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Nas malhas do imprio: histria, literatura, mulheres e excluso

Margarida Calafate ribeiroUniversidadedeCoimbra

RESUMO: EstE artigo partE do tEma litEratura E Excluso para analisar a longa Excluso das mulhErEs como sujEitos histricos na histria por-tuguEsa E os sEus rEflExos na litEratura. no artigo fEita uma anlisE sumria dEssa situao na litEratura, com EspEcial lEitura da litEratura contEmpornEa E Em particular dE Novas Cartas Portuguesas, dE maria isabEl barrEno, maria VElho da costa E maria tErEsa horta, E da pintura dE paula rEgo, Em quE sE dEnuncia a discriminao, ao mEsmo tEmpo Em quE sE assinala a ruptura dE uma situao com a EspEssura dE sculos.

ABSTRACT: this papEr framEs an analysis of thE long lasting absEncE of womEn as historical subjEcts in portuguEsE history and its rEflExEs in litEraturE within thE thEmE of litEraturE and Exclusion. thE papEr carriEs out a summary analysis of this situation through a rEading of con-tEmporary litEraturE, in particular of Novas Cartas Portuguesas, by ma-ria isabEl barrEno, maria VElho da costa and maria tErEsa horta, and of paintings by paula rEgo. hErE, such discrimination is dEnouncEd whilE a rupturE with a cEnturiEs old situation is highlightEd.

PALAVRAS-CHAVE: litEratura Excluso histria mulhErEsKEY-WORDS: litEraturE Exclusion history womEn

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OI A Abrirtema que anima este nmero, Literatura,culturaeexcluso, abre um sem-nmero de pistas na anlise da literatura portuguesa, levantando de imediato o questio-namento relativo ao to discutido cnone consagrado das histrias da literatura tradicionais. Se certo que Portugal, devido longa ditadura que viveu ao longo de quase 50 anos do sculo xx, teve no ensino da literatura e na concepo das histrias literrias ou dos manuais de literatura e de histria, um forte instru-mento para desenvolver o sentimento nacional e a formao moral do aluno, como se dizia na legislao do Ministrio da Educao Nacional de ento1, tambm certo e quase paradoxal que uma das mais importantes histrias da literatura, HistriadaLiteraturaPortuguesa,ainda hoje referencial, tenha sido feita por dois oposicionistas ao regime, scar Lopes e Antnio Jos Saraiva. Publicada pela primeira vez em 1953 e re-publicada inmeras vezes em edies revistas ao longo de cinco dcadas, a HistriadaLiteraturaPortuguesa tornou-se o instrumento de estudo e anlise do imaginrio literrio portugus para gera-es de portugueses. No entanto, estaHistriadaLiteraturaPortuguesa, nas suas sucessivas reedies revistas, no reflecte as grandes questes que se comea-ram a colocar ao objecto literrio a partir da dcada de 1960, preferindo antes (e provavelmente acertadamente, dada a situao poltica do pas) continuar a apostar num modelo cronolgico, de matriz positivista. Todavia, problematiza os perodos literrios, e inclui e reflecte sobre grandes escritores que, numa viso mais apertada e esclarecida da censura que o regime exercia, poderiam ser considerados potencialmente subversivos e, portanto, excludos do cnone, que, por incluso e excluso, qualquer histria da literatura constri2. Talvez essa versatilidade prtica desta HistriadaLiteraturaPortuguesa explique, por um lado, o facto de apesar das grandes mudanas, trazidas pela revoluo de 25 de

1 SILVA, Maria Regina Tavares da. Amulherbibliografiaanotada1598-1998. Lisboa: Cosmos, 1999.WALIA, Shelley. EdwardSaid y lahistoriografia. Barcelona: Gedisa, 2004. Decreto-lei 27084 de 14 de outubro de 1936, citado por Teresa Seruya e Maria Lin Sousa Moniz, Histria literria e tradues no Estado Novo. Uma introduo possvel, in: IV Congresso Internacional da Associao Portuguesa de Literatura Comparada. Disponvel em: . Acedido a 15 de agosto de 2007.2 Ver zILBERMAN, Regina. Discursos e Marginalidade, Banco de Dados Literrios, org. Csar Ver zILBERMAN, Regina. Discursos e Marginalidade, Banco de Dados Literrios, org. Csar Giusti. Catalogao: BDL: CUL-4-008.

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Abril de 1974, nomeadamente no ensino, esta HistriadaLiteraturaPortuguesa se mantenha, sem grandes questionamentos, como uma referncia nacional, e por outro lado, explique tambm algum atraso, outras vezes retraco, de Portugal em abordar as questes que no campo da literatura e da teoria literria comearam a ser formuladas no final dos anos 1960, levando subsequente desestabilizao e problematizao do cnone.

A partir do final dos anos 1960, princpio dos anos 1970, merc das gran-des transformaes polticas, geopolticas, sociais e culturais a descoloniza-o, primeiro na sia, depois em frica, os movimentos sociais da Amrica Latina, os feminismos, as lutas pelos direitos civis dos negros na Amrica do Norte e tantas outras convulses , o mundo abre-se pluralidade3 e os gran-des questionamentos tericos impem-se. Na literatura, na historiografia, na sociologia, e nas cincias sociais e humanas em geral comea-se a questionar, primeiro de forma dispersa e depois de maneira sucessivamente mais sistema-tizada, sobre tudo o que os cnones das vrias disciplinas tinham deixado de fora. Assim comearam a surgir dentro da Europa, mas principalmen-te fora dela, os pensadores alternativos, movidos pelo interesse em saber o que havia para alm dos cnones. Relativamente literatura podemos dizer mesmo que, para alm do questionamento das histrias da literatura excessi-vamente eurocentradas, tratava-se da mutao do prprio objecto de estudo da literatura, numa linha alis prxima do que na historiografia se veio a de-signar como nova histria, em que, como assinala Le Goff, se lana o ques-tionamento no s sobre as perspectivas e o modo de narrar a histria, mas sobre o prprio objecto de estudo da histria, ou melhor, sobre a pluralidade de objectos de estudos4 que o estudo da histria e, por extenso, da literatura, envolveria: assim surge a ateno para a literatura escrita por mulheres, o re-conhecimento de uma literatura feminista, a literatura de cordel, a histria dos homens e mulheres comuns e dos seus quotidianos contra uma histria feita de heris, reis e feitos militares, mas surgem tambm as novas textualidades ou textualidades emergentes, que levaram Antonio Candido a falar de textos indefinveis: Romances que parecem reportagens, contos que no se dis-

3 Ver PIzARRO, Ana. Delinear a histria literria hoje, in: Ver PIzARRO, Ana. Delinear a histria literria hoje, in: OSuleosTrpicosensaiosde culturalatino-americana. Niteri: EDUFF, 2006, p. 26.4 Idem, ibidem, p. 28. Idem, ibidem, p. 28.

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tinguem de poemas ou crnicas [...] autobiografias com tonalidade e tcnica de romance; [...] textos feitos com justaposio de recortes, documentos, re-flexes de todo o tipo (CANDIDO, 1995: 310). Resumidamente, iniciava-se aqui a grande mutao na anlise e na perspectiva de considerar o fenmeno literrio, comeando justamente por estudar e questionar tudo aquilo que o cnone consagrado, representado nas histrias da literatura, tinha deixado de fora, ou, por outras palavras, tinha excludo. E podemos mesmo dizer, com Regina Zilberman, que a reflexo sobre o que se deixou de fora tem sido matria da histria da literatura nos dias de hoje5, como demonstra bem o tema do nmero desta revista.

Nos anos 1980, com o advento dos estudos ps-coloniais, inspirados pelo pronunciamento crtico lanado por Edward Said e de outras vozes vindas tambm de outras periferias culturais, a reflexo crtica intensifica-se e espa-lha-se aos mais variados campos do conhecimento, procurando desta vez a histria, a palavra e o rosto de todos aqueles sujeitos e produtores de cultura que ficaram excludos da histria do Ocidente, aquele que at ento detinha o poder de narrar a histria. Movimentos vrios a partir de diferentes lugares de enunciao despoletam esta profunda reviso epistemolgica do mundo: por um lado, os questionamentos tericos inerentes matria em estudo ad-vindos do mundo europeu e dos pensadores alternativos das suas grandes universidades, por vezes perdidos na definio ou redefinio no s do seu objecto de estudo, mas tambm das fronteiras do seu prprio campo de estudos6; por outro lado, os questionamentos vindos da designada periferia, nomeadamente da Amrica Latina, da ndia e da frica, ou seja, do que hoje, falta de melhor expresso, designmos por Sul Global. Mas se em frica os movimentos de intelectuais se congregavam volta das lutas pela libertao do jugo colonial rumo a uma descolonizao poltica, e se a ndia, a partir do grupo dos Subaltern Studies, visava o questionamento da colonialidade do poder, os movimentos sociais e culturais da Amrica Latina discutiam inten-samente a sua identidade e pugnavam pela sua independncia cultural, para

5 zILBERMAN, Regina. Discursos e Marginalidade, Banco de Dados Literrios, org. Csar Giusti. zILBERMAN, Regina. Discursos e Marginalidade, Banco de Dados Literrios, org. Csar Giusti. Catalogao: BDL: CUL-4-008.6 Refiro-me aqui muito especificamente aos designados Estudos Culturais e toda a polmica envol- Refiro-me aqui muito especificamente aos designados Estudos Culturais e toda a polmica envol-vente, que no interessa aqui desenvolver. Sobre esta questo ver RIBEIRO, Antnio Sousa e Ramalho, Maria Irene. Dos estudos literrios aos estudos culturais, RevistaCrticadeCinciasSociais, 52-53, 1998.

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utilizar a expresso de Silviano Santiago no seu importante ttulo, UmaLitera-turanosTrpicosensaiosparaumaindependnciacultural. A urgncia de escrever a histria dos excludos da grande narrativa do Ocidente aqui entendidos como sujeitos subalternos, ex-colonizados e de analisar criticamente a his-toriografia influenciada pelo colonialismo converteu-