Movimientos sociais, governana ambiental e desenvolvimento territorial

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Artigo de Ricardo Abramovay, Jos Bengoa, Julio Berdegu, Javier Escobal, Claudia Ranaboldo, Helle Munk Ravngorg, Alexander Schejtman. 2006.

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MOVIMENTOS SOCIAIS, GOVERNANA AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL

MOVIMENTOS SOCIAIS, GOVERNANA AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO TERRITORIALRicardo Abramovay*, Jos Bengoa**, Julio A. Berdegu***, Javier Escobal+, Claudia Ranaboldo++, Helle Munk Ravnborg+++, Alexander Schejtman++++1. Introduo

Reunir expresses to densas como movimentos sociais, governana ambiental e desenvolvimento territorial num Programa de Pesquisa envolve trs ambies bsicas.

A primeira consiste em reconhecer que o desenvolvimento das reas interioranas na Amrica Latina com a finalidade de reduzir a pobreza e a excluso social no depende exclusivamente do crescimento do setor agropecurio e que, portanto, exige uma abordagem que no seja setorial e sim territorial ().

Da decorre a segunda ambio: o territrio pode ser definido como um conjunto de laos estabelecidos pela interao social num determinado espao (Hasbaert, 2004, Schejtman e Berdegu, 2004), o que conduz questo decisiva de saber quem so e o que fazem seus protagonistas fundamentais. Se esta dimenso subjetiva na construo de processos localizados de desenvolvimento amplamente reconhecida na literatura sobre o tema (), o estudo de um de seus atores bsicos os movimentos sociais constitui uma lacuna para cujo preenchimento este Programa de Pesquisa e os estudos aqui reunidos pretendem contribuir.

A terceira ambio vem da natureza das prprias organizaes envolvidas com o lanamento deste Programa de Pesquisa, o IDRC e o RIMISP: no se trata apenas de saber como os movimentos sociais participam de processos localizados de desenvolvimento, mas mais concretamente de estudar os impactos desta participao na prpria maneira como so geridos os recursos ambientais de que dependem as sociedades humanas ().

Este texto expe os principais resultados de sete projetos de pesquisa e cinco trabalhos complementares elaborados a partir do lanamento do Programa Movimentos sociais, governana ambiental, desenvolvimento territorial, por parte do IDRC e do RIMISP ().

O texto inicia (parte dois) apresentando a prpria organizao desta iniciativa: as equipes de pesquisa foram constitudas em dilogo e muitas vezes em parceria com os movimentos sociais atuantes nas situaes estudadas. Os resultados foram apresentados e sempre que possvel discutidos com estes movimentos.

A parte trs mostra que os movimentos sociais abrem espaos, modificam normas, regras e costumes (instituies) e propiciam ganhos que jamais teriam sido alcanados, no fossem suas organizaes e suas lutas. As mudanas institucionais promovidas pelos movimentos sociais contribuem para o desenvolvimento territorial. Mas quando estes movimentos so examinados luz de sua contribuio aos processos localizados de transformao produtiva, de sua capacidade de liderar a construo de situaes novas que alterem a vida da populao rural no plano da economia, da educao, da cultura e da sade, a os resultados so bem menos edificantes. Mais do que simplesmente fazer esta constatao, a parte trs deste texto tem o objetivo fundamental de perguntar: por qu? A pesquisa permitiu que se reunissem algumas caractersticas gerais constitutivas destes movimentos cujo conhecimento pode auxiliar tanto na compreenso daquilo que fazem como muito modestamente, claro estimular a reflexo sobre possibilidades de mudanas em suas formas de atuao.Por fim e motivada pela abertura dos movimentos, que se dispuseram a partilhar com o Programa procedimentos crticos prprios cincia, mas to importantes e nem sempre presentes na vida poltica em geral a parte quatro do texto apresenta algumas questes a serem discutidas com os dirigentes sociais que se encontram neste seminrio e cujos resultados sero, posteriormente, incorporados a suas concluses.

2. A evoluo do Programa2.1. Redefinindo a pergunta cientfica

Mais importante que sua unidade temtica, a caracterstica bsica de um programa de pesquisa (Lakatos e Musgrave, 1970) est em sua capacidade de discutir os resultados a que chegam os projetos que o compem luz dos pressupostos tericos e metodolgicos que o inspiraram. neste confronto entre a imagem que se tinha da realidade quando da formulao do programa e o que dela se extrai pela pesquisa que est a principal fonte de aprendizagem que ele pode propiciar.

O que balizou a construo dos projetos de pesquisa a idia de que movimentos sociais tm o poder de interferir em processos localizados de governana ambiental e, por a, participar de maneira ativa na construo de seu desenvolvimento. interessante observar que a pergunta cientfica do programa, em sua formulao inicial, nada mais fazia do que exprimir esta seqncia lgica (movimentos sociais => governana ambiental => desenvolvimento territorial) de maneira interrogativa e precedida pela expresso at que ponto: At que ponto os movimentos sociais tm contribudo a gerar governana ambiental no nvel territorial (novas instituies, sistemas normativos, comportamentos, formas organizacionais y modalidades de gesto)? ().

expressivo do incipiente grau de amadurecimento na formulao do problema cientfico nesta primeira etapa do trabalho, o fato de que esta questo no dava lugar a hipteses de natureza causal, mas a um conjunto de perguntas operacionais que levavam a uma descrio mais precisa da histria dos movimentos sociais, de suas prticas, de sua composio e de sua capacidade de influir sobre processos localizados de gesto dos recursos naturais e sociais necessrios ao desenvolvimento.

Bem cedo no Programa, a pergunta de pesquisa foi reformulada da seguinte forma: A governana ambiental estabelecida como resultado da ao de movimentos sociais d lugar a processos de desenvolvimento territorial rural que incidem na eliminao da pobreza, na superao das desigualdades sociais, e na conservao dos recursos naturais e do meio ambiente?

A pergunta de pesquisa refletia a expectativa de que os novos movimentos sociais na Amrica Latina possam ter uma influncia positiva de gerar condies para uma melhor governana ambiental e territorial e um desenvolvimento territorial rural inclusivo dos pobres. Estas expectativas fundam-se em dois supostos: (a) que os movimentos sociais tm a capacidade de induzir processos substantivos de mudana institucional (), e, (b) que tal mudana institucional por sua vez estimula e diminui os obstculos para processos de transformao inclusivos dos pobres e dos marginalizados sociais

Um dos principais resultados do Programa foi exatamente o encontro de um conjunto de fatores explicativos que pretendem responder a uma pergunta cientfica essencial, de grande alcance poltico e que emerge como um de seus mais importantes produtos: por que razo to tmida e precria a presena e a participao dos movimentos sociais nos processos localizados de desenvolvimento, ainda que muitos dos temas que compem estes processos existam justamente em funo de suas lutas?

O tema pode ser formulado sob um outro ngulo: a profuso por toda a Amrica Latina de mesas de concertao, conselhos gestores ou colegiados de desenvolvimento conta, na maior parte das vezes, com a participao ativa de movimentos sociais. Esta participao apia-se no princpio de que a organizao coletiva pode ser considerada um ativo (asset), um recurso a partir do qual pode ser alterada, de maneira significativa, a prpria matriz da insero social que define a condio dos que vivem em situao de pobreza. Mas os resultados desta organizao coletiva ficam, com imensa freqncia, muito aqum do que dela se poderia esperar e fundamental que se procure entender as razes desta deficincia que, obviamente, compromete o processo de desenvolvimento como um todo ().

2.2. Uma abordagem indutiva

O Programa adotou o procedimento indutivo tpico tanto da sociologia como da biologia da evoluo (): longe de expor uma teoria completa sobre a relao entre os trs termos principais que o compem, os documentos iniciais do programa procuraram apresentar os conceitos bsicos em que se apoiavam e convidaram seus participantes, por meio de seu trabalho de campo, a formularem hipteses mais sofisticadas que melhorassem o prprio conhecimento emprico do tema e que sugerissem construes conceituais cujas bases s poderiam ser lanadas a partir da experincia de campo.

neste sentido especfico que a opo por trabalhar com os atores sociais tem uma conseqncia metodolgica decisiva sobre os rumos da pesquisa: o contato com estes atores estimula a formulao e a reviso de hipteses e, portanto, novas articulaes em torno dos conceitos bsicos de que parte originalmente a pesquisa. No se tratava do procedimento popperiano tpico, hipottico-dedutivo em que o trabalho emprico serve para colocar em dvida construes tericas j elaboradas, mas sim de fazer do prprio trabalho de campo uma fonte de aprofundamento terico do corpo conceitual do programa e, sobretudo de estabelecimento e de reviso e melhoria de suas hipteses. o que explica as mudanas, bastante expressivas, na maior parte dos casos, entre as hipteses formuladas quando os projetos foram apresentados e os resultados obtidos nos relatrios intermedirios.

2.3. Os projetos de pesquisaOs projetos aprovados pelo Ncleo Coordenador do Programa (com base em pareceres de especialistas internacionais) envolvem quatro pases (Mxico, Equador, Peru e Brasil). A seleo pautou-se exclusivamente por critrios de mrito e no existe qualquer pretenso de representatividade nos casos estudados: eles so expressivos de situaes que ajudam a pensar a relao entre os trs componentes do Programa, mas de maneira nenhuma representativos por um critrio estatstico qualquer.

Ainda assim, pode-se dizer que os estudos compreendem alguns dos mais importantes movimentos sociais do meio rural latino-americano (): o zapatismo no Mxico; nos Andes, os movimentos indgenas e seu importante papel em novas formas de gesto dos governos locais na regio Andina, assim como suas mobilizaes junto com outros atores tanto locais quanto nacionais e internacionais contra os investimentos mineiros; na Amaznia, os movimentos de comunidades locais e regionais que fundam suas propostas na conservao da selva tropical; tanto no Brasil quanto no Peru, as lutas das sociedades rurais em torno das grandes obras de infra-estrutura de risco; e, finalmente, no Brasil, os movimentos da agricultura familiar em torno dos desafios, ameaas e oportunidades da abertura econmica e da globalizao. Entender o que acontece com estes novos movimentos sociais, em termos de seus efeitos sobre o curso do desenvolvimento dos territrios rurais, foi a motivao de fundo deste Programa Colaborativo de Pesquisa.

Os estudos selecionados foram os seguintes (). Luis Reygadas et al. (2006) examinam alguns dos principais impactos dos movimentos zapatistas contemporneos em reas que lhes so prximas, mas que no se encontram diretamente sob sua influncia, em duas localidades da Selva Lacandona, na regio de Chiapas, no Mxico. Pablo Ospina et al. (2006) analisam a ascenso poltica dos movimentos indgenas equatorianos e revelam um contraste importante entre as conquistas democrticas alcanadas e seus efeitos pouco sensveis sobre o surgimento de atividades econmicas em benefcio dos mais pobres. O estudo de Eduardo Zagarra et al. (2006), sobre a construo de uma grande obra hidrulica voltada irrigao na regio de Olmos, no Peru, emblemtico das conseqncias destrutivas da ausncia de movimentos sociais organizados capazes de se opor a este tipo de obras levadas adiante sob presso, sobretudo, de engenheiros e de grandes proprietrios fundirios. Mas no prprio Peru y no Equador, forma-se um significativo movimento social, com fortes vnculos internacionais, estudado por Anthony Bebbington et al. (2006) que conseguiu organizar uma oposio consistente a projetos de expanso das atividades mineiras. Os outros trs casos so brasileiros. Fabiano Toni (2006) estuda um conjunto de movimentos sociais que reagem construo de uma grande estrada na Amaznia exigindo que a obra seja acompanhada de governana para que possa tornar-se ocasio de desenvolvimento e no como tem sido a regra neste tipo de empreendimento sinnimo de destruio social e ambiental. No Vale do Ribeira (Estado de So Paulo), Vera Schattan et al. (2006) examinam a participao de vrios segmentos sociais - principalmente das organizaes de descendentes de escravos, os quilombolas, e de agricultores familiares nos fruns participativos regionais analisando como vem sendo encaminhada a negociao em torno de uma grande barragem e de alternativas voltadas para o desenvolvimento sustentvel. Por fim, Ricardo Abramovay et al. (2006) analisam uma das mais importantes embora recm formada organizaes populares do meio rural, a Federao de Trabalhadores na Agricultura Familiar da Regio Sul (FETRAF) e procura expor o alcance e os limites de sua atuao.

Os resultados destes trabalhos j foram parcialmente apresentados em reunies cientficas como a da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, a Primera Jornada de Intercambio y Discusin: el desarrollo rural en su perspectiva territorial e institucional, organizada pela FLACSO e pelo Departamento de Geografia da Universidade de Buenos Aires, o XI Seminario Permanente de Investigacin Agraria en Per (SEPIA), e o seminrio sobre desenvolvimento territorial promovido em 2005 pela Secretaria de Desenvolvimento Territorial do Ministrio do Desenvolvimento Agrrio do Brasil. Alm disso, deram lugar a novos projetos de pesquisa, como o atualmente em curso sobre o funcionamento dos Conselhos de Desenvolvimento Territorial no Brasil.

3. Alcance e limites dos movimentos sociaisOs movimentos sociais examinados no mbito deste Programa de Pesquisa mobilizam energias capazes de colocar em questo, de maneira sistemtica, padres constitudos de distribuio dos recursos a partir dos quais os atores se inserem socialmente e, portanto, representam um elemento decisivo da democratizao de suas sociedades. Movimentos sociais obrigaram o poderoso e internacionalizado setor mineiro do Peru a recuar em seus projetos de expanso e a negociar suas propostas de implantao com atores locais (Bebbington et al, 2006). Um dos maiores grupos privados do Brasil no foi capaz de levar adiante projeto de construo de barragem pela oposio erguida, antes de tudo, por representantes de comunidades Quilombolas, descendentes de escravos, que apoiados por ambientalistas conseguiram mudar os termos em que o tema aparece no plano local (Schattan et al., 2006). A virada que representou na histria brasileira a criao do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar foi um produto da ao dos movimentos sociais (Abramovay et al., 2006). Por mais que possa ser criticada quanto a seus mtodos e mesmo seus objetivos, a ao dos zapatistas, no Mxico, trouxe a comunidades e regies pobres bens e servios at ento ausentes (Reygadas et al., 2006). Em cada uma das situaes estudadas, os movimentos sociais contriburam de maneira decisiva para a criao de um ambiente institucional em que a luta contra a pobreza e a excluso social torna-se referncia da qual no se pode escapar. Cinco contribuies bsicas podem ser resumidamente apresentadas, neste sentido.a) Os movimentos contribuem para a ampliao da esfera pblica da vida social, o que num ambiente de clientelismo e patrimonialismo to forte como o que marca as regies interioranas da Amrica Latina muito importante.b) Eles introduzem temas novos que no faziam parte da vida social das regies em que atuam e que vo do acesso das mulheres ao crdito (no interior do PRONAF, no Brasil, por exemplo) importncia da participao popular nas novas oportunidades de explorao sustentvel do turismo ecolgico, no Sul do Mxico.

c) Os movimentos sociais so um elemento decisivo para a democratizao do processo de tomada de decises: so eles que animam e do vida a novas estruturas de participao social na gesto pblica, marca decisiva da vida social de toda a Amrica Latina, a partir de meados dos anos 1980, sobretudo nas polticas sociais.d) Ao transformar certas reivindicaes tpicas e localizadas em direitos, os movimentos transformam a prpria matriz das relaes sociais: o que ocorre com o sentimento de respeito sentido pelas populaes indgenas como um dos principais resultados de suas lutas no Equador (Ospina et al., 2006). O mesmo pode ser dito do reconhecimento pblico de que as populaes afrodescendentes tm direitos sobre as terras em que vivem (Schattan et al., 2006) ou de que o agricultor familiar pode entrar no banco de cabea erguida (Abramovay et al., 2006).e) Pode-se dizer que os movimentos sociais so elementos indispensveis para que populaes at ento excludas convertam-se em protagonistas, atores da vida social, o que traz conseqncias polticas decisivas para a organizao dos territrios e, portanto, para seu processo de desenvolvimento.

Todas estas conquistas implicaram, sem dvida alguma, mudanas institucionais, por vezes bastante profundas. Fazem parte do que Schejtman e Berdegu (2004) denominam o pilar de transformao institucional do desenvolvimento territorial rural, cujo sentido facilitar o estabelecimento de novos tipos de relaes entre os atores no territrio, e entre eles y outros atores extra-territoriais, e, de maneira muito especial, criar regras do jogo que possibilitem aos pobres e aos excludos ter oportunidade de participar no processo de desenvolvimento e no gozo de seus benefcios.

No entanto, e apesar destes ganhos y conquistas que no so menores, os estudos coincidem em outra concluso: estas mudanas institucionais no abriram espao, no estimularam, processos de transformao que modifiquem substantivamente as oportunidades dos habitantes rurais, especialmente os mais pobres y os excludos sociais.

Por que razo a imensa capacidade dos movimentos sociais em promover mudanas institucionais e na correlao de foras entre grupos sociais e de alterar os padres dominantes de distribuio dos recursos traduz-se to rara e timidamente na ampliao durvel das oportunidades a partir das quais os mais pobres definem sua insero social?

Emergem dos relatrios cinco elementos explicativos bsicos a partir dos quais os pesquisadores interpretam os resultados de seus trabalhos de campo. Cada um destes cinco elementos representa uma contradio real vivida pelos prprios atores sociais e os faz enfrentar dilemas decisivos no curso de sua ao. Mais que isso, os cinco elementos que formam o corpo essencial desta sntese so dimenses inseparveis dos comportamentos dos movimentos sociais. A polaridade que os constitui individualmente guarda, entre todos eles, uma coerncia em que talvez habite o que de mais interessante se pode extrair deste trabalho de pesquisa. Vejamos a questo mais de perto.

3.1. Identidade e diferenaNum trabalho de grande repercusso cientfica, Michael Woolcock (1998) define dois tipos de capital social, de elementos a partir dos quais se formam vnculos de confiana entre indivduos e que ampliam suas possibilidades de ao coletiva.

O primeiro deles que ele batiza como capital social de tipo cola se apia em laos formados a partir da experincia vivida em comum e da partilha de valores especficos a certo grupo social. Sem estes laos de proximidade e um conjunto de crenas, de expectativas e de vivncias que imprimem sentido s prticas dos indivduos, a prpria ao coletiva no pode ser compreendida. Os movimentos sociais, neste sentido, apiam-se sobre identidades existentes e, ao mesmo tempo, sua expresso refora e amplia o papel destas identidades na prpria coeso das bases que os formam. O desafio da ao coletiva, sob esta tica, vai muito alm dos elementos com que a nova economia institucional o trata: dilema do prisioneiro, teoria dos jogos, oportunismo, efeito carona, so abordagens contemporneas da ao coletiva que partem da definio autnoma dos interesses individuais para ento verificar sua interao a partir de certo nmero de possibilidades lgicas (). Os autores utilizados em nosso Programa de Pesquisa, de maneira geral, ao contrrio destas abordagens, enfatizam o contedo das crenas, das representaes e dos interesses dos atores como base para sua mobilizao coletiva. por isso que a questo da identidade () ausente da nova economia institucional ou da teoria dos jogos , para ns, decisiva: o estudo da confiana necessria emergncia de aes comuns pode ter outra base metodolgica que o individualismo.

Mas o capital social prossegue Michael Woolcock (1998) tem uma segunda dimenso sem a qual os produtos sociais da confiana tendem a ser decepcionantes: a dimenso ponte, que reflete a abertura dos grupos sociais aos que lhes so diferentes e que no possuem os elementos identitrios bsicos a partir dos quais eles prprios se constituem, ou seja, a capacidade de atravessar e ultrapassar as fronteiras e o universo cognitivo de reconhecimento mtuo.

Em Olmos, por exemplo, no Peru (Zegarra et al., 2006), onde uma grande obra hidrulica est em execuo ferindo os interesses de comunidades indgenas e comprometendo a manuteno de importantes recursos ambientais, a identidade comunitria est to enfraquecida que obstrui a possibilidade de uma ao poltica coordenada. O prprio presidente da Comunidade de Santo Domingo de Olmos declarou aos pesquisadores: No h uma identidade e queremos promov-la atravs destas organizaes, dado que uma condio necessria para nosso desenvolvimento a integrao. exatamente o contrrio do que ocorre nas situaes de maior fora dos movimentos sociais como em Cotacachi no Equador (Ospina et al., 2006), em Chiapas (Reygadas et al., 2006) ou na Amaznia brasileira (Toni 2006), em que as identidades (sejam elas tnicas, de classe ou uma mistura das duas olhar de ndio e, ao mesmo tempo, olhar de pobre, na expresso de Pablo Ospina) oferecem no s um conjunto de referncias de interpretao do mundo por parte dos atores, mas, sobretudo, incorporam a ao coletiva vida cotidiana como parte do sentido da prpria existncia dos indivduos.A definio identitria dos indivduos, entretanto () traz o risco de consolidar um conjunto de valores to especficos que dificultam a prpria relao do grupo com o mundo que o cerca. Fortalecer esta identidade a condio bsica da coeso necessria a iniciativas conjuntas. Mas e aqui est uma contradio real de que os movimentos sociais no podem escapar e que os coloca frente a dilemas de difcil soluo exacerbar este fortalecimento representa um risco no s de isolamento, mas de consolidar valores, crenas, expectativas, modelos mentais, em suma, instituies, que sejam obstculos mudana que se pretende alcanar por meio da ao coletiva. Em outras palavras, a ao social da qual dependem, para os movimentos sociais, as mudanas que almejam s pode existir com base num forte sentimento de identidade por parte de seus participantes. Mas sua base oferece o risco permanente de que o horizonte da ao seja confinado aos limites do que permitido pelos referenciais identitrios existentes e, por isso, seja obstculo prpria transformao de que depende o processo de desenvolvimento. Esta contradio decisiva para expor as cinco outras dimenses explicativas que resultam do trabalho da pesquisa e que sero apresentadas mais adiante. com esta contradio que dialogam todos os relatrios quando, alm de constatarem os efeitos democrticos positivos dos movimentos sociais, perguntam-se sobre os limites de sua ao.Mais que um trade-off, ou seja, uma situao na qual a escolha de um caminho conduz necessariamente a perdas referentes a um outro caminho possvel, trata-se aqui de uma contradio no sentido que a tradio dialtica atribui ao termo: unidade de contrrios. A identidade s pode ser pensada a partir da diferena e justamente esta unidade contraditria entre identidade e diferena que pode fazer avanar os movimentos sociais em direo a situaes que, alm de exprimir os interesses dos mais pobres (identidade), propicie um conjunto de inovaes (diferena) sem as quais a prpria noo de desenvolvimento perde o sentido ().

O sucesso da iniciativa econmica tomada no ejido de La Corona, no municpio de Marqus de Comilla, em Chiapas (Reygadas et al., 2006) no se deve apenas s reais oportunidades polticas abertas pelo movimento zapatista, mas coeso interna do prprio ejido, baseada numa experincia comum: tratava-se de uma pequena comunidade muito organizada, unida por uma histria comum de migrao, laos religiosos, esforo por colonizar a selva, lutas para enfrentar o lder corrupto e defender seus direitos agrrios. Ao mesmo tempo, entretanto, esta comunidade no acatou os ditames da organizao zapatista e optou por abrir-se para iniciativas especificamente econmicas, que lhe propiciaram significativo aumento na gerao de renda.

Sucesso em iniciativas econmicas a partir da mobilizao de foras comunitrias ligadas por fortes laos de identidade uma espcie de quadratura do crculo: o desafio do desenvolvimento envolve uma dimenso econmica fundamental e exige, na maior parte das vezes, a adoo de prticas que se chocam com a prpria identidade to duramente conquistada. A submisso das iniciativas comunitrias s exigncias caractersticas da racionalidade econmica conflituosa (Magalhes, 2005) e envolve riscos de diferenciao social que ferem a prpria coeso comunitria (como o observaram Reygadas et al. 2006 nas experincias tanto de turismo como de bovinocultura em Chiapas). Esta tenso potencial entre a afirmao democrtica do poder de certos grupos sociais e sua capacidade de levar adiante iniciativas, particularmente, mas no apenas, no plano econmico pode comprometer a prpria identidade.

Se a identidade se apia sobre um componente afetivo, comunitrio, e onde os laos personalizados so fundamentais, os mercados, em contrapartida, funcionam sob uma racionalidade evidentemente distinta, como bem lembra Max Weber (1923/1972/1991) no curto e clebre captulo dedicado ao tema, onde afirma: os mercados no conhecem relaes pessoais, familiares ou tradies.

O conflito potencial que Pablo Ospina et al. (2006) expem entre democracia e desenvolvimento no apenas entre economia e sociedade: mesmo quando se trata de dimenses no econmicas da gesto pblica, a prpria lgica estatal exige que se adotem procedimentos administrativos que vo chocar-se, muitas vezes, contra os modos especficos de funcionamento das tradies comunitrias. No entanto sobre a base do fortalecimento e mesmo da recriao destas tradies comunitrias que seus protagonistas conquistaram o Governo Municipal. Da a concluso de um dos entrevistados na pesquisa em Cajamarca (Bebbington et al., 2006): organizaes que procuravam democratizar o Estado acabaram se estatizando (). O que est em jogo a so os prprios efeitos do que Max Weber chama de racionalizao da vida social, inerente abertura dos laos identitrios convivncia com referenciais que lhe so exteriores. A expresso poltica deste mesmo dilema est na oscilao entre a identidade tnica e a identidade pluritnica em sociedades com forte participao indgena, como bem mostra o trabalho de Ospina et al. (2006).

Este processo de racionalizao no necessariamente destrutivo dos laos sociais identitrios: a consigna ama llulla, ama killa, ama shwa. No mentir, no roubar, no ser preguiosos, fundamental, pois imprime dimenso tica universalizante construo identitria (). A extraordinria politizao do movimento social indgena no Equador coloca-o permanentemente diante deste desafio de afirmar os laos de identidade das bases sociais que o compem e, ao mesmo tempo, ampliar o alcance desta afirmao muito alm do universo estrito dos grupos em que ela se origina. A prpria entrada do movimento no universo poltico formal como ocorre no Equador exige que esta contradio entre a identidade do grupo e sua abertura para repertrios que no fazem parte de suas formas tradicionais de vida seja enfrentada num plano novo (Ospina et al., 2006).

Estas formas virtuosas de enfrentamento das polaridades identidade/diferena, interesses especficos/interesses amplos, valores tradicionais/racionalizao da vida afirmao tnica, de classe ou profissional/projetos universalizantes no suprimem a existncia mesma da contradio e constituem um dos mais importantes desafios que os movimentos sociais enfrentam em suas lutas.

3.2. Laos fechados, laos abertosNa abordagem territorial do desenvolvimento os laos sociais entre atores so recursos dos quais eles podem dispor na organizao de suas iniciativas no plano poltico, econmico e cultural. No incomum que esta constatao bvia seja seguida pela idia de que o desenvolvimento depende mais do que de investimentos materiais de fortalecer a confiana entre os indivduos e que, portanto, a criao de instituies capazes de consolid-la seu caminho mais seguro ().

Os estudos realizados no mbito deste Programa de Pesquisa vo numa outra direo. Eles mostram, sistematicamente, que a cooperao social no um ideal abstrato a que aderem atores bem intencionados, tanto mais freqente quanto mais fortes as instituies capazes de reduzir seus custos de transao. Ao contrrio, a cooperao social s pode ser entendida com base no estudo dos interesses, das representaes, das oportunidades e, sobretudo das foras e habilidades de que dispem os diferentes segmentos organizados de uma sociedade. O que est em jogo na formao dos territrios no um ideal de cooperao que pudesse ser alcanado por certo tipo definido de construo institucional mas os recursos materiais e simblicos com que vo contar diferentes atores na legitimao de suas iniciativas e, sobretudo, na obteno da cooperao social localizada necessria a que sejam levadas adiante.

O territrio, portanto, no a sntese equilibrada da variedade de atores que o compem. Ao contrrio, ele reflete, antes de tudo, a fora e as fraquezas de cada um destes atores e, mais ainda, sua capacidade de construir as habilidades sociais (Fligstein, 2001a) necessrias a que liderem o processo de cooperao do qual dependem os diferentes projetos que lhe do vida. As habilidades sociais dos atores s podem ser compreendidas luz das tticas que empregam para conquistar a cooperao alheia, o que significa estudar concretamente quem so estes atores e onde se situam nas suas relaes com os outros ou naquilo que Neil Fligstein (2001b), luz de Pierre Bourdieu, chama de campos. A imagem dos territrios que resulta da pesquisa menos a de redes abertas, flexveis, plurais e diversificadas que a de estruturas relativamente consolidadas, ou seja, formas recorrentes de dominao social em que decisiva a conquista, por parte de diferentes atores, da cooperao com aqueles que no fazem parte habitualmente de seu crculo social.

Em Olmos, por exemplo, fundamental o papel dos engenheiros em construir a legitimao social da represa como smbolo de progresso material. Os problemas sofridos pelas comunidades indgenas, a tragdia que vai representar uma obra desta magnitude na ausncia de Relatrio de Impacto Ambiental perde expresso no territrio pela incapacidade das organizaes ligadas aos interesses das comunidades indgenas e defesa do meio ambiente de elaborar um ponto de vista coerente sobre o tema. Ao contrrio, grupos profissionais liderados por engenheiros conseguiram organizar a justificao social que associa a represa ao progresso e apresenta seus opositores como partidrios de um ponto de vista arcaico. Os opositores represa esto ausentes das principais organizaes que gerem este processo e no conseguem sequer aproveitar a oportunidade de participar de alguns destes rgos em virtude das divises que enfrentam. Sua dificuldade em afirmar uma identidade prpria no permite que construam as habilidades sociais necessrias a que conquistem a cooperao alheia em seu prprio interesse (Zegarra et al., 2006).

Da mesma maneira, no caso de Cajamarca, no Peru, as minas conseguiram impor um padro de legitimao social em que chegam a financiar atividades de movimentos sociais, dividem-nos e impem-se como interlocutores legtimos no processo de desenvolvimento territorial. Em Cotacachi, no Equador, em contrapartida o contraste entre os dois casos um dos interesses maiores do estudo de Bebbington et al. (2006) no o conseguiram e foram os membros dos movimentos sociais que souberam conquistar a cooperao necessria no s a que fossem ocupados os escritrios da mina, mas que ela tivesse que mudar seus planos estratgicos de implantao. Mais que isso: a fora que lhes permitiu reverter a situao desfavorvel apoiou-se em um conjunto de relaes muito diversificadas que passavam no s por membros da Igreja Catlica ou militantes de outros pases identificados com as dimenses ideolgicas presentes em suas lutas, mas tambm pelos circuitos da responsabilidade social empresarial, pelas assemblias dos acionistas dos grupos econmicos detentores das minas e pelos prprios meios de comunicao internacionais. Foram formados laos com atores diversificados quanto a seus horizontes polticos a partir, porm, da capacidade que os movimentos sociais tiveram de fazer convergir estes vnculos no sentido de interromper as atividades predatrias das empresas.Os territrios so arenas, domnios, espaos sociais organizados ou campos (Bourdieu e Wacquant, 1992) em que atores coletivos procuram produzir sistemas de dominao que uma outra forma de chamar a obteno da cooperao alheia por meio de um conjunto variado de recursos materiais e culturais que lhes abrem caminhos para interpretar, imprimir sentido, tomar posio e agir em situaes dadas.

Movimentos sociais foi o que vimos no item 3.1. so construdos com base na afirmao identitria de referenciais comuns vivenciados por um determinado grupo. Mas salvo em situaes em que optem abertamente por um caminho de conflito permanente, como no caso dos zapatistas em Chiapas para obter cooperao alheia, estes movimentos necessitam produzir significados e abrir oportunidades acessveis a grupos que no fazem estritamente parte de seu universo. As organizaes ajudam a formar o que Fligstein (2001:15) chama de culturas locais que permitem s pessoas interpretar sua posio e tornar compreensvel o que fazem para si mesmas e para os outros. O domnio sobre um determinado campo social um territrio, por exemplo passa pela capacidade de produzir estes significados no s para os componentes de uma determinada organizao, mas para atores que dela no fazem parte e podem encarar como justos e legtimos os objetivos a que se prope.

Na raiz dos movimentos sociais esto laos fechados, identidades que se fortalecem no interior de organizaes ligadas imediatamente a seus referenciais: o caso, por exemplo, das Comunidades Eclesiais de Base que, em toda a Amrica Latina, ligaram sua mensagem religiosa prpria afirmao identitria das populaes com as quais trabalhavam e que aparecem em todos os estudos, no mbito deste Programa de Pesquisa. A legitimao das identidades formadoras dos movimentos sociais junto a atores que no fazem parte de seu universo cultural constitutivo , porm, um dos desafios fundamentais que eles enfrentam e dos quais depende o prprio rumo do desenvolvimento territorial.

Esta abordagem importante, pois permite que se encarem os dois fatores a serem expostos agora inovao e mercados no como elementos abstratamente positivos ao desenvolvimento, mas como campos cujos perfis vo depender exatamente das foras sociais que lhes do contedo.

3.3. Representatividade e inovaoAo estimular inovaes na estrutura de oportunidades de participao poltica e nas formas de organizao dos mercados, os movimentos sociais enfrentam uma contradio decisiva: por um lado, representam segmentos sociais inconformados com a ordem social vigente e que se mobilizam exatamente para mud-la. As mudanas, entretanto sobretudo quando so especficas, tpicas e localizadas trazem duas ameaas fundamentais e que aparecem claramente durante a pesquisa. Por um lado aquela exposta por John Kenneth Galbraith (1979) num livro que escreveu com base em sua experincia na ndia: so muito restritas as possibilidades de os pobres lidarem com a incerteza e com o risco (), pois eles sobrevivem com base num conjunto de relaes sociais de dominao freqentemente clientelistas e personalizadas cuja supresso pode deix-los ainda pior do que estavam. Alm disso, a introduo de inovaes tcnicas, organizacionais e mercadolgicas dificilmente beneficia igualmente todos os que nelas esto potencialmente interessados: tanto no ejido de la Corona, no municpio de Marqus de Comillas (Reygadas et al. 2006), como em Olmos (Zegarra et al., 2006), a inovao tende a beneficiar os mais abastados, confirmando o que desde os clebres estudos de Eric Wolf sobre as guerras camponesas j faz parte do conhecimento elementar sobre o tema: que a diferenciao social uma ameaa coeso das sociedades camponesas.

Pode-se falar, portanto em uma contradio entre a participao social (a dimenso da identidade, conforme vimos no item 3.1., os laos sociais fechados, expostos no item 3.2.) e as inovaes scio-culturais, produtivas e polticas necessrias ao processo de desenvolvimento (a dimenso da diferena, a abertura dos laos sociais). Sem participao social ao menos em pases com estrutura desigual de distribuio da renda e do patrimnio o processo de inovao tende a tomar um rumo altamente concentrador e predatrio que o afasta da prpria essncia do desenvolvimento (). Mas no h evidncias de que a participao social tenha o condo, por si s, de estimular prticas inovadoras, que ampliem as oportunidades de gerao de renda e melhorem a qualidade da insero dos mais pobres. Ao contrrio, com imensa freqncia que os processos participativos acabam servindo a consolidar e legitimar poderes dominantes que inibem formas inovadoras de uso dos recursos. A situao de pobreza amplia as ameaas que situaes inovadoras trazem aos indivduos e aos grupos sociais. Parte deste problema se deve prpria precariedade da representao social, a seu carter muitas vezes restrito e de expresso limitada, como mostram os dados do levantamento quantitativo realizado por Pablo Ospina et al. (2006) sobre o tema. Mas, alm deste problema importante, as organizaes mesmo quando muito representativas, tendem mais a formar uma espcie de rede de proteo em torno daquilo que j fazem do que a criar as condies para que alterem suas prticas produtivas e a maneira como se inserem nos mercados.Esta relao contraditria entre participao social e inovao a chave de leitura para interpretar as diferentes tentativas de implantar mtodos e tcnicas voltados a estimular o desenvolvimento territorial. A leitura a partir da contradio entre representatividade e inovao no pretende propor sua supresso, mas procura enfatizar o estudo concreto da maneira como as diferentes foras sociais se apropriam das oportunidades para fortalecer suas posies nas relaes sociais locais de que dependem.

No existe qualquer fatalidade no destino desta contradio: ela est presente no Equador e se exprime na defasagem entre o extraordinrio avano poltico recente e a timidez das inovaes econmicas alcanadas (Ospina et al., 2006). Mas, em contrapartida, no Sul do Brasil (Abramovay et al., 2006), foram organizaes representativas que num exemplo notvel de empreendedorismo coletivo (Sachs, 2004) montaram dois sistemas cooperativos que j adquiriram uma dimenso social que ultrapassa de longe a esfera experimental e tem peso decisivo nos territrios em que existem: o Sistema Cresol de Crdito Solidrio (presente em 200 municpios, com quase 50 mil membros) e as cooperativas que tm hoje um papel de destaque na organizao do mercado regional do leite (Abramovay et al., 2006). Da mesma forma, embora numa escala muito menor, a organizao do turismo na casa do habitante, no Sul do Mxico uma inovao fundamental (Reygadas et al., 2006), ainda mais em pases em que este tipo de iniciativa tende a ser prioritariamente organizada pelos grandes proprietrios fundirios.

Esta contradio entre representatividade e inovao contribui a explicar tambm o contraste entre o discurso ambientalista da esmagadora maioria dos movimentos sociais e suas prticas habitualmente pouco voltadas explorao sustentvel da biodiversidade, quando se trata de gerao de renda. O conflito entre o gado e a floresta evidente nos estudos sobre a Amaznia (Toni, 2006) e sobre Chiapas (Reygadas et al. 2006) exprime a necessidade em que se vem os movimentos sociais de dar total prioridade s necessidades imediatas de suas bases sociais (gerar renda) ainda que seja em detrimento de suas convices preservacionistas. bem verdade que os movimentos patrocinam, com freqncia, experincias localizadas de agricultura orgnica ou de reservas extrativistas, com um mbito porm muito limitado. Mas quando se trata da conquista de ativos que representem a melhoria da insero social dos mais pobres como por exemplo o crdito, no Brasil a so as modalidades mais convencionais que imperam e os temas ambientais tendem a ser relegados a segundo plano, como bem mostra o trabalho de Toni (2006).3.4. Solidariedades e mercados

primeira vista so categorias irreconciliveis: entre as solidariedades de que so feitos os movimentos e a impessoalidade caracterstica dos mercados, a distncia a de um verdadeiro mundo social. Num caso, uma experincia vivida em comum a partir da oposio a inimigos claramente identificados, de laos com atores que partilham seu universo de significados e da vivncia de experincias concretas comuns. No outro, o anonimato das relaes humanas em que o reconhecimento de cada um feito de maneira neutra e por um mecanismo automtico expresso nos preos dos produtos. Num caso para empregar os termos comuns a Max Weber e Karl Polanyi (1944/1980) a racionalidade substantiva informada por valores; no outro a racionalidade formal, baseada no clculo em dinheiro ou em capital.

Muitas vezes esta oposio assume contornos claramente ideolgicos: e aparece como fundamento de uma tica comunitria de natureza emancipatria: a concepo comunitria de vida no tem nada que ver com a proposta individualista que subjaz ao discurso neoliberal, afirma uma publicao indgena citada por Pablo Ospina et al. (2006). Os valores e prticas da comunidade indgena apiam-se em valores como a reciprocidade, a ajuda mtua, o valor comunitrio dos bens, o respeito natureza, a solidariedade, a responsabilidade social, a discusso coletiva e o respeito ao outro, que encarnam exatamente o contrrio da cultura ocidental. No surpreendente, ento que as propostas de afirmao tnica, na base destes movimentos sociais, tenham imensa dificuldade em elaborar sugestes consistentes de afirmao do trabalho das populaes que representam em mercados dinmicos e promissores.A afirmao identitria dos movimentos sociais, os laos que os compem e a representatividade que buscam so correlatos, em geral, a uma viso crtica segundo a qual o mercado neste caso pronunciado no singular, como entidade abstrata de coordenao social responde, em grande parte, pelos grandes problemas contra os quais se organizam as populaes vivendo em situao de pobreza. Ao mesmo tempo, sobretudo no meio rural, os movimentos sociais representam populaes que dependem de mercados de produtos e servios agrcolas e no agrcolas para sua reproduo. Da resulta uma frtil contradio, ntida nos relatrios, entre uma crtica ao significado de uma sociedade baseada no mercado (no singular) como mecanismo de relao entre seus componentes, por um lado, e a tentativa permanente de construir mercados (no plural), ou seja, de encontrar nos mercados um terreno de melhoria da prpria insero social dos mais pobres. mais uma dimenso das polaridades que formam as categorias a partir das quais so aqui analisadas as situaes encontradas em campo.

As situaes j citadas do Sudoeste do Paran (cooperativas de crdito e de leite) e de Chiapas (eco-turismo e criao de gado) mostram (Reygadas et al., 2006) que identidades fortes podem ser, entretanto, a base da formao de iniciativas econmicas consistentes. No caso do cooperativismo de crdito do Sul do Brasil, os valores prprios economia solidria permanecem no mbito de uma organizao financeira plena. (Abramovay et al., 2006). O mais importante a que os prprios mercados podem ser considerados (Fligstein, 2001b), como campos sociais cujo domnio ser disputado por diferentes atores organizados. Mas a tradio dos movimentos sociais tende a afast-los deste campo.

Mercados so os campos sociais em que mais nitidamente se exprime a dificuldade de promover as inovaes necessrias a mudar a insero dos mais pobres. Os movimentos sociais conseguem, com freqncia, obter recursos para ampliar a produo de bens e mesmo a oferta de servios por parte das populaes que representam. Mas muito maior sua dificuldade em evitar que estes servios e produtos sejam comercializados por meio dos circuitos convencionais j existentes. Da uma pergunta crucial: os movimentos sociais sero capazes de manter sua identidade, de fortalecer os laos que os compem, de ampliar sua representatividade e ao mesmo tempo construir mercados promissores para a valorizao do trabalho dos mais pobres? O que o trabalho de campo mostra uma imensa dificuldade de responder afirmativamente a esta pergunta: ainda mais que entre os movimentos sociais e os atores empresariais consolidados nos territrios em que atuam a distncia muito grande e as relaes bastante tnues. O resultado que as conquistas obtidas no campo das capacidades produtivas de bens e servios (crditos, equipamentos, instalaes) muito dificilmente respondem pela mudana na matriz econmica a partir da qual os mais pobres inserem-se socialmente. Expresso desta dificuldade a participao to incipiente dos movimentos sociais em mercados voltados explicitamente a valorizar qualidades ticas, ambientais, territoriais ou de emancipao social ligadas a determinados produtos. Ou ainda o fato de que mesmo quando conseguem promover o acesso das populaes que representam a produes que no faziam parte de suas prticas pecuria, por exemplo no interferem na prpria organizao dos mercados e, portanto, acabam fortalecendo atores sociais com os quais praticamente no negociam e que exprimem as formas mais tradicionais de dominao social sobre os mais pobres. A crtica ideolgica e poltica ao mercado poucas vezes capaz de produzir uma capacidade especfica de interferir e, muito menos, de organizar mercados.

3.5. Governos, movimentos e participao social

Eric Hobsbawm mostrou em "Rebeldes Primitivos" que, na ausncia de uma estrutura organizada e de lideranas claramente reconhecidas, o poder construtivo das revoltas muito baixo. Hobsbawm filia-se vertente que v na mobilizao popular condio necessria, mas nem de longe suficiente para a mudana social. Sem organizaes com objetivos polticos claros, as lutas sociais no conseguem ultrapassar um horizonte imediato e pouco promissor. Em contrapartida, as organizaes dos movimentos sociais passam, muitas vezes, a possuir interesses prprios ligados a sua prpria reproduo orgnica e funcional. Congressos, militantes profissionais, viagens, escolas de formao de quadros so elementos indispensveis, claro, para que se formem e se exeram as habilidades sociais necessrias afirmao dos projetos em torno dos quais os movimentos sociais se organizam. Mas, ao mesmo tempo, o risco de que os interesses das organizaes tornem-se relativamente autnomos com relao aos movimentos tanto maior quanto mais importantes e massificadas forem as suas estruturas.

O tema est diretamente relacionado com a capacidade dos movimentos sociais de influir sobre processos localizados de governana. Podem-se tirar trs resultados principais do trabalho de campo no que se refere governana do processo localizado de desenvolvimento.

3.5.1. Governana ambiental reativa

Os movimentos sociais foram capazes de interferir sobre o uso local de recursos materiais a partir de suas inmeras tentativas de defender a preservao dos recursos naturais e da biodiversidade. Esta interferncia aparece em praticamente todas as situaes, com exceo talvez de Olmos e do Sudoeste do Paran em que o tema no faz parte de maneira prioritria da agenda dos movimentos aqui estudados (). Mas mesmo ali onde os temas ambientais foram importantes, difcil empregar o termo governana para caracterizar as prticas dos movimentos. A expresso governana foi cunhada para diferenciar processos centralizados (baseados no exerccio de uma autoridade) ou processos completamente descentralizados (como o estilizado mercado perfeito da economia neoclssica) daqueles em que o uso dos recursos deriva de decises coordenadas voluntariamente pela organizao dos prprios atores, que, por a, acabam por criar normas e instituies que se impem como prticas correntes. o sentido da oposio que faz Ostrom (1990) tanto soluo hobbesiana que impe uma lei de cima para baixo, quanto soluo lockeana pela qual a privatizao dos bens resulta em seu melhor uso possvel: governing the commons d lugar a um vasto programa de pesquisa em que Ostrom mostra a capacidade de produzir, como resultado da prpria interao social, regras e controlar sua aplicao em benefcio tanto da sociedade como do meio ambiente.

No se pode dizer que entre os movimentos sociais por ns estudados encontrem-se casos expressivos em que saberes locais foram mobilizados e renovados para produzir este tipo de regra e de capacidade de exerccio democrtico do poder. Uma das razes (j salientadas no item 3.3. acima) a necessidade de os movimentos apoiarem as necessidades de gerao de renda das populaes que representam, o que, com muita freqncia dentro dos parmetros cognitivos disponveis e das relaes sociais locais dominantes incompatvel com o uso sustentvel e a preservao da biodiversidade (Toni, 2006, Reygadas et al., 2006). Mas estes limites governana ambiental explicam-se tambm pelo prprio formato das polticas pblicas conquistadas por estes movimentos. Vejamos a questo mais de perto.

3.5.2. A importncia do Estado

Qualquer anlise crtica da relao entre movimentos sociais e Estado deve partir de uma constatao elementar: uma das medidas bsicas do sucesso dos movimentos sociais no meio rural sua capacidade de conquistar, junto ao Estado, bens e servios para as populaes que representam e dos quais elas at ento estavam desprovidas. o prprio sentido poltico dos movimentos que est a em jogo. Que esta conquista se traduza concretamente no acesso ao crdito (como no caso do Sul do Brasil e da Amaznia), na construo de estradas regionais e vicinais, como em Chiapas ou na institucionalizao de processos participativos que valorizam populaes que se encontravam fora do jogo poltico (como no Vale do Ribeira), a verdade que os movimentos sociais rurais so hoje, em toda a Amrica Latina interlocutores de primeira importncia na prpria moldagem das polticas pblicas. Tem razo Webster (2004), quando afirma: Ali onde o Estado e suas instituies e organizao eram estrategicamente contestados e repelidos, agora so vistos de forma muito mais fragmentada em sua forma e natureza, com diversidade de interesses por parte de seus diferentes atores.

A pesquisa mostra uma significativa variedade de situaes em que inegvel a influncia dos movimentos sociais sobre os comportamentos das agncias do Estado empurrando-as para maior respeito da democracia e a processos participativos de tomada de deciso. Os movimentos sociais so capazes, com efeito, de fazer ouvir pela sociedade e pelo Estado um conjunto importante de reivindicaes que acabam sendo parcialmente, verdade muitas vezes satisfeitas. Os processos participativos envolvem, muitas vezes, parcelas minoritrias da populao, como mostram Ospina et al. (2006). Mas este no seu principal problema, como ser visto a seguir.

3.5.3. Falhas dos mecanismos participativos

As virtudes dos processos participativos no podem escamotear trs problemas bsicos que no resultam da ausncia de participao popular nas tomadas de deciso localizadas, mas sim da maneira como esta participao se organiza. Os movimentos sociais influenciam a ao dos governos, mas num sentido nem sempre propcio criao das condies necessrias ao desenvolvimento territorial:

Em nenhuma situao estudada existem conselhos locais de desenvolvimento compostos de forma verdadeiramente intersetorial: os empresrios dos territrios em que atuam os movimentos sociais esto sistematicamente ausentes dos conselhos gestores das polticas de desenvolvimento. Esta ausncia poderia ser justificada pela idia de que estes empresrios representam justamente os interesses que o desenvolvimento procura combater. Mas tal viso supe que o processo de desenvolvimento pode ser levado adiante pela juno das energias das organizaes populares, do Governo, das ONGs e das populaes pobres. uma viso que separa inteiramente economia e sociedade, mercados e benefcios sociais. Esta atitude sob uma retrica revolucionria nem sempre claramente formulada resulta sistematicamente em processos de transferncia de bens e recursos para populaes que os movimentos sociais procuram representar e defender, mas com impactos tmidos sobre os processos localizados de desenvolvimento. A composio dos Conselhos de Desenvolvimento Territorial no Sul do Brasil (em que s existem agricultores, organizaes ligadas agricultura e agncias pblicas), a ausncia dos empresrios de flores nas organizaes locais de Cotacachi, no Equador so exemplos destas distores dos processos participativos. Ao ganhar reconhecimento pblico, os movimentos sociais tendem a estabelecer relaes com diversos nveis de Governo, a partir de suas prprias bases sociais e no constroem e muito menos lideram, bem claro relaes durveis com setores sociais estranhos a seus universos e que, no entanto, so cruciais para os rumos do desenvolvimento do territrio. Pablo Ospina et al. (2006) discutem o tema, no Equador, luz de trs tipos ideais de relao entre movimentos sociais e Estado: clientelismo, o corporativismo e a cidadania. Mesmo que algumas das formas mais elementares de clientelismo sejam superadas com a participao social organizada no processo de tomada de decises polticas, os resultados com muita freqncia reforam situaes em que as representaes de natureza classista/profissional (agricultores familiares, por exemplo) ou tnicas so privilegiadas em detrimento de um horizonte territorial. No trabalho de Schattan et al. (2006) o tema aparece tambm na prpria formulao das regras do que chamam o jogo das regras, em oposio s regras do jogo que presidem os processos participativos e que dificultam a formao de instncias decisrias verdadeiramente pluri-setoriais.

O carter participativo das polticas pblicas tende a fortalecer instncias locais, cujas dimenses so to restritas que bloqueiam um planejamento verdadeiramente inovador. As virtudes do desenvolvimento local a participao social na tomada de decises, a confiana entre os habitantes so sufocadas por um ambiente de paroquialismo. verdade que os Conselhos de Desenvolvimento Territorial ou as organizaes voltadas gesto de bacias hidrogrficas no Brasil (Abramovay et al., 2006, Schattan et al. 2006) exprimem o desejo de ampliar este horizonte. Mas no Equador, em contrapartida, este um dos problemas srios que a participao popular enfrenta. O mbito excessivamente restrito municipal, por exemplo das polticas favorece relaes clientelistas entre o prefeito e os organismos do Estado do qual depende (Ospina et al., 2006).

A participao popular tende a produzir um conjunto de reivindicaes que dificilmente corresponde a um plano de desenvolvimento. Na maior parte das vezes, a escuta s reivindicaes locais sobretudo em situao de muita carncia resulta num conjunto de pedidos cuja coerncia interna baixa: uma espcie de lista de compras cuja execuo d lugar, com muita freqncia ao atendimento clientelista de demandas localizadas, muito mais que a decises de carter estratgico. No existem mecanismos que premiem a qualidade dos projetos locais elaborados e que conduzam a um processo de aprendizagem capaz de favorecer iniciativas inovadoras e pouco convencionais.

O estmulo a formas de governana apoiadas na participao social organizada s pode ser positivo para a democracia e o desenvolvimento. Mas a experincia latino-americana e o que dela foi possvel observar durante a pesquisa aponta para uma contradio bsica coerente com as outras quatro examinadas acima: a influncia dos movimentos sobre o que fazem os governos no conduz tomada de iniciativas que favoream a participao social diversificada no processo de desenvolvimento, o enriquecimento dos laos sociais entre os atores, a inovao produtiva, tcnica, organizacional e o vnculo a mercados dinmicos e competitivos. Existem, claro, excees e tentativas mais ou menos bem sucedidas de uma atuao que procure superar os problemas aqui apontados. Mas, estas excees e tentativas no chegam a modificar o panorama geral aqui apresentado.

4. Concluses

A vitria na luta contra a pobreza depende da drstica reduo da desigualdade: ao expor esta concluso, o trabalho j citado do Banco Mundial (De Ferranti et al., 2003) mostra que a reduo da desigualdade, por sua vez, uma questo de poder. O crescimento econmico por si s e, a fortiori, o crescimento da agricultura ou do complexo agroindustrial em sociedades muito desiguais tende a favorecer os que j se encontram dotados dos ativos que lhes credenciam a uma participao construtiva na vida social. A reduo da desigualdade a comear pela desigualdade de poder, como bem lembra o trabalho do Banco Mundial no uma dimenso que pode ser acrescentada idia de desenvolvimento, mas seu componente central, aquilo que a constitui conceitualmente.

Se o desenvolvimento, portanto, no resulta de maneira automtica do crescimento econmico ainda que o suponha, claro seguem-se duas concluses decisivas.

A primeira que no recebeu a nfase de nossa pesquisa que a diversificao do tecido social das regies interioranas certamente o caminho que oferece maiores chances de aproveitamento das energias criativas de suas populaes. A idia to freqente de que a agricultura representa de maneira quase exclusiva o futuro das regies rurais e que o desafio mais importante da luta contra a pobreza aumentar as oportunidades de os pobres participarem da expanso da produo agropecuria uma referncia central na ao das organizaes de extenso rural e dos prprios movimentos sociais. Esta idia os impede de reconhecer e fortalecer processos localizados virtuosos, mas dos quais as atividades agrcolas no so necessariamente a dimenso central. O trabalho mostrou algumas poucas experincias em que a valorizao das amenidades naturais em Chiapas (Reygadas et al., 2006) ou no Vale do Ribeira (Schattan et al., 2006) comea a fazer parte do universo de propostas e prticas dos movimentos sociais. Mas so ainda inovaes pouco expressivas.

A segunda conseqncia da premissa de que o processo de desenvolvimento mais abrangente que o crescimento econmico e que supe redistribuio do poder que a participao organizada dos atores passa a ser um elemento central no prprio destino dos territrios. o que justifica o empenho deste Programa de Pesquisa em abordar o desenvolvimento territorial sob o ngulo da influncia que nele exercem os movimentos sociais.

Manuel Castells (1996) e Alain Touraine (2005) localizam na defesa do meio ambiente e da emancipao feminina os mais promissores movimentos sociais do Sculo XXI. As razes so claras: num caso e no outro so movimentos que exprimem aspiraes universais, muito alm de interesses de classe, de profisses, de etnia ou mesmo de condio social. Os movimentos voltados luta contra a pobreza e a excluso seriam, sob esta perspectiva, permanentemente ameaados pelo risco de adotarem prticas corporativistas, de se burocratizarem e de esterilizarem as energias criativas que lhes deram origem em relaes promscuas com o Estado e na rotinizao de suas prprias atividades.

O principal resultado deste Programa de Pesquisa a localizao de um conjunto de elementos explicativos ao contraste entre a importncia dos movimentos sociais na mudana das relaes de poder e de outras instituies que esto na raiz da prpria pobreza e a timidez de sua presena nos processos localizados de transformao produtiva. Estes elementos so coerentes entre si e s foram decompostos em itens para maior clareza da exposio. No so elementos circunstanciais, episdicos, mas um conjunto de contradies reais que conduzem os movimentos sociais a dilemas decisivos para seu futuro e para o futuro do prprio desenvolvimento que deles tanto depende. Os cinco elementos expostos nesta sntese formam um conjunto de contradies cujos termos polares guardam cada um deles notvel coerncia. Oferecem assim instrumentos heursticos para enriquecer a compreenso das situaes localizadas e circunstanciais.

Mas estes elementos convidam tambm a uma reflexo mais ampla que pode ser exposta sob a forma de algumas questes que este Programa de Pesquisa dirige aos movimentos sociais.

1. possvel aos movimentos sociais uma atitude crtica e reflexiva, no s sobre os problemas do mundo em que atuam o que eles j tm mas sobre eles mesmos o que, em geral, no tm? Quais so os instrumentos de avaliao e monitoramento que informam aos dirigentes dos movimentos que suas aes contribuem para o processo de desenvolvimento? Estas questes envolvem temas que vo da transparncia das contas das organizaes a um balano sobre os efeitos das aes e das mobilizaes dos movimentos sobre as sociedades em que atuam. Sem uma atitude auto-reflexiva desta natureza, dificilmente os movimentos podero lidar de maneira construtiva com o conjunto de contradies que sua prpria existncia queiram ou no os faz enfrentar.

2. Movimentos sociais representativos de certas categorias profissionais, de classe ou tnicas podem estabelecer relaes durveis e elaborar processos de planejamento com setores sociais estranhos s bases que representam? De que recursos necessitam para enfrentar este desafio caso o considerem positivo sem com isso perder sua prpria identidade?

3. Como evitar que as inmeras mesas de concertao, delegacias de desenvolvimento, conselhos gestores em que a participao dos movimentos sociais importante tornem-se organizaes burocrticas responsveis pela transferncia de recursos a certas regies e populaes e sem qualquer capacidade de iniciativas inovadoras no plano econmico?

4. possvel compatibilizar uma atitude crtica s injustias sociais e, no limite, ao prprio capitalismo com o estmulo participao dos pobres a mercados dinmicos e promissores que lhes abram caminhos para superar a situao em que se encontram?

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* Economia FEA e PROCAM (USP) e Ctedra Srgio Buarque de Holanda da EHESS/MSH (Paris) HYPERLINK "http://www.econ.fea.usp.br/abramovay/" www.econ.fea.usp.br/abramovay/

** RIMISP- Centro Latino-Americano para o Desenvolvimento Rural, Chile jbengoa@rimisp.org

*** RIMISP- Centro Latino-Americano para o Desenvolvimento Rural, Chile jberdegue@rimisp.org

+ GRADE, Peru jescobal@grade.org.pe

++ Fundao PIEB, Bolvia cranaboldo@rimisp.org

+++ DIIS, Dinamarca hmr@diis.dk

++++ RIMISP- Centro Latino-Americano para o Desenvolvimento Rural, Chile aschejtman@rimisp.org

A literatura acadmica sobre este assunto j foi fortemente incorporada pelas grandes agncias internacionais, embora sob abordagens variadas. A FAO (1998), por exemplo, insiste de maneira crescente na importncia das atividades no agrcolas no meio rural. O IICA (2004) vem falando cada vez mais em desenvolvimento territorial. O Banco Mundial (World Bank, 2005) publica recentemente um grande estudo sobre o tema reconhecendo que a questo do desenvolvimento vai muito alm da cidade. Os governos latino-americanos tambm so sensveis a estas abordagens. O Mxico organizou em abril de 2006 uma grande conferncia internacional sobre o tema (Seminario Internacional sobre Desarrollo Rural y el Sector Agroalimentario Estrategias de Futuro). No Brasil tambm, em maro de 2006 a Secretaria de Desenvolvimento Territorial organizou uma grande conferncia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar (Brasil, 2006). O Chile e a Argentina vm tambm levando adiante importantes estudos que fundamentam polticas inovadoras neste tema. O abrangente documento de Schejtman e Berdegu (2004) hoje uma referncia importante sobre o assunto. Jos Graziano da Silva anima um importante projeto desde o final de 1990 que mostrou o peso econmico e social das atividades rurais no agrcolas no Brasil (Campanhola e Graziano da Silva, 2000). Jos Eli da Veiga (2002) publicou diversos trabalhos que, luz das metodologias aplicadas pela OCDE, conduziram a uma verdadeira redefinio da prpria geografia da ruralidade no Brasil. A recm defendida tese de doutoramento de Arilson Favaretto (2006) contm uma das melhores e mais abrangentes discusses recentes sobre a importncia da abordagem territorial do desenvolvimento das reas rurais.

E no s naquela que se volta ao desenvolvimento rural, como o mostram as anlises contemporneas de inspirao neo-marshalliana sobre os distritos industriais, cujos trabalhos pioneiros foram de Pyke et al. (1990) e Bagnasco e Trigilia (1988/1993).

uma forma de abordar os temas levantados pelo International Human Dimensions Programme on Global Environmental Change (IHDP). Ver, especialmente, Folke et al., 1998, Berkes e Folke, 1997 e os trabalhos mais recentes do Beijer Institute. Os estudos liderados por Elinor Ostrom, desde a publicao de seu consagrado livro de 1990 so uma referncia obrigatria no tema.

Ver http://www.rimisp.org/trem

HYPERLINK "http://www.rimisp.cl/getdoc.php?docid=2558" http://www.rimisp.cl/getdoc.php?docid=2558, p. 2 (extrado da Internet em 28/03/06).

Este primeiro suposto uma das idias centrais do Relatrio de 2005 do Banco Mundial Equity and Development

As duas referncias mais importantes aqui e amplamente utilizadas pelos pesquisadores deste programa so, por um lado, o The Real Utopias Project, animado por Eric Olin Wright (ver Fung e Wright, 2003) com um panorama bastante animador sobre um conjunto variado de experincias de participao social. Muito menos otimista com os resultados alcanados neste sentido so os textos fundamentais do Programa da OIT (Decent Work Research Program). Ver em particular Baccaro e Papadakis, 2004.

Esta proximidade metodolgica estabelecida por um dos mais importantes e respeitados bilogos do Sculo XX, recentemente falecido, Ernst Mayr (1996), quando insiste que a biologia embora cincia natural est muito mais prxima da histria, por seu mtodo, que da fsica, com seu funcionamento lgico-dedutivo.

Foram eliminados da prpria seleo os movimentos voltados especificamente luta pela terra (como o MST brasileiro), por serem j largamente estudados na atualidade por outros programas de pesquisa em vrios pases.

Todos os estudos encontram-se na pgina do Programa (www.rimisp.org/trem) e sero aqui apenas brevemente citados. Deve-se ressaltar tambm que, respeitando os procedimentos consagrados pelo IDRC cada projeto foi levado adiante por uma equipe cuja remunerao individual foi exposta com toda a clareza na apresentao do projeto. Da mesma forma, o compromisso de que os resultados da pesquisa sejam devolvidos aos atores sociais que dela participaram e para ela contriburam tambm um compromisso que cada projeto faz o possvel para levar adiante.

O livro emblemtico e que fez escola neste sentido o de Mancur Olson (1965).

Ver http://identidades.cl/

O segundo volume da trilogia de Castells uma referncia fundamental neste sentido e oferece uma expresso radicalizada do problema que se procura apresentar aqui. O tema est presente no instigante livro de Alain Touraine (2005) e decisivo hoje nas sociedades democrticas europias.

O trabalho recente do filsofo francs Lucien Sve (2004) uma importante referncia na renovao contempornea da tradio dialtica. Para uma aplicao do tema dialtica do desenvolvimento, expresso de Celso Furtado, ver Veiga (2006).

O que lembra, de forma muito interessante, a noo de colonizao da vida, aplicada por Habermas exatamente ao risco de que a vitalidade da participao popular seja sugada pelas exigncias da racionalizao burocrtica. Ver Habermas (1992).

Uma reflexo abrangente sobre os desafios da racionalizao da vida social no meio rural pode ser encontrada em Favaretto, 2006.

Os trabalhos de Putnam (1993 e 2000) e de Fukuyama sobre capital social respondem a este tipo de orientao, aqui exposta de forma sem dvida caricatural e que no faz justia ao interesse que despertam.

O que a forma negativa de apresentar a prpria definio que Amartya Sen (2000) oferece noo de desenvolvimento: os pobres tm reduzidssima capacidade de fazer escolhas, suas liberdades so extremamente limitadas. A misso central do processo de desenvolvimento e aquela pela qual ele poderia ser avaliado justamente a ampliao nestas capacidades e nessas liberdades.

a mais importante concluso de um trabalho recente do Banco Mundial sobre os efeitos da desigualdade sobre as sociedades latino-americanas. Ver World Bank, 2003.

Embora seja importante em prticas governamentais apoiadas pelo Banco Mundial como o projeto microbacias, voltado a estimular prticas agrcolas que combatam a eroso dos solos. Embora conte com a participao ativa de agricultores familiares, no se pode dizer que estes projetos tenham importncia considervel para o sindicalismo de trabalhadores rurais.

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