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    Movimentos sociais na contemporaneidade

    Maria da Glria Gohn

    Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educao

    Universidade Nove de Julho, Faculdade de Educao

    A relao movimentos sociais e educao

    Abordo neste texto a temtica dos movimentos sociais apresentando algumas

    caractersticas e exemplos na Amrica Latina, me detenho no estudo dos movimentos

    sociais no Brasil na atualidade, e destaco a relao movimento social e educao. Desde

    logo esclareo: para ns a educao no se resume educao escolar, realizada na escola

    propriamente dita. H aprendizagens e produo de saberes em outros espaos, aqui

    denominados de educao no-formal. Portanto, trabalha-se com uma concepo ampla de

    educao. Um dos exemplos de outros espaos educativos a participao social em

    movimentos e aes coletivas, a qual gera aprendizagens e saberes. H um carter

    educativo nas prticas que se desenrolam no ato de participar, tanto para os membros da

    sociedade civil, como para a sociedade mais geral, e tambm para os rgos pblicos

    envolvidos quando h negociaes, dilogos ou confrontos.

    Uma das premissas bsicas a respeito dos movimentos sociais : eles so fontes de

    inovao e matrizes geradoras de saberes. Entretanto, no se trata de um processo isolado,

    mas de carter poltico-social. Por isto, para analisar estes saberes deve-se buscar as redes

    de articulaes que os movimentos estabelecem na prtica cotidiana, e indagar sobre a

    conjuntura poltica, econmica e scio-cultural do pas quando as articulaes acontecem.

    Estas redes so essenciais para compreender os fatores que geram as aprendizagens e os

    valores da cultura poltica que so sendo construdos no processo interativo.

    A relao movimento social e educao existe a partir das aes prticas de

    movimentos e grupos sociais. Ela ocorre de duas formas: na interao dos movimentos em

    contato com instituies educacionais, e no interior do prprio movimento social, dado o

    carter educativo de suas aes. No meio acadmico, especialmente nos fruns de pesquisa

    e na produo terico-metodolgica existente, o estudo desta relao relativamente

    recente. A juno dos dois termos tem se constitudo em novidade em algumas reas,

    como na prpria Educao, -causando reaes de jbilo pelo reconhecimento em alguns, ou

    espanto e estranhamento- nas vises ainda conservadoras de outros. No exterior, a

    articulao dos movimentos com a educao antiga e constitutiva de alguns grupos de

    Trabalho encomendado pelo Grupo de Trabalho Movimentos Sociais e Educao, apresentado na 33 Reunio Anual da ANPEd, realizada em Caxambu (MG), de 17 a 20 de Outubro de 2010.

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    pesquisa, como na International Sociological Association (ISA), Latin Amercan Studies

    Association (LASA), Associacin Latinoamericana de Sociologia (ALAS) etc.

    No Brasil, esta relao foi sendo construda vagarosamente a partir do final dos anos

    de 1970, quando foram criadas novas associaes, ou ativadas entidades cientficas j

    existentes, a exemplo da Associao Nacional de Ps Graduao e Pesquisa em Cincias

    Sociais (ANPOCS), a Associao Nacional de Pesquisa em Educao (ANPEd), a

    Sociedade Brasileira para o Progresso da Cincia (SBPC), a Sociedade Brasileira de

    Sociologia (SBS) e as Conferncias Brasileiras de Educao (CBEs), realizadas

    bienalmente, que passaram a debater os problemas socioeconmicos e polticos e a destacar

    os grupos e movimentos sociais envolvidos. Estas entidades e eventos pautaram, ao final

    dos anos de 1970 e durante a dcada de 1980, em seus grupos de trabalho e de pesquisa,

    mesas e debates, o tema dos movimentos sociais. A relao movimento social e educao

    foi construda a partir da atuao de novos atores que entravam em cena, sujeitos de novas

    aes coletivas, que extrapolavam o mbito da fbrica ou os locais de trabalho, atuando

    como moradores das periferias da cidade, demandando ao poder pblico o atendimento de

    suas necessidades para sobreviverem no mundo urbano. Os movimentos tiveram um papel

    educativo para os sujeitos que o compunha. J existe um acervo considervel de pesquisa

    sobre aquela poca, foram produzidas vrias teses, dissertaes, livros e outros trabalhos

    acadmicos sobre este tema. Entretanto, uma avaliao mais global est ainda para ocorrer,

    especialmente um balano que extrapole o eixo So Paulo, Rio e Minas Gerais porque os

    movimentos ocorreram em todo Brasil, embora no com a mesma intensidade. Se olharmos

    para a Amrica Latina, a lacuna de estudos e publicaes, especialmente as de ordem

    comparativas, muito grande. Faltam estudos que articulem a produo brasileira com a de

    outros pases latino-americanos, especialmente aqueles que tambm passaram por regimes

    militares.

    A reflexo sobre a produo terico-metodolgica dos movimentos sociais nas

    ltimas dcadas conta com algumas publicaes no Brasil (Gohn, 2008 e 2009), mas h

    muito pela frente. O livro de S. Tarrow (1994), um dos marcos no debate terico dos

    movimentos sociais, foi publicado somente em 2009, no Brasil. Alain Touraine, o mais

    conhecido no Brasil entre os autores estrangeiros que analisam os movimentos sociais, no

    teve seus primeiros livros traduzidos para o portugus. M. Castells, que teve grande

    influncia em vrios estudos dos movimentos no Brasil nos anos de 1970-1980, tambm

    no teve seus livros publicados na dcada de 1970 traduzidos no Brasil, especialmente

    aqueles em que pautou a anlise sobre os movimentos sociais com novo olhar sobre a

    questo urbana. Em sntese, apesar do denso quadro de mobilizaes e movimentos sociais

    no Brasil, a partir do final dos anos de 1970, o debate e a produo terica caminhou

    lentamente at os primeiros anos deste novo sculo, embora conte com um grande nmero

    de publicaes que so registros descritivos, importantes como memrias. No campo da

    educao, a defasagem ainda maior. Na primeira dcada do novo milnio, vagarosamente,

    o tema dos movimentos sociais tem voltado agenda dos pesquisadores, principalmente

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    novos pesquisadores, pautando o debate em eventos e publicaes recentes em nmeros

    temticos de revistas brasileiras.2 E retornado de forma diferente, pautando o campo

    terico, questionando marcos interpretativo das dcadas anteriores, postulando novos

    referenciais em funo de mudanas no cenrio scio-poltico (ver Alonso, 2009; Abers e

    Bulow, 2010).

    O que movimento social e porque importante seu estudo

    Desde logo preciso demarcar nosso entendimento sobre o que so movimentos

    sociais: ns os vemos como aes sociais coletivas de carter sociopoltico e cultural que

    viabilizam distintas formas da populao se organizar e expressar suas demandas (ver

    Gohn, 2008). Na ao concreta essas formas adotam diferentes estratgias que variam da

    simples denncia, passando pela presso direta (mobilizaes, marchas, concentraes,

    passeatas, distrbios ordem constituda, atos de desobedincia civil, negociaes etc.) at

    s presses indiretas. Na atualidade, os principais movimentos sociais atuam por meio de

    redes sociais, locais, regionais, nacionais e internacionais ou transnacionais, e utilizam-se

    muito dos novos meios de comunicao e informao, como a internet. Por isso, exercitam

    o que Habermas denominou como o agir comunicativo. A criao e o desenvolvimento de

    novos saberes, na atualidade, so tambm produtos dessa comunicabilidade.

    Na realidade histrica, os movimentos sempre existiram e cremos que sempre

    existiro. Isto porque representam foras sociais organizadas, aglutinam as pessoas no

    como fora-tarefa, de ordem numrica, mas como campo de atividades e de experimentao

    social, e essas atividades so fontes geradoras de criatividade e inovaes socioculturais. A

    experincia a qual so portadores no advm de foras congeladas do passado-embora este

    tenha importncia crucial ao criar uma memria que, quando resgatada, d sentido s lutas

    do presente. A experincia se recria cotidianamente, na adversidade de situaes que

    enfrentam. Concordamos com antigas anlises de Touraine, nas quais afirmava que os

    movimentos so o corao, o pulsar da sociedade. Eles expressam energias de resistncia

    ao velho que os oprime ou de construo do novo que os liberte. Energias sociais antes

    dispersas so canalizadas e potencializadas por meio de suas prticas em fazeres

    propositivos.

    Os movimentos realizam diagnsticos sobre a realidade social, constroem propostas.

    Atuando em redes, constroem aes coletivas que agem como resistncia excluso e

    lutam pela incluso social. Constituem e desenvolvem o chamado empowerment de atores

    da sociedade civil organizada medida que criam sujeitos sociais para essa atuao em

    2 Ver: Sociedade e Estado (v. 21, n. 1, 2006), Estudos Histricos (n. 42, 2008), Caderno CRH (v. 21, n. 54,

    2008); Lua Nova (n. 76, 2009); ECCOS Revista Cientfica(v. 10, n. 1, 2009); Cincias Sociais Unisinos (v.

    46, n. 1, 2010); Revista Brasileira de Cincia Poltica (n. 3, 2010); Revista IHU-Humanitas Unisinos (n. 325,

    2010). Ver tambm: Anais do I Seminrio Internacional Movimentos Sociais, Participao e Democracia

    (UFC, Florianpolis, 2010).

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    rede. Tanto os movimentos sociais dos anos de 1980 como os atuais, tm construdo

    representaes simblicas afirmativas por meio de discursos e prticas. Criam identidades a

    grupos antes dispersos e desorganizados, como