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<p>Rev. Bras. Educ.vol.16no.47Rio de JaneiroMay/Aug.2011http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782011000200005 ARTIGOSMovimentos sociais na contemporaneidade*Maria da Glria GohnUniversidade Estadual de Campinas Universidade Nove de Julho RESUMOO trabalho objetiva apresentar um panorama geral dos movimentos sociais da atualidade, com destaque para a Amrica Latina, e apresentar um mapeamento de suas principais formas no Brasil. Nesse sentido, reflete sobre o carter educativo de suas aes, tanto para seus participantes como para a sociedade em geral e para os rgos pblicos. A premissa bsica de que os movimentos sociais so fontes de inovao e matrizes geradoras de saber. Entretanto, como no se trata de um processo isolado, mas de carter poltico-social, o trabalho analisa as articulaes na rede de relaes que os movimentos estabelecem na conjuntura poltica, econmica e sociocultural do pas, para compreender os fatores que geram as aprendizagens e os valores da cultura poltica que vo sendo construdos. Destacam-se os movimentos que ocorrem nas reas da educao formal e da educao no formal.Palavras-chave: movimento social; educao; participao social; cidadania; aprendizagem; saberes sociaisA RELAO MOVIMENTOS SOCIAIS E EDUCAOAbordo, neste texto, a temtica dos movimentos sociais, apresentando algumas caractersticas e exemplos na Amrica Latina. Detenho-me no estudo dos movimentos sociais no Brasil na atualidade e destaco a relao movimento social e educao. De pronto, esclareo: para ns, a educao no se resume educao escolar, realizada na escola propriamente dita. H aprendizagens e produo de saberes em outros espaos, aqui denominados de educao no formal. Portanto, trabalha-se com uma concepo ampla de educao. Um dos exemplos de outros espaos educativos a participao social em movimentos e aes coletivas, o que gera aprendizagens e saberes. H um carter educativo nas prticas que se desenrolam no ato de participar, tanto para os membros da sociedade civil, como para a sociedade mais geral, e tambm para os rgos pblicos envolvidos - quando h negociaes, dilogos ou confrontos. Uma das premissas bsicas a respeito dos movimentos sociais : so fontes de inovao e matrizes geradoras de saberes. Entretanto, no se trata de um processo isolado, mas de carter poltico-social. Por isso, para analisar esses saberes, deve-se buscar as redes de articulaes que os movimentos estabelecem na prtica cotidiana e indagar sobre a conjuntura poltica, econmica e sociocultural do pas quando as articulaes acontecem. Essas redes so essenciais para compreender os fatores que geram as aprendizagens e os valores da cultura poltica que vo sendo construdos no processo interativo. A relao movimento social e educao existe a partir das aes prticas de movimentos e grupos sociais. Ocorre de duas formas: na interao dos movimentos em contato com instituies educacionais, e no interior do prprio movimento social, dado o carter educativo de suas aes. No meio acadmico, especialmente nos fruns de pesquisa e na produo terico-metodolgica existente, o estudo dessa relao relativamente recente. A juno dos dois termos tem se constitudo em "novidade" em algumas reas, como na prpria Educao - causando reaes de jbilo pelo reconhecimento em alguns, ou espanto e estranhamento - nas vises ainda conservadoras de outros. No exterior, a articulao dos movimentos com a educao antiga e constitutiva de alguns grupos de pesquisa, como na International Sociological Association (ISA), Latin American Studies Association (LASA), Associacin Latinoamericana de Sociologia (ALAS) etc. No Brasil, essa relao foi sendo vagarosamente construda a partir do fim dos anos 1970, quando foram criadas novas associaes ou ativadas entidades cientficas j existentes, a exemplo da Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Cincias Sociais (ANPOCS), a Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Educao (ANPEd), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Cincia (SBPC), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) e as Conferncias Brasileiras de Educao (CBEs), realizadas bienalmente, que passaram a debater os problemas socioeconmicos e polticos e a destacar os grupos e movimentos sociais envolvidos. Essas entidades e eventos pautaram, no fim dos anos 1970 e durante a dcada de 1980, em seus grupos de trabalho e pesquisa, mesas e debates, o tema dos movimentos sociais. A relao movimento social e educao foi construda a partir da atuao de novos atores que entravam em cena, sujeitos de novas aes coletivas que extrapolavam o mbito da fbrica ou os locais de trabalho, atuando como moradores das periferias da cidade, demandando ao poder pblico o atendimento de suas necessidades para sobreviver no mundo urbano. Os movimentos tiveram papel educativo para os sujeitos que o compunham. J existe um acervo considervel de pesquisa sobre aquela poca, vrias teses, dissertaes, livros e outros trabalhos acadmicos foram produzidos. Entretanto, uma avaliao mais global ainda est para ocorrer, especialmente um balano que extrapole o eixo So Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, porque os movimentos ocorreram em todo o Brasil, embora no com a mesma intensidade. Se olharmos para a Amrica Latina, a lacuna de estudos e publicaes, especialmente as de ordem comparativa, muito grande. Faltam estudos que articulem a produo brasileira com a de outros pases latino-americanos, especialmente aqueles que tambm passaram por regimes militares.A reflexo sobre a produo terico-metodolgica dos movimentos sociais nas ltimas dcadas conta com algumas publicaes no Brasil (Gohn, 2008 e 2009), mas h muito a se produzir. O livro de S. Tarrow (1994), um dos marcos no debate terico dos movimentos sociais, foi publicado no Brasil somente em 2009. Alain Touraine, entre os autores estrangeiros que analisam os movimentos sociais, o mais conhecido no Brasil, no teve seus primeiros livros traduzidos para o portugus. M. Castells, que influenciou vrios estudos dos movimentos no Brasil nos anos 1970- -1980, tambm no teve livros publicados na dcada de 1970 traduzidos no Brasil, sobretudo aqueles nos quais pautou a anlise dos movimentos sociais com novo olhar sobre a questo urbana. Em sntese, apesar do denso quadro de mobilizaes e movimentos sociais no pas, a partir do fim dos anos 1970, o debate e a produo terica caminhou lentamente at os primeiros anos deste novo sculo, embora conte com um grande nmero de publicaes que so registros descritivos, importantes como memrias. No campo da educao, a defasagem ainda maior. Na primeira dcada do novo milnio, o tema dos movimentos sociais tem lentamente retornado agenda dos pesquisadores, sobretudo novos pesquisadores, pautando o debate em eventos e publicaes recentes em nmeros temticos de revistas brasileiras.1 E retornando de forma diferente, pautando o campo terico, questionando marcos interpretativos das dcadas anteriores, postulando novos referenciais em funo de mudanas no cenrio sociopoltico (ver Alonso, 2009; Abers e Bulow, 2010).O QUE MOVIMENTO SOCIAL E POR QUE SEU ESTUDO IMPORTANTE Desde logo preciso demarcar nosso entendimento sobre o que so movimentos sociais. Ns os encaramos como aes sociais coletivas de carter sociopoltico e cultural que viabilizam formas distintas de a populao se organizar e expressar suas demandas (cf. Gohn, 2008). Na ao concreta, essas formas adotam diferentes estratgias que variam da simples denncia, passando pela presso direta (mobilizaes, marchas, concentraes, passeatas, distrbios ordem constituda, atos de desobedincia civil, negociaes etc.) at as presses indiretas. Na atualidade, os principais movimentos sociais atuam por meio de redes sociais, locais, regionais, nacionais e internacionais ou transnacionais, e utilizam-se muito dos novos meios de comunicao e informao, como a internet. Por isso, exercitam o que Habermas denominou de o agir comunicativo. A criao e o desenvolvimento de novos saberes, na atualidade, so tambm produtos dessa comunicabilidade. Na realidade histrica, os movimentos sempre existiram, e cremos que sempre existiro. Isso porque representam foras sociais organizadas, aglutinam as pessoas no como fora-tarefa de ordem numrica, mas como campo de atividades e experimentao social, e essas atividades so fontes geradoras de criatividade e inovaes socioculturais. A experincia da qual so portadores no advm de foras congeladas do passado - embora este tenha importncia crucial ao criar uma memria que, quando resgatada, d sentido s lutas do presente. A experincia recria-se cotidianamente, na adversidade das situaes que enfrentam. Concordamos com antigas anlises de Touraine, em que afirmava que os movimentos so o corao, o pulsar da sociedade. Eles expressam energias de resistncia ao velho que oprime ou de construo do novo que liberte. Energias sociais antes dispersas so canalizadas e potencializadas por meio de suas prticas em "fazeres propositivos".Os movimentos realizam diagnsticos sobre a realidade social, constroem propostas. Atuando em redes, constroem aes coletivas que agem como resistncia excluso e lutam pela incluso social. Constituem e desenvolvem o chamado empowerment de atores da sociedade civil organizada medida que criam sujeitos sociais para essa atuao em rede. Tanto os movimentos sociais dos anos 1980 como os atuais tm construdo representaes simblicas afirmativas por meio de discursos e prticas. Criam identidades para grupos antes dispersos e desorganizados, como bem acentuou Melucci (1996). Ao realizar essas aes, projetam em seus participantes sentimentos de pertencimento social. Aqueles que eram excludos passam a se sentir includos em algum tipo de ao de um grupo ativo.O que diferencia um movimento social de uma organizao no governamental? O que caracteriza um movimento social? Definies j clssicas sobre os movimentos sociais citam como suas caractersticas bsicas o seguinte: possuem identidade, tm opositor e articulam ou fundamentam-se em um projeto de vida e de sociedade. Historicamente, observa-se que tm contribudo para organizar e conscientizar a sociedade; apresentam conjuntos de demandas via prticas de presso/mobilizao; tm certa continuidade e permanncia. No so s reativos, movidos apenas pelas necessidades (fome ou qualquer forma de opresso); podem surgir e desenvolver-se tambm a partir de uma reflexo sobre sua prpria experincia. Na atualidade, apresentam um iderio civilizatrio que coloca como horizonte a construo de uma sociedade democrtica. Hoje em dia, suas aes so pela sustentabilidade, e no apenas autodesenvolvimento. Lutam contra a excluso, por novas culturas polticas de incluso. Lutam pelo reconhecimento da diversidade cultural. Questes como a diferena e a multiculturalidade tm sido incorporadas para a construo da prpria identidade dos movimentos. H neles uma ressignificao dos ideais clssicos de igualdade, fraternidade e liberdade. A igualdade ressignificada com a tematizao da justia social; a fraternidade se retraduz em solidariedade; a liberdade associa-se ao princpio da autonomia - da constituio do sujeito, no individual, mas autonomia de insero na sociedade, de incluso social, de autodeterminao com soberania. Finalmente, os movimentos sociais tematizam e redefinem a esfera pblica, realizam parcerias com outras entidades da sociedade civil e poltica, tm grande poder de controle social e constroem modelos de inovaes sociais.LUTAS, MOVIMENTOS E ASSOCIATIVISMO NA AMRICA LATINANos dizeres de Touraine (1984), a primeira dcada desse sculo trouxe, de forma bastante contraditria, o retorno do ator social nas aes coletivas que se propagaram na maioria dos pases da Amrica Latina. Em alguns pases latino-americanos, houve uma radicalizao do processo democrtico e o ressurgimento de lutas sociais tidas dcadas atrs como tradicionais, a exemplo de movimentos tnicos - especialmente dos indgenas na Bolvia e no Equador, associados ou no a movimentos nacionalistas como o dos bolivarianos, na Venezuela. Algumas se fundamentam em utopias como o bien vivir dos povos andinos da Bolvia e do Equador, e vem transformando-se em propostas de gesto do Estado - um Estado considerado plurinacional porque composto por povos de diferentes etnias, que ultrapassam os territrios e fronteiras do Estado-nao propriamente dito. Observa-se tambm, no novo milnio, a retomada do movimento popular urbano de bairros, ou movimento comunitrio barrial, especialmente no Mxico e na Argentina. Todos esses movimentos tm eclodido na cena pblica como agentes de novos conflitos e renovao das lutas sociais coletivas. Em alguns casos, elegeram suas lideranas para cargos supremos na nao, a exemplo da Bolvia. Movimentos que estavam na sombra e tratados como insurgentes emergem com fora organizatria, como os piqueteiros na Argentina, cocaleiros na Bolvia e Peru e zapatistas no Mxico. Outros, ainda, articulam-se em redes compostas de movimentos sociais globais ou transnacionais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Brasil e a Via Campesina, alm da Coordinadora Latinoamericana de Organizaciones del Campo (CLOC), que[...] se constituye formalmente en el congreso realizado en Lima (Per) del 21 al 25 de febrero de 1994, con la participacin de unas de 84 organizaciones procedentes de 18 pases de Amrica Latina y el Caribe. 1994 es un ao emblemtico para los movimientos populares de la regin, por los signos de reactivacin de las luchas sociales, particularmente en el campo, contra las polticas neoliberales. Se inicia con el levantamiento zapatista en Chiapas, Mxico, para luego registrar el segundo levantamiento indgena en Ecuador, las marchas de los cocaleros en Bolivia, las movilizaciones por la reforma agraria en Paraguay, Guatemala y Brasil, entre otras manifestaciones. (http://www.movimientos.org/cloc/)Um aspecto importante a registrar a ampliao das fronteiras dos movimentos rurais, articulando-se com os movimentos urbanos. Muitas vezes, a questo central rural, mas a forma de manifestao do movimento ocorre no meio urbano, a exemplo dos protestos na Argentina e o prprio MST no Brasil (sobre a Argentina, ver Giarraca, 2003). Ao falarmos de articulaes, registre-se tambm que o movimento sindical de trabalhadores est presente em vrias modalidades, pelo que tem sido chamado de novo, a exemplo dos piqueteiros na Argentina, que tm composio social multiforme e heterognea.Na primeira dcada desse sculo, ampliaram-se os movimentos que ultrapassam as fronteiras da nao; so transnacionais, como o movimento alter ou antiglobalizao, presente no Frum Social Mundial, que atuam atravs de redes conectadas por meios tecnolgicos da sociedade da informao. Novssimos atores entraram em cena, tanto do ponto de vista de propostas que pautam para os temas e problemas sociais da contemporaneidade, como na forma como se organizam, utilizando-se dos meios de comunicao e informao modernos. Preocupam-se com a formao de seus militantes, pela experincia direta, e no tanto com a formao em escolas, com leituras e estudos de textos. O exame do material produzido sobre os movimentos altermundialistas revela-nos que existem vnculos internacionais que os un...</p>