Movimientos sociais, governança ambiental e desenvolvimento territorial

Download Movimientos sociais, governança ambiental e desenvolvimento territorial

Post on 09-Mar-2016

212 views

Category:

Documents

0 download

DESCRIPTION

Artigo de Ricardo Abramovay, Jos Bengoa, Julio Berdegu, Javier Escobal, Claudia Ranaboldo, Helle Munk Ravngorg, Alexander Schejtman. 2006.

TRANSCRIPT

MOVIMENTOS SOCIAIS, GOVERNANA AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL

MOVIMENTOS SOCIAIS, GOVERNANA AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO TERRITORIALRicardo Abramovay*, Jos Bengoa**, Julio A. Berdegu***, Javier Escobal+, Claudia Ranaboldo++, Helle Munk Ravnborg+++, Alexander Schejtman++++1. Introduo

Reunir expresses to densas como movimentos sociais, governana ambiental e desenvolvimento territorial num Programa de Pesquisa envolve trs ambies bsicas.

A primeira consiste em reconhecer que o desenvolvimento das reas interioranas na Amrica Latina com a finalidade de reduzir a pobreza e a excluso social no depende exclusivamente do crescimento do setor agropecurio e que, portanto, exige uma abordagem que no seja setorial e sim territorial ().

Da decorre a segunda ambio: o territrio pode ser definido como um conjunto de laos estabelecidos pela interao social num determinado espao (Hasbaert, 2004, Schejtman e Berdegu, 2004), o que conduz questo decisiva de saber quem so e o que fazem seus protagonistas fundamentais. Se esta dimenso subjetiva na construo de processos localizados de desenvolvimento amplamente reconhecida na literatura sobre o tema (), o estudo de um de seus atores bsicos os movimentos sociais constitui uma lacuna para cujo preenchimento este Programa de Pesquisa e os estudos aqui reunidos pretendem contribuir.

A terceira ambio vem da natureza das prprias organizaes envolvidas com o lanamento deste Programa de Pesquisa, o IDRC e o RIMISP: no se trata apenas de saber como os movimentos sociais participam de processos localizados de desenvolvimento, mas mais concretamente de estudar os impactos desta participao na prpria maneira como so geridos os recursos ambientais de que dependem as sociedades humanas ().

Este texto expe os principais resultados de sete projetos de pesquisa e cinco trabalhos complementares elaborados a partir do lanamento do Programa Movimentos sociais, governana ambiental, desenvolvimento territorial, por parte do IDRC e do RIMISP ().

O texto inicia (parte dois) apresentando a prpria organizao desta iniciativa: as equipes de pesquisa foram constitudas em dilogo e muitas vezes em parceria com os movimentos sociais atuantes nas situaes estudadas. Os resultados foram apresentados e sempre que possvel discutidos com estes movimentos.

A parte trs mostra que os movimentos sociais abrem espaos, modificam normas, regras e costumes (instituies) e propiciam ganhos que jamais teriam sido alcanados, no fossem suas organizaes e suas lutas. As mudanas institucionais promovidas pelos movimentos sociais contribuem para o desenvolvimento territorial. Mas quando estes movimentos so examinados luz de sua contribuio aos processos localizados de transformao produtiva, de sua capacidade de liderar a construo de situaes novas que alterem a vida da populao rural no plano da economia, da educao, da cultura e da sade, a os resultados so bem menos edificantes. Mais do que simplesmente fazer esta constatao, a parte trs deste texto tem o objetivo fundamental de perguntar: por qu? A pesquisa permitiu que se reunissem algumas caractersticas gerais constitutivas destes movimentos cujo conhecimento pode auxiliar tanto na compreenso daquilo que fazem como muito modestamente, claro estimular a reflexo sobre possibilidades de mudanas em suas formas de atuao.Por fim e motivada pela abertura dos movimentos, que se dispuseram a partilhar com o Programa procedimentos crticos prprios cincia, mas to importantes e nem sempre presentes na vida poltica em geral a parte quatro do texto apresenta algumas questes a serem discutidas com os dirigentes sociais que se encontram neste seminrio e cujos resultados sero, posteriormente, incorporados a suas concluses.

2. A evoluo do Programa2.1. Redefinindo a pergunta cientfica

Mais importante que sua unidade temtica, a caracterstica bsica de um programa de pesquisa (Lakatos e Musgrave, 1970) est em sua capacidade de discutir os resultados a que chegam os projetos que o compem luz dos pressupostos tericos e metodolgicos que o inspiraram. neste confronto entre a imagem que se tinha da realidade quando da formulao do programa e o que dela se extrai pela pesquisa que est a principal fonte de aprendizagem que ele pode propiciar.

O que balizou a construo dos projetos de pesquisa a idia de que movimentos sociais tm o poder de interferir em processos localizados de governana ambiental e, por a, participar de maneira ativa na construo de seu desenvolvimento. interessante observar que a pergunta cientfica do programa, em sua formulao inicial, nada mais fazia do que exprimir esta seqncia lgica (movimentos sociais => governana ambiental => desenvolvimento territorial) de maneira interrogativa e precedida pela expresso at que ponto: At que ponto os movimentos sociais tm contribudo a gerar governana ambiental no nvel territorial (novas instituies, sistemas normativos, comportamentos, formas organizacionais y modalidades de gesto)? ().

expressivo do incipiente grau de amadurecimento na formulao do problema cientfico nesta primeira etapa do trabalho, o fato de que esta questo no dava lugar a hipteses de natureza causal, mas a um conjunto de perguntas operacionais que levavam a uma descrio mais precisa da histria dos movimentos sociais, de suas prticas, de sua composio e de sua capacidade de influir sobre processos localizados de gesto dos recursos naturais e sociais necessrios ao desenvolvimento.

Bem cedo no Programa, a pergunta de pesquisa foi reformulada da seguinte forma: A governana ambiental estabelecida como resultado da ao de movimentos sociais d lugar a processos de desenvolvimento territorial rural que incidem na eliminao da pobreza, na superao das desigualdades sociais, e na conservao dos recursos naturais e do meio ambiente?

A pergunta de pesquisa refletia a expectativa de que os novos movimentos sociais na Amrica Latina possam ter uma influncia positiva de gerar condies para uma melhor governana ambiental e territorial e um desenvolvimento territorial rural inclusivo dos pobres. Estas expectativas fundam-se em dois supostos: (a) que os movimentos sociais tm a capacidade de induzir processos substantivos de mudana institucional (), e, (b) que tal mudana institucional por sua vez estimula e diminui os obstculos para processos de transformao inclusivos dos pobres e dos marginalizados sociais

Um dos principais resultados do Programa foi exatamente o encontro de um conjunto de fatores explicativos que pretendem responder a uma pergunta cientfica essencial, de grande alcance poltico e que emerge como um de seus mais importantes produtos: por que razo to tmida e precria a presena e a participao dos movimentos sociais nos processos localizados de desenvolvimento, ainda que muitos dos temas que compem estes processos existam justamente em funo de suas lutas?

O tema pode ser formulado sob um outro ngulo: a profuso por toda a Amrica Latina de mesas de concertao, conselhos gestores ou colegiados de desenvolvimento conta, na maior parte das vezes, com a participao ativa de movimentos sociais. Esta participao apia-se no princpio de que a organizao coletiva pode ser considerada um ativo (asset), um recurso a partir do qual pode ser alterada, de maneira significativa, a prpria matriz da insero social que define a condio dos que vivem em situao de pobreza. Mas os resultados desta organizao coletiva ficam, com imensa freqncia, muito aqum do que dela se poderia esperar e fundamental que se procure entender as razes desta deficincia que, obviamente, compromete o processo de desenvolvimento como um todo ().

2.2. Uma abordagem indutiva

O Programa adotou o procedimento indutivo tpico tanto da sociologia como da biologia da evoluo (): longe de expor uma teoria completa sobre a relao entre os trs termos principais que o compem, os documentos iniciais do programa procuraram apresentar os conceitos bsicos em que se apoiavam e convidaram seus participantes, por meio de seu trabalho de campo, a formularem hipteses mais sofisticadas que melhorassem o prprio conhecimento emprico do tema e que sugerissem construes conceituais cujas bases s poderiam ser lanadas a partir da experincia de campo.

neste sentido especfico que a opo por trabalhar com os atores sociais tem uma conseqncia metodolgica decisiva sobre os rumos da pesquisa: o contato com estes atores estimula a formulao e a reviso de hipteses e, portanto, novas articulaes em torno dos conceitos bsicos de que parte originalmente a pesquisa. No se tratava do procedimento popperiano tpico, hipottico-dedutivo em que o trabalho emprico serve para colocar em dvida construes tericas j elaboradas, mas sim de fazer do prprio trabalho de campo uma fonte de aprofundamento terico do corpo conceitual do programa e, sobretudo de estabelecimento e de reviso e melhoria de suas hipteses. o que explica as mudanas, bastante expressivas, na maior parte dos casos, entre as hipteses formuladas quando os projetos foram apresentados e os resultados obtidos nos relatrios intermedirios.

2.3. Os projetos de pesquisaOs projetos aprovados pelo Ncleo Coordenador do Programa (com base em pareceres de especialistas internacionais) envolvem quatro pases (Mxico, Equador, Peru e Brasil). A seleo pautou-se exclusivamente por critrios de mrito e no existe qualquer pretenso de representatividade nos casos estudados: eles so expressivos de situaes que ajudam a pensar a relao entre os trs componentes do Programa, mas de maneira nenhuma representativos por um critrio estatstico qualquer.

Ainda assim, pode-se dizer que os estudos compreendem alguns dos mais importantes movimentos sociais do meio rural latino-americano (): o zapatismo no Mxico; nos Andes, os movimentos indgenas e seu importante papel em novas formas de gesto dos governos locais na regio Andina, assim como suas mobilizaes junto com outros atores tanto locais quanto nacionais e internacionais contra os investimentos mineiros; na Amaznia, os movimentos de comunidades locais e regionais que fundam suas propostas na conservao da selva tropical; tanto no Brasil quanto no Peru, as lutas das sociedades rurais em torno das grandes obras de infra-estrutura de risco; e, finalmente, no Brasil, os movimentos da agricultura familiar em torno dos desafios, ameaas e oportunidades da abertura econmica e da globalizao. Entender o que acontece com estes novos movimentos sociais, em termos de seus efeitos sobre o curso do desenvolvimento dos territrios rurais, foi a motivao de fundo deste Programa Colaborativo de Pesquisa.

Os estudos selecionados foram os seguintes (). Luis Reygadas et al. (2006) examinam alguns dos principais impactos dos movimentos zapatistas contemporneos em reas que lhes so prximas, mas que no se encontram diretamente sob sua influncia, em duas localidades da Selva Lacandona, na regio de Chiapas, no Mxico. Pablo Ospina et al. (2006) analisam a ascenso poltica dos movimentos indgenas equatorianos e revelam um contraste importante entre as conquistas democrticas alcanadas e seus efeitos pouco sensveis sobre o surgimento de atividades econmicas em benefcio dos mais pobres. O estudo de Eduardo Zagarra et al. (2006), sobre a construo de uma grande obra hidrulica voltada irrigao na regio de Olmos, no Peru, emblemtico das conseqncias destrutivas da ausncia de movimentos sociais organizados capazes de se opor a este tipo de obras levadas adiante sob presso, sobretudo, de engenheiros e de grandes proprietrios fundirios. Mas no prprio Peru y no Equador, forma-se um significativo movimento social, com fortes vnculos internacionais, estudado por Anthony Bebbington et al. (2006) que conseguiu organizar uma oposio consistente a projetos de expanso das atividades mineiras. Os outros trs casos so brasileiros. Fabiano Toni (2006) estuda um conjunto de movimentos sociais que reagem construo de uma grande estrada na Amaznia exigindo que a obra seja acompanhada de governana para que possa tornar-se ocasio de desenvolvimento e no como tem sido a regra neste tipo de empreendimento sinnimo de destruio social e ambiental. No Vale do Ribeira (Estado de So Paulo), Vera Schattan et al. (2006) examinam a participao de vrios segmentos sociais - principalmente das organizaes de descendentes de escravos, os quilombolas, e de agricultores familiares nos fruns participativos regionais analisando como vem sendo encaminhada a negociao em torno de uma grande barragem e de alternativas voltadas para o desenvolvimento sustentvel. Por fim, Ricardo Abramovay et al. (2006) analisam uma das mais importantes embora recm formada organizaes populares do meio rural, a Federao de Trabalhadores na Agricultura Familiar da Regio Sul (FETRAF) e procura expor o alcance e os limites de sua atuao.

Os resultados destes trabalhos j foram parcialmente apresentados em reunies cientficas como a da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, a Primera Jornada de Intercambio y Discusin: el desarrollo rural en su perspectiva territorial e institucional, organizada pela FLACSO e pelo Departamento de Geografia da Universidade de Buenos Aires, o XI Seminario Permanente de Investigacin Agraria en Per (SEPIA), e o seminrio sobre desenvolvimento territorial promovido em 2005 pela Secretaria de Desenvolvimento Territorial do Ministrio do Desenvolvimento Agrrio do Brasil. Alm disso, deram lugar a novos projetos de pesquisa, como o atualmente em curso sobre o funcionamento dos Conselhos de Desenvolvimento Territorial no Brasil.

3. Alcance e limites dos movimentos sociaisOs movimentos sociais examinados no mbito deste Programa de Pesquisa mobilizam energias capazes de colocar em questo, de maneira sistemtica, padres constitudos de distribuio dos recursos a partir dos quais os atores se inserem socialmente e, portanto, representam um elemento decisivo da democratizao de suas sociedades. Movimentos sociais obrigaram o poderoso e internacionalizado setor mineiro do Peru a recuar em seus projetos de expanso e a negociar suas propostas de implantao com atores locais (Bebbington et al, 2006). Um dos maiores grupos privados do Brasil no foi capaz de levar adiante projeto de construo de barragem pela oposio erguida, antes de tudo, por representantes de comunidades Quilombolas, descendentes de escravos, que apoiados por ambientalistas conseguiram mudar os termos em que o tema aparece no plano local (Schattan et al., 2006). A virada que representou na histria brasileira a criao do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar foi um produto da ao dos movimentos sociais (Abramovay et al., 2006). Por mais que possa ser criticada quanto a seus mtodos e mesmo seus objetivos, a ao dos zapatistas, no Mxico, trouxe a comunidades e regies pobres bens e servios at ento ausentes (Reygadas et al., 2006). Em cada uma das situaes estudadas, os movimentos sociais contriburam de maneira decisiva para a criao de um ambiente institucional em que a luta contra a pobreza e a excluso social torna-se referncia da qual no...

Recommended

View more >