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  • NESH VERSUS ANVISA

    Prevalncia na Classificao Fiscal de Mercadorias na NCM/SH

    Milton Assis | Grupo Assist

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    NESH VERSUS ANVISA

    Prevalncia na Classificao Fiscal de Mercadorias na NCM/SH

    A polmica quanto prevalncia da NESH ou da ANVISA na veiculao de

    conceitos divergentes relativos a mercadorias com implicao na definio da NCM/SH

    foi objeto de posicionamento do Superior Tribunal de Justia (STJ), por sua Primeira

    Turma, que decidiu, por unanimidade, em um caso especfico, pela predominncia do

    conceito formulado pela Anvisa (Recurso Especial n 1.555.004 SC).

    O Tribunal Regional Federal da 4 Regio havia decidido pela prevalncia da

    NESH, no entendimento de que no cabe aplicar normas veiculadas pela ANVISA para

    definio de classificao fiscal, especialmente quando a NESH elucida dvidas.

    No recurso ao STJ o autor alega que a classificao atribuda pela ANVISA deve

    prevalecer para fins fiscais pelas seguintes razes, entre outras: a NESH foi revogada

    pelo Tratado do Mercosul, em que constam normas que determinam expressamente

    como o Brasil deve classificar tais sabonetes (para fins de unio aduaneira), bem como

    que cabe ANVISA introduzir essas regras no Brasil; que, de acordo com o artigo 110

    do CTN, o direito tributrio de sobreposio, no podendo contrariar definies de

    outros ramos do direito.

    A Primeira Turma do STJ fundamentou sua deciso favorvel ao contribuinte nos

    argumentos de que Incumbe ANVISA regulamentar, controlar e fiscalizar os produtos

    que envolvam a sade pblica; os agentes fiscais e aduaneiros no dispem de

    atribuies e no tm o conhecimento tcnico-cientfico necessrio para alterar a

    classificao de um produto; a classificao de um produto como cosmtico

    atribuio privativa da Autoridade Sanitria, fugindo competncia da Autoridade

    Aduaneira.

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    Conclui-se, pelo pronunciamento daquela Corte, que a ANVISA a nica

    instituio competente e tecnicamente preparada para definir classificao fiscal de

    mercadorias na NCM/SH para certos produtos que envolvam a sade pblica, no

    tendo os agentes da Receita Federal do Brasil conhecimento suficiente para essa

    atividade, de natureza tcnico-cientfica. Uma consequncia lgica dessa premissa

    que os agentes fiscais no conseguem compreender nem os esclarecimentos da NESH.

    Como resultante dessa incapacidade, ficaria sem efeito, para definio da NCM/SH de

    produtos conceituados pela ANVISA, a legislao que atribui RFB competncia para

    fiscalizao, soluo de consulta e julgamento em processos pertinentes!

    Esse ponto, por bvio, data venia do Egrgio STJ, dispensa outros comentrios!

    O produto objeto da controvrsia um tipo de sabonete, de marca ASEPXIA,

    fabricado pelo laboratrio Genomma Laboratories do Brasil Ltda, autor da ao. Este foi

    autuado pela RFB por aplicar ao produto o conceito de cosmtico, no cdigo NCM

    3401.11.90, enquanto o Fisco entendeu, escorado em orientaes da NESH, tratar-se

    de artigo da categoria de sabo medicinal, do cdigo NCM 3401.11.10, o qual, no

    entender do demandante, no se caracteriza como cosmtico, mas como

    medicamento. Diz o litigante ter fundamentado sua operao em conceituao

    veiculada pela ANVISA, detentora de competncia atribuda pelo Tratado do Mercosul,

    que ele acredita ter revogado a Conveno do Sistema Harmonizado.

    Segundo a NESH, so sabes medicinais os que contm substncias

    medicamentosas, tais como cido brico, cido saliclico, enxofre e sulfamidas. O

    sabonete em questo tinha em sua composio uma substncia chamada Antiacnil-3,

    resultante da combinao de cido saliclico e cido gliclico. A presena do cido

    saliclico levou o Fisco ao entendimento de tratar-se de sabo medicinal.

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    ANVISA E MERCOSUL

    Opondo-se ao do Fisco, o litigante sustenta que a ANVISA inclui na relao

    de cosmticos produto similar quele de sua fabricao, pela Resoluo n 7, de

    10/02/2015, que Dispe sobre os requisitos tcnicos para a regularizao de produtos

    de higiene pessoal, cosmticos e perfumes (...) e aprova Regulamento Tcnico que

    estabelece a definio, a classificao, os requisitos tcnicos, de rotulagem e

    procedimento eletrnico para regularizao de produtos de higiene pessoal, cosmticos

    e perfumes (...)

    Esse Regulamento Tcnico da ANVISA vincula-se a normas do Mercosul, pois, de

    acordo com o artigo 2 da citada Resoluo, incorpora ao ordenamento jurdico

    nacional as Resolues GMC Mercosul n 110/94, 26/2004 e 07/2005, que tratam,

    respectivamente, de Definio de Produtos Cosmticos", "Requisitos tcnicos

    Especficos para Produtos de Higiene Pessoal, Cosmticos e Perfumes" e "Classificao

    de Produtos de Higiene Pessoal, Cosmticos e Perfumes".

    GMC o Grupo Mercosul, que tem funo executiva no organismo

    intergovernamental. Atua atravs de resolues de aplicao obrigatria para os

    Estados-Membros, conforme o artigo 15 do Decreto Legislativo 188/2005.

    No seu Anexo I Definies, o mencionado Regulamento Tcnico veicula a

    seguinte conceituao, em conformidade com a Resoluo GMC Mercosul n 110/94:

    Produtos de Higiene Pessoal, Cosmticos e Perfumes: so preparaes

    constitudas por substncias naturais ou sintticas, de uso externo nas

    diversas partes do corpo humano, pele, sistema capilar, unhas, lbios,

    rgos genitais externos, dentes e membranas mucosas da cavidade oral,

    com o objetivo exclusivo ou principal de limp-los, perfum-los, alterar

    sua aparncia e ou corrigir odores corporais e ou proteg-los ou mant-

    los em bom estado.

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    No Anexo II Classificao de produtos de higiene pessoal, cosmticos e perfumes, o

    Regulamento Tcnico divide esses produtos em dois grupos, e os define, conforme

    segue, adotando aqui tambm a Resoluo GMC Mercosul n 110/95.

    Definio de Produtos Grau 1: so produtos de higiene pessoal

    cosmticos e perfumes cuja formulao cumpre com a definio adotada

    na Res. GMC N 110/94, que se caracterizam por possurem propriedades

    bsicas ou elementares, cuja comprovao no seja inicialmente

    necessria e no requeiram informaes detalhadas quanto ao seu modo

    de usar e suas restries de uso, devido s caractersticas intrnsecas do

    produto, conforme mencionado na lista indicativa constante do Anexo II.

    Definio de Produtos Grau 2: so produtos de higiene pessoal

    cosmticos e perfumes cuja formulao cumpre com a definio adotada

    na Res. GMC N 110/94, que possuem indicaes especficas cujas

    caractersticas exigem comprovao de segurana e/ou eficcia, bem

    como informaes e cuidados, modo e restries de uso, conforme

    mencionado na lista indicativa constante do Anexo III. (Na realidade, no

    Anexo II).

    Observe-se que os produtos de Grau 1, por terem propriedades bsicas, no so

    objeto de controle rigoroso quanto s condies de segurana e/ou eficcia e quanto

    aos cuidados e restries de uso, o que ocorre em relao aos produtos de Grau 2.

    Produto com propriedade de defender a pele contra problemas com acne est

    expressamente citado no Anexo II do Regulamento Tcnico II) LISTA DE TIPOS DE

    PRODUTOS DE GRAU 2, no item 43, nesses termos:

    43. Produto para pele acneica.

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    ESPECIFICIDADE DE FUNES DA ANVISA E DA NCM/SH

    Ressalte-se que o papel cumprido pela ANVISA, ao incorporar ao ordenamento

    jurdico nacional Resolues do Mercosul, o de regular produtos cuja aplicao pode

    afetar a sade, estabelecendo critrios mais rigorosos ou menos rigorosos quanto ao

    seu modo de usar e suas restries de uso, nos quesitos de segurana e/ou eficcia,

    bem como informaes e cuidados, modo e restries de uso. Tem, pois, funo

    especfica de proteo sade.

    Essa atribuio, exercida em conformidade com a Resoluo GMC Mercosul n

    110/95, corroborada pela legislao nacional.

    Assim, a Lei n 9.782/1999, que define o Sistema Nacional de Vigilncia Sanitria

    e cria a Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria (ANVISA), estabeleceu que compete

    Unio, no mbito do Sistema Nacional de Vigilncia Sanitria, normatizar, controlar e

    fiscalizar produtos, substncia e servios de interesse para a sade, incumbindo

    Agncia, respeitada a legislao em vigor, regulamentar, controlar e fiscalizar os

    produtos e servios que envolvam risco sade pblica.

    A regulamentao de produtos pela ANVISA tem, pois, a funo especfica de

    defesa da sade pblica. Sua competncia legal est restrita a essa atribuio. Da ser

    designada como Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria. Tem funo diversa da

    atribuda Nomenclatura do Sistema Harmonizado, assim como da Nomenclatura do

    Mercosul (NCM/SH), que foram criadas para estabelecimento de uma linguagem

    comum e uniforme para facilitao das relaes entre os pases no mbito comercial e

    estatstico, sendo utilizada tambm para fins de regulao de procedimentos

    aduaneiros e de tributao. Quando aquele rgo de vigilncia sanitria define um

    conceito e classifica um produto no pode estar produzindo o efeito prprio da

    desi