Narrativas como técnica de pesquisa em enfermagem

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    NNNNNARRAARRAARRAARRAARRATIVTIVTIVTIVTIVAS COMO AS COMO AS COMO AS COMO AS COMO TCNICA DE PESQTCNICA DE PESQTCNICA DE PESQTCNICA DE PESQTCNICA DE PESQUISA EM ENFERMAUISA EM ENFERMAUISA EM ENFERMAUISA EM ENFERMAUISA EM ENFERMAGEMGEMGEMGEMGEM

    Denise Guerreiro Vieira da Silva1

    Mercedes Trentini2

    Silva DGV, Trentini M. Narrativas como tcnica de pesquisa em enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem 2002maio-junho; 10(3):423-32.

    O texto apresenta a narrativa como possibilidade de abordagem para pesquisas na enfermagem, especialmentecomo tcnica de coleta e anlise de dados, destacando seus aspectos tericos e prticos. Inclui uma reviso doconceito de narrativa, por meio da compreenso dos autores de diferentes reas do conhecimento: filosofia, antropologia,lingstica e enfermagem. Quanto ao aspecto prtico de sua aplicao na pesquisa, introduz trs diferentes tipos denarrativas, identificadas a partir das histrias que as pessoas contam: narrativas breves, narrativas de vivncias enarrativas populares. Inclui, tambm, formas de apresentao das narrativas em textos cientficos e seu processo deinterpretao. Destaca que as narrativas criam um campo de ao coletiva e permitem aos profissionais de sade aconstruo de conhecimento alicerado na experincia das pessoas.

    DESCRITORES: pesquisa em enfermagem, pesquisa metodolgica em enfermagem

    NNNNNARRAARRAARRAARRAARRATIONS TIONS TIONS TIONS TIONS AS AS AS AS AS A NURSING RESEARA NURSING RESEARA NURSING RESEARA NURSING RESEARA NURSING RESEARCH CH CH CH CH TECHNIQTECHNIQTECHNIQTECHNIQTECHNIQUEUEUEUEUE

    The text introduces the narrations as a possibility of approach in nursing research, specially as a technique ofdata collection and analysis, emphasizing its theoretical and practical aspects. A review of the narrative concept isincluded, through the understanding of authors from different knowledge areas: philosophy, anthropology, linguisticsand nursing. With respect to the practical aspect of its application to research, three different types of narrative areintroduced, identified based on the accounts rendered by individuals: short narrations, narrations of lived experiences,and popular narrations. The study also includes ways to present the narratives in scientific texts and their process ofinterpretation. Authors highlight that the narrations create a field of collective action, allowing health professionals tobuild up knowledge based on the individuals experience.

    DESCRIPTORS: nursing research, research methodology, personal narratives

    1 Doutor em Enfermagem, Professor do Departamento de Enfermagem e do Programa de Ps-Graduao, e-mail:denise@nfr.ufsc.br; 2 Doutor em Enfermagem, Professor Aposentado do Programa de Ps-Graduao em Enfermagem,e-mail: trentini@ccs.ufsc.br. Universidade Federal de Santa Catarina

    Rev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenf Artigo de Atualizao

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    LA NLA NLA NLA NLA NARRAARRAARRAARRAARRACIN COMO CIN COMO CIN COMO CIN COMO CIN COMO TCNICA DE INVESTIGATCNICA DE INVESTIGATCNICA DE INVESTIGATCNICA DE INVESTIGATCNICA DE INVESTIGACIN EN ENFERMERIACIN EN ENFERMERIACIN EN ENFERMERIACIN EN ENFERMERIACIN EN ENFERMERIA

    El texto presenta a la narracin como posibilidad de abordaje para investigaciones en enfermera, especialmentecomo tcnica de recoleccin y anlisis de datos, destacando sus aspectos tericos y prcticos. Incluye una revisindel concepto de narrativa evidenciando que viene siendo comprendida por autores de diferentes reas de conocimiento:filosofa, antropologa, lingstica y enfermera. En cuanto al aspecto prctico de su aplicacin en investigacin, incluyetres diferentes tipos de narraciones, identificadas a partir de las historias que las personas cuentan: narracionesbreves, narraciones de vivencias, y narraciones populares. Incluye tambin formas de presentacin de las narracionesen textos cientficos y en procesos de interpretacin de los mismos. Destaca que las narraciones crean un campo deaccin colectiva y permiten a los profesionales de la salud una construccin de conocimiento prximo a las experienciasde las personas.

    DESCRIPTORES: investigacin en enfermera, metodologa de investigacin, narrativas personales

    INTRODUO

    Temos percebido, em nossas atividadesde cuidado e de pesquisa, que as pessoas, aoserem solicitadas a responderem questes emrelao sua doena, relatam outrosacontecimentos ocorridos durante o processode adoecer. primeira vista, parece que essesfatos nada tm a ver com a experincia dadoena e que as falas estariam se desviandoda inteno da entrevista. Porm, quando oentrevistado relata-nos longas e complicadashistrias, est, de certa forma, revelando-secomo pessoa. Se partirmos do pressuposto deque, para exercer o cuidado de enfermagem edesenvolver a pesquisa de campo, precisamosfazer interaes sociais, ouvir com ateno oque as pessoas tm e querem contar mostra-se como uma boa estratgia para obterinformaes a fim de planejar o cuidado e/oufazer abstraes e interpretaes acerca daprtica pela pesquisa. As anlises que, muitasvezes, temos feito sobre a condio de sadedas pessoas, tem se limitado a interpretar sinaise sintomas e avaliar tratamentos,desconsiderando, na maioria das vezes, aexperincia da doena como um todo. Os

    profissionais de sade foram treinados,tradicionalmente, para privilegiar oconhecimento da biomedicina, o que temlevado a muitas frustraes, especialmente nasatividades de cuidado e de pesquisa compessoas em condies crnicas, em que adoena no algo passageiro, mas permanecee torna-se imbricada na vivncia do dia a dia.

    A experincia tem mostrado que asinformaes obtidas, sejam para fins depesquisa ou para a prtica assistencial deenfermagem (cuidado), precisam seranalisadas tendo como referncia o contextodas pessoas informantes. Para isso, necessita-se ampliar a maneira de obter informaes emrelao viso de mundo do informante. A reada antropologia tem desenvolvido abordagensmetodolgicas e tcnicas de pesquisa, as quaistm ajudado nessa investida, a exemplo dasnarrativas.

    Na antropologia, as narrativas sempreforam consideradas como a principal expressousada pelas pessoas para contarem suassagas coletivas ou individuais (conquistas,derrotas, dramas pessoais, alegrias, aflies).Narrativa uma forma universal encontrada emtodas as culturas, atravs das quais as pessoas

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    expressam suas percepes do cosmos, suaviso de mundo, as maneiras de interpretar osacontecimentos e tambm os conflitos quevivem(1).

    Neste texto iremos apresentar anarrativa como uma possibilidade deabordagem em pesquisa, especialmente comotcnica de coleta e anlise de dados,destacando seu reconhecimento em diferentesreas do conhecimento e de maneira maisespecfica na enfermagem.

    NARRATIVA

    Narrar uma manifestao queacompanha o homem desde sua origem,podendo ser feita oralmente ou por escrito,usando imagens ou no. Gravaes em pedras;mitos que falam das histrias, das origens depovos, objetos, lugares; a Bblia, que incluimuitas narrativas, tais como a origem dohomem e da mulher, os milagres de Jesus, soexemplos do seu uso na histria(2). Atualmente,podemos citar as novelas, os filmes, as peasde teatro, as notcias de jornal.

    Refletir sobre o ato de narrar quaseto antigo quanto o prprio narrar. Plato eAristteles iniciaram, na tradio Ocidental,uma discusso sobre a relao entre o modode narrar, a representao da realidade e osefeitos sobre os ouvintes e/ou leitores, que vemtendo continuidade at os dias atuais(3).

    Assim, a narrativa como objeto dacincia nasceu nas Cincias Humanas, maisespecialmente na lingstica, que definidacomo o estudo cientfico que visa descrever ouexplicar a linguagem verbal humana(4). Nalingstica, diferentes correntes desenvolveram-se, tais como a Sociolingstica, que toma a

    sociedade como causa, vendo, na linguagem,os reflexos das estruturas sociais; aEtnolingstica, onde a linguagem causa dasestruturas sociais e culturais; e a Sociologia dalinguagem, que tem como base a teoria dosfatos sociais, dos poderes da linguagem (magia,rituais religiosos, etc). Nessa ltima corrente,esto os trabalhos da etnografia da fala, quemostram a estreita relao entre a linguageme a viso de mundo dos que a falam. Nasociologia da linguagem, est includa aPragmtica, que fundamenta a anlise danarrativa. A Pragmtica considera que alinguagem no usada apenas para informar,mas para realizar vrios tipos de ao, aomesmo tempo que includa a noo de dilogoe de argumentao(5).

    ressaltada a importncia e o uso amplodas narrativas na Antropologia da Sade, comoforma coerente e adequada para se obterinformao acerca das prticas e saberes emsade de um grupo, uma vez que as narrativaspermitem que seja mantido o elo fundamentalentre saber e contexto(6).

    Narrativa uma tradio de contar umacontecimento em forma seqencial, cujacomposio mais simples inclui comeo, meioe fim, e tem, em sua estrutura, cinco elementosessenciais: o enredo (conjunto de fatos); as/ospersonagens (quem faz a ao); o tempo(poca em que se passa a histria, durao dahistria); o espao (lugar onde se passa a ao)e o ambiente (espao carregado decaractersticas socioeconmicas, morais epsicolgicas onde vivem as/os personagens)(2).Ao narrar um acontecimento, a pessoareorganiza sua experincia, de modo que elatenha ordem coerente e significativa, dando umsentido ao evento. uma expresso simblicaque explica e instrui como entender o que estacontecendo(1).

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    Por meio das narrativas, podemos teracesso experincia do outro, porm de modoindireto, pois a pessoa traz sua experincia ans da maneira como ela a percebeu, oumelhor, da maneira como a interpretou. Apessoa fala de suas experincias, reconstruindoeventos passados de uma maneira congruentecom sua compreenso atual; o presente explicado tendo como referncia o passadoreconstrudo, e ambos so usados para gerarexpectativas sobre o futuro(7).

    Ao contar um acontecimento, a pessoatem compromisso com a expresso simblicado mundo e como ele funciona. Ela se refere aum acontecimento que ocorreu no passado,mas, agora, luz de novas vivncias, de outrosconhecimentos que adquiriu, de outros padresde comportamentos que socialmente soestabelecidos, enfim, ela reconta oacontecimento a partir de novas reflexes sobrea experincia passada(6). Essa compreensoda narrativa permite perceber a realidade comoum processo dinmico, criativo, em que tantoo narrador quanto a realidade renascem,tornando nica cada narrativa(8). A vida de umapessoa tem muitas ramificaes,entrelaamentos, expanses e uma infinidadede possibilidades a serem realizadas, que serelacionam com muitas outras experincias,permitindo que um evento seja contado erecontado de diferentes maneiras,considerando-se diferentes pontos de vista.Narrativas so sempre verses editadas do queaconteceu, no so descries objetivas eimparciais, pois a pessoa sempre faz escolhassobre o que quer contar(9).

    Outro aspecto que tambm estenvolvido em uma narrativa o ouvinte. Apessoa organiza sua narrativa tambmconsiderando quem a est ouvindo. Ela tenta

    guiar a impresso que o outro ter a seurespeito, geralmente projetando uma imagemfavorvel. Isso pode ser verificado na fora queo narrador coloca em certos aspectos de suahistria, no s no que ele diz, mas tambmem como ele diz, tentando convencer seuouvinte(9).

    Na composio de uma narrativa, oenredo (ou intriga) vai sendo organizado noentrelaamento de diferentes acontecimentosou incidentes individuais, dirigidos para aconfigurao de uma histria considerada noseu todo. Seguir uma histria avanar nomeio de contingncias e peripcias sob aconduta de uma espera que encontra suarealizao na concluso [...]. Compreender ahistria, compreender como e por que osepisdios sucessivos conduziram a essaconcluso, a qual, longe de ser previsvel, devefinalmente ser aceitvel, como congruente comos episdios reunidos(10).

    As narrativas no so apenas o produtode uma experincia individual, mas soconstrudas dialogicamente, utilizando-se deformas culturais populares para descreverexperincias compartilhadas por membros deuma famlia, de um grupo ou de umacomunidade(11). As histrias que contam sobresuas vidas e sobre como viver com a doena,representam a expresso de uma experinciaque foi sendo construda nas interaes sociais,nas anlises compartilhadas sobre osacontecimentos vividos e nas versesreelaboradas desses acontecimentos. Astrocas de informaes entre familiares, vizinhos,amigos e mesmo pessoas desconhecidas comas quais interagem nos servios de sade,participam na conformao da experincia deviver com a doena e geram uma narrativasobre esta experincia, pois a doena est

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    alicerada na historicidade humana, na suatemporalidade, sendo constituda por uma redede perspectivas(11).

    Com a vivncia da doena, as pessoaspassam a ter uma outra histria para contar.Essas histrias no so histrias separadas doprocesso de viver, mas so convergentes maneira de ver o mundo e de viver nele,passando a integrar-se a esse mundo. Elasrelatam vrias situaes vividas, que, no seuconjunto, tm um sentido maior, o que astransforma em histrias acessveis aos outros.Ao compreenderem o sentido de uma histria,as pessoas captam a experincia ali contida,porm a experincia de uma pessoa no podese tornar diretamente a experincia de outra, oque possvel transferir a significao dessaexperincia(12). Desse modo, as pessoas, aonarrarem sua vivncia, abrem seu discurso demodo a permitir a apreenso de suasignificao por outras pessoas.

    NARRATIVAS NA PRTICA DEPESQUISA EM ENFERMAGEM

    Narrativas tm sido apresentadas comoum caminho para obter maior conhecimentosobre o cuidado de enfermagem e, maisrecentemente, tambm como mtodo depesquisa em enfermagem(8). O pesquisadortem um grande desafio ao usar a formanarrativa para conhecer as experincias vividaspelas pessoas. Esse desafio acontece nainterpretao das narrativas, pois ter queelucidar seus significados potenciais e oprocesso de produo de significado de taisnarrativas, que inerente interao entreouvinte/leitor e o texto/narrativa. O pesquisadorprecisa descobrir os conflitos presentes nas

    narrativas, como so interpretados e como soresolvidos, procurando identificar como aspessoas constrem seu mundo e como essemundo funciona. Assim, a partir das narrativas,o pesquisador vai buscar estabelecer aestrutura de um episdio, organizar a seqnciados eventos, estabelecer explicaes por meioda interpretao dos eventos, identificando osdramas e/ou conflitos sociais, os significadosque do sentido experincia.

    A partir da literatura e de nossaexperincia com o uso de narrativas napesquisa em enfermagem, percebemos que hdiferentes tipos de narrativas, as quais foramidentificadas nas histrias das pessoas que noscontam suas prticas e saberes em sade. Taisexperincias foram traduzidas em:a) narrativas breves: focalizando umdeterminado episdio,...

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