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No Arquivo LdoD (2017), o Livro do Desassossego foi transformado num texto le-

gvel computacionalmente cuja legibilidade maqunica se constitui, ela prpria,

como um dispositivo gerador de mltiplos atos de fala literrios, isto , de atos

que nos permitem experimentar a dinmica que institui um campo literrio.

Nessa medida, o Arquivo LdoD uma mquina que nos oferece a possibilidade

de descobrirmos processos de escrita e edio cujo horizonte concetual e mate-

rial a produo da ocorrncia Livro do Desassossego, isto , a instanciao

da projetualidade autoral e da projetualidade editorial numa obra-livro. A codi-

ficao e programao do Arquivo LdoD integram funcionalidades de represen-

tao gentica e crtica que mostram quer o processo cumulativo de escrita e re-

viso autoral registado nos testemunhos, quer a passagem desse arquivo de

documentos a um conjunto de quatro edies, que selecionaram e organizaram

interna e externamente o texto de cada um dos testemunhos (PESSOA/PRADO

COELHO, 1982; PESSOA/SOBRAL CUNHA, 2008; PESSOA/ZENITH, 2012;

PESSOA/PIZARRO, 2010).

A esta componente estritamente editorial e meta-editorial, o Arquivo LdoD

acrescenta um conjunto de funcionalidades de simulao da performatividade

literria, isto , do campo de relaes dinmicas entre escrita, leitura, edio e

livro, com a possibilidade de criao de edies virtuais e de escrita de varia-

es sobre os textos (PORTELA e SILVA, 2016; PORTELA, 2016a e 2016b). Atravs

das funcionalidades de visualizao dos originais, comparao de transcries

e edies, criao de edies virtuais e, ainda, de reescrita e recombinao de

texto, a meta-representao integra-se na simulao. Ao fazer do Livro do

Desassossego um objeto legvel e manipulvel computacionalmente, em mlti-

plas escalas e a partir de diferentes posies, o Arquivo LdoD torna possvel fa-

zer experincias com os atos de fala literrios. Neste artigo uso o Arquivo LdoD

para interrogar especificamente os atos de escrita no Livro do Desassossego. Por

outras palavras: que forma possvel dar pergunta o que um ato de escrita

quando a pergunta formulada atravs desta mquina?

1. Escrever e sentir

Um dos tpicos do Livro do Desassossego diz respeito relao entre escrever e

sentir e, em particular, implicao da escrita nos processos de conscincia do

sujeito senciente. A autodescrio do ato de escrita surge no Livro como uma das

expresses do processo de conscincia, sendo tematizado por ambos os narra-

dores Vicente Guedes e Bernardo Soares. O sentir-se a sentir, que espelha a re-

gresso infinita de um sujeito ensimesmado nas suas prprias sensaes, trans-

forma-se assim no sentir-se a escrever. Na cpia de uma carta para Paris dirigida

Atos de Escrita no Livro do DesassossegoManuel Portela

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Pode ser que, se no deitar hoje esta carta no correio, amanh, relendo-a, me

demore a copial-a machina, para inserir phrases e esgares della no Livro

do Desasocego. Mas isso nada roubar sinceridade com que a escrevo, nem

dolorosa inevitabilidade com que a sinto. (BNP/E3, 1143-35, Arquivo LdoD)

Uma frase como relendo-a, me demore a copial-a machina, para inserir phrases

e esgares della no Livro do Desasocego indica que Pessoa trabalhou com uma

conceo especfica do Livro do Desassossego na qual caberiam certas expres-

ses, frases e pargrafos da carta e, alm disso, permite caraterizar tambm a

processualidade corporal e laboral da ao de escrever. Escrever mo, reler e co-

piar mquina so parte da morfologia material e tcnica do modo de produo

da escrita. Por outro lado, a coimplicao paralelstica entre sentir e escrever

com que a escrevo/ com que a sinto sugere a ancoragem da significabilidade

da escrita num processo de conscincia que resulta do sistema de retroaes entre

escrita e emoo. As phrases e esgares a inserir eventualmente no Livro do

Desassossego seriam expresses sinceras de emoes sentidas e no meros efeitos

retroativos de emoes ps-produzidas pela escrita, ainda que o copi-la mqui-

na implique, tambm, a distncia do reconhecimento de um efeito de escrita.

O Livro do Desassossego poderia assim descrever-se tambm como um livro da

conscincia da escrita, isto , um livro que perscruta os processos cognitivos,

perceptivos e verbais que permitem ao sujeito sentir-se e pensar-se atravs da

escrita. Se admitirmos, com Antnio Damsio (2010), que a conscincia autobio-

grfica um processo emergente complexo que pressupe os nveis da proto-

conscincia visceral, a que mantm a homeostase do organismo, e da conscin-

cia nuclear, a que mapeia as modificaes do organismo na interao com

objetos, poderamos descrever o Livro do Desassossego como uma fenomenologia

particular da emergncia de complexidade a que chamamos conscincia auto-

biogrfica no apenas de um eu que tem memria e um amplo sentimento de

si, mas de um eu que emerge no processo de se escrever.

Em lugar de tcnicas de imagiologia eletromagntica que permitam detetar os

fluxos de oxignio em certas reas cerebrais, a observabilidade dos processos de

produo de conscincia garantida pela escrita como sistema cognitivo expan-

dido que externaliza nas marcas sobre o papel o sujeito a sentir-se e a pensar-se.

A pronominalizao reflexa seria a expresso lingustica de um processo neuro-

lgico e psquico, e o ato de escrita um intensificador da linguagem como fen-

meno da conscincia. A retroao que fecha o circuito neurolgico e torna poss-

vel a conscincia, e portanto a conscincia da conscincia, surge mediada e

amplificada pelo processo de inscrio autogrfico e pelo sistema de enunciao

que, atravs dele, institui uma subjetividade.

a Mrio de S-Carneiro, datada de 14 de maro de 1916, encontramos referncias

que nos permitem descrever a processualidade interior e exterior dos atos de es-

crita. Podemos distinguir trs camadas nessa processualidade simblica e ma-

terial da escrita. Numa primeira camada, atravs de imagens evocativas podero-

sas, ocorre a representao de uma determinada conscincia do sujeito acerca

das suas emoes e sentimentos:

No jardim que entrevejo pelas janellas caladas do meu sequestro, atiraram

com todos os balouos para cima dos ramos de onde pendem; esto enrola-

dos muito alto; e assim nem a ida de mim fugido pode, na minha imagina-

o, ter balouos para esquecer a hora. (BNP/E3, 1143-35, Arquivo LdoD)

Numa segunda camada, d-se a presentificao do momento da escrita como

experincia textual da impossibilidade de interseo entre sujeito da enuncia-

o e sujeito do enunciado, isto , da impossibilidade de coincidncia entre ser

eu e escrever eu. A recordao do sentimento passado filtra o sentimento presen-

te e a forma particular dessa imaginao sobreposta passado-presente na cons-

cincia atual do corpo coincide com o momento de o sujeito se escrever:

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciencia do

meu corpo, que sou a creana triste em quem a Vida bateu. Puzeram-me a

um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mos o brinquedo partido que

me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia quatorze de Maro, s nove horas

e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto. (BNP/E3, 1143-35, Arquivo LdoD)

Por ltimo, numa terceira camada, a conscincia integrada daqueles dois pro-

cessos isto , da conscincia de si e da conscincia da escrita como parte da

conscincia de si evidencia-se, para o escritor, como um dos contedos do

Livro do Desassossego:

Figura 1. Fac-smile BNP/E3, 1143-35 (pormenor). Arquivo LdoD.

Figura 2. Fac-smile BNP/E3, 1143-35 (pormenor). Arquivo LdoD.

Figura 3. Fac-smile BNP/E3, 1143-35 (pormenor). Arquivo LdoD.

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Neste pargrafo, a observao-participante acerca do ato de escrita invoca a

aleatoriedade da cadeia de sensaes e percees que desencadearam a ao de

escrever como um efeito da reverberao do mundo imediato na conscincia. Ao

mesmo tempo, a notao do trabalho da escrita descreve etnograficamente a

cena da escrita [e] escrevo estas linhas, para dar um trabalho minha desa-

teno, [v]ou enchendo lentamente, a traos moles de lpis rombo, o papel

branco de embrulho de sanduches, que me forneceram no caf. Forma parti-

cular das inscries, disposio ntima e ritmo do corpo, instrumento e suporte

da escrita, lugar fsico e social onde decorre. Por ltimo, a oscilao repetida en-

tre o presente da observao e o presente da escrita mostra que a conscincia de

estar a escrever se torna num dos contedos principais da conscincia. A frase

[e] deixo de escrever porque deixo de escrever no mera autodescrio que

assinala o final o texto, sobretudo a evidncia do texto como registo da tempo-

ralidade de um ato presentificado de escrita que tem de se interromper, e em

cuja interrupo significante e significado parecem estar por breves instantes

sincronizados.

2. Sinais e signos da escrita

Quando consideramos os testemunhos como atos de escrita, isto , testemunhos

de aes que criam aquilo que escrevem, surgem duas hipteses para carateri-

zar o Livro do Desassossego. Por um lado, os testemunhos so sinais de um ato de

escrita particular, isto , sina