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  • Nas malhas do compadrio: estratgias sociais e relaes entre famlias livres e escravas em algumas unidades domsticas da

    Vila do Rio Grande (c. 1738 c. 1777)1

    Martha Daisson Hameister2

    RESUMO: A presente comunicao decorrncia da metodologia empregada na anlise dos registros de batismo da Vila do Rio Grande nas primeiras dcadas do sculo XVIII. Atravs do estudo intensivo destas fontes, destacaram-se as relaes entre os agentes histricos atravs do compadrio. Isso possibilitou identificar as relaes de compadrio das escravarias de algumas famlias. Diferente do que encontrado em estudos sobre compadrio, que analisam os estratos sociais em separado, este trabalho pretende, atravs de alguns casos especficos, apontar as relaes tanto da famlia proprietria de escravos como das famlias de seus escravos, comparando a malha de compadrio desses dois setores sociais que coexistem em uma unidade domstica. Os resultados tm sido bastante instigantes, haja vista alguns padres coincidentes nos dois estratos. Com isso, buscam-se elementos para repensar o funcionamento destas unidades domsticas que so complexas unidades econmicas, hierarquizadas e que contm em seu interior gente de diferentes estatutos sociais. Talvez se modifique a idia da abrangncia da famlia setecentista nesta regio, incluindo nela um setor muitas vezes dito como excludo socialmente. Como decorrncia dessa reflexo, h a sugesto para que se repense a prpria economia da localidade, indo ao encontro da idia de uma oiconomia, conforme defendido por Bartolom Clavero em Antidora. ABSTRACT: The present paper is a result of the analysis of the Vila do Rio Grande baptismal records of the early eighteenth century. This documentation highlighted the significance of the fictional kinship networks among the social agents; moreover, it made possible identifying the fictional kinship networks among the slaves of certain families. Unlike other scholar's studies, the present work intends to examine, through the analysis of specific cases, the relations of both slave owner family and slave families comparing the fictional kin networks of these two social groups that coexisted in a household. The results are intriguing, since it shows coincident patterns among both groups; therefore, it allows to re-thinking the way how such household's unities worked. Such households were hierarchical and complex economic unities which included people who belong to different estates. As a result, it might be necessary to change the family's concept scope including groups traditionally excluded. In addition, there is the suggestion to reevaluate the whole economy of the region, accepting the idea of oiconomia according the definition of Bartolome Clavero in Antidora.

    Um documento singular Aos doze dias do ms de junho de mil setecentos e quarenta e cinco anos nesta Igreja Matriz de Jesus-

    Maria-Jos da povoao do Rio Grande de So Pedro estando eu de cama enfermo dei licena ao Reverendo Manuel Henriques para batizar por forra e pr os santos leos a Felcia inocente filha natural de Francisca parda escrava do Comissrio Cristvo da Costa Freire e de Antnio Pires homem paisano e dando eu licena ao dito Reverendo padre para batizar por forra no dia onze ele a batizou no dia doze muito cedo por fazer gosto ao dito Comissrio, amigo seu muito particular, que no queria se batizasse por forra a dita criana, e a Pedro da Costa Marim, a quem o dito Comissrio fez a venda da dita sua escrava Francisca para melhor se escusar de forrar a filha e tambm porque no houvesse quem lhe levasse pia batismal o dinheiro que o pai dela dava para se forrar conforme o estilo e costume de todas as freguesias do Bispado, porque para ele a no levar pia o fez prender o dito Reverendo padre pelo governo deste estabelecimento e preso esteve at fazer o dito batizado a gosto do Comissrio e Ajudante Pedro da Costa Marim e no do pobre pai, que cama me veio trazer o dinheiro para forrar sua filha e logo a deu por forra pedindo-me assim a mandasse batizar e eu assim a mandei batizar por forra e livre como se forra e livre nascesse o dito Reverendo Padre no o fez foi por dolo e malcia e se no apareceu pessoa alguma que requeresse na pia o dito batismo e levasse o dinheiro para tal, foi por estar o pai preso e ele vir muito cedo batizar a criana, a qual, como conheo ser estilo e costume nas mais freguesias do Bispado e o pai querer dar o valor dela segundo o estado de pequenez, dou por forra e liberta no seu batismo, havendo o senhor a todo o tempo que quiser o valor da dita Felcia no estado da inocncia em que foi batizada, pois a Igreja me e no quer filhos que a ela chegam cativos e por descargo de minha

    1 Agradeo a Jorge Pontual Waked o inestimvel auxlio no gerenciamento das bases de dados, nas

    transcries e na leitura atenta do texto que aqui se apresenta, livrando-me de alguns atentados contra a lngua-me. Est redimido de culpa sobre os que ainda restaram. Agradeo a Tiago Lus Gil a colaborao, a leitura e a discusso que so constantes neste e em outros trabalhos. Agradeo a Fabrcio Pereira Prado pelo abstract.

    2 Doutoranda do Programa de Ps-graduao em Histria Social do Instituto de Filosofia e Cincias Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Bolsista FAPERJ.

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    conscincia e saber se fez todo o contrrio do que costume por traio, dio e malquerena que contra uns e outros h nesta freguesia, que julgo ser forra a dita Felcia inocente, da qual foram padrinhos Manuel Francisco da Costa e NSra do Rosrio e por verdade de todo e ter batizado e posto os santos leos dita Felcia o dito Reverendo Padre fiz este assento dia e era ut supra. Pe. Joo da Costa Azevedo. (Domingues, 1981 pp. 34-35).

    I. Do batismo de Felcia

    O registro do batismo de Felcia nem de longe se assemelha aos demais assentos nos

    livros da Vila de Rio Grande. Normalmente estes anotavam aquilo que era exigido pelas

    Constituies Primeiras do Arcebispado da Bahia. Segundo estas, era mister que em um

    livro se escrevam seus nomes, e o dos seus pais, e mes, e dos padrinhos (Da Vide, 1707:

    Livro Primeiro, Ttulo XII.).

    Tampouco os registros normais eram usualmente to sumrios quanto o disposto nas

    Constituies. Estes, dependendo do rigor do proco ou da passagem recente de um visitador,

    podiam conter outras tantas informaes, tais como a procedncia dos pais, a data de

    nascimento da criana, os estatutos de forro, escravo, administrado ou liberto, mesmo

    que em condio pretrita (p. ex. escravo que foi); anotaes sobre o que poderia ser dito

    como cor, mas que ao mesmo tempo que poderiam designar o fentipo, designavam tambm

    uma situao social: pardo, preto, ndio. Poderia ser uma classificao at social

    bastante precisa, se no percebssemos que muitas dessas desinncias somem ou

    transformam-se com o passar do tempo; nome e procedncia dos avs; procedncia dos

    padrinhos e o local atual de residncia dos partcipes do ato batismal. Tambm era dito do

    batizando sua situao legal: legtimo, natural muito raramente bastardo , ou exposto.

    Ainda que filhos de relaes adulterinas ou esprias estivessem sendo batizados na vila, a

    nenhum deles coube a anotao de ilegtimo, ainda que o registro expressasse a condio de

    casado de um de seus pais ou ainda de ambos serem casados com outras pessoas. Era a leitura

    do proco, qui da sociedade em formao: filhos naturais. E, se assim foi lavrado nos livros

    aqui sero ditos naturais. Variaes nos dados contidos nos assentos batismais foram

    percebidas em estudos anteriores que se debruaram sobre fontes semelhantes (Gudeman &

    Schwartz, 1988; Ferreira, 2000; Rios, 2000; Brgger, 2002). Fica, ento, anotado aqui que os

    assentos produzidos pelos procos da Vila e imediaes, ainda que contendo peculiaridades,

    no destoam desta variada gama de possibilidades acrescidas ao mnimo exigido pelas

    Constituies.

    Entretanto, no batismo de Felcia h um longo texto a trazer tantas mais informaes

    das prticas sociais e costumes da Vila do Rio Grande e mesmo do Bispado do Rio de Janeiro.

    Com um pai campons e uma me parda escrava sem que isso necessariamente indique uma

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    origem africana, haja vista os ndios amide serem ditos pardos Felcia tinha, de acordo com

    os planos de sua famlia, a liberdade iminente. Para seu azar e para a sorte dos historiadores,

    essa liberdade no estava nos planos do Comissrio. Sobre este texto se lanaro os olhares na

    tentativa de enxergar para alm do que est registrado.

    Em primeiro lugar, destaca-se aqui que, margeando a evidente tramia que foi

    armada para que a menina Felcia permanecesse em estado de escravido, houve o

    rompimento de um trato. Apesar do pai de Felcia ter entregue o dinheiro referente ao preo

    da criana em seu estado de pequenez ao vigrio adoentado sua alforria no ocorreu. O

    proprietrio, o Comissrio Cristvo da Costa Freire agiu de m f ao contrariar um trato que

    havia sido feito com o padre. Mas h que se perguntar por que o trato havia sido feito com o

    vigrio e no com o proprietrio da criana. Eis aqui o que diz o vigrio convalescente acerca

    da instituio Igreja: a Igreja me e no quer filhos que a ela chegam cativos (Domingues,

    1981: p.35).

    Para esta sociedade, Deus o pai e a Igreja a me dos filhos que vagam pela Terra.

    No h me nem pai neste e no outro mundo que desejem ver seus filhos cativos. O amor

    cristo almeja a iseno do cativeiro, usualmente associado ao pecado e ao servio do

    Demnio. O pior dos cativeiros ser escravo do pecado, um escravo do Demnio, colocando

    a alma em cativeiro por toda a eternidade. Para tanto, a Santa Madre Igreja tem o batismo

    como primeiro sacramento