Nascentes da sub-bacia hidrográfica do córrego Caeté/MT: estudo

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<ul><li><p> Nascentes da sub-bacia hidrogrfica do crrego Caet/MT: estudo do uso, topografia e solo como subsdio para gesto </p><p>Jos Carlos de Oliveira Soares1 Clia Alves de Souza2 </p><p>Maria Aparecida Pierangeli3 </p><p>Resumo </p><p>Este estudo buscou avaliar a presso que as atividades humanas decorrentes do uso da terra exercem sobre nascentes. A pesquisa ocorreu em trs nascentes da sub-bacia hidrogrfica do crrego Caet, destas, as duas primeiras localizam-se na zona rural do distrito de Sonho Azul, Mirassol D Oeste - MT, e a terceira no permetro urbano de So Jos dos Quatro Marcos-MT. O mtodo fundamentou-se na interpretao da fisiologia da paisagem, aplicada atravs de atividades de campo. O resultado da pesquisa mostrou que a nascente do crrego Carnaba est mais preservada, em funo da menor proporo das atividades econmicas no entorno. A nascente que se encontra mais pressionada pelas atividades econmicas a nascente do crrego Z Cassete, onde o cultivo da cana-de-acar tem levado reduo da fertilidade do solo, requerendo medidas imediatas de recuperao. A nascente do crrego Terer j perdeu suas caractersticas originais em funo da urbanizao. </p><p>Recebimento: 22/5/2009 Aceite: 11/10/2009 1 Professor assistente do Departamento de Geografia, Universidade do Estado de Mato Grosso. Avenida So Joo, Cceres-MT.Email: zecarlos.geografia@hotmail.com 2 Professora adjunta do Departamento de Geografia, Universidade do Estado de Mato Grosso. Avenida So Joo, Cceres-MT.Email: celiaalvesgeo@globo.com 3 Professora adjunta do Departamento de Zootecnia, Universidade do Estado de Mato Grosso. Br 174, km 209, Pontes e Lacerda-MT, Brasil. Email: mapp@unemat.br </p></li><li><p>Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional </p><p> G&amp;DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil </p><p>23 </p><p>Palavras-chave: Nascentes, presso antrpica, crrego Caet, gesto ambiental. </p><p>Hydrographic sub-basin springs from Caet/MT stream: were topography and attributes of the ground </p><p>Abstract </p><p>This study has tried to evaluate the pressure decurrent of the human beings activities by using the land exert on springs. The research has occurred in three hydrographic sub-basin from the Caet stream, from these ones, the two first ones are situated on the country zone from the Sonho Azul district, Mirassol Mirassol DOeste - Mt, and a third one on the urban perimeter from So Jose dos Quatro MArcos-MT. The method was based on the interpretation of the lanscape physiology , applied through activities of field. The result of the research showed that the spring from the Carnaba stream is more preserved, because of the lesser ratio of the economic activities around this place. The spring which is more pressured by the economic activities is the spring from Z Cassette stream. where the sugar cane culture has led to the reduction of the soil fertility, requiring urgent recovery measured. The spring from the Terer stream has already lost its original characteristics because of the urbanization. Keywords: Springs, antrpica pressure, Caet stream, ambient management. </p></li><li><p>Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional </p><p> G&amp;DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil </p><p>24 </p><p> Introduo </p><p>Embora em diferentes formas, escalas e magnitude, o ser humano vem, ao longo da histria, efetuando importantes alteraes sobre o meio ambiente. Esse processo intensificou especialmente depois do acontecimento da Revoluo Industrial, quando os elementos tcnicos passaram a mediar cada vez mais a relao dos homens entre si e, destes, com a natureza. Como conseqncias desse processo agravaram-se os problemas ambientais e essa temtica tornou-se pauta de ordem no debate atual. </p><p>O uso da terra no estado de Mato Grosso voltado para o desenvolvimento das atividades econmicas, historicamente, esteve ligado s prticas da agropecuria desenvolvida em grandes propriedades. Nesse aspecto, a pecuria foi durante muito tempo o principal item da produo ocorrida no estado, manejada em grandes extenses de terra e tendo como base o sistema extensivo, especialmente no Pantanal Mato-grossense. Porm, nos ltimos anos, com a abertura da fronteira agrcola na regio amaznica, e atravs dela, com a insero de novas tecnologias de correo dos solos do Cerrado, esse cenrio ganhou forma nova com o crescimento da produo agrcola que, por sua vez, tambm redimensionou as formas de uso da terra no estado. Esse processo de rearticulao da forma de uso da terra em Mato Grosso est fortemente ligado ao fluxo migratrio que aqui ocorreu com a vinda de pessoas de outras regies do pas. </p><p>Na poro sudoeste de Mato Grosso, nos municpios que hoje fazem parte da microrregio do Jauru, tais como Mirassol D Oeste e So Jos dos Quatro Marcos, os fluxos migratrios comearam a ocorrer por volta da dcada de 60 e intensificaram partir dos nos 70, graas aos programas de incentivo ocupao promovido pelos governos federal e estadual nas terras que at ento eram devolutas. Atravs da venda de terras a baixo preo, o Estado intencionava, de fato, a insero desta regio no cenrio produtivo nacional. Nesse perodo, a venda de terras representava para o Estado, a sada do seu estgio de territrio pouco povoado, semi-isolado, no integrado ao restante do pas. Assim, esperava-se com a venda de terras povoar os designados espaos-vazios bem como absorver lucrativas somas para a economia do Estado (HEINST, 2003). A forma como ocorreu a entrada desses migrantes na regio, sem nenhuma condio de infra-estrutura logstica e de tecnologias, expem esse novo dono da terra uma relao de enfrentamento hostil com a natureza. Era preciso </p></li><li><p>Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional </p><p> G&amp;DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil </p><p>25 </p><p>desmatar e queimar para sobreviver, garantir a sobrevivncia e as aspiraes econmicas que motivaram a sua vinda, a qualquer custo ambiental. desse enfrentamento com a natureza, que se modelou o incio do uso da terra na sub-bacia hidrogrfica do crrego Caet. Esse processo cristalizou, j no incio da ocupao, a presso humana sobre as nascentes e os canais fluviais ali existentes. </p><p>Inicialmente o processo de ocupao dessa regio esteve calcado nas prticas agrcolas voltados para a agricultura familiar, mais tarde, essa prtica reorientou-se para o uso da terra nas culturas comerciais, especialmente a monocultura da cana e criao de gado. Desconsiderando as especificidades do lugar, migrantes incentivados pela propaganda oficial do governo devastaram imensas reas de vegetao nativa para introduzir culturas comerciais, entre elas, a soja, algodo, cana-de-acar, gado de corte, entre outros (FREITAS, 2005). Paralelamente ao uso da terra para a prtica agropecuria, ocorreu o processo de urbanizao e, igualmente ao que se observou no meio rural, esse processo iniciou-se s margens dos cursos d gua, muito significativos para o abastecimento da populao. </p><p>Os padres de expanso urbanas apresentam fortes repercusses ambientais, em especial sobre os mananciais de gua, suprimindo-lhes os ecossistemas e as ltimas reservas de vegetao natural e criando situaes de escassez, mesmo em locais com grande disponibilidade natural. Seu potencial de interferncia particularmente agudo nas grandes cidades, onde todos os seus efeitos so multiplicados. (TAGININ E MAGALHES, 2001, p. 04). </p><p>Como em qualquer outra organizao sistmica, a paisagem do lugar reflete o resultado de mltiplas foras que se convergem para dar significado ao que se observa na paisagem atual. Corroborando com essa assertiva, Christofoletti (1982) afirma que considerando a multiplicidade de fatores, foras, elementos e relaes que se encontram nas organizaes espaciais, o nmero de possveis organizaes que ocorrem no ambiente praticamente infinito, pois cada arranjo representa uma possibilidade. </p><p>Mais do que em qualquer outra unidade espacial, no mbito da bacia hidrogrfica que essa articulao de fatores e foras se torna mais evidente. Desses fatores e foras participam os aspectos do relevo, da vegetao, do solo, das diversas formas como o ser humano se organiza nos lugares, entre outros. </p><p>Muito se tem falado da preservao dos recursos naturais, especialmente no que tange s bacias hidrogrficas. No obstante, a presso exercida pelas atividades humanas sobre esses recursos </p></li><li><p>Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional </p><p> G&amp;DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil </p><p>26 </p><p>incontestvel, principalmente nos casos da manuteno da vegetao original no entorno das nascentes e ao longo dos cursos d gua. Segundo Lima (1989), a presena da vegetao contribui tanto para diminuir a ocorrncia do escoamento superficial, que pode causar eroso e arraste de nutrientes e sedimentos para os cursos d' gua, quanto para desempenhar um efeito de filtragem superficial e subsuperficial dos fluxos de gua para os canais. </p><p>Outro fator no menos importante no equilbrio de foras no contexto da bacia hidrogrfica est relacionado declividade. A declividade do terreno expressa como a variao de altitude entre dois pontos do terreno, em relao distncia que os separa. Em porcentagem, significa a relao do ngulo formado entre a distncia horizontal e vertical entre esses dois pontos numa poro de um terreno qualquer. Essa anlise importante por que, entre outras coisas, permite perceber a relao do relevo com a drenagem, infiltrao da gua, taxa de sedimentao etc. (GARCIA &amp; PIEDADE, 1984). No mesmo sentido, Ray (1963) cita que cada padro de relevo est associado a um processo geomorfolgico especfico de eroso ou deposio e reflete a origem e o carter geral da paisagem. </p><p>Em relao aos aspectos pedolgicos, preciso ressaltar, inicialmente, o papel que as variveis qumicas e fsicas do solo desempenham no contexto de suas caracterizaes e potencial de uso em um determinado setor do terreno. Ao lado dessas variveis, influem no solo aspectos geogrficos aqui j mencionados, como o caso da topografia. Para Smith &amp; Aandahl (1957), as unidades de solo no ocorrem ao acaso na paisagem, mas possuem um padro de distribuio relacionado forma do terreno, ao material de origem do solo, influncia da vegetao, ao tempo e maneira pela qual o homem as tem utilizado. </p><p>Diante da abordagem apresentada, questiona-se sobre os efeitos que as variveis naturais, como as caractersticas do solo, aspectos geomorfolgicos e fitogeogrficos, em seu aspecto original e quando descaracterizados em funo do uso da terra pelo ser humano, podem exercer sobre os recursos hdricos, em especial nas nascentes. A hiptese os efeitos dessas variveis naturais e humanas sobre as nascentes so proporcionais s condies do uso da terra, caracterizado pelo modelo de interferncia nos recursos naturais, no nvel de detalhe da escala local. </p><p>Dessa forma, com base na perspectiva geo-sistmica, descrito por Mendona (1997), esta pesquisa objetivou levantar o papel que as presses decorrentes das atividades humanas, atravs do uso e </p></li><li><p>Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional </p><p> G&amp;DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil </p><p>27 </p><p>ocupao do solo, combinadas com circunstncias do meio fsico/natural (pedologia, topografia e vegetao), desempenham sobre as caractersticas atuais das nascentes dos crregos Z Cassete, Carnaba e Terer, este ltimo em ambiente urbano. Material e mtodos </p><p>A rea de estudo encontra-se trs nascentes da sub-bacia hidrogrfica do crrego Caet (Figura 01), localiza-se no sudoeste de Mato Grosso. As duas nascentes rurais Z Cassete e Carnaba encontram-se no Distrito de Sonho Azul, no municpio Mirassol do Oeste. A nascente Z Cassete localiza-se nas coordenadas de 15 48 29 de latitude Sul e 58 08 19 de longitude Oeste e a nascente Carnaba localiza-se nas coordenadas de 15 46 25 de latitude sul e 58 07 29 de longitude oeste. A nascente do crrego Terer est localizada no permetro urbano do municpio de So Jos dos Quatro Marcos, nas coordenadas geogrficas de 15 38 03 de latitude sul e 58 10 14 de longitude oeste. </p><p> Figura 1: rea de localizao da bacia hidrogrfica do ribeiro Caet (N1 Z Cassete; N2 Carnaiba; N3 Terer). Adaptado de ARAJO (2008). </p></li><li><p>Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional </p><p> G&amp;DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil </p><p>28 </p><p>O princpio metodolgico teve por base a teoria do Geossistema, proposto por Sotchava (1962) e descrito no trabalho de Mendona (1997) que, utilizando os princpios sistmicos, aliada a noo de paisagem, procura analisar integradamente o complexo-fsico-geogrfico, ou seja, a conexo da natureza com a sociedade humana. Com base nesse princpio, o tratamento metodolgico fundamentou-se no mtodo de interpretao da fisiologia da paisagem, arguida por Ab Saber (1969). Esse mtodo propicia que se estude a dinmica dos processos morfodinmicos atuantes na paisagem para conhecer a funcionalidade na sua totalidade. Atravs de equipamentos especficos, obtm-se informaes sobre o comportamento dos elementos do clima, tipos do solo, papel da cobertura vegetal, entre outros. Essa proposio de Ab Saber (1969), com fundamento nos princpio da anlise geossistmica, que considera o meio como produto das interaes humanas, mostra-se bastante adequada, pois permite entender o papel que os fatores fsicos-geogrficos exercem sobre as nascentes e at que ponto corroboram para definir a vulnerabilidade destas em relao dinmica ambiental e, partir destes dados, instruir a otimizao do uso desses espaos. </p><p>Uso/ocupao do solo </p><p>O estudo do uso atual foi realizado atravs de trabalho de campo, descrita por Compiane &amp; Carneiro (1993) como uma atividade que permite ao pesquisador resolver determinados problemas relacionados sua curiosidade, medida que para essa observao elabore hipteses a serem pesquisadas e estruture uma seqncia de observaes e interpretaes, decidindo as estratgias para valid-las, avaliando nesse sentido, a necessidade de recorrer a literatura especializada. Assim, em campo buscou-se observar o processo de ocupao de cada rea, procedendo anotaes dos aspectos evidentes na paisagem, especialmente queles relacionados s atividades scio-econmicas ali desenvolvidas. Para completar essas informaes, buscou-se ainda dados disponibilizados pela Secretaria de Planejamento do Estado de Mato Grosso (SEPLAN) sobre os municpios onde a rea de estudo est localizada. </p><p>Aspectos topogrficos </p></li><li><p>Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional </p><p> G&amp;DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil </p><p>29 </p><p> A declividade foi medida utilizando-se mangueira de nvel, a partir das zonas de interflvio no terreno at o ponto de afloramento e/ ou zona de encharcamento. Chama-se zona de interflvio a delimitao do terreno onde se forma os pequenos abaciamentos. As classes de declividade foram reconhecidas atravs dos parmetros apontados por Garcia &amp; Piedade (1984), (Quadro 1). </p><p>Quadro 1: Classes de relevo em funo da declividade do terreno. </p><p>Classe Declividade (%) Interpretao </p><p>A &lt; 3 Fraca B 3 a 6 Moderada C 6 a 12 Moderada a forte D 12 a 20 Forte E 20 a 40 Muito forte F &gt; 40 Extremamente forte </p><p> A declividade foi observada em intervalos de 10 metros. De posse desses...</p></li></ul>