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  • ANPUH XXV SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA Fortaleza, 2009.

    Mltiplas faces dos conflitos de terra: escravos, lavradores de roa e senhores no final da escravido na Mata Norte de Pernambuco

    Emanuel Lopes de Souza Oliveira1

    Resumo: No foram poucos os conflitos na Mata Norte pernambucana. O artigo trata do envolvimento dos escravos em questes de terra nas freguesias de dois importantes municpios da regio aucareira, Goyana e Nazar da Mata, nas dcadas de 1870 e 1880, sendo o primeiro de incrementado mercado interno. Atravs das mudanas na dinmica da posse da terra e de escravos podemos redimensionar interpretaes que primam por uma relao automtica entre estrutura fundiria e controle social, e assim englobarmos muito mais uma discusso de mltiplas relaes de fora, diludas entre os diversos grupos sociais. A contrapartida da resistncia dos lavradores de roa, arrendatrios e, sobretudo dos escravos, diante do controle da poltica senhorial, prope novos debates sobre o processo histrico do acesso terra. Neste contexto, o final da escravido foi marcado por um forte sentimento de defesa das terras, do qual a roa dos escravos imprimiu significados de autonomia e liberdade. Palavras-chave: conflito- escravido- terra.

    No artigo, discutiremos a possibilidade de ampliao da presena de roas dos

    escravos na principal regio de exportao de acar dos oitocentos, ao mesmo tempo em

    que, as dvidas sobre o papel diminuto dado aos confrontos praticados pelos lavradores de

    roa e escravos frente s polticas de controle social, durante a crise do escravismo e

    efetivao da concentrao fundiria, suscitam novos debates sobre a historiografia

    (EISENBERG, 1977; PALACIOS, 1987; ANDRADE, 1990) dos ltimos anos da escravido

    na Zona da Mata de Pernambuco. Nesse segundo ponto, a documentao apresenta aspectos

    da reao ao processo de expropriao, do qual a defesa dos escravos por espaos de

    autonomia fez parte ao lado dos lavradores de roa, de um conjunto de questionamentos sobre

    o entendimento dado por lavradores de roa e escravos liberdade. Os escravos agiam em

    oposio ao que se acreditava ser um escravo, sem romper de fato, muitas vezes, a relao de

    negociao, respeito e obedincia ao proprietrio. E os lavradores de roa e libertos

    recusavam a todo tempo ao expediente regular de trabalho, percebido, muitas vezes, como

    escravido2.

    1 Mestrando em Histria pela UFPE. Este trabalho foi realizado com o apoio do CNPq. 2 De antemo, vale esclarecer a distino das diversas categorias sociais envolvidas no texto, senhores de

    engenho, lavrador, agregado e arrendatrios. Adotamos os mesmos critrios usados por Mrcia Motta & Elione Guimares (2007:112-113) no trato da documentao. Quanto ao lavrador de cana e algodo, e roa (mandioca, algodo, coqueiros, fumo, caf) nos referimos utilizao de Bert Barickman (2003: 41). O termo pobre relaciona-se aos indivduos nos inventrios pos mortem com monte- mor menor e igual a 3: 500$000 (trs mil e quinhentos ris). A escrita de Goyana, com y, deve-se a grafia antiga, ainda preservada nas edies da Gazeta de Goyana, em meados da dcada e 1880.

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  • ANPUH XXV SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA Fortaleza, 2009.

    O envolvimento dos escravos nas questes de terra, entre as dcadas de 1870 e

    1880, especificamente na Mata Norte da provncia, permeia, por enquanto aqui, a relao da

    resistncia escrava com comrcio de compra e venda de escravos no hinterland de Goyana,

    assim como o fenmeno do movimento das quadrilhas de salteadores, muito intenso

    principalmente no perodo das secas de 1877/1878. Em um dos casos de suspeio no

    envolvimento nas quadrilhas, diligncias do subdelegado de Nossa Senhora do 3, prendeu

    Jos Antnio Pereira que morava em Pedras de Fogo, de 40 anos, agricultor, natural da

    Costa da frica. Jos, acusado de homicdio, tivera sido escravo do Ten. Cel. Joaquim

    Gomes, senhor do engenho Cana Brava. No momento da priso, Jos estava no roado do

    escravo Luis, no mesmo engenho, para onde foi em um domingo, receber o salrio de dois

    dias de servio que prestou na roa desse escravo4.

    Alguns exemplos como esse, de roas dos escravos, aparecem nas freguesias dos

    municpios de Nazar da Mata e Goyana, que se situam na Mata Norte, regio aucareira da

    provncia ao norte do Recife. Goyana, diferentemente de Nazar, possua na freguesia de

    Nossa Senhora do Rosrio de Goyana, a segunda maior praa comercial da provncia. Para l

    se dirigiam os comboios de gado dos Sertes do Cear e da Paraba. Muito desse gado vinha

    das cidades de Timbaba e Itamb, outrora freguesias de Goyana, e das reas internas de

    fronteira prximas ao agreste. Abatia-se muito mais que 50 bois por dia, um pouco que a

    metade vinha de Timbaba, Itamb ou Pedras de Fogo5. Virgnio Horcio de Freitas, de

    Pedras de Fogo, um dos negociantes atuantes no comrcio de gado e couro na cidade, por

    exemplo, aparecia no Almanaque de Pernambuco da poca6.

    Na freguesia de So Loureno do Tejucupapo, entre a barra de Goiana e Catuama,

    existia agitado comrcio com as embarcaes atracadas prximo a costa, de produtos para a

    manuteno das barcaas. Havia tambm um mercado de lenha e madeira dos manguezais e

    matas que compreendiam terras de senhores da vila de Atapus, ou dos terrenos de marinha.

    Terrenos estes que disputadssimos, ao longo dos anos, se caracterizou pela intensa vida social

    dos escravos e libertos, em reas apropriadas por populares pelos usos costumeiros dos

    recursos naturais, onde a solidariedade e conflitos dos homens de cor constituam

    comunidades que se formavam em torno do pequeno comrcio de lenha, madeira, graxa para

    barcaas e peixes.

    3 Uma das freguesias do municpio de Goyanna. 4 MJPE, Goiana. Habeas Corpus de Jos Antnio Pereira, 1877, Cx. 203. 5 Jornal do Recife, 12 jul 1881. 6 APEJE, Almanaque Administrativo, Ind., e Agrcola de Pernambuco, 1871, p.165.

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    Nas feiras da cidade de Goyana e freguesias, o incrementado comrcio propiciado

    pelos diversos produtos da Mata Norte, sobretudo farinha de mandioca, desciam pelos Rios

    Capibaribe Mirim e Goyana. Rios que confluam para o porto prximo da cidade, em

    Japomim, de onde se escoava ainda mercadorias, em seguida, pelo Canal de Goyana at a

    barra de mesmo nome no Atlntico, imprimindo cidade uma diversificao das atividades

    econmicas em trs lados: uma importante produo de gneros alimentcios, o mercado

    interno e a exportao. Dividia, assim, Goyana com Nazar da Mata os grandes engenhos de

    acar da regio. J em Nazar, ao que parece, onde as propriedades dos senhores de engenho

    e lavradores de cana eram maiores, havia mais engenhos de beneficiamento de acar, e a

    dinmica da escravido urbana no se fazia to acentuada como em Goyana.

    A pesquisa em inventrios pos mortem da Comarca de Goyana (217), de 1869 a 1887,

    entre outras dezenas de inventrios de Nazar da Mata e processos cveis do acervo de

    Memorial da Justia de Pernambuco (MJPE), nos revelou o importante peso da produo de

    gneros alimentcios, assim como o beneficiamento de alguns produtos, dentre eles, a farinha

    de mandioca, algodo, e o azeite de carrapato ou mamona. O perfil de posse dos inventariados

    mostra que a pequena unidade de produo na Mata Norte era economicamente vivel, e

    duradoura, haja vista a freqncia de 33,3% da famlia escrava nas escravarias (ANEXO:

    Tabela1). Os proprietrios de 6 a 10 escravos, na maioria so plantadores de coqueiros e cana

    de acar; nesse grupo, os arrendatrios, dividem as plantas de canas com o significativo

    cultivo de roas de milho, feijo, e mandioca7.

    Os processos cveis de manuteno de posse (63,7%), demarcaes (tendncia de

    aumento a partir da dcada de 1870), embargos e arrendamentos, envolvendo a defesa de

    situaes rurais e terra, nos apresentam indicativos de um forte sentimento de defesa das

    terras no final da escravido da Mata Norte (ANEXO: Grficos 2 e 3). Alm disso, as aes

    de liberdade de Nazar, agenciadas por escravos e escravas, possuam certa relao com o

    calendrio agrcola da produo aucareira, onde a negociao e estabilidade no cultivo da

    roas novas e comedeiras interferiam na formao dos pequenos peclios, e no subseqente

    auto-resgate.

    Robert Slenes (PREFCIO: 19 apud FILHO, 2006) comenta que no Recncavo

    baiano os ex-escravos conseguiram aumentar o nmero de dias da semana que podiam dedicar

    a seus prprios cultivos nas terras de seus antigos proprietrios, pelo menos at bem entrada a

    7 Cf. MJPE, Goiana, Inventrio de Joo Cardoso de Jesus, 1881, Cx. 193; Inventrio de Jos Carneiro de Mesquita Mello, 1881, Cx. 193; Inventrio de Bento Jos Tavares, MJPE, 1869, Cx. 184, dentro outros inventrios pos mortem de Goiana.

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    dcada de 1890, algo que aparentemente estava fora de seu alcance na outra grande regio

    aucareira, a da Zona da Mata de Pernambuco. Tal fato, apresentado com ressalvas por Slenes

    (... algo que aparentemente) deve-se a quase inexistncia de pesquisas sobre a escravido e

    o mercado interno. Apenas temos a obra de Dirceu Lindoso (1983; 1988), contextualizada, no

    caso do desenvolvimento de reas mais extensas de cultivo de roas pelos negros papa-mis,

    durante o episdio da Guerra dos Cabanos, na primeira metade do sculo XIX.

    A ampliao das roas dos escravos, de certo modo, poder ser problematizada por dois

    vieses nos inventrios pos mortem de Goyana. Uma a formao de peclios, a outra mais

    complicada, refere-se oscilao das palavras agricultor e trabalhador de campo, na

    seo das matrculas especiais atribudas ao ofcio do escravo. Notamos que agricultor ao

    invs de trabalhador de campo no tem relao com preos, o que se poderia atentar para

    diferenas de preos por uma atividade especializada dos escravos matriculados como

    agricultor. A aparente indeciso do coletor persistia nas duas matrculas, a de 1871/72 e a de

    1886/87. Nos arrolamentos do inventrio, o ofcio de agricultor, em alguns escravos, aparece

    apenas a partir de 1876, no auge da aplicabilidade da Lei do Ventre Livre, que abriu

    prerrogativas para o uso do peclio no auto-resgate, independente da vontade senhorial. Nos

    autos de interrogatrios, em processos judiciais, como aquele de Jos Antnio Pereira, da

    Costa da frica, e acontece assim para os lavradores de roa, eles se identificavam como

    agricultor ou que vive da agricultura. Percebemos que, embora, os escravos sejam

    naturalmente listados como peas, ao lado de objetos e animais, durante as avaliaes se

    invertia a tica da ideologia da dominao em um momento frtil para sua atuao poltica.

    Em 1875, os escravos do finado Maximiano Cndido, declararam que no tinham

    peclio algum, em resposta ao Juiz.8 Com a morte do senhor de engenho Armando da Motta

    Silveira, em Nazar da Mata, Marculino, pardo, de 20 anos, exibiu 140$, em seguida o juiz

    mandou passar a carta de liberdade em favor dele. A escrava Rosa desse mesmo senhor,

    havia deixado de ser avaliada por ter ido a cidade requerer ao Juzo civil, o seu depsito

    para promover sua liberdade 9.

    Quando os escravos tinham acesso s autoridades, a possvel identificao de

    agricultor, na sua fala respondendo aos coletores e juzes, nos estabelece uma relao-

    problema, dessa identidade, que no exclui a conciliao com atividades no corte da cana,

    experincia do cultivo de roas. E o mercado de escravos?

    8 MJPE, Inventrio de Maximiano Cndido da Silva Fragoso, 1875, Cx. 188, fl.4v. 9 MJPE, Inventrio de Armando da Motta Silveira, 1888, Cx. 133, fl.16.

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    Recentemente, os estudos de Versiani & Vergolino (2005: 285-301) sobre a dinmica

    da compra e venda de escravos na praa do Recife em 1878, indicou o empenho na venda de

    cativos, no s por traficantes mais voltados a negcios da escravido em Recife, mais de no

    traficantes das reas da Mata Norte, vendedores de escravos, inclusive de Paudalho,

    negociando escravos dentro da provncia, para municpios da Mata sul, Escada, por exemplo.

    As matrculas especiais de escravos, anexas aos inventrios pos mortem de Goyana e Nazar,

    esto corroborando com a indicao de que no apenas senhores de engenho da Mata Sul

    (LIMA, 2007: 64-70), mas que dezenas de senhores de engenho e lavradores de cana de

    Goyana e Nazar tambm esto comprando escravos, num contexto, at ento, desfavorvel

    pelo desempenho dessa regio na pauta de exportaes de acar. Esses escravos so

    comprados em cidades na Paraba como Campina Grande, Itabaiana, Areias, e dentro das

    prprias freguesias de Goyana, com uma diferena que, os proprietrios esto se desfazendo

    de alguns escravos, sobretudo em Goyana, e no em Nazar.

    de observar que tal comrcio, como se deduz das anotaes nas matrculas especiais,

    certificando que o respectivo escravo negociado foi matriculado nas freguesias de origem,

    vem acontecendo a algum tempo, de 6 ou 8 anos, ou mais, dependendo das negociaes

    oficiosas, feitas tanto antes como depois da Lei do Ventre Livre, sem a certido da meia sisa

    na escritura de compra e venda exigida. Segundo Robert Slenes, a lavoura aucareira no foi a

    principal fonte de oferta de escravos para o Sudeste cafeeiro (IDEM: 287). O fabrico do

    acar foi beneficiado pelas baixas cambiais, no tendo problema com ausncia de mo de

    obra, aumentando o volume das exportaes (CAMILO, 1978: 38), entre 1860-1880. No

    contexto de barateamento dos salrios, cujo efeito foi sentido somente na dcada de 1880,

    devido o aumento da migrao de retirantes sertanejos ao litoral, durante as grandes secas de

    1877 e 1878, houve queda dos preos do acar, entre 1882-1885, favorecendo a aquisio

    por baixo preo do trabalhador livre. Ento, nessa ltima fase, pode ter havido diminuio do

    comrcio de escravos no hinterland da Mata Norte e com as freguesias da Mata Sul.

    Por outro lado, mesmo numa sociedade hbrida, com a produo sendo dividida por

    escravos, libertos, e majoritariamente por livres, j na dcada de 1870, segundo o Censo de

    1872, a idia de flexibilidade do escravismo, pela incorporao de muitos trabalhadores livres

    oposta a novos indcios de que o trabalho escravo ainda foi muito utilizado, talvez, tanto

    quanto no Recncavo Baiano (Cf. BARIKMAN, 1998/1998). O comrcio interno de compra

    e venda de escravos na regio aponta, portanto, para tal perspectiva, de demanda pelo trabalho

    escravo, do que usualmente relatado na historiografia, sendo empregados, inclusive, escravos

    fora da idade produtiva. Na freguesia de Goyana, por exemplo, segundo o Censo de 1872, o

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    nmero de escravos lavradores (979) era maior do que os escravos recenseados em idade

    produtiva (813), entre 16 e 40 anos. A contagem de escravos, de 11 a 50 anos, correspondia a

    1091, entre cativos de ambos os sexos10. Essa defasagem indica o emprego de adolescentes,

    jovens e velhos no trabalho do campo, com a maioria trabalhando em terras de lavradores de

    roa (algodo), que tinham de 1 a 5 escravos, geralmente de posse dos mais jovens e idosos11.

    Em primeiro de julho de 1881, a preta Luiza, doente e com mais ou menos 60 anos,

    morando no engenho Albuquerque em Nazar, entrou na Justia, solicitando a carta de

    alforria mediante a indenizao de 100 mil ris. Quando lhe foi designado um curador para

    represent-la, e o processo seguindo o curso nos ditames da Lei do Ventre Livre, o

    proprietrio alegava que a quantia era irrisria, amolando e adiando o recebimento da alforria,

    sentenciada no ano seguinte. Em algumas peties do curador aparecem algumas citaes,

    trazendo reaes do senhor frente iniciativa da escrava de torna-se livre: certo que o

    marido da escrava Luiza est despejado da casa em terras do engenho Albuquerque onde tem

    lavouras que no pode colher, como seja uma planta de canas que no quer moer de Luiza

    porque a escrava pretende se libertar exibindo a quantia de cem mil reis. 12

    O senhor de engenho, Francisco Agripino do Rego Barros, que havia comprado a

    escrava, ainda com 36 anos, matriculada no municpio de Campina Grande em 187213,

    quebrou um acordo, quando Luiza conseguiu arrumar algum dinheiro e alforria-se. Sobrou

    para o marido que j negociara uns roados para plantar e ainda para liberta, impedida de usar

    a casa de moer. Luza iniciou sua petio, alguns dias depois das festas dos santos juninos,

    talvez, tivera vendido alimentos com o marido nessa ocasio, ou curtido as festividades,

    tramando o confronto contra o senhor, a procura do curador e apresentado o peclio14.

    10 IAHGPE, Censo de 1872. 11 MJPE, Inventrios pos mortem de Goiana, 1869-1887, passim. 12 MJPE, Nazar. Ao de Liberdade. Luiza escrava/ Francisco A. do Rego Barros, 1881, Cx. 129, fl.12v. 13 IDEM, Certido de matrcula, fl.21. Luza, preta... do servio de campo. 14 Joo Jos Reis observou a aumento de fugas, algumas de ocasio, durante, ou nas proximidades das festas de

    Santo em Salvador, ver o recente Domingos Sodr, um sacerdote Africano. So Paulo: Cia das Letras, 2008. O ponto de inflexo no grfico, em junho, sugere um corte de nimo e tenso em torno das festividades, no momento de agenciamento dos escravos nos processos cveis de liberdade.

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    GRFICO 1: AO DE LIBERDADE: DISTRIBUIO ANUALNAZAR DA MATA

    0123456789

    10

    jane

    iro

    feve

    reiro

    mar

    o

    abril

    mai

    o

    junh

    o

    julh

    o

    agos

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    sete

    mbr

    o

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    nove

    mbr

    o

    deze

    mbr

    o

    Meses

    Petio inicial

    Fonte: Memorial da Justia. Nazar da Mata, Aes de liberdade, 1866-1888(54)

    De forma geral, ao analisar o calendrio agrcola, reparamos que a produo do acar

    tinha para os meses de janeiro, fevereiro, maro, o incio do plantio das sementes, fim do

    corte e produo do acar das canas do ano anterior. Nos meses de setembro, outubro e

    novembro aconteciam a safra ou corte da cana, em seguida tais atividades acompanhavam o

    reincio do ciclo, com o fabrico mais ou menos at maro. De incio, pensvamos os

    agenciamentos dos processos cveis de liberdade numa estratgia dada entre o intervalo do

    plantio e safra, ou seja, na fase amena do ciclo da produo15, favorvel a possveis

    negociaes. No entanto, as aes de liberdade tiveram suas peties iniciais redigidas no na

    entressafra, e sim, com maior freqncia justamente durante o corte da cana e beneficiamento

    do acar, o que revigora o carter conflituoso, de enfrentamento dos escravos no momento

    indispensvel da mo de obra para lavradores de cana e senhores de engenho.

    Como 40,7%, a maioria das aes representava meno compra da alforria. Os

    pequenos peclios foram adquiridos, portanto, dentro de vrias possibilidades, no apenas

    vamos pensar em pequenos furtos, mas tambm como indicam as fontes, pelo menos em

    Nazar da Mata, muito prximos das vendas das lavouras de mandioca, milho e feijo, mais

    assistidas na entressafra. Luiza como plantava canas, podia at vender o mel de engenho,

    escorrido das caldeiras, e produzia o acar do prprio consumo16.

    A meu ver, a ampliao da autonomia da roa escrava tem muita ligao com o

    comrcio de compra e venda de escravos, negociados na provncia da Paraba, na geografia de

    fronteira, entre a regio aucareira e a faixa de transio agrestina. reas aonde vinham se

    15 A dura fase das limpas dos terrenos era realizada de forma contnua, logo depois de finalizadas as tarefas no campo. De fato, era mais exigido na entre safra, concomitante o plantio das sementes. A uma comparao com o calendrio no Recncavo em Walter Filho (2006: 94 notas 6 e 7).

    16 Walter Filho (2006: 40) indica que alguns escravos participavam do circuito do acar como pequenos plantadores de cana para os engenhos no Recncavo Baiano.

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    desenvolvendo o cultivo do algodo, de freguesias prximas a Itamb e Timbaba, ou da

    produo de farinha, azeite, l, em Goyana. A flexibilidade da roa escrava na plantation da

    Mata Norte, com escravos cultivando alimentos e at plantas de canas para moer dentro dos

    engenhos, no deve deixar de ser pensada dentro de uma dinmica de resistncia, da

    experincia da roa escrava, obtida em negociaes por vrios escravos, antes de serem

    vendidos, conquistada nessas regies de pequenas escravarias vinculadas ao mercado interno,

    e que por sua vez levada s novas freguesias de destino.

    Outros conflitos aconteciam nos engenhos e terrenos de marinha de Atapus, em 188217. O

    juiz de paz de So Loureno do Tejucupapo enviou vrias notificaes ao delegado de Goyana,

    outra ao Chefe de Polcia, sobre a devastao das matas, coqueiros e manguezais do seu engenho

    Itapessoca, praticada por um bando de ladres e malfeitores, em nmero de 44, que desciam

    com canoas carregadas de mangues e lenhas, assim como roubavam cocos, madeira e destruam

    instalaes da propriedade como a casa de carvo. Liderados pelo clebre Azulo e protegido

    pelo senhor do engenho Atapus, Jos Nicolau da Silva, 23 deles andavam armados.

    Nicolau alegava que seus moradores h muito assentados nos terrenos de marinha, se

    dedicavam ao comrcio de lenha, O juiz rebatia nas correspondncias, sobre a ilegalidade do

    comrcio, sinalizando a derrubada dos cercados de sua propriedade, onde vrios ladres, j

    tinham assentado. Dentre os envolvidos na quadrilha, estavam ainda Paulino e Anergino que

    foram escravos Joaquim Branco, e foi Eustaquio Lins Marques quem queimou o carvo.

    Assim, entendemos que para os escravos e seus descendentes (libertos, ex-escravos), a

    manuteno dos seus roados, o comrcio de lenha, e o direito conquistado por negociaes

    junto aos senhores em relao ao acesso terra pinta, assim como aos lavradores de roa,

    significantes da no-escravido, da posse das terras percebida como espaos de liberdade,

    interconectados com o conflituoso dia-dia das diferenciaes sociais no sculo XIX. J no

    contexto da emancipao e do movimento abolicionista, o acesso terra vm adquirindo mais

    do que a vinculao ao que por sua vez significasse bom cativeiro (concesso) e liberdade,

    ou seja, percepo ainda formada dentro do sistema escravista, passando ento os conflitos

    envolvendo a questo da manuteno das roas, concomitantes mudana da poltica

    senhorial de recrudescer e retaliar diante do avano do confronto dos escravos nos ltimos

    anos, durante tambm as expropriaes que se intensificam na dcada de oitenta na Mata

    Norte, significarem uma reao anti-sistmica, de combate direto e deslegitimao da

    escravido.

    17 APEJE, Goiana, Secretria de Segurana Pblica, vol.180, Correspondncias de 2.06.1882 a 8.07.1882.

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    ANEXO: TABELA 1, Grficos 2 e 3 respectivamente: MATA NORTE: POSSE DE ESCRAVOS NO MUNICPIO DE GOIANA (1869-1879)

    Escravarias n inventrios

    Proprietrios Quantidade de escravos

    Freqncia a Famlia escrava

    % % % Nenhum 38 33,3 - 1 a 5 50 43,8 126 24,4 8 14 6 a 10 14 12,3 90 17,6 19 33,3 11 a 20 5 4,4 67 13 9 15,8 21 a 40 5 4,4 140 27 17 29,8 41 a 51 2 1,8 94 18 4 7

    Total 114 100% 517 100% 57 100% Fonte: Memorial da Justia: Inventrios pos mortem Goiana-PE a. Incidncia de relaes familiares nucleares e matrifocal.

    0102030405060708090

    100

    1840 1850 1860 1870 1880 1890pro

    cess

    os c

    veis

    ( %

    )

    QUESTES DE TERRA OU DE SITUAO RURAL MATA NORTE

    embargos possessoria arrendamento

    0102030405060708090

    100

    1840 1850 1860 1870 1880 1890

    proc

    esso

    s cv

    eis (

    %)

    QUESTES DE TERRA OU DE SITUAO RURAL MATA NORTE

    partilhas demarcaes

    Fonte: Memorial da Justia. Fundo Comarca de Nazar da Mata; Goiana

    9

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