Na saga dos anos 60

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Em narrativa direta e envolvente, o veterano jornalista e ativista poltico Carlos Olavo da Cunha Pereira faz reviver, nestas suas memrias, a efervescncia poltica dos anos 60 e 70 na Amrica do Sul. Perseguido pela ditadura no Brasil, busca asilo na Bolvia, onde tambm instaurado um regime autoritrio, e depois no Uruguai, que igualmente sucumbe a um golpe militar. A sua trajetria espetacular entremeia-se com fatos histricos e seus respectivos atores do perodo (JK, Carlos Lacerda, Jos Sarney, Afonso Arinos, os presidentes militares, etc.). Leitura das mais empolgantes, Na saga dos anos 60 equilibra histrias pessoais com curiosidades histricas pouco abordadas em outras obras especialmente sobre os governos autoritrios da Bolvia e do Uruguai, convidando o leitor reflexo sobre a importncia da participao do cidado na poltica nacional.

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Carlos Olavo da Cunha PereiraNa saga dos anos 60Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 3Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 3 5/23/2013 11:48:08 AM5/23/2013 11:48:08 AM5Sumrio Agradecimentos 7 I Sada de Governador Valadares 11 II Fugitivo 15 III Na clandestinidade em Braslia 19 IV Cidade do j teve 25 V Saudade 29 VI Envm a Redentora! 33 VII Priso 37 VIII De como o tenente organizaria o pas 43 IX A previso de San h iago Dantas 47 X Rompendo a incomunicabilidade 51 XI Fuga 55 XII A gostosa sensao da liberdade 59 XIII De braos com dois soldados 63 XIV Arranjando identidade 67 XV Quase apanhando no dia da cassao de Juscelino 71 XVI Falhou o primeiro asilo 75 XVII Juscelino e o coronel 79 XVIII Chegada terra dos incas 83 XIX Ch de coca em tona 87 XX Uma revoluo de verdade, a boliviana 91 XXI Montaram a corrupo na garupa da Revoluo 97Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 5Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 5 5/23/2013 11:48:08 AM5/23/2013 11:48:08 AMNa saga dos anos 606 XXII Enterro de terceira para uma revoluo de joelhos 101 XXIII Com um p civil e o outro na bota militar 105 XXIV Assalto s minas: Barrientos quase capturado 109 XXV Clandestinidade 113 XXVI A Redentora veste a farda 117 XXVII A primeira derrota popular da Redentora 121 XXVIII Passando de espectadores a atores 125 XXIX Atrever-se preciso 129 XXX Acampamento de guerrilheiros 133 XXXI Chega o coronel Dagoberto Rodrigues 137 XXXII Capara 141 XXXIII Por que fracassaram as guerrilhas 145 XXXIV De novo no exlio 149 XXXV A Sua da Amrica Latina 153 XXXVI O fenmeno Tupamaro 157 XXXVII De como militarizaram o pas civilista da Amrica 161 XXXVIII Sob o terror da represso 165 XXXIX Brizola expulso 169 XL Carter deu o asilo 175 XLI Argentina nega passagem a Brizola 179 XLII Justia a Jimmy Carter 183 XLIII Priso 187 XLIV Preparado para a tortura 191 XLV De como se salvou pelo gongo 195 XLVI Veio com a primeira anistia 199 Homenagem 201Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 6Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 6 5/23/2013 11:48:08 AM5/23/2013 11:48:08 AM11ISada de Governador Valadares Barros Otvio, aqui est o radiograma do governador do estado. Ele quer que lhe asseguremos a sada da cidade e o acesso at Belo Horizon-te. Porm, quer sua imediata retirada da cidade dizia, radiograma nas mos, o coronel Mario Simes, ento comandante da unidade da Polcia Militar da cidade.E acrescentava, em tom amigo, como que vexado da triste misso que lhe tocara desempenhar: J temos instrues para ocupar toda a linha da Estrada de Ferro Vitria-Minas at o porto de Vitria. A operao j teve incio. E voc com o seu jornal, o Tito com o sindicato, so pontos a ser neutralizados. Entenda-me, caro jornalista, tenho de cumprir a misso. Diga-me o que necessita para sair daqui e alcanar Belo Horizonte, porque as chamadas milcias dos fazendeiros, comandadas pelo coronel Tetro Barreira, j es-to soltas na cidade e praticamente escapam ao meu comando.Da residncia de Barros Otvio, onde o coronel Mario Simes fazia sua exposio ao jornalista, dava bem para ouvir os berros encolerizados e ameaadores dos bandos armados que Tetro Barreira soltara na cidade. Foram de tal sorte os desatinos perpetrados pela organizao paramilitar dos fazendeiros que reportagens dos jornais da poca chegaram a batizar Governador Valadares de Cidade do dio. Bandos armados percor-riam as ruas, invadiam residncias, vasculhavam tudo e detinham quem lhes aprouvesse, num espetculo brutal de desrespeito aos mais comezi-nhos princpios de direito e civilizao, instalando um verdadeiro clima Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 11Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 11 5/23/2013 11:48:08 AM5/23/2013 11:48:08 AMNa saga dos anos 6012de guerra civil. Para se ter uma ideia dos desmandos ento praticados, um dos grupos armados dizendo ter conhecimento da chegada incg-nita cidade do deputado e secretrio da Sade, Ladislau Sales inva-diu a casa do dr. Silva Monteiro de Castro e esquadrinhou at embaixo da cama. Procuraram-me onde normalmente eles se esconderiam co-mentou depois o deputado.Pelo rdio e pela televiso, jorravam notcias preocupantes: Mi-nas se rebelara e lanara manifesto conclamando o pas insurreio contra o governo federal; esperava-se, a qualquer momento, a adeso de Ademar de Barros e do general-comandante do II Exrcito, Amau-ri Kruel; em Pernambuco, j estava patente o confronto entre o go-vernador Miguel Arraes e os coronis do IV Exrcito; no Rio, as no-tcias falavam da doena do ministro do Exrcito e de que a trama golpista estava sendo liderada pelo chefe do estado-maior, general Castelo Branco; sobre o Rio Grande do Sul fazia-se silncio e tambm anunciavam que o presidente Joo Goulart, ainda no Rio, comparece-ria naquela noite, 30 de maro, manifestao dos sargentos no Automvel Clube.Depois de rpida avaliao, falou Barros Otvio: Coronel, os elementos que conseguimos gravar de sua rpida ex-posio, assim como a situao imperante na cidade, apresentam um quadro muito desfavorvel para ns. Quer dizer que Minas, por seu go-verno, levantou-se contra o presidente Jango. Est oi cializada a rebelio que se gestava nos desvos golpistas. E ns aqui o movimento dos camponeses, o meu jornal e o povo, eni m estamos praticamente na boca do lobo: se at agora tnhamos na polcia do senhor certa conteno s tropelias que Tetro Barreira e seus milicianos del agraram na cidade e na regio, vamos, daqui por diante, ter pela frente a polcia fardada e os bandos armados. Claro, seremos esmagados. Vejo que o senhor est compreendendo bem a situa o ata-lhou o coronel, acrescentando: Embora eu lhe assegure que, enquanto Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 12Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 12 5/23/2013 11:48:08 AM5/23/2013 11:48:08 AMSada de Governador Valadares13for comandante do batalho, aqui no se praticaro desatinos. Sei que no vai ser fcil conter esses bandos armados, que tenho ordens de tole-rar. Sei que algumas ilegalidades j esto sendo praticadas, e ns estamos agindo como bombeiros. Por isso mesmo, sou dos que pensam que isto no vai acabar bem. Sei at que terminaro por no me manterem aqui por muito tempo. Mas, enquanto comandante, tudo farei para garantir a vida dos ameaados e de suas famlias. Obrigado, senhor coronel. Mas vamos ao gro da questo: que necessita o senhor para sair da cidade e chegar capital? A que horas vai sair? Quem ir com o se-nhor? Alis, acho que o senhor agora no deve levar sua esposa e i lhos. Ficaro aqui sob minha guarda. Amanh mesmo trarei aqui minha se-nhora para inspirar mais coni ana aos seus. Compreendo, e no vou expor minha famlia aventura de sair por a, talvez at sob perseguio. Aceito sair da cidade assim que ouvir o pronunciamento de Jango na TV. Preferia faz-lo sob a escolta do cabo Calisto, que escolheria seus soldados, e do Tito. Tito? Mas ele est preso no batalho. No, senhor coronel. H um engano a que o major-delegado poder esclarecer. Tito no est preso. Tito foi recolhido ao batalho, a meu pedido, para que sua vida fosse garantida. Ele est l, levado pelo major-delegado. Acredito que esse oi cial coni rmar inteiramente o que estou dizendo.Interrompeu-me o dilogo, enquanto o coronel consultava o major, a ss. Senhor jornalista, o major coni rmou suas palavras disse o coronel, retomando o dilogo. Mas, seja como for, no seria prudente sua sada junto com o Tito. Ai nal, os dois esto soltos. Acaba de mor-rer, no hospital, o genro de Tetro Barreira. E ele o acusado. Coronel, ningum em s conscincia pode acusar quem quer que seja pelo assassinato do infeliz rapaz, uma vez que isso aconteceu em meio a mais de trezentos ou quatrocentos tiros. Por outro lado, devo Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 13Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 13 5/23/2013 11:48:08 AM5/23/2013 11:48:08 AMNa saga dos anos 6014lhe dizer com franqueza: s sairei daqui levando o Tito comigo, por-que moralmente no posso deix-lo entregue prpria sorte. Espero que o senhor compreenda minha posio falou em tom dei nitivo o jornalista.Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 14Na_Saga_dos_anos_60_Pereira_156x230.indd 14 5/23/2013 11:48:08 AM5/23/2013 11:48:08 AM