mol, annemarie - corpo múltiplo (versão lacs)

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MOL, Annemarie. The Body Multiple: ontology in medical practice. Durham and London: Duke University Press. 2002. Essa uma traduo preliminar e incompleta do original em ingls. Seu objetivo fomentar discusso do tema em cursos de graduao. Ela no tem fins lucrativos. Favor no reproduzir e/ou circular. Qualquer dvida, entre em contato pelo e-mail camilacaux@gmail.com.

- CAPTULO 1 Fazendo doena Um movimento entre campos Este um estudo em filosofia emprica. Comecemos com o emprica. As histrias que eu vou contar a vocs nesse livro so em grande parte situadas em um hospital universitrio em uma cidade de meio-porte no centro da Holanda, Hospital Z. Durante quatro anos eu fui para l uma ou duas vezes por semana. Eu tinha um carto de identificao que me permitia deixar minha bicicleta atrs de uma cerca e beber caf grtis das onipresentes mquinas de venda. Eu tinha um carto da biblioteca e o uso de uma mesa, em uma sucesso de salas lotadas. Eu tinha um jaleco. E eu observava. Eu havia ido ao professor que dirigia o departamento e explicado meu propsito: investigar formas de lidar com as tenses entre fontes de conhecimento e estilos de saber dentro da medicina aloptica contempornea ou, ao menos, um de seus exemplares. Eu havia explicado o que fazia da ateroesclerose nos membros inferiores um caso apropriado para o meu propsito e o que eu esperava aprender em seu departamento. Eu me apresentei como ambos de dentro e de fora (insider and outsider), tendo recebido treinamento bsico em uma escola mdica assim como treinamento extensivo em filosofia. E eu dei o nome do professor de medicina interna que apoiava meu estudo. Cada um dos professores assim abordados reagiram de um modo amigvel. Todos eles enfatizavam que os hospitais acadmicos devem encorajar a pesquisa. Meus planos particulares de pesquisa deixaram alguns interessados e alguns cticos. Outros simplesmente ficaram indiferentes. Mas aps algumas questes suplementares eu era invariavelmente encaminhada a algum um ou mais nveis abaixo na hierarquia para conversar e arranjar praticamente minha observao. Assim eu sentei por vrias manhs atrs de cirurgies vasculares e internistas executando suas consultas ambulatoriais, observando cerca de

trezentas consultas. (Todos os cirurgies e clnicos que eu observei para este estudo eram homens, e eu no irei esconder esse fato, ento eu uso o ele genrico sempre que escrevo sobre mdico, mesmo que um dos patologistas que estudei fosse uma mulher. Sim, este um momento histrico evanescente (a fading historical moment). A profisso est passando por uma rpida mudana de gnero. Mas esta uma outra histria. Mais uma complicao deixada de fora.) Em hospitais universitrios, ambos mdicos e pacientes esto acostumados com observadores: h sempre estudantes e mdicos em formao por ali que precisam aprender alguma coisa. No entanto eu fiquei surpresa com a calma com que minha presena foi aceita pois eu achava essas observaes bastante ntimas. Os pacientes falam de muitas coisas e se despem frequentemente. Embora isso seja difcil para alguns e um alvio para outros, minha presena por trs do mdico raramente parecia fazer diferena. Quando este era um risco, eu saltava uma consulta (uma vez, quando um paciente pediu por isso, muitas vezes quando o mdico o fez e uma vez quando eu reconheci algum que eu conhecia vagamente e deixei por minha prpria iniciativa). A outra transgresso foi em relao privacidade dos mdicos. Eu estava em posio de observar todos os tipos de detalhes sobre a maneira como eles trabalham. Alguns deles ficaram visivelmente apreensivos com o fato de que eu poderia julgar o quanto eles eram humanos e gentis em suas interaes com os pacientes. Mas (embora isso fosse algumas vezes difcil de resistir) eu no estava l para fazer tais julgamentos. Tampouco queria eu julgar as chamadas tecnicalidades de seu diagnstico e tratamento. Eu queria que minhas observaes fossem um meio de conhecer seus padres, em vez de uma ocasio para aplicar os meus prprios. Isso me fez mudar de lugares e circular pelo hospital. Eu observei tcnicos lidando com ferramentas diagnsticas no laboratrio vascular. Eu segui as trilhas de radiologistas e patologistas nos seus manuseios (dealings) de artrias da perna. Eu fui por meses s reunies semanais onde eram discutidas as opes de tratamento para pacientes com casos complicados de doena vascular. Eu testemunhei vrias cirurgias. Passei alguns dias no laboratrio de pesquisa dos hematologistas. Fiz entrevistas e tive conversas com epidemiologistas, fisiologistas, clnicos, cirurgies e generalistas. Alguns deles leram meus artigos e falamos sobre suas reaes. Eu tambm fui biblioteca e estudei livros didticos e artigos de peridicos escritos, ou mobilizados como recurso, pelos meus mdicos e, quando as referncias e minha curiosidade me levavam at l, comparava-os com outras publicaes. Durante dois anos eu segui o colquio mensal de pesquisa sobre aterosclerose. Eu fui co-autora com um mdico em formao de um artigo sobre a introduo de um protocolo diagnstico. Eu orientei um estudante de medicina que entrevistou cirurgies vasculares em vrios hospitais menores e um outro que analisou discusses sobre o consumo de colesterol. E, finalmente, eu tive o luxo temporrio de uma assistente de pesquisa Jeannette Pols, uma filsofa como eu, alm de treinada como psicloga que fez longas entrevistas com pacientes, as transcreveu,

conversou comigo sobre elas e foi co-autora de publicaes sobre esse material. Ela tambm foi uma boa parceira de sparring1/parceira de luvas (sparring partner) com quem discutir meu trabalho. Discusso tambm era o que eu procurava em outros mundos, fora do hospital. Eu raramente conseguia ir at esses lugares de bicicleta, pois eles eram bastante distantes e ao mesmo tempo eram muito menos estranhos a meu eu escritor e falante (writing and talking self). Eles eram departamentos de filosofia, antropologia, sociologia ou estudos de cincia e tecnologia. Eu assisti a conferncias e ouvi entediada ou fascinada a palestrantes apresentando papers a cinco ou cinquenta ouvintes. Eu li artigos de peridicos, os escrevi, os revisei. Eu fiz passeios-conversa [talk-walks] na beira de lagos ou bati papo durante jantares. Eu fui contrainterrogada (cross-examined) sobre o meu campo, meu mtodo, meu objetivo, meus ancestrais tericos. Frequentemente, tais trocas aconteceram em uma verso estranha da lngua inglesa, um dispositivo de transporte que coloca algumas dificuldades para aqueles que no cresceram com ele, mas que tem longo alcance. Ento, apesar de minhas histrias virem do hospital da cidade onde eu vivo, elas foram comigo a muitos outros lugares. Aos meus amigos e inimigos intelectuais em lugares como Maastricht, Bielfeld, Lancaster, Paris, Montreal, San Francisco. Elas conseguiram viajar, minhas histrias sobre vasos da perna e dor. Imersas em argumentos tericos sobre a multiplicao da realidade. Pois mesmo se h muitos materiais empricos nesse livro, este no um relatrio de campo: um exerccio de filosofia emprica. Vamos nos voltar para a filosofia. O enredo de minhas histrias sobre vasos e fluidos, dor e tcnicos, pacientes e mdicos, tcnicas e tecnologias no hospital Z parte de uma narrativa filosfica. Em conformidade com o hbito dominante desse gnero, eu desistirei do enredo aqui mesmo, no comeo. isso. possvel abster-se de entender objetos como os pontos de foco centrais das perspectivas de diferentes pessoas. possvel entend-los em vez disso como coisas manipuladas nas prticas. Se fizermos isso se, ao invs de colocar entre parnteses as prticas em que objetos so manipulados, ns as colocamos em primeiro plano isso tem efeitos de longo alcance. A realidade multiplica. Se as prticas so colocadas em primeiro plano no h mais um nico objeto passivo no centro, esperando para ser visto do ponto de vista de uma srie aparentemente interminvel de perspectivas. Em vez disso, objetos passam a existir (come into being) e a desaparecer com as prticas em que so manipulados. E desde que o objeto de manipulao tende a diferir de uma prtica outra, a realidade multiplica. O corpo, o paciente, a1

Sparring uma prtica de esportes de combate, muito utilizada no boxe, em que os parceiros praticam suas tcnicas de ataque e defesa. Um parceiro de sparring aquele com que um pugilista treina ou costuma treinar, pois apresenta estilo e nvel de luta semelhantes. No portugus, usa-se tambm a expresso fazer luvas como alternativa, no entanto, optou-se pelo termo em ingls por ser tambm conhecido no portugus e por deixar mais clara a idia da autora [Nota de traduo].

doena, o doutor, o tcnico, a tecnologia: todos esse so mais do que um. Mais do que singular. Isso suscita a questo de como eles so relacionados. Pois mesmo se objetos diferem de uma prtica outra, existem relaes entre essas prticas. Assim, longe de necessariamente cair em fragmentos, objetos mltiplos tendem a manter-se unidos (hang together) de alguma forma. Voltar-se para a multiplicidade da realidade abre a possibilidade de estudar esse notvel empreendimento. A filosofia costumava abordar o conhecimento por uma via epistemolgica. Ela estava interessada nas precondies para adquirir conhecimento verdadeiro. Contudo, no modo filosfico em que eu me engajo aqui, conhecimento no entendido como uma questo de referncia, mas como uma de manipulao. A questo condutora no mais como encontrar a verdade? mas como se lidam com objetos (objects are handled) na prtica?. Com essa mudana, a filosofia do conhecimento adquire um interesse etnogrfico nas prticas de conhecimento. Uma nova srie de questes emerge. Os objetos com que lidamos na prtica no so os mesmos de um local para o outro: ento como procede a coordenao entre tais objetos? E como objetos diferentes que tomam um mesmo nome evitam choques (clashes) e confrontaes explosivas? E poderia ser que, mesmo se houver tenses entre eles, vrias verses de um objeto por vezes dependem umas das outras? Tais so as questes que sero abordadas