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    X Encontro dos Programas de Ps-Graduao em Comunicao Social de Minas Gerais

    7 a 9 de novembro de 2017 Belo Horizonte CEFET-MG (Campus II).

    NARRATIVAS DE MULHERES AMBIENTALISTAS NO FACEBOOK1

    Erika Cristina Dias Nogueira2

    RESUMO: No Brasil, pas mais perigoso do mundo para o ativismo ambiental, mulheres

    lutam por espaos de expresso para disseminarem seu discurso de defesa do meio ambiente.

    Aps sculos de apagamento das vozes femininas pela sociedade patriarcal brasileira,

    principalmente em ambientes polticos, hoje as mulheres ambientalistas tm se apropriado

    do site de rede social Facebook para ecoarem suas falas. Este artigo visa identificar as formas

    de expresso ciberativista das ambientalistas brasileiras no Facebook por meio da anlise

    discursiva de suas narrativas digitais.

    PALAVRAS-CHAVE: Narrativas no Facebook. Redes Sociais Digitais. Discurso Digital.

    Ciberativismo. Ambientalismo.

    NARRATIVES OF ENVIRONMENTALISTS ON FACEBOOK

    ABSTRACT: In Brazil, the most dangerous country in the world for environmental activism,

    women fight for spaces of expression to spread their discourse on environmental protection.

    After centuries of women's voices being wiped out by Brazilian patriarchal society,

    especially in political environments, today environmentalist women have appropriated the

    social networking site Facebook to echo their lines. This article aims to identify the forms of

    expression of Brazilian environmentalists cyberactivist on Facebook through discursive

    analysis of its digital narratives.

    Keywords: Narratives on Facebook. Digital Social Networks. Digital Discourse.

    Cyberactivism. Environmentalism.

    1 Trabalho apresentado no GT 3 [Comunicao digital e interaes comunicativas]. 2 Doutoranda do Programa de Ps-Graduao em Estudos de Linguagens do Centro Federal de Educao Tecnolgica de

    Minas Gerais (CEFET-MG); erikadiasjornalista@gmail.com.

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    X Encontro dos Programas de Ps-Graduao em Comunicao Social de Minas Gerais

    7 a 9 de novembro de 2017 Belo Horizonte CEFET-MG (Campus II).

    Introduo

    Como atual espao para a expresso ativista3, o site de rede social digital Facebook

    apropriado por mulheres ambientalistas a fim de promover a legitimao de seu discurso,

    atravs da autoexpresso de seus pensamentos e motivos de luta. Mesmo com alguns

    obstculos que ameaam a participao e a deliberao poltica, como desigualdade de

    acesso, censura e controle excessivo das redes, o uso do Facebook por ativistas tem

    contribudo para provocar reflexes e trocas comunicativas, transformadoras de

    comportamentos e hbitos. Isso acontece devido assimilao das ferramentas

    disponibilizadas no site, que oferecem certa autonomia de divulgao de suas causas, bem

    como interatividade, facilidade de acesso e velocidade na disseminao das vozes femininas,

    contribuindo para a maior visibilidade e legitimao de questes ambientais. nesse espao

    propcio ao ciberativismo4, que analisamos as narrativas digitais de mulheres ambientalistas.

    Visamos neste trabalho identificar as formas de expresso ciberativista das

    ambientalistas brasileiras no Facebook por meio de suas narrativas digitais. Para essa

    investigao, selecionamos um corpus composto por seis posts5 (trs posts de cada ativista).

    Eles foram escolhidos dentre os posts ambientalistas das ambientalistas brasileiras Erica e

    Viviane6 coletados durante o ms de janeiro de 2017.

    O mtodo para a anlise do discurso digital baseado em Paveau (2015-14), que

    compreende o Facebook como um ecossistema e sugere a anlise dos discursos de forma

    constitutiva, qualificando todos os traos verbais e no-verbais. Alm de nos

    fundamentarmos em Paveau (2015-14), constitumos uma base terico-metodolgica

    transdisciplinar, composta pelo estudo da narrativa (CHARAUDEAU, 2012), autobiografia

    (ARFUCH, 2010), redes sociais digitais (RECUERO, 2014), ciberativismo (PEREIRA,

    3 Como ativismo, consideramos aqui a busca de entidades e pessoas pela transformao de uma realidade por meio de uma ao poltica. Arendt (2010, p.221), fundadora da expresso ao poltica, defende que agir significa tomar iniciativa,

    iniciar (como indica a palavra grega archein, comear, conduzir e, finalmente, governar), imprimir movimento a

    alguma coisa. 4 Pereira (2011) caracteriza ciberativismo, ou ativismo on-line, como o grupo de estratgias utilizadas na Internet para fortalecer a ao poltica, seja por incentivo a aes que j ocorriam off-line, seja por novas aes on-line. 5 Segundo Costa (2009), um post classificado como um texto narrativo, descritivo e opinativo, prprio do ambiente digital. 6 Preferimos preservar o nome completo das mulheres neste trabalho. Elas fazem parte de um grupo maior, composto por

    14 mulheres, concludo para a pesquisa de doutorado em andamento.

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    X Encontro dos Programas de Ps-Graduao em Comunicao Social de Minas Gerais

    7 a 9 de novembro de 2017 Belo Horizonte CEFET-MG (Campus II).

    2008; CASTELLS, 2013) e ambientalismo (TRIGUEIRO, 2008), a fim de entender as

    diversas dimenses das narrativas no Facebook.

    Narrativas ambientalistas

    Devido crise ecolgica, as questes ambientais urgentes devem estar no centro dos

    debates pblicos. Contudo, a temtica ambiental, muitas vezes, no considerada em sua

    ordem de grandeza, conforme aponta Trigueiro (2008, p.13): [...] a maioria dos brasileiros

    no se percebe como parte do meio ambiente, normalmente entendido como algo de fora,

    que no nos inclui. Para a resoluo dessa problemtica, o autor defende a perspectiva

    holstica do meio ambiente: a expanso da conscincia ambiental se d na exata proporo

    em que percebemos meio ambiente como algo que comea dentro de cada um de ns,

    alcanando tudo o que nos cerca e as relaes que estabelecemos com o universo.

    (TRIGUEIRO, 2008, p.13).

    Traos de uma conscincia ambiental no Brasil comearam a ser exibidos pela

    populao durante as dcadas de 60 e 70, quando a sociedade altamente urbanizada comeou

    a sentir os efeitos colaterais da industrializao e o consequente crescimento da poluio.

    Porm, o marco da conscincia ambiental foi registrado em 1992 (CRESPO, 2008), quando

    uma preocupao pouco antes manifesta foi instigada durante a discusso de temticas

    ambientais na Conferncia Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento Eco-92,

    denominada tambm Rio 92, reconhecida como a mais importante reunio mundial de meio

    ambiente at hoje realizada (CRESPO, 2008, p.60), originando uma pluralidade de vozes

    que hoje expe e prope solues para os problemas ambientais. Nesse contexto, cresceu

    tambm a legitimidade e a atuao do ambientalismo, realizado tanto por Organizaes No-

    Governamentais (ONGs) e movimentos ambientais, quanto por ativistas ambientais, que

    atuam em conjunto, ou no, com as instituies.

    O ambientalismo um movimento poltico e histrico que cresceu simetricamente

    evoluo da conscincia ambiental, instigado pelo protagonismo de diversas mulheres e

    homens engajados na defesa do meio ambiente. Seja por palavras, seja por atos, objetivo

    das ambientalistas projetarem aes ecologicamente corretas, examinando a atuao do ser

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    X Encontro dos Programas de Ps-Graduao em Comunicao Social de Minas Gerais

    7 a 9 de novembro de 2017 Belo Horizonte CEFET-MG (Campus II).

    humano em interao com o meio ambiente e posicionando-se contra inmeras formas de

    destruio instaladas. Com um carter poltico, o ambientalismo possui um discurso contra-

    hegemnico7, que visa destituir paradigmas que incitam, diretamente ou indiretamente, o

    comportamento destruidor do meio ambiente. Muito trabalho j foi desempenhado por

    ambientalistas, algumas aes ameaaram suas vidas, fazendo da causa um risco,

    principalmente aos brasileiros, que vivem no pas mais perigoso do mundo8 para o ativismo

    ambiental e so, muitas vezes, criminalizados injustamente por sua atuao.

    Nesta pesquisa, focaremos no ativismo das mulheres ambientalistas, especificamente

    as brasileiras. Poucos nomes femininos foram conhecidos na histria do ambientalismo.

    Alguns poucos somente cinco (nenhuma brasileira) - so apresentados em Palmer (2006),

    como a cientista indiana Vandana Shiva, a mais famosa ambientalista da atualidade,

    defensora do movimento ecofeminista9. As ecofeministas defendem o protagonismo

    feminino e a difuso das vozes ambientalistas e feministas, algo renegado historicamente s

    mulheres devido ao constante silenciamento e falta de representatividade feminina em

    diversas causas ativistas. Elas sempre tiveram uma participao mnima ou inexistente nas

    esferas pblicas. Relegadas denominao de pessoa de segunda categoria (BOFF e

    MURARO, 2002), as mulheres aprenderam a ler em alguns pases somente no sculo XIX,

    o que era permitido apenas aos homens. Outros direitos, como ao voto, herana e ao salrio

    comearam a ser reivindicados em 1848, em mobilizaes femininas nos Estados Unidos e

    na Europa, vindo a ser conquistados somente a partir de 1920. Hoje, esses direitos j so

    usufrudos pelas mulheres em vrios pases (BOFF e MURARO, 2002).

    Se as mulheres ainda encontram desafios polticos para perseguir, no ambientalismo

    no diferente. A mulher entra na histria do ativismo a partir da segunda metade do sculo

    XX para levar concretame