refere a todos eles: de descobrir a verdade; ao jurdico, porque compete ao juiz assegurar a igualdade de tratamento s partes; ao poltico, porque cumpre ao juiz

    econmico porque cabe ao juiz velar pela rpida soluo do litgio, evi-

    -quer ordenamento jurdico, que os respeite e preconize, como ocorre na

    e garantias expressos nesta Constituio, no excluem outros decorrentes do regime e dos princpios por ela adotados, ou dos tratados internacionais

    HUMBERTO THEODORO JUNIOR (Princpios Gerais do Processo Civil, Rev. Processo, vol. 23, p. 178) bem observa o fenmeno, asseverando que, em nenhum ramo do direito, portanto, mais se avulta a importncia dos princpios informativos do que no direito processual, j

    seus institutos, vai depender a sorte poltica, no raras vezes, das normas dos demais ramos da cincia jurdica, que compem o direito material ou substancial.

    Ante seu carter geral e balisador de todas as atividades legais da sociedade a que se dirige, cabe Constituio de um Estado estabelecer as regras mestras que ho de dirigir seus momentos, no sentido dos quatro princpios acima chamados, tambm, de regras gerais ou dogmticas e da deontologia jurdica.

    Qual deles seria prevalente ou mais importante, do ponto de vista pessoal, tambm discusso que travam os juristas, havendo quem aponte o dispositivo, ou de disponibilidade acionria (Dispositionsprinzip, confor-me GRNNER, 1881), segundo o qual a iniciativa acionria atribuda ao prprio interessado, enquanto outros indicam o da imparcialidade do juiz, rgo estatal encarregado da entrega da justia, com poderes alusivos aos quatro princpios basilares e deles decorrentes.

    Assim, nossa apresentao no indicar qualquer conotao de ordem

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