Nascentes da sub-bacia hidrográfica do córrego Caeté/MT: estudo ...

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Nascentes da sub-bacia hidrogrfica do crrego Caet/MT: estudo do uso, topografia e solo como subsdio para gesto Jos Carlos de Oliveira Soares1 Clia Alves de Souza2 Maria Aparecida Pierangeli3 Resumo Este estudo buscou avaliar a presso que as atividades humanas decorrentes do uso da terra exercem sobre nascentes. A pesquisa ocorreu em trs nascentes da sub-bacia hidrogrfica do crrego Caet, destas, as duas primeiras localizam-se na zona rural do distrito de Sonho Azul, Mirassol D Oeste - MT, e a terceira no permetro urbano de So Jos dos Quatro Marcos-MT. O mtodo fundamentou-se na interpretao da fisiologia da paisagem, aplicada atravs de atividades de campo. O resultado da pesquisa mostrou que a nascente do crrego Carnaba est mais preservada, em funo da menor proporo das atividades econmicas no entorno. A nascente que se encontra mais pressionada pelas atividades econmicas a nascente do crrego Z Cassete, onde o cultivo da cana-de-acar tem levado reduo da fertilidade do solo, requerendo medidas imediatas de recuperao. A nascente do crrego Terer j perdeu suas caractersticas originais em funo da urbanizao. Recebimento: 22/5/2009 Aceite: 11/10/2009 1 Professor assistente do Departamento de Geografia, Universidade do Estado de Mato Grosso. Avenida So Joo, Cceres-MT.Email: zecarlos.geografia@hotmail.com 2 Professora adjunta do Departamento de Geografia, Universidade do Estado de Mato Grosso. Avenida So Joo, Cceres-MT.Email: celiaalvesgeo@globo.com 3 Professora adjunta do Departamento de Zootecnia, Universidade do Estado de Mato Grosso. Br 174, km 209, Pontes e Lacerda-MT, Brasil. Email: mapp@unemat.br Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 23 Palavras-chave: Nascentes, presso antrpica, crrego Caet, gesto ambiental. Hydrographic sub-basin springs from Caet/MT stream: were topography and attributes of the ground Abstract This study has tried to evaluate the pressure decurrent of the human beings activities by using the land exert on springs. The research has occurred in three hydrographic sub-basin from the Caet stream, from these ones, the two first ones are situated on the country zone from the Sonho Azul district, Mirassol Mirassol DOeste - Mt, and a third one on the urban perimeter from So Jose dos Quatro MArcos-MT. The method was based on the interpretation of the lanscape physiology , applied through activities of field. The result of the research showed that the spring from the Carnaba stream is more preserved, because of the lesser ratio of the economic activities around this place. The spring which is more pressured by the economic activities is the spring from Z Cassette stream. where the sugar cane culture has led to the reduction of the soil fertility, requiring urgent recovery measured. The spring from the Terer stream has already lost its original characteristics because of the urbanization. Keywords: Springs, antrpica pressure, Caet stream, ambient management. Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 24 Introduo Embora em diferentes formas, escalas e magnitude, o ser humano vem, ao longo da histria, efetuando importantes alteraes sobre o meio ambiente. Esse processo intensificou especialmente depois do acontecimento da Revoluo Industrial, quando os elementos tcnicos passaram a mediar cada vez mais a relao dos homens entre si e, destes, com a natureza. Como conseqncias desse processo agravaram-se os problemas ambientais e essa temtica tornou-se pauta de ordem no debate atual. O uso da terra no estado de Mato Grosso voltado para o desenvolvimento das atividades econmicas, historicamente, esteve ligado s prticas da agropecuria desenvolvida em grandes propriedades. Nesse aspecto, a pecuria foi durante muito tempo o principal item da produo ocorrida no estado, manejada em grandes extenses de terra e tendo como base o sistema extensivo, especialmente no Pantanal Mato-grossense. Porm, nos ltimos anos, com a abertura da fronteira agrcola na regio amaznica, e atravs dela, com a insero de novas tecnologias de correo dos solos do Cerrado, esse cenrio ganhou forma nova com o crescimento da produo agrcola que, por sua vez, tambm redimensionou as formas de uso da terra no estado. Esse processo de rearticulao da forma de uso da terra em Mato Grosso est fortemente ligado ao fluxo migratrio que aqui ocorreu com a vinda de pessoas de outras regies do pas. Na poro sudoeste de Mato Grosso, nos municpios que hoje fazem parte da microrregio do Jauru, tais como Mirassol D Oeste e So Jos dos Quatro Marcos, os fluxos migratrios comearam a ocorrer por volta da dcada de 60 e intensificaram partir dos nos 70, graas aos programas de incentivo ocupao promovido pelos governos federal e estadual nas terras que at ento eram devolutas. Atravs da venda de terras a baixo preo, o Estado intencionava, de fato, a insero desta regio no cenrio produtivo nacional. Nesse perodo, a venda de terras representava para o Estado, a sada do seu estgio de territrio pouco povoado, semi-isolado, no integrado ao restante do pas. Assim, esperava-se com a venda de terras povoar os designados espaos-vazios bem como absorver lucrativas somas para a economia do Estado (HEINST, 2003). A forma como ocorreu a entrada desses migrantes na regio, sem nenhuma condio de infra-estrutura logstica e de tecnologias, expem esse novo dono da terra uma relao de enfrentamento hostil com a natureza. Era preciso Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 25 desmatar e queimar para sobreviver, garantir a sobrevivncia e as aspiraes econmicas que motivaram a sua vinda, a qualquer custo ambiental. desse enfrentamento com a natureza, que se modelou o incio do uso da terra na sub-bacia hidrogrfica do crrego Caet. Esse processo cristalizou, j no incio da ocupao, a presso humana sobre as nascentes e os canais fluviais ali existentes. Inicialmente o processo de ocupao dessa regio esteve calcado nas prticas agrcolas voltados para a agricultura familiar, mais tarde, essa prtica reorientou-se para o uso da terra nas culturas comerciais, especialmente a monocultura da cana e criao de gado. Desconsiderando as especificidades do lugar, migrantes incentivados pela propaganda oficial do governo devastaram imensas reas de vegetao nativa para introduzir culturas comerciais, entre elas, a soja, algodo, cana-de-acar, gado de corte, entre outros (FREITAS, 2005). Paralelamente ao uso da terra para a prtica agropecuria, ocorreu o processo de urbanizao e, igualmente ao que se observou no meio rural, esse processo iniciou-se s margens dos cursos d gua, muito significativos para o abastecimento da populao. Os padres de expanso urbanas apresentam fortes repercusses ambientais, em especial sobre os mananciais de gua, suprimindo-lhes os ecossistemas e as ltimas reservas de vegetao natural e criando situaes de escassez, mesmo em locais com grande disponibilidade natural. Seu potencial de interferncia particularmente agudo nas grandes cidades, onde todos os seus efeitos so multiplicados. (TAGININ E MAGALHES, 2001, p. 04). Como em qualquer outra organizao sistmica, a paisagem do lugar reflete o resultado de mltiplas foras que se convergem para dar significado ao que se observa na paisagem atual. Corroborando com essa assertiva, Christofoletti (1982) afirma que considerando a multiplicidade de fatores, foras, elementos e relaes que se encontram nas organizaes espaciais, o nmero de possveis organizaes que ocorrem no ambiente praticamente infinito, pois cada arranjo representa uma possibilidade. Mais do que em qualquer outra unidade espacial, no mbito da bacia hidrogrfica que essa articulao de fatores e foras se torna mais evidente. Desses fatores e foras participam os aspectos do relevo, da vegetao, do solo, das diversas formas como o ser humano se organiza nos lugares, entre outros. Muito se tem falado da preservao dos recursos naturais, especialmente no que tange s bacias hidrogrficas. No obstante, a presso exercida pelas atividades humanas sobre esses recursos Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 26 incontestvel, principalmente nos casos da manuteno da vegetao original no entorno das nascentes e ao longo dos cursos d gua. Segundo Lima (1989), a presena da vegetao contribui tanto para diminuir a ocorrncia do escoamento superficial, que pode causar eroso e arraste de nutrientes e sedimentos para os cursos d' gua, quanto para desempenhar um efeito de filtragem superficial e subsuperficial dos fluxos de gua para os canais. Outro fator no menos importante no equilbrio de foras no contexto da bacia hidrogrfica est relacionado declividade. A declividade do terreno expressa como a variao de altitude entre dois pontos do terreno, em relao distncia que os separa. Em porcentagem, significa a relao do ngulo formado entre a distncia horizontal e vertical entre esses dois pontos numa poro de um terreno qualquer. Essa anlise importante por que, entre outras coisas, permite perceber a relao do relevo com a drenagem, infiltrao da gua, taxa de sedimentao etc. (GARCIA & PIEDADE, 1984). No mesmo sentido, Ray (1963) cita que cada padro de relevo est associado a um processo geomorfolgico especfico de eroso ou deposio e reflete a origem e o carter geral da paisagem. Em relao aos aspectos pedolgicos, preciso ressaltar, inicialmente, o papel que as variveis qumicas e fsicas do solo desempenham no contexto de suas caracterizaes e potencial de uso em um determinado setor do terreno. Ao lado dessas variveis, influem no solo aspectos geogrficos aqui j mencionados, como o caso da topografia. Para Smith & Aandahl (1957), as unidades de solo no ocorrem ao acaso na paisagem, mas possuem um padro de distribuio relacionado forma do terreno, ao material de origem do solo, influncia da vegetao, ao tempo e maneira pela qual o homem as tem utilizado. Diante da abordagem apresentada, questiona-se sobre os efeitos que as variveis naturais, como as caractersticas do solo, aspectos geomorfolgicos e fitogeogrficos, em seu aspecto original e quando descaracterizados em funo do uso da terra pelo ser humano, podem exercer sobre os recursos hdricos, em especial nas nascentes. A hiptese os efeitos dessas variveis naturais e humanas sobre as nascentes so proporcionais s condies do uso da terra, caracterizado pelo modelo de interferncia nos recursos naturais, no nvel de detalhe da escala local. Dessa forma, com base na perspectiva geo-sistmica, descrito por Mendona (1997), esta pesquisa objetivou levantar o papel que as presses decorrentes das atividades humanas, atravs do uso e Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 27 ocupao do solo, combinadas com circunstncias do meio fsico/natural (pedologia, topografia e vegetao), desempenham sobre as caractersticas atuais das nascentes dos crregos Z Cassete, Carnaba e Terer, este ltimo em ambiente urbano. Material e mtodos A rea de estudo encontra-se trs nascentes da sub-bacia hidrogrfica do crrego Caet (Figura 01), localiza-se no sudoeste de Mato Grosso. As duas nascentes rurais Z Cassete e Carnaba encontram-se no Distrito de Sonho Azul, no municpio Mirassol do Oeste. A nascente Z Cassete localiza-se nas coordenadas de 15 48 29 de latitude Sul e 58 08 19 de longitude Oeste e a nascente Carnaba localiza-se nas coordenadas de 15 46 25 de latitude sul e 58 07 29 de longitude oeste. A nascente do crrego Terer est localizada no permetro urbano do municpio de So Jos dos Quatro Marcos, nas coordenadas geogrficas de 15 38 03 de latitude sul e 58 10 14 de longitude oeste. Figura 1: rea de localizao da bacia hidrogrfica do ribeiro Caet (N1 Z Cassete; N2 Carnaiba; N3 Terer). Adaptado de ARAJO (2008). Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 28 O princpio metodolgico teve por base a teoria do Geossistema, proposto por Sotchava (1962) e descrito no trabalho de Mendona (1997) que, utilizando os princpios sistmicos, aliada a noo de paisagem, procura analisar integradamente o complexo-fsico-geogrfico, ou seja, a conexo da natureza com a sociedade humana. Com base nesse princpio, o tratamento metodolgico fundamentou-se no mtodo de interpretao da fisiologia da paisagem, arguida por Ab Saber (1969). Esse mtodo propicia que se estude a dinmica dos processos morfodinmicos atuantes na paisagem para conhecer a funcionalidade na sua totalidade. Atravs de equipamentos especficos, obtm-se informaes sobre o comportamento dos elementos do clima, tipos do solo, papel da cobertura vegetal, entre outros. Essa proposio de Ab Saber (1969), com fundamento nos princpio da anlise geossistmica, que considera o meio como produto das interaes humanas, mostra-se bastante adequada, pois permite entender o papel que os fatores fsicos-geogrficos exercem sobre as nascentes e at que ponto corroboram para definir a vulnerabilidade destas em relao dinmica ambiental e, partir destes dados, instruir a otimizao do uso desses espaos. Uso/ocupao do solo O estudo do uso atual foi realizado atravs de trabalho de campo, descrita por Compiane & Carneiro (1993) como uma atividade que permite ao pesquisador resolver determinados problemas relacionados sua curiosidade, medida que para essa observao elabore hipteses a serem pesquisadas e estruture uma seqncia de observaes e interpretaes, decidindo as estratgias para valid-las, avaliando nesse sentido, a necessidade de recorrer a literatura especializada. Assim, em campo buscou-se observar o processo de ocupao de cada rea, procedendo anotaes dos aspectos evidentes na paisagem, especialmente queles relacionados s atividades scio-econmicas ali desenvolvidas. Para completar essas informaes, buscou-se ainda dados disponibilizados pela Secretaria de Planejamento do Estado de Mato Grosso (SEPLAN) sobre os municpios onde a rea de estudo est localizada. Aspectos topogrficos Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 29 A declividade foi medida utilizando-se mangueira de nvel, a partir das zonas de interflvio no terreno at o ponto de afloramento e/ ou zona de encharcamento. Chama-se zona de interflvio a delimitao do terreno onde se forma os pequenos abaciamentos. As classes de declividade foram reconhecidas atravs dos parmetros apontados por Garcia & Piedade (1984), (Quadro 1). Quadro 1: Classes de relevo em funo da declividade do terreno. Classe Declividade (%) Interpretao A < 3 Fraca B 3 a 6 Moderada C 6 a 12 Moderada a forte D 12 a 20 Forte E 20 a 40 Muito forte F > 40 Extremamente forte A declividade foi observada em intervalos de 10 metros. De posse desses dados, utilizando-se da equao d(%) = DN/DH x 100, onde a porcentagem do declive (d) igual a distncia do nvel (DN) sobre a distncia horizontal (DH), calculou-se as declividades das zonas de abaciamentos e mensurou-as como fatores de presso exercidos sobre os afloramentos de gua. Situao da cobertura vegetal O estudo da vegetao buscou avaliar quatro aspectos: A cobertura vegetal nativa dos pontos estudados antes da sua retirada. Para isso, buscaram-se informaes com moradores antigos na localidade e efetuou-se levantamento atravs da comparao com fragmentos de vegetao na mesma unidade de paisagem, prxima do local de estudo. Identificao das espcies vegetais arbreas presentes no entorno das nascentes. A densidade mdia da vegetao ainda existente no entorno da nascente, relacionando esta informao com a legislao pertinente (Cdigo Florestal, Lei n 4.771/65). Para proceder essa anlise, considerou-se a frmula de densidade [ind./m], Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 30 n ind.=rea Onde: = densidade mdia da vegetao; n ind = nmero de indivduos; rea = rea em m. Para quantificar o nmero de indivduos por rea, considerou-se apenas as unidades arbreas lenhosas com ramificaes que sobressassem do caule a partir de 50 cm do nvel do solo (YAMAMOTO et al, 2005). Porcentagem de proteo e vulnerabilidade da nascente, propiciado pela cobertura vegetal do entorno, partir dos parmetro do art. 2. do Cdigo Florestal (Lei n. 4.771/65). Considerando que, dado s necessidades que o ser humano tem de intervir na natureza para subtrair seus recursos, o comando legal mencionado a tese conclusiva da sociedade brasileira para que se tenha 100 % de xito de proteo desse atributo ambiental. Neste sentido, para chegar a essa porcentagem, adotou-se o seguinte procedimento matemtico: VRPRP=LPI Onde: PRP= porcentagem real de proteo VR= densidade mdia de vegetao real do entorno LPI= limite de densidade de vegetao ideal. O limite de densidade mdia de vegetao ideal, obtido da densidade mdia de vegetao, por m, em rea da mesma unidade de paisagem no entorno que, num raio de 50 m, ainda guarda todas as caractersticas da vegetao original, sendo esta, ento, a densidade mdia de vegetao necessria para guardar 100% de proteo da nascente, partir do componente arbreo. A densidade mdia de vegetao num raio de 50 m obtido pelo nmero de indivduos num raio de 50 m, dividido pela respectiva rea. Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 31 Aspectos pedolgicos Para analisar os aspectos pedolgicos do entorno dos afloramentos de gua avaliou-se alguns atributos qumicos e fsicos do solo de cada nascente. A coleta teve por base um limite no raio de 50 metros. A escolha dessa medida fundamentouse no Cdigo Florestal (Lei n. 4.771/65) que determina esse raio como rea de preservao permanente, em caso de nascentes. Considerando esse raio de coleta, as amostras foram retiradas em lados diversos das nascentes, tendo em vista declividades e diferentes formas de uso. Em cada rea foram coletadas trs amostras de solo nas profundidades de 0 a 0,20 e 0,20 a 0,40 m para anlise de parmetros relacionados fertilidade e para determinao da textura e duas amostras indeformadas nas profundidade de 0 a 0,10 e 0,10 a 0,20 cm para determinao da densidade do solo. Todas as determinaes relativas fertilidade do solo foram realizadas conforme Embrapa (1997) : textura (mtodo da pipeta); Ca2+; Mg2+ e Al3+ (KCl 1 mol L-1); acidez potencial (soluo SMP); P e K+ (Mehlich 1), sendo o P quantificado por colorimetria, aps reao com molibidato de amnio; carbono orgnico (CO) (oxidao via mida com K2Cr2O7 0,4 mol L-1), sendo a MO obtida multiplicando-se o valor do CO por 1,724. Parmetros como capacidade de troca de ctions total (CTC a pH 7,0) e efetiva (CTCefe), saturao por bases (V) e saturao por alumnio (m) foram calculados para todas as amostras. No estudo da densidade do solo, foi adotado o mtodo do anel volumtrico (EMBRAPA, 1997). Resultados e discusses: As nascentes rurais do distrito de Sonho Azul Ocupao e uso da terra De acordo com Mandrile (2003), a comunidade de Sonho Azul foi fundada por volta do ano de 1963 por iniciativa do senhor Ananias e sua esposa, senhora Antonieta, que eram donos das terras. Juntamente com as famlias dos senhores Antonio Francisco de Paula, Manoel Francisco de Paula e Frederico Schuh deram incio s primeiras atividades no local instalando, assim, o povoado que hoje conta com uma populao de aproximadamente 1200 habitantes. O processo de ocupao na rea de estudo iniciou com incentivos governamentais para povoamento da regio sudoeste de Mato Grosso atravs de vendas de terras devolutas a preos Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 32 considerados baixos para a poca. No incio da ocupao as atividades agrcolas eram voltadas para a subsistncia (agricultura familiar) sendo cultivado arroz, feijo, milho, mandioca e criao de pequenos animais como porcos e galinha (HEINST, 2003). Na dcada de 80, essas pequenas propriedades onde se praticava a agricultura de subsistncia, foram perdendo espao para a criao de gado de corte e leiteiro. Nesse contexto, instalaram-se grandes frigorficos e laticnios na regio, especialmente nas cidades prximas de Araputanga e So Jos dos Quatro Marcos. Segundo Neuburger & Geipel (2008), esse fato aconteceu por que os solos arenosos da regio dificultavam a produo de cultivos anuais na regio, com isso, a rentabilidade da agricultura baixou e muitas famlias, geralmente bastante endividadas, deixaram suas propriedades migrando para as novas frentes pioneiras em Rondnia. Estas reas foram ocupadas ou pelas fazendas de gado vizinhas ou por propriedades mdias de pecuria leiteira. Nos anos 90, com o corte dos subsdios para a produo de alimentos bsicos at ento oferecidos pelo governo federal, ao mesmo tempo em que ocorreram os incentivos dados ao PROLCOOL, observa-se mudana no cenrio da produo agropecuria da regio, especialmente em Mirassol D Oeste, com a entrada da cultura da cana-de-acar, que passa ento a coexistir com a pecuria. Nesse municpio, com sede localizada a cerca de 12 quilmetros do distrito de Sonho Azul, instalou-se uma usina de lcool, denominada Cooperb, em meados da dcada de 90. Porm, no final dessa mesma dcada as atividades dessa usina foram suspensas. No ano de 2003, ocorreu um processo de reativao das atividades ligadas cultura da cana-de-acar; fato este corroborado pela retomada da produo de lcool na Cooperb, em Mirassol D Oeste. Novamente, esse fato redimensionou a forma de uso da terra no ambiente rural desse municpio, incluindo o distrito de Sonho Azul, pois a criao de gado passou ento a coexistir com a cana-de-acar, tornando-se estas as principais atividades econmicas da regio. A monocultura da cana-de-acar, fazendo parte do atual processo de expanso da agricultura capitalista no campo mato-grossense, tem mostrado forte tendncia a concentrao de terras, com incorporao das pequenas e mdias propriedades rurais pelo produtor mais abastado. Dados do IBGE apontados por Moreno & Higa (2005), indicam que houve um avano bastante significativo da rea colhida dessa cultura entre os anos de 1995 e 2003, passando de 130.446 ha para 196.684 ha nesse perodo. Nesse mesmo sentido, houve tambm Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 33 um aumento do rebanho bovino no Estado, com efetivo saltando de 6.545.956 em 1985 para 24.613.718 no ano de 2003. Porm, uma parcela significativa da criao de bovino, especialmente na regio do Pantanal, ainda predominantemente nos moldes da pecuria extensiva que, por vez, requer maiores reas de terra para aumentar a produo. No municpio de Mirassol D Oeste o aparecimento da cultura e aumento da produo da cana-de-acar, juntamente com o aumento do rebanho bovino no modelo extensivo na primeira metade da ltima dcada, seguem a tendncia do Estado de Mato Grosso medida que incrementa novas reas de terras para a demanda produtiva. De acordo com dados da Secretaria de planejamento (Seplan-MT, 2003- 2005), no caso da cana-de-acar, houve aumento significativo tanto na rea plantada quanto no volume de produo (Quadro 2). Quadro 2: Demonstrativo da evoluo do plantio da cana-de-acar no municpio de Mirassol D Oeste Produo de Cana-de-Acar 2003 2004 2005 rea Cultivada (ha) Toneladas rea Cultivada (ha) Toneladas rea Cultivada (ha) Toneladas 250 16.250 550 37.400 750 60.257 Fonte: Seplan-MT, Anurio estatstico, anos (2003 a 2005). Observa-se que o incremento da rea plantada da cana-de-acar cresceu na ordem de 300 % em dois anos e, certo que, esse incremento s faz sentido com a incorporao de reas que antes eram ocupadas por prticas da agricultura familiar ou pecuria, ou mesmo constituam reservas florestais ainda preservadas. Dessa forma, o avano sobre novas reas constituem formas de presso pelo uso da terra sobre os bens ambientais ali existentes, neste caso, sobre as nascentes. Em relao criao de gado bovino, houve aumento na produo entre os anos de 2001 a 2005, porm, esse crescimento no ultrapassa a marca de 27,70 %. Ao observar a tendncia de avano na criao de gado nesse perodo, percebe-se que de 2001 e 2004 houve crescimento, ocorrendo diminuio do rebanho em 2005 (Quadro 03). Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 34 Quadro 3: Demonstrativo da dinmica da criao de gado bovino em Mirassol DOeste Criao de gado 2001 2002 2003 2004 2005 111.777 131.780 142.329 150.361 142.745 Fonte: Seplan-MT, Anurio estatstico, anos (2002 a 2005) Quando se compara os avanos e recuos entre a produo da cana-de-acar e criao de gado no municpio de Mirassol D Oeste, percebe-se que, entre os anos de 2003 e 2005, quando possvel fazer esta comparao, houve um incremento de apenas 416 indivduos no plantel, o que equivale a irrisria soma de 0,29 % no volume total do rebanho em dois anos. Esses nmeros so bastante contrastantes frente ao aumento de 270,8 % no volume da produo da cana-de-acar em toneladas e 300 % de aumento na rea plantada. Esses nmeros mostram que a pecuria cede espao para a cultura da cana-de-acar e ainda reforam a tese de que o seu avano na regio ocorre em reas onde a vegetao original teve que ser retirada ou em reas preteritamente usadas para a criao de gado, principalmente em terras de pequenos criadores que no conseguem melhorar as tcnicas de manejo por falta de recursos. Novamente, a presso do capital monocultor sobre as pequenas propriedades se concretiza. De qualquer forma, tanto a prtica da pecuria, prevalente na regio de Mirassol D Oeste at os primeiros cinco anos desta dcada, quanto a cultura da cana-de-acar constituem hoje fortes variveis de presses sobre os recursos hdricos da regio. No caso da pecuria, observa-se que os criadores intervm nos pontos de brotamento da gua, retirando a vegetao do entorno para a introduo da pastagem e construindo reservatrios para a dessedentao animal. J os plantadores de cana-de-acar retiram a vegetao natural para aumentar a rea de produo. Esta a realidade que se evidencia nas nascentes do distrito de Sonho Azul, especialmente na do crrego Z Cassete (Figura 02). A Lei n 4.771/65 (Cdigo Florestal) define que as reas de preservao permanente, tais como as nascentes ou olhos d gua, tem a funo ambiental de preservar os recursos hdricos, a paisagem, a Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 35 estabilidade geolgica, a biodiversidade, o fluxo gnico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem estar dos seres humanos. Figura 2: Croqui demonstrativo do uso da ter no entorno da nascente do crrego do Z Cassete, distrito de Sonho Azul-MT Na nascente do Z Cassete a vegetao original foi totalmente retirada para dar lugar ao pasto e plantao de cana-de-acar. As formas de uso esto assim distribudas no seu entorno: na poro oeste para o cultivo de cana de acar, e a leste para a criao de gado. No local, a caminhada do gado forma trilhas em direo nascente (Figura 3). No entorno, restam apenas algumas espcies remanescentes bastante isolados, como lixeira (Curatella L. americana), figueira (Ficus-sp) e cumbaru ( Diptepyn alata vogel) . Alm desses remanescentes arbreos, surgem gramneas naturais, sazonalmente, no perodo da cheia. O Cdigo Florestal, Lei n 4.771/65 em seu artigo 2, considera de preservao permanente, pelo efeito de Lei, as reas situadas nas nascentes, ainda que intermitentes e nos chamados olhos d gua, Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 36 qualquer que seja a sua situao topogrfica, devendo ter um raio mnimo de 50 (cinqenta) metros de largura. Figura 3: Trilhas feitas pelo pisoteio do gado e cultivo de cana-de-acar Nesse contexto, a nascente do Z Cassete encontra-se totalmente vulnervel s presses de uso do entorno, uma vez que, de todos os lados, no foram respeitados os limites mnimos de preservao da vegetao nativa. Nesta nascente, em raio de 50 m2, foram quantificadas apenas 10 (dez) unidades arbreas, remanescente da vegetao original. A partir do comando legal mencionado, pode-se aferir o seguinte quantitativo de proteo essa nascente ( Quadro 04). Quadro 4 - Demonstrativo do quantitativo de vegetao por m2 e porcentagem de vulnerabilidade da nascente decorrente da cobertura vegetal do entorno da nascente do Z Cassete, municpio de Mirassol DOeste Densidade da vegetao no raio de 50 metros Limite ideal de densidade de vegetao segundo fitofisionomia local Percentagem real de proteo nascente Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 37 0,01 indivduo por m2 0,24 indivduos por m2 4,16 % Considerando o quantitativo de proteo obtido nos nmeros apresentados no Quadro 04, conclui-se que essa nascente encontra-se com capacidade praticamente nula para garantir a funo ambiental a ela atribuda, fato este que a torna, dentro da dinmica ambiental, extremamente vulnervel em relao sua capacidade de abastecimento da sub-bacia hidrogrfica do crrego Caet. Esse fato, segundo os preceitos legais, desestabilizar, por conseguinte, os atributos do meio fsico e da biodiversidade ali existente. Entre as nascentes estudadas nessa sub-bacia hidrogrfica, o entorno da nascente do Carnaba pode ser considerado o mais conservado, pois ainda mantm a cobertura vegetal nas laterais direita e esquerda. Porm, montante dessa nascente, a vegetao foi retirada e introduzida a pastagem e, por no apresentar nenhum obstculo de acesso, o gado adentra at a nascente para dessedentar-se e o pisoteio tem provocado gradativamente a remobilizao e desaparecimento dos olhos dgua (Figura 5). Figura 4: Pastagem e cobertura vegetal prximo da nascente, nas coordenadas de 15 46 25 de latitude S e 58 07 29 de longitude O Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 38 A respeito da vegetao do entorno da nascente Carnaba reconhece-se que do tipo Floresta Estacional Semi-decidual Aluvial (Floresta Tropical Subcaduciflia). Regionalmente, esta fitofisionomia pode ser reconhecida como Mata ciliar ou de galeria. Esta formao vegetal caracteriza-se por uma formao florestal que ocupa as acumulaes fluviais quaternrias, da ser comum o seu aparecimento em reas inundveis como as nascentes (PCBAP, 1997). No conjunto dessa fitofisionomia, esto presentes os seguintes tipos arbreos, caractersticos da vegetao original (Quadro 05) Quadro 5: Demonstrativo das espcies vegetais arbreas mais comuns no entorno da nascente Nome cientfico Nome popular Crataeva tapia L. Cabaceira Combretum leprosum Mart. Carne de vaca Cecropia Peltata,L. Imbaba Aspidosperma olivaceum Mull. Arg. Peroba Anadenanthera falcata Benth. Speg Angico Attalea phalerata, Mart. Cx. Spring. Acuri Astronium fraxinifolium Schott Gonaleiro Copafeira Langsdorffii Desf. Copaba/Pau de leo Curatella americana L. Lixeira Bauhinia forficata Link Pata de vaca Isotoma Longiflora(L.) K- Presl Fura Olho Vitex polygama Cham. Tarum Bactris setosa Mart. Tucum de espinho Albizia polycephala (Benth. ) Killinp cx Recosd. Albzia Psidium guajava L. Goiaba do mato Nas margens direita e esquerda da nascente, em raio de 50 m2, a vegetao encontra-se em condies ideais de conservao. Dessa forma, considerando o total de 102 unidades arbreas contadas num raio de 50 m, incluindo o setor de montante que no apresenta nenhuma unidade, obtm-se o seguinte quantitativo de proteo (Quadro 6). Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 39 Quadro 6: Demonstrativo do quantitativo de vegetao por m e percentagem de vulnerabilidade, decorrente da cobertura vegetal do entorno da nascente Carnaba, Municpio de Mirassol DOeste. Considerando os dados do Quadro 06, pode-se considerar que essa nascente mantm-se conservada, especialmente quando comparadas s outras nascentes analisadas, por que possui 66,6 % de sua capacidade de proteo. Refora essa tese o fato de que esta nascente ainda apresenta a menor variao quanto ao recuo em relao s margens direita e esquerda, bem como em relao ao volume de gua que ocorre entre os perodos de cheia e estiagem, conforme aponta dados demonstrado em artigo que versa sobre as condies hidrodinmicas dessas nascentes constantes do ltimo captulo deste trabalho de dissertao. A vulnerabilidade da nascente do crrego Carnaba ocorre exatamente na sua montante, onde a vegetao original foi totalmente retirada. Donadio et al. (2005) observaram em seus trabalhos que, em reas de nascente com vegetao remanescente, a qualidade da gua superior que nas nascentes de reas de uso agrcola. A nascente urbana de So Jos dos Quatro Marcos Diferentemente das nascentes rurais do distrito de Sonho Azul que esto inseridas no contexto de atividades agropecurias, os fatores de presso exercidos na nascente do crrego Terer em So Jos dos Quatro Marcos decorrem do processo de urbanizao. O municpio de So Jos dos Quatro Marcos possui rea de 1.275,10 km, localiza-se no sudoeste do estado de Mato Grosso e foi habitado pelos ndios borro. O processo colonizador desta regio ocorreu a partir de 1946. Os imigrantes chegaram nessa localidade em busca de terras boas para o plantio, onde os primeiros produtos plantados foram: caf, arroz, feijo e milho. O entorno da nascente do Crrego Terere teve sua ocupao no final da dcada de 80, quando foi construdo, pelo poder pblico, um conjunto residencial para atender as famlias de baixa renda do municpio. Densidade da vegetao no raio de 50 metros Limite ideal de densidade de vegetao segundo fitofisionomia local Percentagem real de proteo nascente 0,16 ind. por m 0,24 indivduos por m 66,6% Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 40 Faz-se importante ressaltar que, as famlias que ocuparam o local foram famlias que no detinham condies financeiras para ocupar reas consideradas nobres no permetro urbano da cidade e foram relegadas, sem nenhuma preocupao ambiental e social, quele local. Torres & Marques, (2001) mencionam que a conseqncia social da fuso entre desigualdade e a segregao o forte efeito cumulativo dos riscos sociais e ambientais em alguns pontos crticos da periferia. Assim, o uso do solo no local coincide com a falta de opo dessa populao para adquirir outras reas. Sobre esse assunto Carlos (1988, p. 44) assegura que o uso do solo urbano ser disputado pelos vrios segmentos da sociedade de forma diferenciada, gerando conflitos entre indivduos e usos, esses conflitos sero orientados pelo mercado, mediador fundamental das relaes que se estabelecem na sociedade capitalista, produzindo um conjunto limitado de escolha e condies de vida. importante mencionar ainda que esse processo de urbanizao no municpio coincide com o esvaziamento que ocorreu no campo, decorrente do crescimento da pecuria extensiva em detrimento do enfraquecimento do cultivo do caf na regio. Corroboraram para esse fato o empobrecimento do solo e a conseqente falta de recursos para investimento em tecnologias de recuperao A questo fundamental daqueles ocupantes do entorno da nascente era o de garantir uma faixa de terreno urbano que no estivesse ligado especulao imobiliria da rea central da cidade e, nesse processo de ocupao no houve nenhuma preocupao no que se refere s questes ambientais, tais como a preservao de nascentes e/ ou da mata nativa. Por outro lado, esta falta de preocupao tambm no foi observado por parte do poder pblico que no traou um projeto para a ocupao do referido local. Dessa forma, o entorno da nascente encontra-se totalmente ocupado por ruas e residncias construdas tanto em sentido latitudinal quanto em sentido longitudinal zona de encharcamento (Figura 05). Observa-se que para atender a demanda da expanso urbana, a vegetao original foi totalmente retirada, dando lugar s residncias e algumas rvores frutferas ali introduzidas como mangueira (Mangifera sp), limoeiro (Citus sp), entre outros. Nessas construes no se observou o limite mnimo exigido pela legislao para rea de preservao permanente Ao considerar a porcentagem de proteo da nascente em relao ao parmetro do Cdigo Florestal, esta se apresenta totalmente Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 41 desprotegida, uma vez que na rea de entorno no se observou nenhuma caracterstica do fragmento arbreo original. Dessa forma, est totalmente vulnervel s presses de uso no entorno e descaracterizada enquanto bem ambiental. Ao contrrio, vista pelos moradores da comunidade como local incmodo, fonte de insetos vetores de doenas, entre outros males. Figura 5: Croqui demonstrativo do uso da terra no entorno da nascente do crrego Terer no permetro urbano do municpio de So Jos dos Quatro Marcos Aspectos topogrficos e pedolgicos Ray (1963) cita que cada padro de relevo est associado a um processo geomorfolgico especfico de eroso ou deposio e reflete a origem e o carter geral da paisagem. Esta afirmao ratifica o papel que a forma de relevo atravs da topografia exerce sobre os atributos ambientais, materializados na paisagem. Neste sentido, certo o entendimento de que as diferentes declividades de um terreno exercem tambm influncias diferenciadas na forma da paisagem. A eroso marginal desempenha um importante papel no controle da Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 42 largura dos canais fluviais. Este tipo de eroso contribui, significativamente, para o incremento na carga de fundo dos rios, alm de provocar destruio progressiva da rea marginal e conseqente perda de reas habitadas, reas cultivadas, reas preservadas, dentre outras (THORNE, 1990). Assim, a declividade constitui importante fator de eroso do solo nas reas das nascentes. No geral a declividade mdia das reas no entorno das nascentes mostrou-se baixa. De conformidade com os parmetros de Garcia & Piedade (1984), a percentagem mdia de declividade entre as nascentes situou-se de fraca a moderada (Quadro 07). Quadro 7: Demonstrativo da percentagem da declividade e gradiente de presso exercida sobre a nascente Nascente Mdia de declividade em (%) Nvel de presso em relao eroso Crrego Z Cassete 4,58 Moderado Crrego Carnaba 2,05 Fraca Crrego Terer 4,96 Moderado As classes de declividades na nascente Z Cassete variaram de acordo com sua posio em relao rea encharcada propriamente dita, situando-se entre 3,17 % a 5,78 % que, na mdia, caracteriza o aspecto topogrfico com declividade moderada. A anlise de perfil da estrutura topogrfica dessa nascente reflete caimentos inferiores a 10 metros, conferidos da base at o limite da zona de interflvio. Os nveis de declives variam de um lado para outro, indo da posio prxima de ser considerada fraca na margem direita, at a prxima de prxima de moderada a forte montante. Com declividade de 5,78 %, este o setor que demonstra maior possibilidade de presso erosiva sobre a nascente. Essa presso ocorre porque o barranco que possui maior declividade torna propicia a eroso fluvial e a declividade acentuada no entorno contribui para transportar maior volume de sedimentos para a nascente. De acordo com Bertoni & Lombardi Neto (1993) o volume e a velocidade da enxurrada depende diretamente da declividade da rea. A nascente do crrego Carnaba tem a sua montante como um prolongamento do declive que ocorre da serra do Padre Incio, assim, essa a parte que apresenta a maior porcentagem de declive. Calculou nesse setor, declividade de 6,17 %, portanto, caimento topogrfico situado na ordem de moderada a forte (Quadro 1). No sentido leste e oeste da nascente a declividade praticamente nula, no exercendo Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 43 nenhuma presso sobre a nascente no que diz respeito aos processos erosivos. Com relao nascente do crrego Terer, do limite norte da zona de interflvio, ou seja, da margem direita para a rea de encharcamento, obteve-se a declividade de 6,62 %, que demonstra, portanto, presso considerada moderada a forte exercida pela topografia. Neste sentido, em relao ao relevo, este o setor mais vulnervel da nascente. Os lados da margem esquerda e montante apresentam declive moderado de 4,16% e 4,1%, respectivamente. Considerando os aspectos relacionados s formas de uso e aos atributos naturais que influenciam essas nascentes possvel perceber as seguintes diferenas e pontos comuns entre elas (Quadro 08). Quadro 8: Demonstrativo dos fatores e gradiente de presso sobre as nascentes dos crregos Z Cassete, Carnaba e Terer Nascente Uso da terra no entorno Vegetao- n. de indivduo p/m Proteo real pela vegetao original Crrego Z Cassete cana-de-acar e criao de bovino 0,01 p/m 4,16% Crrego Carnaba Criao de bovino 0,16 p/ m 66,6% Crrego Terer urbanizao 0,00 p/m 0,0% Anlises de variveis como Ph, matria orgnica, textura e a saturao por bases apontam as condies da fertilidade do solo nas nascentes (Tabela 01). No geral no houve diferena entre os atributos em relao profundidade de coleta das amostras e, por isso, s so mostrados os dados das amostras coletadas na profundidade de 0 a 0,2 m. O termo pH define acidez ou alcalinidade de uma soluo. A escala pH cobre uma amplitude de 0 a 14, um valor de pH a 7,0 neutro, ou seja, as atividades dos ons H e OH na soluo so iguais. Os valores abaixo de 7,0 so cidos (predomina o H+) e acima de 7,0 so alcalinos ou bsicos (predomina o OH- na soluo do solo). O grau de acidez ou alcalinidade do solo influenciado pelos tipos de materiais de origem, precipitao na regio, grau de intemperismo e decomposio da matria orgnica do solo, entre outros fatores. Constitui um importante atributo relacionado fertilidade dos solos, pois a disponibilidade de nutrientes para as plantas, bem como a presena de elementos txicos so influenciados pelo pH do solo. Em Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 44 geral, valores de pH entre 5,6 e 6,3 so considerados ideais para o desenvolvimento das plantas (SOUZA & LOBATO, 2004). No presente estudo, maiores valores de pH foram observados nas nascentes Carnaba e Quatro Marcos, as quais apresentaram valores de pH em torno da neutralidade. Esses valores (Tabela 01), refletiram em elevada saturao por bases, que em alguns casos podem indicar um possvel desbalano nutricional para as plantas cultivadas e a indisponibilizao dos micronutrientes Fe, Zn, Mn e Cu (SOUZA & LOBATO, 2004). Os elevados valores de pH observados neste estudo, nas reas naturais, provavelmente est relacionado geologia regional, na qual predomina a ocorrncia de rochas calcrias, principalmente na regio de Mirassol DOeste. Na nascente urbana, o pH prximo neutralidade pode ser reflexo da urbanizao da cidade de So Jos dos Quatro Marcos, onde no h rede de esgoto, o que pode contribuir para a entrada de saponceos nos corpos hdricos. A matria orgnica do solo (MO) desempenha importante papel nas propriedades fsicas, qumicas e biolgicas do solo. Atua aumentando a estabilidade de agregados, reciclagem de nutrientes, no tamponamento impedindo alteraes bruscas de pH, aumenta a reteno de gua contribuindo para a diminuio do escoamento superficial, minimizando a eroso. Teores mais elevados de MO foram observados na rea de mata, na nascente Carnaba por causa da serrapilheira ali existente, os quais foram significativamente mais elevados que as demais reas. Porm, todos os locais apresentaram baixos teores de MO, sendo os maiores valores observados nos pontos de coleta situadas na profundidade de 0 a 0,2 m, por conta da decomposio da MO recente. Processos de antropizao, tais como a converso de reas de mata em pastagens tende a diminuir os teores de MO do solo, com eventuais prejuzos para a ciclagem de nutrientes e porosidade do solo (DORAN et al., 2006; MELLONI et al., 2008). Dada superficialidade de concentrao desse atributo nas reas do entorno das nascentes sua perda pode ocorrer com maior facilidade em decorrncia da declividade e do volume de chuva concentradas na regio durante o perodo de cheia. Vrios fatores podem ser considerados para explicar os baixos teores de matria orgnica mesmo nas reas sem interferncia antrpica, como as reas de mata. Merece destaque, no entanto, a textura do solo, a qual variou de mdia a arenosa em todas as reas amostradas, refletindo os baixos teores de argila no solo. Segundo Canellas et al. (1999) a interao das molculas orgnicas com Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 45 a frao argila dos solos pode proteger a MO do solo, ao mesmo tempo que proporciona maior estabilidade dos agregados do solo. Todas as reas, excetuando a nascente Terer apresentaram baixos teores de fsforo (P), o que est condizente com dados da literatura os quais relatam baixos teores de P na maioria dos solos do Brasil (REZENDE et al., 1996). Os teores mais elevados observados na nascente Terer, provavelmente, tambm esto relacionados com a urbanizao, pois a maioria dos detergentes contm P em sua composio, o que pode contribuir para a elevao ou acmulo de seus teores no solo, principalmente nas reas de deposio. Outro atributo importante a ser considerado em relao ao solo diz respeito sua densidade. A densidade do solo expressa a relao entre a quantidade de massa de solo seco por unidade de volume do mesmo. Os valores normais para solos arenosos variam de 1,2 a 1,9 g cm-3, enquanto solos argilosos apresentam valores mais baixos, de 0,9 a 1,7 g cm-3. Valores altos de densidade associados ao estado da compactao que oferecem maiores riscos de restrio ao crescimento radicular situam-se em torno de 1,65 cm3 para solos arenosos e 1,45 g cm para solos argilosos (REINERT & REICHERT, 2006). Assim, pode ser observado na tabela 01 que apenas a rea de mata esquerda, na nascente do Z Cassete, apresente valor restritivo de densidade do solo. A maioria dos valores de densidade observados no presente estudo esto entre os valores observados por Silva et al. (2008) em Latossolo Vermelho-Amarelo do estado de Mato Grosso cultivados sob sistemas de plantio direto, pastagem cultivada e cerrado nativo pastejado. De maneira geral, foi verificado que em relao aos atributos qumicos de fertilidade vrios deles, principalmente, Ca2+, K+, Mg2+ esto em teores elevados, refletindo em elevados valores da soma de bases e baixos teores de Al3+, excetuando-se as reas alagadas e de cultivo de cana-de-acar na nascente do Z Cassete. Como a rea de cana de acar apresenta as mesmas feies pedolgicas e topogrficas que o pasto leste e pasto oeste, pode-se inferir que o cultivo da cana de acar est esgotando a fertilidade do solo, haja vista que esta apresenta um valor de V = 37,6 %, inferior aos valores observados nas reas de pasto (V = 53 e 68 % para o pasto leste e pasto oeste respectivamente). Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 46 Tabela 1: Alguns atributos qumicos e fsicos dos solos e declividade do entorno das nascentes Z Cassete e Carnaba, municpio de Mirassol DOeste-MT, e nascente Terer, municpio de So Jos dos Quatro Marcos-MT Z Cassete Carnaba Atributo1 Cana de acar Alagada Pasto leste Pasto Oeste Pasto Mata esquerda Mata direita Terer pH gua 5,6 a 1 5,7 a 1 6,2 a 2 6,4 a 2 6,8 a 3 7,0 a 4 7,6 a 4 7,2 a 4 MO (gk g-1) 1,2 a 1 1,2 a 1 1,4 a 1 1,3 a 1 1,5 a 1 2,0 a 2 2,3 a 2 1,7 a 1 P (mg kg-1) 3,3 a 1 3,0 a 1 2,2 a 1 2,3 a 1 1,2 a 1 2,8 a 1 2,6 a 1 52,2 a 2 K+ (mg kg-1) 86,4 a 1 85,3 a 1 127,2 a 2 102,8 a 2 44 a 1 56,2 a 1 50,9 a 1 107,0 a2 Ca2+ 1,0 a 1 0,6 a 1 1,4 a 1 2,2 a 2 6,6 a 3 8,0 a 4 9,3 a 5 5,9 a 3 Mg2+ 0,3 a 1 0,7 a 1 1,1 a 2 1,2 a 2 2,1 a 3 3,3 a 4 4,7 a 5 1,4 a 2 Al3+ 0,3 a 2 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 H+Al 3,2 a 2 3,1 a 2 2,5 a 1 1,8 a 1 4,0 a 2 4,7 a 2 2,3 a 1 1,1 a 1 CTCefe 2,2 a 1 1,1 a 1 2,7 a 3 3,7 a 4 9,0 a 6 11,6 a 7 14,1 a 8 7,6 a 5 CTCpH7,0 (cmol c dm-3) 5,2 a 1 4,6 a 1 5,2 a 1 5,5 a 1 13,0 a 3 16,1 a 4 16,2 a 4 8,6 a 2 V (%) 37,6 a 2 33 a 1 53,0 a 3 68,0 a 4 69,6 a 4 73,0 a 4 86,7 a 5 87,2 a 5 m (%) 11,2 a 2 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 0,0 a 1 Argila (g kg-1) 199,4 228,8 196,2 206,2 213,5 183,50 185,7 234,0 Areia (g kg-1) 634,8 666,6 651,4 630,8 583,54 547,8 585,0 662,6 Silte (g kg-1) 165,8 114,6 152,6 160,0 202,9 268,7 240,8 104,0 Densidade 0-0,10 m (g cm-3) 1,0 - 1,5 1,5 1,66 1,0 1,0 1,5 Densidade 0,10-0,20 m (g cm-3) 1,5 - 1,5 2,0 1,39 2,0 1,33 1,5 Drenagem Bem drenada Mal drenada Bem drenada Bem drenada Bem drenada Bem drenada Bem drenada Mal drenada Profundidade Profundo Raso Profundo Profundo Profundo Profundo Profundo Pouco profundo 1 MO = matria orgnica; CTCefe e CTCpH 7,0 = capacidade de troca de ctions efetiva e a pH 7,0, respectivamente; V = saturao por bases; m = saturao por alumnio; Consideraes finais O estudo mostra que as condies atuais das nascentes variam em funo dos aspectos ligadas s atividades humanas e aos elementos geo-fsicos presentes no entorno de cada uma delas. As nascentes localizadas no distrito de Sonho Azul, com relao s atividades humanas, recebem influncia direta das prticas Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 47 agropecurias desenvolvidas nos seus arredores, destacando-se a criao de gado bovino e a cultura da cana de acar. A nascente localizada na cidade de So Jos dos Quaro Marcos recebe a influncia da urbanizao, que ocorreu sem planejamento que levasse em conta a preservao dos bens naturais ali existentes e, tampouco, a qualidade de vida da populao que para aquele local foi deslocado e vive ali na atualidade. No contexto rural a nascente que recebe maior presso decorrente das atividades econmicas desenvolvidas no entorno a do crrego Z Cassete, onde a vegetao natural foi retirada quase em toda a sua totalidade, deixando-a praticamente desprotegida dos processos erosivos que a vegetao consegue minimizar. A nascente do crrego Carnaba, que por sinal a principal fonte que abastece a estao de tratamento de gua da cidade de Mirassol D Oeste, a que se encontra mais preservada, porm, a prtica da criao de gado no seu entorno, com pastagem montante, o principal fator de presso sobre ela. No ambiente urbano, a nascente do crrego Terer encontra se totalmente desprotegida, se levarmos em conta o papel que a vegetao oferece manuteno dos cursos e afloramentos de gua. Nesse local a vegetao original foi totalmente retirada para ceder lugar a construo de ruas e residncias. Dentre as nascentes analisadas, a que apresenta maior nvel de declividade e, conseqentemente, mais suscetvel s presses exercidas pelo relevo, a nascente do crrego Terer, na cidade de So Jos dos Quatro Marcos. Nesse local, so comuns as enxurradas, agravadas no perodo da cheia, sendo este motivo de transtorno tanto para a populao local, quanto para o poder pblico que sempre ter que dispensar recursos, para a reorganizao das ruas, danificadas nesse processo. No que diz respeito aos atributos do solo, percebe-se que o pH mais cido foi encontrado no solo do crrego Z Cassete (5,7) e os mais elevados, prximos da neutralidade foi encontrado na nascente do crrego Terer (7,2) e Carnaba (6,8-7,6). O solo que apresentou a menor densidade na mdia foi da nascente do crrego Carnaba, com valores iguais a 1,3. As nascentes dos crregos Z Cassete e Terer apresentaram os mesmos valores de densidade de solo (1,5). Vale ressaltar que essas duas nascentes encontram-s em ambientes bastantes diferentes, o que demonstra que, mesmo em ambiente rural, a nascente do crrego Z Cassete apresenta a mesma vulnerabilidade de compactao e, por conseguinte, poder Revista Brasileira de Gesto e Desenvolvimento Regional G&DR v. 6, n. 1, p. 22-51, jan-abr/2010, Taubat, SP, Brasil 48 sofre, na mesma medida, os efeitos da impermeabilizao do solo, do escoamento superficial, entre outros. De modo geral, a nascente do crrego Carnaba mostra-se mais preservada, fato este corroborado pelas condies de uso e atributos naturais do entorno. Por outro lado, a nascente que se encontra em maior risco a nascente do crrego Z Cassete, ocasionado pelo uso do entorno deixando-a vulnervel. Apesar da rea no entorno dessa e nas demais nascentes apresentarem, no geral, alta saturao por bases (indicativo de boa fertilidade) observou-se que o cultivo de cana de acar provocou uma reduo considervel nesse atributo do solo. A nascente do crrego Terer j perdeu praticamente todas suas caractersticas, no entanto, esta no pode ser ignorada enquanto bem natural que , at por que exerce influncia direta na qualidade de vida da populao que atualmente vive no seu entorno. De modo geral, os dados da pesquisa apontam a necessidade de interveno nas nascentes estudadas para que estas possam continuar abastecendo a sub-bacia hidrogrfica sem prejudicar as atividades econmicas que se desenvolvem na sua jurisdio. Estas intervenes devem extrapolar o campo das medidas a curto prazo, com a rearticulao da forma de manejo que se efetua no entorno das nascentes para atingir, no longo prazo, mudanas de postura das comunidades do entorno. Nesse contexto, a gesto ambiental deve passar, necessariamente, pela Educao Ambiental. Referncias ABSABER, A. N. Um conceito de geomorfologia a servio de pesquisas sobre o quaternrio. Geomorfologia. n 18, So Paulo, IGEOG, USP, 1969. CALHEIROS, R. de O.; TABAI, F. C. V.; BOSQUILIA, S. 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