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  • NARRATIVAS INFANTIS: CONTANDO E RECONTANDO HISTRIAS

    Dbora Cristina Sales da Cruz Vieira (Universidade de Braslia - UnB)

    Resumo

    A aquisio de narrativa de crianas pequenas se constitui como um processo que

    envolve questes lingusticas, psicolgicas e filosficas. Esta pesquisa opta por trazer

    um dilogo entre estas cincias sociais para a compreenso deste processo, pois

    entendemos que a disciplinarizao dos contedos restringe a complexidade do objeto

    estudado. A presente pesquisa se norteia a partir do seguinte questionamento: como se

    constitui o desenvolvimento da fala nos processos de aquisio de narrativas de crianas

    pequenas? A partir desta questo levantada, visamos compreender o processo de

    aquisio de narrativas de crianas de uma instituio pblica de Educao Infantil,

    observar as estratgias escolhidas pelas crianas para a atividade de reconto oral e

    analisar as produes orais das crianas na atividade de reconto oral. Na abordagem

    terica discutiremos sobre a os processos de aquisio de linguagem, a relao

    pensamento e fala (Vigotski 2012), o processo de desenvolvimento do discurso

    narrativo (Perroni 1992) e caracterizao do narrador (Benjamin 2012). A abordagem

    metodolgica utilizada foi Epistemologia Qualitativa de Gonzlez Rey (2005, 2010).

    Esta pesquisa foi realizada em uma instituio pblica de Educao Infantil do Distrito

    Federal; participaram da pesquisa seis crianas, trs meninos e trs meninas de uma

    turma do 2 perodo da Educao Infantil. Foram realizados quatro encontros, com o

    grupo de crianas para a contao de histrias, recontos orais, dramatizaes, registros pictricos e atividades ldicas.

    Palavras-chave: narrativas infantis, literatura infantil, reconto oral

    Introduo

    Ouvir e recontar histrias se constitui como uma prtica cultural que a

    humanidade desempenha desde a Antiguidade e permanece at os dias atuais. Como

    uma atividade humana que tem na centralidade da linguagem, a possibilidade de

    comunicao e compartilhamento de fatos, acontecimentos, ideias e experincias. As

    histrias narradas oralmente tem um papel importante na constituio social da criana.

    A presente pesquisa se norteou a partir do seguinte questionamento: como se

    constitui o desenvolvimento da fala nos processos de aquisio de narrativas de crianas

    pequenas? A partir desta questo levantada, visamos compreender o processo de

    aquisio de narrativas de crianas de uma instituio pblica de Educao Infantil;

    observar as estratgias escolhidas pelas crianas para a atividade de reconto oral e

    analisar as produes orais das crianas na atividade de reconto oral.

    Didtica e Prtica de Ensino na relao com a Escola

    EdUECE- Livro 102884

  • Esta pesquisa foi realizada em uma instituio pblica de Educao Infantil do

    Distrito Federal. Participaram da pesquisa seis crianas, trs meninos e trs meninas de

    uma turma do 2 perodo da Educao Infantil, com idade entre cinco e seis anos.

    Foram realizados quatro encontros, com o grupo de crianas para a contao de

    histrias, recontos orais, dramatizaes, registros pictricos e atividades ldicas.

    Contudo, neste artigo analisaremos apenas a atividade de contao de histrias e reconto

    oral das crianas.

    A abordagem epistemolgica utilizada na pesquisa foi a Epistemologia

    Qualitativa de Gonzlez Rey (2005b, 2010), que apresenta carter construtivo-

    interpretativo. Devido a esta caracterstica, pesquisador e participantes so sujeitos que

    constroem o processo da pesquisa em conjunto por meio do dilogo e da compreenso

    do carter subjetivo do envolvimento que ambos possam ter com a pesquisa.

    Destacamos outras caractersticas da Epistemologia Qualitativa entre elas, a

    identificao das zonas de sentido, que explicita o carter de incompletude da pesquisa,

    pois ao trmino da mesma surgem outras possibilidades para novos estudos e a

    legitimao de casos singulares como instncia de conhecimentos cientficos, que

    expressam o valor da singularidade para a compreenso interpretativa do fenmeno

    emprico estudado. Assim, nessa abordagem, vo ser diversos os momentos em que o

    pesquisador, durante a pesquisa, se envolve em processos de comunicao com o sujeito

    estudado. No entanto, assume-se que o envolvimento com o emprico simultneo ao

    processo de implicao intelectual com reflexes tericas que retroalimentam esses

    diversos momentos empricos.

    Este artigo apresenta uma reflexo sobre as narrativas produzidas pelas crianas

    e seu desenvolvimento na constituio individual de cada um. Relembrando que o

    desenvolvimento deste processo no se d de maneira idntica e universal para todas as

    crianas, pois o desenvolvimento ocorre na unidade social-individual de maneira

    recursiva, de acordo com a singularidade de cada criana. Neste dilogo, traremos as

    contribuies da psicologia histrico-cultural em Vigotski (1932-2012) sobre o

    desenvolvimento inicial da fala, a abordagem lingustica na aquisio de narrativas em

    Perroni (1992) e a reflexo filosfica de Benjamin (1936-2012) sobre o processo de

    constituio do narrador.

    As primeiras palavras: pensamento e fala

    Didtica e Prtica de Ensino na relao com a Escola

    EdUECE- Livro 102885

  • O pensamento e a fala tm razes genticas diferentes, as duas funes se

    desenvolvem ao longo de trajetrias diferentes e independentes, Vigotski (2012). O

    pensamento se desenvolve inicialmente, sem estar relacionado fala, ou seja, a fase pr-

    lingustica enquanto o desenvolvimento da fala passa por uma fase pr-intelectual.

    Com choro ou balbucios, o beb utiliza seus recursos fsicos para expressar emoes,

    embora estes sons no apresentem relao direta com a evoluo do pensamento,

    (VIGOTSKI, 2012, p.145, traduo nossa), ocorre amplo desenvolvimento da funo

    social da fala no primeiro ano de vida.

    De acordo com Vigotski (2012), por volta dos dois anos de idade, as curvas de

    desenvolvimento do pensamento e da fala se fundem, inaugurando uma nova maneira

    da criana se comportar no mundo. Este fato se constitui de grande relevncia para o

    desenvolvimento psicolgico da criana, pois nela despertada uma vaga conscincia

    do sentido da linguagem e o desejo de domin-la. Embora, a fala e o pensamento no

    sejam ligados por um elo primrio, ao longo deste desenvolvimento tem incio uma

    conexo entre ambos, que se modifica e se transforma.

    A criana, neste momento em que a fala comea a servir o intelecto e os

    pensamentos se tornam verbais, vivencia o despertar da curiosidade pelo significado das

    palavras que resulta na ampliao do vocabulrio. Neste perodo a criana sente a

    necessidade de dominar o signo que corresponde ao objeto, que serve para nome-lo

    para comunicar-se socialmente.

    Com a sua entrada no universo das palavras, a criana est em uma nova etapa,

    cujo significado das palavras se encontra a unidade do pensamento verbal, elemento

    bsico da construo terica de Vigotski. A relao entre pensamento e fala estreita no

    significado das palavras, pois se apresenta como um fenmeno de pensamento medida

    que ganha corpo por meio da fala, e se torna um fenmeno da fala em que est ligada ao

    pensamento. Isto , o pensamento verbal ou fala significativa representa a unio da

    palavra e pensamento. O significado das palavras est relacionado s experincias

    vividas e ao ambiente que est inserido o sujeito, pois est em constante movimento.

    No s as palavras esto em movimento, mas os pensamentos transitam,

    estabelecem relaes entre as coisas, se movendo, amadurecendo e desenvolvendo.

    Vigotski (2012) ao fazer uma anlise da interao entre pensamento e palavra, salienta a

    necessidade de distinguir os dois planos da fala: interno (semntico) e externo

    Didtica e Prtica de Ensino na relao com a Escola

    EdUECE- Livro 102886

  • (fontico), que formam uma verdadeira unidade, com suas prprias leis de movimento,

    relembrando que esta uma unidade complexa e no homognea.

    O som, separado do pensamento, perderia aquelas propriedades especficas que o fazem

    som da fala humana e o distinguem de todos os demais sons existentes na natureza. Por

    isso, em um som privado de sentido resta estudar s suas propriedades fsicas e

    psquicas, ou seja, no o especfico dele, mas o que tem em comum com todos os

    demais sons que existem na natureza e consequentemente, este estudo no poderia

    explicar porque tal som que possui tais quais propriedades fsicas e psquicas, um som

    da fala humana e que o converte como tal. (VIGOTSKI, 2012, p. 15-16, traduo nossa)

    Vigotski (2012) reafirma a unidade dos planos da fala, corroborando com esta

    ideia, o autor afirma que pela entoao possvel transmitir o contedo interno do

    pensamento.

    Gnese das narrativas infantis

    Perroni (1992) realizou pesquisa cujo estudo longitudinal e observacional do

    desenvolvimento lingustico de duas crianas brasileiras de dois a cinco anos de idade.

    Com este estudo, Perroni identificou etapas no desenvolvimento do discurso narrativo

    em crianas.

    A aquisio da linguagem se d, pela ao solidria de trs fatores: a interao

    da criana com o mundo fsico, com o mundo social, ou com o outro que o representa, e

    com objetos lingusticos, isto , com enunciados efetivamente produzidos, afirma

    Perroni (1992). Esta concepo de lngua est baseada no princpio dialgico e social da

    mesma, onde as interaes verbais se constituem como um dos asp