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NAS PEGADAS DOS VODUNS

NAS PEGADAS DOS VODUNS:

Um terreiro de tambor-de-mina em So Paulo

Reginaldo Prandi

Captulo publicado em:

MOURA, Carlos Eugnio Marcondes de (org.) Somav, o amanh nunca termina.So Paulo, Emprio de Produo, 2005, pp. 63-94, ISBN 8588944049.

Introduo

As mais diversas modalidades das religies afro-brasileiras, seno todas elas, podem ser encontradas na So Paulo de hoje. Provenientes das mais diferentes regies do Brasil, onde se originaram a partir da herana cultural do escravo, essas variantes religiosas convivem e disputam entre si, e com as demais religies da metrpole paulista, adeptos, clientes e reconhecimento social, mas a diversidade religiosa afro-brasileira em So Paulo recente, no tendo mais que trinta anos.

A umbanda, de seu nascimento no primeiro quartel deste sculo at os anos 60, foi a grande e praticamente nica religio afro-brasileira em So Paulo. Seu surgimento e expanso esto historicamente associados industrializao do Sudeste e formao das grandes cidades brasileiras no sculo XX, enquanto o candombl, a partir do qual a umbanda constituiu-se em contato com o kardecismo, mantinha-se restrito aos seus territrios originais, sobretudo a Bahia e outros Estados em que conhecido por denominaes locais: o xang em Pernambuco e o batuque no Rio Grande do Sul, alm da macumba no Rio de Janeiro, estreitamente ligada ao candombl da Bahia.

Candombl, xang e batuque so variantes rituais da religio dos orixs no Brasil. A religio dos orixs, divindades da cultura iorub ou nag, consolidou-se em territrio brasileiro entre os meados do sculo XIX e o incio do sculo XX como expresso cultural de escravos, negros livres e seus descendentes. A umbanda tambm cultua os orixs, mas seu panteo foi muito ampliado com entidades que so espritos desencarnados, os chamados caboclos, pretos velhos, boiadeiros, baianos, marinheiros e outros.

Na dcada de 1960, quando a umbanda j se consolidara em So Paulo, o candombl trazido por migrantes nordestinos foi sendo introduzido na cidade e se instalando rapidamente nesse novo territrio. Muitas casas de candombl importantes de Salvador abriram filiais em So Paulo; lderes religiosos de origem baiana anteriormente estabelecidos no Rio de Janeiro mudaram-se ou passaram a permanecer em So Paulo parte do tempo. No tardou muito para que a umbanda perdesse sua hegemonia como a religio afro-brasileira da metrpole industrial. Assim como a umbanda, que j se formou como religio universal, o candombl no Sudeste deixou de ter o carter de religio exclusiva de uma populao de afro-descendentes, religio tnica, para vir a ser uma religio aberta a todos, no importando a origem racial (Prandi, 1991; 1996, cap. 2).

Alm dos orixs, outras divindades foram trazidas da frica pelos escravos: os inquices dos povos bantos, praticamente esquecidos e substitudos pelos orixs nags nos candombls bantos, e os voduns originrios de povos ew-fons, de regio do antigo Daom, hoje repblica do Benim, designados jejes no Brasil. O culto aos voduns sobreviveu na Bahia e no Maranho. Em Salvador e cidades do Recncavo, a religio dos voduns denominada candombl jeje-mahim. No Maranho recebeu o nome de tambor-de-mina. Na Bahia pequeno o nmero de grupos de culto jeje em comparao com o nmero de casas de orix. No Maranho os voduns esto presentes em praticamente todas as casas de culto afro-brasileiro e os orixs ali cultuados nas casas de vodum so igualmente chamados de voduns, s vezes com a referncia de que se trata de um vodum nag e no jeje.

Os orixs tornaram-se bastante populares em So Paulo, como de resto em quase todo o Brasil, e sua popularidade pode ser medida por sua presena expressiva na cultura popular brasileira (incluindo literatura, teatro, cinema, telenovela, msica popular, carnaval, culinria), mas os voduns so praticamente desconhecidos nessa cidade, onde mesmo os adeptos de religies afro-brasileiras pouco sabem desses deuses to cultuados em So Lus.

Em 1977, um jovem lder da religio dos voduns, Francelino Vasconcelos Ferreira, ou Francelino de Xapan, como prefere ser chamado, trouxe para So Paulo o culto dos voduns tal como se constituiu em So Lus do Maranho. Vinte e oito anos depois, a religio dos voduns conta com a casa j bem consolidada de Pai Francelino, a Casa das Minas de Tia Jarina (que Francelino prefere escrever Thoya Jarina) e com vrios terreiros dela derivados. A religio dos voduns assim vai se espalhando por So Paulo e, de So Paulo, para paragens mais alm.

Voduns do Maranho

Em So Lus e outras cidades do Maranho, a religio dos voduns recebeu o nome de tambor-de-mina, aluso presena constante dos tambores nos rituais e aos escravos minas, como eram ali designados os negros sudaneses. Vrios pesquisadores tm se dedicado ao estudo do tambor-de-mina, especialmente Srgio Figueiredo Ferretti (1996), Mundicarmo Ferretti (1985) e outros autores contemporneos, alm dos precursores Octavio da Costa Eduardo (1948), Manuel Nunes Pereira (1979) e Roger Bastide (1971, v. 2, cap. 1). Trata-se de religio inicitica e sacrificial, em que os sacerdotes so ritualmente preparados para "incorporar" as divindades em transe. As entidades manifestadas, que podem ser voduns ou encantados (espritos), vm terra para danar em cerimnias pblicas denominadas tambor. As entidades so assentadas (fixadas em artefatos sacros) e recebem sacrifcio, com oferta de animais, comidas, bebidas e outros presentes. Segundo tradio africana que se manteve no Brasil, cada humano pertence a um vodum, sendo para ele ritualmente consagrado em cerimnias iniciticas, como ocorre no candombl dos orixs. O tambor-de-mina, assim como outras modalidades religiosas afro-brasileiras, apresenta forte sincretismo com o catolicismo e suas festas tm um calendrio colado ao da Igreja Catlica (Ferretti, 1995). No Maranho, festas e folguedos populares de carter profano, como o bumba-meu-boi e o tambor-de-crioula, esto muito associados ao tambor-de-mina.

Dois dos antigos terreiros de So Lus, fundados por africanas em meados do sculo passado, sobreviveram at os dias de hoje e constituem a matriz cultural do tambor-de-mina a Casa Grande das Minas (Kuerebentan Zomadonu) e a Casa de Nag (Nagon Abioton).

A Casa das Minas, de cultura jeje, um terreiro de culto exclusivo dos voduns, os deuses jejes, os quais, entretanto, hospedam alguns voduns nags, ou orixs, no havendo culto a encantados ou caboclos. Seu panteo bastante numeroso e bem organizado, sendo os voduns reunidos em famlias. Tendo alcanado enorme prestgio, a Casa das Minas encontra-se hoje em processo de extino, pois h muitos anos no se faz iniciao de novas danantes, ou vodunsi, nomes dados s devotas que incorporam os voduns em transe. As danantes remanescentes esto reduzidas hoje a menos de meia dzia de mulheres j idosas e mesmo elas no contam com iniciao completa. Em carta para mim, disse Srgio Ferretti: "H mais de 80 anos (1913 ou 1914) no se faz iniciao de vodnsi-gonja. Entre as vodnsi atuais, embora em nmero reduzido, h pessoas que comearam a danar na Casa desde incios da dcada de 1930 at 1950. Todas elas tm um nome africano privado que lhes foi dado por uma tobssi. Foram portanto iniciadas como vodnsi-he." Nenhum outro terreiro se originou diretamente dessa casa, mas sua influncia no tambor-de-mina enorme, havendo estudos detalhados sobre seus deuses e ritos, merecendo suas sacerdotisas grande respeito na sociedade local (Ferretti, 1989, 1995, 1996).

A Casa de Nag, de origem iorub, cultua voduns, orixs e encantados ou caboclos, que so espritos de reis, nobres, ndios, turcos etc. Desta casa originaram-se muitos terreiros, proliferando-se por toda So Lus e outras localidades da regio um modelo de tambor-de-mina bastante baseado nessa concepo religiosa de culto a voduns e encantados, encantados que em muitos terreiros tm o mesmo status de divindade dos voduns, com eles se misturando nos ritos em p de igualdade.

Entre outras casas de mina de So Lus, igualmente antigas, destacam-se o Terreiro do Egito (Il Ax Niam) e o Terreiro de Manuel Teu Santo, os quais deram origem a cerca de vinte terreiros, multiplicados em muitos outros (Santos e Santos Neto, 1989). Do Terreiro do Egito originou-se o Terreiro de Iemanj, que tem papel destacado na histria do tambor-de-mina em So Paulo, pois seu fundador, Pai Jorge Itacy, o pai-de-santo de Francelino de Xapan, pelas mos de quem os voduns do Maranho vieram para So Paulo.

O panteo da Casa das Minas

Embora a Casa das Minas no tenha originado outras casas de culto, sua estrutura e panteo tem sido um modelo para outras casas.

Os voduns, deuses do povo fon ou jeje so foras da natureza e antepassados humanos divinizados. Os voduns cultuados na Casa das Minas esto agrupados nas famlias de Davice, Dambir, Savaluno e Quevioss (Ferretti, 1989, 1996).

Alguns voduns jovens chamados toqns ou toqenos cumprem a funo de guias, mensageiros, ajudantes dos outros voduns. So eles que "vm" na frente e chamam os outros. Tm cerca de quinze anos de idade, podendo ser masculinos ou femininos, pertencendo a maioria famlia de Davice. Nos cls de Quevio e Dambir so os voduns mais jovens que desempenham esse papel.

Alm dos voduns, fazem parte do panteo da Casa das Minas as tobssis, divindades infantis femininas, consideradas filhas dos voduns, recebidas pelas danantes com iniciao plena, as chamadas vodnsi-gonja. As princesas meninas no vm mais na Casa das Minas. Com a morte das ltimas vodnsi-gonja, parte do processo de iniciao se perdeu, de modo que as danantes remanescentes no tiveram iniciao no grau de gonja, de senioridade. E as tobssis no vieram mais na Casa das Minas. Diferentemente dos voduns, que podem manifestar-se em diferentes adeptos, a tobssi, na Casa das Minas, considerada entidade nica, exclusiva de sua vodnsi-gonja, e que desaparece com a morte da danante que a