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    A FOTOGRAFIA COMO ARTE CONTEMPORNEA

    Keller Regina Viotto Duarte*

    Com 248 pginas, 243 ilustraes, sendo 207 em cores, distribudas em 8 captulos, a curadora britnica Charlotte Cotton vem mostrar como a fotografia tem se tornado objeto central no cenrio artstico contemporneo.

    Desde as ltimas dcadas do sculo XX, e principalmente nesta primeira dcada do sculo XXI, a fotografia vem ocupando seu lugar no espao da arte, seja ela realizada por fotgrafos que passam a frequentar esses espaos ou por artistas que passam a us-la como meio, como linguagem para tornar imagem visual suas ideias, seus pensamentos e experimentos.

    Em A fotografia como arte contempornea, a curadora rene artistas fotgrafos e suas produes no intuito de demonstrar o que motiva a produo artstica e como esta ocorre, evidenciando o que a qualifica como tal.

    Nesse contexto, cabe destacar a presena do corpo humano vivo como objeto que compe a cena integrada ao cenrio produzido para ser fotografado, em contraposio s produes em que fica evidente a ausncia do corpo humano em ambientes interiores ou exteriores que refletem a ocupao humana.

    A autora constri seu texto num misto de descrio narrativa da imagem, interpretaes pessoais, anlises que vo desde a composio formal at a subjetividade do pensamento do artista transposto para a forma coreografada por este e encenada pelos corpos que so fotografados.

    Os captulos so organizados numa distribuio temtica, agrupando e evidenciando o processo criativo desses artistas-fotgrafos ou fotgrafos-artistas.

    Desse modo, no primeiro captulo, Se isto arte, a autora percorre um caminho oscilan-do entre fotografias e fotgrafos contemporneos e produes artsticas do incio do sculo XX, fotogrficas ou no, como no caso de Marcel Duchamp, com Fonte, de 1917, em que o objeto em si apresentado por Duchamp de natureza tridimensional; no entanto, a resultan-te da imagem fotogrfica da obra original ainda repercute no cenrio artstico at a atuali-

    * Graduada em Educao Artstica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e mestra e doutoranda em Educao, Arte e Histria da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Professora no curso de Publicidade, Propaganda e Criao da UPM.

  • A fotografia como arte contempornea resenha de Keller Regina Viotto Duarte

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    dade. Fica evidente tambm o processo criativo desses artistas-fotgrafos que iniciam suas produes com o planejamento da ideia criativa, desenvolvendo-a e tendo a imagem foto-grfica como obra de arte, valendo-se de influncias da arte conceitual dos anos 1970. O corpo humano tem sido suporte para inscrever significados culturais e polticos e ainda permite a construo potica do artista, como o caso de um dos grupos artsticos chineses, conhecido como Beijing East Village, que tem forte influncia da performance e da pintura num ambiente poltico em que a atividade artstica de vanguarda era banida (p. 24). Com a fotografia de Zhang Huan, Para subir o nvel da gua num pesqueiro, de 1997, o artista-fot-grafo registra um instante eternizado da performance encenada para ser fotografada.

    No segundo captulo, Era uma vez, renem-se fotografias de quadros vivos (tableau-vivant photography), imagens que evidenciam a narrativa de uma histria, geralmente com referncia a contos de fadas, lendas urbanas e mitos modernos. Com forte influncia da pintura figurativa, esse conjunto de imagens tambm se destaca pelo planejamento detalha-do tanto da cena a ser fotografada como do posicionamento do equipamento fotogrfico, caracterizando as encenaes artificiais construdas para a fotografia. Ao retomarem cenas, temas, gestos recorrentes da histria da arte, esses fotgrafos dialogam e atualizam a pro-duo artstica.

    O terceiro captulo, cujo ttulo Inexpressivas, destaca a produo artstica fotogrfica da ltima dcada. Como j nomeado no ttulo, esse captulo apresenta imagens frias, paisa-gens desrticas ainda que urbanas, um olhar distanciado, e quando o corpo humano o objeto da cena, este apresenta sujeitos annimos, corpos parados diante da cmera, verti-cais, se deixam ser fotografados na indiferena do corpo nu ou vestido. Nesse captulo, vale destacar as fotografias de Rineke Dijkstra, de 1994, que fotografa as mes com seus filhos recm-nascidos nos braos, e o impacto da maternidade sobre o corpo feminino.

    Mais do que os prprios corpos, os vestgios humanos, representados por objetos deixados no ambiente, so apresentados nas fotografias reunidas no quarto captulo, Alguma coisa e nada, no qual a autora apresenta a produo fotogrfica caracterizada pela natureza-mor-ta, ou melhor, por recorte de cenas, detalhes de objetos ou lugares, argumentando e contex-tualizando sobre essa produo, e ainda destaca como essas imagens podem transformar nossa percepo da vida diria. O inacabado, porm ainda vibrante, se apresenta nessas fo-tografias. Com a fotografia Terno, de 1997, Wolfgang Tilmans nos remete ao terno de Beuys, pela cor, pela verticalidade, mas atualiza o modelo mais descontrado, amassado, talvez j usado e deixado. A plasticidade e dramaticidade dessas imagens incluem-nas nesse reserva-do espao da arte, nesse caso, da fotografia como arte contempornea.

    Vida ntima o ttulo do quinto captulo. A fotografia artstica contempornea reserva um lugar privilegiado para esse tema, que traduz muitas vezes a exposio da intimidade, duas palavras que contrastam por oposio e nunca foram to associadas como nos ltimos anos, modificando comportamentos e valores culturais. Da linguagem da fotografia doms-

  • TRAMA INTERDISCIPLINAR - v. 2 - n. 1 - 2011

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    tica e dos instantneos de famlia para uma exposio pblica. Expostos pelos meios de co-municao, como a televiso ou a internet, esses corpos, ou melhor, essas vidas ntimas tornam-se pblicas. Vale destacar, entre esses fotgrafos-artistas, Alessandra Sanguinetti que, no livro, apresenta a fotografia Vida mia, de 2002, e teve um conjunto dessa srie de fotos apresentado na 29 Bienal de So Paulo. Natural de Nova York, Sanguinetti

    [...] dedicou-se durante quatro anos a um projeto fotogrfico realizado com duas primas

    que moravam na periferia de Buenos Aires. O trabalho girou em torno das escolhas das

    moas sobre como se apresentar, geralmente envolvendo performances teatrais e roupas

    especiais. O papel da fotgrafa registrar ou facilitar a autoexpresso das moas, e no

    ser a coregrafa de suas apresentaes. O que decorreu desse relacionamento ntimo e

    confiante entre Sanguinetti e suas primas foi a possibilidade de tomar outras imagens,

    mais voltadas para a observao, e que flagraram as moas quando estavam fora de seus

    personagens cnicos (COTTON, 2010, p. 156).

    O sexto captulo, Momentos na histria, mostra-nos como a fotografia pode servir de testemunha dos modos de vida e dos acontecimentos do mundo. assim que Charlotte Cotton apresenta esse captulo. Entre a perda do poder documental da fotografia e a sua relevncia social. Essa abordagem temtica nos revela um outro olhar e ainda uma outra qualidade tc-nica na produo de imagens em ambientes tensos, em cenrios de guerra, de destruio, de conflito ou de abandono. O tempo desses fotgrafos no mais comprometidos com a notcia dos acontecimentos, mas com um olhar potico sobre os acontecimentos de fatos histricos, aproxima-nos de artistas como Goya ou Picasso em suas pinturas de cenas histricas.

    No stimo captulo, Revivido e refeito, a autora afirma que a anlise ps-modernista tem nos oferecido alternativas para compreendermos o sentido de fotografias, diferente-mente dos preceitos modernistas. No cenrio da ps-modernidade, as fotografias so vistas como sinais que adquiriram seu significado ou valor a partir de sua insero num circuito social, cultural e artstico. Nesse contexto, o significado de uma imagem determinado em relao a outras imagens ou sinais. nessa abordagem que se insere a obra de Cindy Sher-man. Fotografias capazes de nos fazer tomar conscincia do que vemos. Imagens que pres-supem um repertrio imagtico ao espectador para que esse faa suas prprias associa-es. Trish Morrisey e Gillian Wearing buscam, nas suas prprias experincias em famlia, as imagens dos lbuns de famlia para construir montagens cnicas para a produo de suas fotografias. nesse grupo de artistas-fotgrafos que se insere o brasileiro Vik Muniz, com suas apropriaes de imagens recorrentes e produzidas com materialidades surpreendentes capturadas pelo instante da fotografia. Nessa perspectiva ps-modernista, fotgrafos-artis-tas contemporneos so conscientes da possibilidade de propor a percepo do mundo con-temporneo a partir do legado imagtico j conhecido.

  • A fotografia como arte contempornea resenha de Keller Regina Viotto Duarte

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    O ttulo do oitavo e ltimo captulo, Fsico e material, inspira-se num texto da artista Tacita Dean, de 2006, sobre a diferena ou indiferena entre a fotografia anloga e digital. Reparar ou no nessa diferena? A fotografia digital e a valorizao dessa materialidade. Como a quantidade de informaes visuais nossa disposio afeta nossa leitura das ima-gens e nossa relao com elas o alvo da investigao dos artistas analisados pela autora nesse captulo.

    Hoje, essas questes passam a ser tambm minhas questes para meu projeto de doutorado.Sendo assim, encerro esta investigao no texto de Charlotte Cotton, certa de que este

    pode contribuir muito para reflexes e futuras produes acerca do meu tema. Agradeo a oportunidade dessa leitura. No estou certa de que fao aqui exatamente uma resenha do livro, mas estou certa das contribuies que essa tarefa me proporcionou.

    A autora Charlotte Cotton a diretora de criao do Museu Nacional da Mdia do Reino Unido. Anteriormente, foi curadora e chefe do Departamento Wallis Annenberg de Fotogra-fia do Museu de Arte do Condado de Los Angeles, diretora de programao da Galeria dos Fotgrafos de Londres e curadora de fotografia do Museu Victoria & Albert de Londres. Char-lotte Cotton j foi curadora de diversas exposies de fotografia contempornea e autora e organizadora de publicaes como Imperfect beauty [Beleza imperfeita], Then things went ouiet [Ento as coisas ficaram quietas] e Guy Bourdin.

    Annateresa Fabris historiadora, crtica de arte, pesquisadora do CNPq e professora do Programa de Ps-graduao em Artes da Universidade de So Paulo. Tadeu Chiarelli diretor do Museu de Arte Contempornea da Universidade de So Paulo e coordenador do Grupo de Estudos Arte&Fotografia do Departamento de Artes Plsticas da Escola de Comunicao e Artes da Universidade de So Paulo (USP).

    Recomendo a leitura desse livro a fotgrafos, artistas visuais, estudantes e profissionais da rea da comunicao e arte que tenham na imagem fotogrfica seu foco de interesse, e tambm aos que investigam a produo contempornea de arte e a representao do corpo humano vivo ou a ausncia deste em espaos vistos por um olhar humano mediado pela cmera fotogrfica.

    COTTON, C. A fotografia como arte contempornea. Traduo Silvia Maria Mouro Netto. So Paulo:

    Martins Fontes, 2010. 248 p.