minas do quilombo

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  • texto para reflexo com o/a professor/a

    MINAS DE

  • Coordenao do projeto Por Uma Educao No DiscriminatriaSchuma Schumaher

    Equipe Responsvel pela PublicaoCoordenao Pedaggica: Paulo Corra Barbosa Texto: Paulo Corra Barbosa, Schuma Schumaher e CACESEdio: Patrcia KranzPesquisa: Sandra Regina RibeiroLeitura Crtica: Pablo Matos Camargo e Cristina dos Santos Ferreira

    Reviso: Albertina RamosProjeto Grfico: Bete EstevesComplexo D [21] 2236-4286

    Imagens: Planeta VermelhoPaulo Corra BarbosaSchuma Schumaher

    Equipe de Apoio:Elza Maria dos S. LouresMaria da Guia de Oliveira Flix

    Agradecimentos

    Andra Perroni, Antnio Crispim Verssimo, Aparecida dos Santos Evangelista, Cedefes, Clemilde da Concei-o Reis Vitor, Crianas e Jovens do Coral Cantante Domino, Devanir Amncio dos Reis, Diomar Silveira, Fbio ACM, Florisbela Aparecida dos Santos, Ins Costa, Ivo Silvrio da Rocha, Lidiana Curvo Cartola-no, Lindomar Joo dos Santos, Mrcia Alves Barbosa Evangelista, Maria da Conceio Lopes Silva, Maria Geralda Rosrio Gonzaga, Rosilia Ktia Saraiva, San-dra Infurna, Valter Vitor da Silva, Vera Lcia Damio e Quilombolas do Aude, Ausente de Cima, Ausente de Baixo, Ba, Espinho , Mangueiras, Mato do Tio, Pinhes, Quartel do Indai e Sap.

    2010

    Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad/MEC)SGAS 607 - Lote 50, Edifcio do CNE sala 205Braslia - DFCEP 70.200-670Telefone (55 61) 2022-9052Fax: (55 61) 2022 -9051www.mec.gov.br

    REDEH Rede de Desenvolvimento HumanoRua lvaro Alvim, 21 / 16 andar20031-010 Centro Rio de Janeirotel.: [21] 2262-1704 fax: [21] 2262-6454site: www.redeh.org.bre-mail: redeh@redeh.org.br

    Ministrioda Educao

    FICHA CATALOGRFICA

    Barbosa, Paulo Corra.Minas dos Quilombos / Paulo Corra Barbosa, Schuma Schumaher,

    Caces. Braslia : MEC / SECAD, 2010.

    110p. il. ISBN 978-85-296-0095-6

    1. Quilombos. 2. Minas Gerais. 3. Histria. 4. Educao. I. Schumaher, Schuma. II. Centro de Atividades Culturais, Econmicas e Sociais. III. Ttulo.

    Catalogao Sandra Infurna CRB 7 - 4607

  • Enfrentar a injustia no sistema educacional brasileiro um desafio e, mais do que isso, um dos principais objetivos do Ministrio da Educao (MEC). Para atender a esse desafio, o MEC, por meio da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad), vem apoiando e fomentando aes volta-das para atender aos diversos segmentos da sociedade brasileira, como os povos indgenas, a populao negra dos meios urbano e rural e, particularmente, as comunidades de reas de remanescentes de quilombos.

    Nesse sentido, especial ateno deve ser dedicada educao das relaes tnico-raciais, conforme prev a Lei 10.639/03, que altera a Lei 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educao), instituindo a obrigatoriedade do ensino de Histria e Cultura Afro-brasileira, com a criao das condies necessrias para a formao de gestores e professores nesse campo temtico.

    Ao estabelecer as orientaes gerais para a aplicao desta Lei, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educao das Relaes tnico-Raciais e para o Ensino de Histria de Cultura Afro-brasileira e Africana, do Conselho Nacional de Educao, estabelece que a relevncia do estudo de temas decorrentes da his-tria e cultura afro-brasileiras e africanas no se restringe populao negra. Ao contrrio, diz respeito a todos os brasileiros, uma vez que devem educar-se como cidados atuantes no seio de uma sociedade multicultural e pluritnica, capazes de construir uma nao democrtica.

    , portanto, com imensa satisfao que apresentamos s escolas a histria dos remanescentes de qui-lombos no Brasil. Esse livro resulta de pesquisa nas comunidades de remanescentes de quilombos do Estado de Minas Gerais, mas destina-se a todas as escolas dos Sistemas de Ensino do pas por ser um exemplo da diversidade presente nas reas de remanescentes de quilombos em todo territrio nacional.

    A publicao contribuir, seguramente, para o cumprimento do que determina a legislao relativa ao estudo da Histria da frica e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formao da sociedade nacional, resgatando a contribuio desse povo nas reas social, cultu-ral, econmica e poltica. - e para a efetivao de dois olhares: um olhar enriquecedor das comunidades mineiras sobre si mesmas, da recuperao de sua histria, dos seus valores, de sua resistncia; e de um olhar de todo o Brasil sobre as comunidades de remanescentes de quilombos.

    Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao eDiversidade do Ministrio da Educao

    Aos educadores e s educadoras

  • Professor/a, saudaes quilombolas!

    Esta uma publicao da rea da educao que trata de Histria. Mas no daquela oficial, comumente contada nos livros escolares, centrada na cultura europia e escrita, sobretudo, por heris do sexo masculino, invariavelmente brancos , como voc perceber ao conhecer o material.

    Na verdade, Minas de Quilombos o segundo volume de um projeto que teve incio em 2005, pelo estado do Rio de Janeiro e pretende se somar s iniciativas de recontar a trajetria dos quilombos, recuperando uma importante parte da histria do Brasil escrita pelos/as nativos/as da frica e seus descendentes brasileiros/as.

    E isso o que queremos aqui refletir com voc: a parte negra da construo do Brasil.

    Apesar da enorme contribuio de africanos/as e afrodescendentes, e de sermos a maior populao negra fora da frica, a escola e por conseqncia, tambm os livros e o fazer pedaggico, tm sido bastante reducionistas na abordagem dessa importante contribuio. Poucos/as ainda so os alunos/as e professores/as, que conhecem homens e mulheres negros - e populares - que tambm tenham sido autores/as da histria deste pas.

    Entretanto, em funo da amplitude da questo, torna-se importante caracterizar que nossa abordagem estar relaciona-da aos quilombos, espaos de resistncia de homens e mulheres negros/as que, em solo mineiro - e tambm espalhados Brasil afora-, traduziram o desejo de liberdade e resistncia negra, diante da violncia da escravido.

    Como educadores/as que, assim como voc, tambm somos, temos conscincia de que a questo no simples e no se encontra restrita a indivduos ou instituies. Trata-se de responsabilidade da sociedade brasileira. Refutamos ainda, abordagens que creditam educao o poder ingnuo- nico e mgico de atuao e resoluo da questo.

    Contudo, se esse (re)pensar no se encontra restrito em importncia, apenas aos afrodescendentes, mas a todos/as os/as brasileiros/as, tambm no est restrito a voc, professor/a que atua em um das escolas localizadas em rea remanescente de quilombo, ou em reas prximas. Sua participao, porm, essencial.

    Dessa forma, buscando colaborar com esse processo, em parceria com a Secad- Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade/ MEC, a REDEH- Rede de Desenvolvimento Humano- vem convid-lo/a, professor/a, a refletir sobre a cultura e a histria local, objetivando no apenas o resgate e manuteno das tradies, mas, sobretudo, da auto-estima de crianas, jovens , homens e mulheres quilombolas. O material, certamente no tem a pretenso de esgotar o assunto e, por isso mesmo, voc encontrar nele espaos para que, a partir de sua prtica e anlise, possa fazer acrs-cimos, crticas e, sobretudo, introduzir questes.

    Na prtica, nosso convite articula-se Lei 10.639 que, promulgada em 09 de fevereiro de 2003, alterando a Lei de Diretrizes e Bases LDB, torna obrigatria a incluso no currculo oficial do estudo da histria e cultura africana e afro-brasileira. Junta-se, ainda, s diferentes aes e iniciativas de incluso que o Movimento Negro vem desenvolvendo entre os diferentes setores da sociedade.

    Ao todo, dez comunidades quilombolas j reconhecidas ou em processo de reflexo - localizadas no estado de Minas Gerais Ausente de Cima, Ausente de Baixo, Ba, Espinho, Quartel, Mato do Tio, Aude, Sap , Mangueiras e Pinhes so apresentados, neste manual, atravs das falas de suas gentes, buscando recuperar e estabelecer a ligao entre o ontem, o hoje e o amanh. E, como anteriormente dissemos, sua atuao na escola, professor/a, pea-chave para a concretizao desse resgate histrico.

    Estamos juntos/as!

    Schuma SchumaherPaulo Corra Barbosa

    COORDENAO REDEH

    Uma palavra inicial...

  • 6

  • 7

    A histria com um outro olhar revelando muitas outras histrias .

    Durante muito tempo coube escola ensinar que a integrao racial no Brasil, ocorreu de maneira pacfica e espontnea. Um encontro de trs raas: o ndio guerreiro, o negro capoeirista e o europeu intelectual. No era assim que os livros apresen-tavam a questo? Pois bem, de acordo com essa viso, o novo pas e, por conseqncia, tambm sua gente, forjaram-se a partir de uma incorporao amistosa e mltipla de culturas e valores.

    Sobretudo atravs de livros escolares, aprendemos que caractersticas fsicas, hbitos, palavras, especialidades culinrias, msicas e danas de brancos, negros e ndios fundiram-se, dando origem ao povo brasileiro.

    Na verdade, entretanto, e voc tem tido a oportunidade de ouvir, ler e refletir sobre isso, j h alguns anos, pesquisadores/as, educadores/as, historiadores e militantes dos Movimentos Negros vm-se empenhando em resgatar a outra histria, aquela no-oficial e pouco contada que busca reconstituir, de fato, as origens da terra brasilis.

    E um dos principais captulos desse recontar a histria aquele que foi escrito, justamente, atravs da participao dos homens e das mulheres negras. Mas de fato, professor/a, o que sabemos, ns, a respeito dessa histria? E o que nossos/as alunos/as e filhos aprendem atualmente sobre a questo? Muito precisa vir tona...

    Por tudo isso, trata-se de uma reconstruo, sem dvida, complexa e que vem sendo realizada, em conjunto, por especia-listas de diferentes reas. Certo que, e j dissemos isso, avanos podem