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Capítulo 1 do livro Multinacionais Brasileiras, de Moacir de Miranda Oliveira Junior e colaboradores.

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  • Multinacionais Brasileiras: internacionalizao, inovao

    e estratgia global

    Moacir de Miranda Oliveira Junior e colaboradores

    Formato: 17,5x25 cmISBN: 9788577806379Ano: 2011Pginas: 358

    AUTOR: Moacir de Miranda Oliveira Junior, doutor em administrao e professor da USP.

    Saiba MaiS

  • Internacionalizao: modelos e dimenses tericas

    PARTE

    I

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  • Um exame da literatura sugere que a principal ca-racterstica das reas de Negcios Internacionais (NI) e Gesto Internacional (GI), e o que as difere de outras, o uso de mltiplos nveis de anlise, res-pectivamente: global, internacional, nacional e inte-rorganizacional e intraorganizacional. Esses nveis re-fletem complexidades e interdependncias do amplo mundo dos negcios internacionais, no observadas em outras reas.

    Cabe notar o predomnio de estudos, tanto em NI quanto em GI, focados nos investimentos dire-tos externos (IDEs) e nas empresas multinacionais (EMNs). A anlise tambm evidencia que a inves-tigao das estratgias e prticas de empresas multi-nacionais requer a adoo de abordagens multidisci-plinares e/ou interdisciplinares com outras reas das cincias sociais e que isso pode ajudar as duas reas a transcender o foco na firma.

    Os diferentes paradigmas construdos nas duas reas (tanto a abordagem econmica, predominan-te em NI, quanto as concorrentes comportamental, gerencial e cultural, em GI) so insuficientes para

    1Negcios internacionais e

    gesto internacional: evoluo do campo terico

    Ana Lucia GuedesPh.D em Relaces

    Internacionais pela London School of Economics,

    Inglaterra. Pesquisadora e professora adjunta

    da EBAPE/FGV.

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  • 22 Parte I Internacionalizao: modelos e dimenses tericas

    pesquisa em pases em desenvolvimento. Isso decorre do fato de que a literatura negligencia aspectos relevantes para esses pases, como, por exemplo, os impactos ambientais e sociais das prticas das multinacionais e as implicaes polticas, sociais e econmicas da atrao de investimentos diretos, tanto para governo e sociedade quanto para as multinacionais, e, finalmente, a crescente internaciona-lizao de empresas dos pases emergentes. Considerar essas lacunas em pesquisas futuras implica em ampliar o escopo de GI e retomar temas e abordagens de economia poltica, como relaes governo-empresa e sistemas nacionais compa-rativos, tidos como relevantes na agenda de NI nos anos 1970.

    A evoluo da agenda de pesquisaO debate na rea de NI acerca da evoluo do campo terico, em termos de incluso de novos temas, abordagens mais rigorosas e pesquisa multidisciplinar, data do incio da dcada de 1980. A discusso sobre a importncia de desenvol-ver teorias vlidas sobre novas questes est registrada no editorial do Journal of International Business Studies (JIBS), peridico oficial da academia que leva o mesmo nome (AIB). Em 1983, os editores sugeriram os seguintes temas para pesquisa: marketing internacional, desenvolvimento e comrcio internacional, contabilidade internacional, finanas internacionais, empresas multinacionais e gesto internacional.

    Dunning (1989) ressalta a orientao pragmtica da rea a partir do reco-nhecimento de que era elevada a proporo de acadmicos que atuavam como consultores. Ele identifica duas correntes no estudo de NI. A primeira vai da metade dos anos 1950 at o final de 1960. NI era ensinado e pesquisado por reduzido nmero de acadmicos, que acabaram ajudando a formar e a desenvol-ver a AIB. Naquele momento, havia poucas escolas de negcios fora dos EUA; os acadmicos norte-americanos, treinados em gesto econmica e marketing, dominaram as pesquisas na rea de NI por meio de uma abordagem que descon-siderava influncias ou questes culturais. A lgica predominante era adicionar uma dimenso internacional aos estudos de negcios domsticos.

    Nessa poca os acadmicos norte-americanos institucionalizaram a rea de NI e, posteriormente, a de GI. A AIB foi criada em 1959, e a International Management Division (IMD) da Academy of Management surgiu na dcada de 1970. Os fundadores da AIB eram um grupo de acadmicos que tinham o zelo missionrio, bem como um embasamento em gesto, marketing, finanas ou economia. No entanto, o currculo nas escolas de negcios s viria a ser interna-cionalizado (ainda que de maneira insatisfatria, segundo Contractor (2000)) a partir da dcada de 1980.

    A segunda corrente foi liderada por acadmicos no americanos, fora das escolas de negcios, que abordavam aspectos internacionais em seus respectivos temas. Essas pesquisas, que so politicamente orientadas e coincidem com o cres-cimento dos investimentos externos dos Estados Unidos nos anos 1950 e 1960,

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  • Captulo 1 Negcios internacionais e gesto internacional: evoluo do campo terico 23

    tratavam das consequncias econmicas dos investimentos nos pases de origem e nos pases de destino das EMNs. Destaca-se, nessa corrente, o denominado Projeto Multinacional conduzido por Raymond Vernon na Harvard Business School (ver Vernon, 1994). Tais pesquisas foram feitas principalmente por eco-nomistas, com base em teoria econmica e finanas, cujo foco era motivaes e os determinantes dos IDEs de EMNs, seguindo uma perspectiva unidisciplinar.

    Na dcada de 1970, a maioria das pesquisas era unidisciplinar e defendia que estudos em NI significavam a extenso das reas funcionais da gesto. Ao final da dcada de 1980, Dunning (1989) argumentou que o estudo de NI tinha alcanado certo nvel de amadurecimento por meio do desenvolvimento e uso de teorias e paradigmas prprios. Como temas de pesquisa mais promissores em NI, ele identificou na poca as intersees entre partes especficas da teoria or-ganizacional e da economia, entre finanas e gesto estratgica e entre marketing e estudos cross culturais. No final da dcada de 1980, a NI fazia parte da agenda poltica de pases como Estados Unidos, Canad e Reino Unido, em decorrn-cia dos acordos de integrao regional, tais como o North American Free Trade Agreement (Nafta) assinado pelos Estados Unidos, Canad e Mxico, e do pro-cesso de integrao regional da Unio Europeia.

    Membros de diversas escolas de negcios nos Estados Unidos, Harvard en-tre elas, ajudaram a criar escolas similares no exterior. O interesse poltico em NI ajuda a explicar o estabelecimento de centros de pesquisas financiados pelos governos dos Estados Unidos, Canad e Reino Unido e a prpria concentrao regional de desenvolvimento da rea e a necessidade de desenvolver uma aborda-gem mais crtica, especialmente em pases menos desenvolvidos.

    A evoluo de NI baseou-se em trs mbitos especficos: (a) problemas que empresas nacionais enfrentam nas condues de trocas comerciais com pases estrangeiros (comrcio e pagamentos internacionais); (b) problemas que gerentes enfrentam na tentativa de controlar uma rede internacional (empresas multina-cionais); e (c) prticas de negcios no exterior (sistemas nacionais de negcios comparativos). No incio dos anos 1960, havia total autonomia com relao ao contedo dos cursos de NI e ausncia de influncias sobre os demais cursos, como marketing e finanas. Depois, a Harvard Business School decidiu adotar uma estrutura formal com base em reas funcionais, e NI passou a ser designa-da como tal. No final dos anos 1960, a escola props abolir a rea de NI com o argumento de que as vrias reas funcionais deveriam internacionalizar seus respectivos currculos. Por causa disso, Vernon (1994) recomenda ateno com o futuro de NI, especialmente com a parte do currculo que trata dos sistemas nacionais comparativos, em decorrncia do provincianismo do pensamento dos acadmicos norte-americanos.

    Shenkar (2004) tambm indica que a investigao de sistemas nacionais de negcios comparativos, dentre as trs reas centrais de NI, estava ameaada de abandono, por causa do etnocentrismo dos acadmicos norte-americanos. A omisso de negcios comparativos da agenda da rea de NI (o que inclui, se-

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    gundo o autor, pesquisa cross cultural e gesto comparativa) um erro. Grosse e Behrman (1992, p. 95) afirmam, no entanto, que os aspectos culturais so tam-bm significativos nos negcios internacionais, mas tm levado a anlises do tipo cross-cultural, em vez de efetivamente internacional.

    Segundo Buckley (2002), a pesquisa em NI aborda trs tpicos principais: (1) a explicao dos fluxos de IDEs; (2) a existncia, a estratgia e a organizao de EMNs; (3) o desenvolvimento da internacionalizao de firmas e os novos desdobramentos da globalizao. Esses tpicos correspondem a trs fases distin-tas, apesar de sobrepostas, da agenda de pesquisas em NI.

    A primeira refere-se ao perodo do ps-Segunda Guerra Mundial, com n-fase nos fluxos de capital dos Estados Unidos para a Europa Ocidental, at os anos 1970. A segunda compreende o perodo de 1970 a 1990. A terceira fase compreende meados dos anos 1980 at 2000. Essa diviso em trs fases especfi-cas ignora, no entanto, dois tpicos importantes dos estudos tericos e empricos de NI: o papel da cultura e o impacto das diferenas culturais nacionais. De-nominadas de gesto comparativa, essas contribuies em NI so usualmente agrupadas, juntamente com outras literaturas que seguem uma abordagem mais gerencialista, no mbito da gesto internacional.

    Buckley e Casson (2003) fazem uma anlise retrospectiva das agendas de pesquisas dos anos 1970. A obra dos autores foi escrita em uma poca de grandes debates no mbito de economia poltica internacional, que discutia o poder (ou a hegemonia global) das multinacionais. D

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