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kriterion, Belo Horizonte, n 132, Dez./2015, p. 557-582

MORALIDADE, JUSTIFICAO E COERNCIA

Denis Coitinho* deniscoitinhosilveira@gmail.com

RESUMO Neste artigo pretendemos mostrar as vantagens do modelo epistemolgico coerentista quando aplicado ao universo moral. O ponto de partida ser apontar que a justificao da crena moral dada pela coerncia com um sistema coerente de crenas que consistente e que isso pretende resolver o problema da dicotomia entre fato e valor. Posteriormente, apresentam-se as caractersticas centrais do coerentismo holstico e investiga-se o mtodo do equilbrio reflexivo. O prximo passo ser fazer referncia a trs conhecidas objees ao coerentismo, a saber: o problema do isolamento, os sistemas coerentes alternativos e a circularidade viciosa. Por fim, procuramos responder a essas objees apelando para os seguintes argumentos: holismo social, razoabilidade e estabilidade social.

Palavras-chave Coerentismo holstico, Equilbrio reflexivo, Holismo social, Razoabilidade, Estabilidade social.

ABSTRACT In this paper we aim to demonstrate the advantages of the epistemological coherentist model when applied to the moral sphere. The starting point will be to show that the justification of moral belief is a matter of how beliefs fit together with a coherent system of beliefs that is consistent and that it tries to solve the issue of the fact/value dichotomy. Following this, we shall point out the core characteristics of the holistic coherentism and

* UNISINOS/CNPq. Artigo recebido em 07/01/2015 e aprovado em 24/08/2015.

doi: 10.1590/0100-512X2015n13213dc

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we will investigate the reflective equilibrium method. Next step is to show three standard objections to coherentism, namely, the isolation problem, the alternative coherent systems objection and the vicious circularity. Finally, we shall then try to respond these criticisms with the following arguments: social holism, reasonableness and social stability.

Keywords Holistic coherentism, Reflective equilibrium, Social holism, Reasonableness, Social stability.

I

imaginemos dois amigos, Beto e Augusto, discutindo sobre a moralidade das relaes homoafetivas, sobretudo, discutindo sobre a pertinncia de suas unies estveis e da possibilidade da adoo de filhos para a constituio de uma famlia. nessa discusso, Beto defende que as relaes homoafetivas so corretas do ponto de vista moral. Augusto, por sua vez, discorda, alegando que essas relaes afetivas so imorais e, portanto, no seria adequado que o estado permitisse a sua unio estvel e nem permitisse que casais desse tipo pudessem adotar filhos para constiturem uma famlia. Augusto alega que esse tipo de relao contraria uma orientao natural e que uma famlia composta por um casal e seus respectivos filhos, sendo um casal formado exclusivamente por um homem e uma mulher. isso que ele aprendeu com seus pais, est escrito na Bblia e, inclusive, est amparado pela Constituio brasileira, conforme lembra ter lido a respeito no jornal. Beto, por outro lado, busca justificar a correo moral das relaes homoafetivas apontando para uma coerncia desse juzo com os princpios constitucionais que garantem a igualdade e a liberdade de todos. o artigo 5 da Carta constitucional brasileira, ao elencar os direitos e garantias fundamentais, proclama: todos so iguais perante a lei, sem distino de qualquer natureza. tambm, o prembulo da Declarao Universal dos Direitos Humanos reconhece que a dignidade inerente a todos os membros da famlia humana e dos seus direitos iguais e inalienveis constitui o fundamento da liberdade, da justia e da paz no mundo. Alm da coerncia desse juzo moral com esses princpios identificados na Constituio do Brasil e na Declarao Universal dos Direitos Humanos, Beto procura esclarecer que as evidncias dadas hoje pela medicina e pela psicologia apontam que h uma orientao natural homoafetiva, no se tratando propriamente de uma escolha voluntria do agente. o ponto central do argumento de Beto que, dado que Augusto aceite os princpios de igualdade e liberdade contidos na

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Constituio e na Declarao Universal e, dado que ele pode se atualizar em relao aos fatos cientficos em questo, ele deveria aceitar a moralidade das relaes homoafetivas. Como Augusto realmente aceita esses princpios que garantem a liberdade e igualdade de todos e consegue compreender as novas evidncias dadas pela cincia, ele aceita o argumento de Beto e passa a ter dvidas do seu juzo anteriormente proferido.

Mais tarde, no conformado em ter tido que abandonar to facilmente o seu julgamento moral, Augusto se matricula em um curso intensivo de epistemologia a fim de melhor compreender como se d o processo do conhecimento cientfico, sua natureza e limites. Aprende sobre os diversos modelos de justificao de crenas, tais como o coerentista, o fundacionista, o contextualista e o fundacionista moderado etc. Estuda com especial ateno as fraquezas do modelo coerentista e no prximo encontro com Beto retoma a discusso anterior. Pergunta para Beto se a sua afirmao de que as relaes homoafetivas so corretas moralmente no refletiria apenas o prprio preconceito de Beto, uma vez que um sistema coerente de crenas poderia ser somente uma fico e no guardar nenhuma semelhana como mundo externo? Faz notar que o artigo 226 da Constituio brasileira, em seu 3, define a famlia como uma unio estvel entre o homem e a mulher, da mesma forma que o faz o artigo 16 da Declarao Universal dos Direitos Humanos e que, alm disso, existiriam evidncias de que casais homoafetivos no poderiam constituir famlia uma vez que no poderiam procriar. tambm, pergunta para Beto como fazer para escolher entre sistemas coerentes alternativos, pois, ressalta, que tambm parece haver coerncia entre a crena que diz que relaes homoafetivas so imorais, o artigo constitucional que define a famlia como uma unio formada por um homem e uma mulher, alm do artigo da Declarao Universal que tambm define a famlia da mesma maneira, e a crena religiosa que probe deitar-se com um homem como se faz com uma mulher, que se pode encontrar no Antigo testamento (Levtico, 18, 22). Essa escolha no seria arbitrria? Por fim, pergunta para Beto se seu argumento no seria circular, uma vez que a justificao da crena moral se daria apenas por sua coerncia com um princpio e com uma crena no moral. Onde estaria realmente o fundamento normativo desse juzo? Ele no teria que ser verdadeiro para estar justificado? E essa verdade no deveria estar ancorada em um fato com certas caractersticas apropriadas?

O exemplo acima procurou ilustrar as dificuldades que encontramos quando nos perguntamos sobre a maneira de justificar adequadamente certas crenas morais em nossos discursos comuns. Cotidianamente ouvimos e proferimos juzos morais que afirmam ou negam a moralidade de certos

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atos, tais como o aborto, eutansia, casamento homoafetivo, distribuio de riquezas etc. O problema se d, sobretudo, quando tentamos justificar nossas crenas aos outros que discordam de ns ou at para ns mesmos quando estamos em dvida. O que faria um ato ser tomado como certo ou errado? Precisaramos necessariamente justificar uma crena moral a partir de certos princpios morais que seriam correspondentes a alguma propriedade moral como a correo ou o erro? Ou, alternativamente, bastaria que pudssemos apontar para a coerncia entre juzos morais, princpios e outras crenas no morais para termos a justificao? Seriam essas crenas e princpios morais revisveis ou eles teriam a sua objetividade garantida especificamente pelo seu carter fixo?

embora j reconhecendo que no conseguiremos responder a todas essas questes anteriormente formuladas, o objetivo central deste texto procurar mostrar a fora do coerentismo para o mbito moral. Especificamente, queremos ressaltar como o coerentismo, quando aplicado ao caso moral, pode oportunizar um modelo mais eficiente para a justificao de crenas ao evitar os problemas epistemolgicos do fundacionismo, tais como o dualismo, o dogmatismo e principalmente a assimetria entre fatos e princpios morais, de um lado, em contraposio s crenas morais asseguradas pelos agentes, de outro. tambm, procuraremos apontar que o coerentismo de tipo holstico consegue evitar o regresso epistmico e apresentar uma soluo ao problema da dicotomia entre os fatos e os valores ao estabelecer uma relao de reciprocidade na direo entre as regras e os casos, e que isso parece ser relevante ao observarmos o pluralismo moral de sociedades contemporneas. Para tal finalidade, procuraremos responder s principais crticas endereadas ao coerentismo, a saber, a crtica ao isolamento, aos sistemas coerentes alternativos e circularidade, a fim de verificar se o coerentismo seria um modelo epistemolgico adequado para se pensar a respeito da justificao de crenas morais ou se ele deveria ser integralmente abandonado em razo de suas supostas fraquezas.

II

Antes de procurarmos responder a essas trs importantes crticas endereadas ao coerentismo, pensamos ser importante esclarecer o que estamos compreendendo por um modelo coerentista de justificao e sua aplicao ao universo moral. Uma definio ampla que se pode estabelecer incialmente e que parece se acomodar com as diversas posies coerentistas poderia ser a seguinte: para o coerentismo, uma crena estar justificada se ela

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estiver em harmonia ou for coerente com um sistema coerente de crenas ou com um sistema coerente de crenas, proposies, testemunhos e memrias. Por exemplo, a minha crena de que hoje vai chover e, ento, que eu devo levar o guarda-chuva, estaria justificada por sua harmonia com a previso do tempo que li no jornal e que anunciava chuva para a tarde e, tambm, com a constatao do tempo nublado quando olhei pela janela, e isso em conexo com minha lembra