mineiro pau

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O BOI E O MINEIRO-PAUChora, chora morena, Que meu boi pintado, morena, Que l vai embora

Andando pelas estradinhas de cho da Zona da Mata, do Centrooeste, das Vertentes, do Sul e de outras regies de Minas, no raro esbarrei com moradores das roas caminhando de chapu de palha na cabea, um embornal de pano pendurado no ombro e um porretinho na mo, assim meio escondido atrs das costas, quase despercebido. s vezes era um sujeito bem velhinho, mais ou menos envergado, olhando de banda por baixo da aba, s vezes um matuto forte, alto, de barriga grande, exibindo o porrete arrastado pelo cho. Se o porrete mania de mineiro eu no sei, mas que seria difcil pensar Minas Gerais sem boi, ah isso seria. Principalmente a Zona da Mata, terra de grandes lavouras de caf, cujo transporte mais comum era, no passado, o carro de boi. Ainda hoje se faz muito carro de boi em nossa regio, e se usa na roa e no transporte da colheita. Sobe e desce morro, cheio de milho ou caf, rangendo o carro com o peso da carga que aperta o coco e cantando o candeeiro no controle dos animais no uivo do aboio: Eh, Segredo, eh Malhado, a boi. Uma arte e tanto que acompanhou nossa histria, a confeco do carro e a tcnica de amansar o animal e domestic-lo para a tarefa de ser carreiro. Se o boi tem muita serventia nesse sobe e desce de morro, em lugares onde nem trator alcana, pra que serve o porrete que tanto o mineiro carrega pelas picadas e estradas? Me contaram, l em Aventureiro, que antigamente, nessa regio do caf, todo lavrador andava com um

Folguedos da Mata

cacete na mo. Uma hora era vaca brava, outra hora era cachorro que tinha que espantar. Naquele tempo os animais nas roas no eram mansos como os de hoje, no havia fazenda por onde se passasse que no tinha uma vaca pegadeira ou um cachorro bravo. noite, no breu de uma madrugada sem lua, um porretinho ainda faz boa companhia. Outro costume, por nossas bandas, ainda se v em pequenas vendas e bares nos arraiais aonde essas estradinhas vo dar. s vezes, o carreiro de boi, ou o candeeiro, s vezes o andante mesmo, ou o peo do cavalo que apeia e chega at a porta da venda. Antes do comprimento com a mo, nosso caipira costuma chegar srio, s vezes dando um esbarro, uma cutucada de lado, um tapa nas costas, como se tivesse bravo e na brincadeira mostrasse valentia. Depois, um sorriso aberto, um golo de pinga e um torresmo de porco. L mesmo em Aventureiro, seu Arnaldo me contava ainda, que naquele tempo, com o porrete na mo, o caboco dava era cacetada no outro. O amigo, ao receber o singelo cumprimento, tinha que car vivo para defender com seu pau na mo e da mandar outra em cima dele. Nesse vai no vai, nesse cutuca no cutuca, nasceu uma brincadeira que virou dana e ganhou o nome de mineiro-pau. Se verdade eu no sei, s sei que foi assim que eu ouvi contar.

O mineiro-pau uma dana folclrica muito comum na regio da Zonada Mata Leste, mas tambm ocorre em outras regies do estado e do pas. Consiste em um grupo de pessoas, devidamente organizado que executa passos com o auxlio de um basto. Fazem uma srie de coreograas sempre com o porrete mo, batendo uns nos outros de vrias maneiras, enquanto cantam em coro com a liderana de um mestre ou puxador. Geralmente so acompanhados dos seguintes instrumentos: caixa, pandeiro, violo e sanfona de oito baixos. Usam roupa colorida e chapu de palha. Diferente de todos os outros folguedos, no tem nenhuma ligao explcita com religio ou feitiaria. Normalmente se trata de um grupo de danarinos que pode ser convidado a se apresentar em qualquer lugar ou poca, sem restries. No entanto, tm suas datas festivas, as quais variam de grupo para grupo. Variam tambm as toadas, os passos de dana, os personagens que compe o cortejo, etc. At mesmo o refro caracterstico, que aparece em quase todos, pode estar ausente em alguns deles. Normalmente o mestre puxa uma toada, s vezes improvisada mas em geral tradicional, e o grupo responde em coro ao refro: Chora mineiro-pau, mineiro-pau, mineiro-pau.63

Mineiro-pau

Em Cataguarino, distrito de Cataguases, pude registrar alguns versos entoados por seu Zico: Tomara comadre que pega / Quero v se o bicho comi Tomara que venha leite / Pra mulh trata do homi Chora mineiro-pau, mineiro-pau, mineiro-pau (refro coro) Eu no visto cala justa / nem tambm larga demais eu no quero amor deixado / que os outro no queira mais Chora mineiro-pau, mineiro-pau, mineiro-pau (refro coro)52 Normalmente o grupo de danantes forma duas las. Os movimentos so sempre executados em duplas, as quais podem se formar dentro da mesma la, cando um de frente para o outro, tendo s costas o outro par, ou entre os componentes de las opostas. A dana consiste no confronto entre os porretes, marcando o ritmo da msica. Segurando com as duas mos, ora batem no porrete do outro na parte de cima, ora invertem e batem na parte de baixo, da mesma forma, ora da esquerda para a direita, ora da direita para a esquerda. A pancada pode ocorrer alternando os pares, formando par com o companheiro de trs e depois com quem est na frente e retornando ao par de trs. Enm, criam vrias combinaes tendo como base este simples padro: bater com o seu pau no pau do outro, conforme o andamento rtmico. Em Descoberto encontrei um grupo bem antigo, composto quase totalmente por membros de uma s famlia. A toada e os versos que cantam so um pouco diferentes de Cataguarino. O comando do mestre feito atravs do canto, sem usar apito. De acordo com cada frase que se canta os danarinos atentos devem mudar a coreograa, todos juntos, tomando um extremo cuidado para no errar e estragar todo o desenvolvimento. O mestre pode cantar assim: D em cima d em baixo, / Entra mineiro-pau Cuidado pra no err, / Entra mineiro-pau O comando indica que o danarino deve bater com o pau na parte de cima do pau do companheiro e depois em baixo. Todo mundo vai rodando, / Entra mineiro-pau, At chegar no seu lugar, / Entra mineiro-pau. Avisa que devem todos danar rodando, ou seja, o par deve fazer um movimento de 360 graus, em torno dele mesmo.52

Seu Zico, Cataguarino, distrito de Cataguases, 2002.

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Folguedos da Mata

Todo mundo vai passando, / Entra mineiro-pau, Cuidado pra no err, / Entra mineiro-pau. Devem passar o porrete por entre as pernas Todo mundo ajoelhando, / Entra mineiro-pau, Todo mundo ajoelh / Entra mineiro-pau Sem parar de bater o pau, ajoelham e levantam, seguindo o compasso Eu pedi o meu vestido / E comprei o meu sapato Quero ver vocs agora / Batendo de 4 a 4 Bater de quatro a quatro quer dizer que duas duplas devem se unir formando uma quadra, onde cada componente bate com o pau uma vez no do companheiro da direita e outra vez no porrete do companheiro da esquerda. D em cima, d em baixo / No meio pra no err D em cima d em baixo / Dois a dois pra no err.53 O comando indica que dois dos quatro que esto batendo juntos devem bater uma vez no porrete do companheiro ao lado e outra vez no do companheiro da frente, atravessando os porretes pelo meio da quadra. Assim vai o grupo de aproximadamente 30 pessoas, formando vrios movimentos ou manobras como dizem, parecendo mesmo uma dana de combate, como tantas outras de nosso folclore. Esse mesmo grupo de Descoberto tem ainda uma outra coreograa, muito parecida com o maculel, ainda mais semelhante a um tipo de luta de bastes. Consiste em cada danarino empunhar dois porretes menores e se defrontarem com rapidez e agilidade. Cada um deve bater seis vezes, a primeira pancada com os dois cacetes no cho, a segunda bate no seu prprio, a terceira bate cruzada com o outro, a quarta bate nos seus prprios bastes novamente, a quinta cruzada para o outro lado e a sexta pancada entre os prprios porretes. Retorna em seguida ao primeiro movimento e vai assim indenidamente, sempre seguindo o compasso anunciado pela toada e pelos instrumentos. As datas tradicionais das apresentaes variam, podendo ocorrer em festas que comemoram o dia da abolio da escravido, dia 13 de maio, no carnaval, o que mais comum, ou at mesmo no sbado de Aleluia, vspera do domingo de Pscoa. Na cidade de Baro de Monte Alto, trs grupos de mineiro-pau fazem uma grande festa deslando pelas ruas da cidade. A festa, que consiste em um carnaval fora de poca, chamada de micareme.53

Luzia Celeste de Assis, Descoberto, 2002.65

Mineiro-pau

Micareme uma palavra de origem francesa, mi-carme, a quinta-feira da terceira semana da quaresma. Tradio de vrios sculos na Frana, uma festa criada para aliviar, com folia, os sacrifcios prprios da quaresma. No Brasil essa tradio se espalhou tambm com a inteno de realizar uma festa em meio a esse perodo religioso de abstinncia. Na Bahia, por exemplo, comeou no incio do sculo passado, como uma rplica das folias de carnaval. Em Minas, no sei qual foi sua origem, mas, independente das misturas com a expanso do ax bahiano, trata-se de uma festa tradicional que quebra o jejum do perodo quaresmal no sbado de aleluia, dia de festa e baile, comemorando o incio da Pscoa. Em Baro de Monte Alto visvel a inuncia da mdia, com a presena de bandas que tocam a popular msica da Bahia. No entanto, ainda mantm tradies locais como o mineiro-pau, o qual faz muito sucesso. A festa comea com a concentrao, o encontro do grupo e da assistncia mais el que ajuda o bloco a brincar pelas ruas do centro da cidade, danando, cantando e animando o cortejo. A concentrao o ajuntamento de gente, sempre regado a muita cerveja, pinga e comida, normalmente na casa, rua ou bairro de origem do grupo, onde residem a diretoria e o mestre, assim como a maioria dos integrantes. Toda a arrumao comea tarde, roupas, instrumentos, breves ensaios de passos, etc. O grupo sai para as ruas no incio da noite, arrastando as pessoas pelo bairro at o centro com suas ruas enfeitadas de bandeirolas e apinhadas de barracas com comidas e bebidas, aguardando a platia.

Foto 1 Mineiro-pau de Arraial Velho, Baro de Monte Alto, 2003. O grupo sai s ruas no i