michael blake - dança com lobos.epub

Download Michael Blake - Dança Com Lobos.epub

Post on 10-Aug-2015

62 views

Category:

Documents

1 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

MICHAEL BLAKE

DANA COM LOBOSTraduo de AULYDE SOARES RODRIGUES

Rio de Janeiro 1991

2

Ttulo original DANCES WITH WOLVES Copyright 1988 by Michael Blake Todos os direitos reservados ao autor em todo o mundo

Direitos para a lngua portuguesa reservados, com exclusividade para o Brasil, EDITORA ROCCO LTDA. Rua da Assemblia, 10, Gr. 3101 Tel.: 224-5859 Telex: 38462 EDRC BR Printed in Brazil/Impresso no Brasil

Preparao de originais MAIRA PARULLA

reviso SANDRA PSSARO/WENDELL SETBAL HENRIQUE TARNAPOLSKY CARLOS NOUGU

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

B568d

Blake, Michael Dana com Lobos / Michael Blake ; traduo de Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro : Rocco, 1991 Traduo de: Dances with wolves.

1. Romance americano. I. Rodrigues, Aulyde Soares. II. Ttulo CDD 813 91-0425 CDU 820(73)-3

3

O isolamento a que o Tenente Dunbar condenado aps a Guerra Civil, destacado para um posto prximo aos ndios e longe dos brancos, lhe oferece a oportunidade rara de ver a vida de outra perspectiva. Educado acreditando que a civilizao indgena primria, seu hbito mais marcante o furto, Dunbar descobre, atravs de um contato incidental, que a cultura dos povos que habitavam os EUA antes de sua descoberta rica, profunda, e lida com a existncia humana de forma superior. A ponte que o une a esse mundo to diferente do seu De P com Punho, uma branca criada pelos Comanches, completamente integrada. Pouco a pouco, medida que vai entendendo melhor os ndios, Dunbar, a quem eles chamam Dana com Lobos, vai percebendo que se afasta dos parmetros de sua prpria civilizao. Confrontando com a possibilidade de voltar para sua comunidade branca, retomando a vida tal como era antes da vinda para o posto, o Tenente Dunbar se percebe mais ndio do que esperaria. E recebe do chefe Dez Ursos um convite irrecusvel. Ficar. No acampamento, afinal, os brancos nunca o encontrariam. No um tenente desertor. Em seu lugar s havia um bom guerreiro Comanche e sua mulher. Vivendo os ltimos tempos de uma poca gloriosa que os brancos em breve varreriam para sempre.

4

Pssaro Esperneante sabia que acabava de ver algo muito precioso, algo que explicava um dos enigmas que envolviam o homem branco... o enigma de como cham-lo. Todo homem deve ter um nome verdadeiro, pensava ele, a caminho do seu encontro com o Tenente Dunbar, especialmente quando se trata de um homem branco que age daquele modo. Lembrou-se dos nomes antigos, mas nenhum servia realmente. Agora sabia que tinha encontrado o nome certo. Adaptava-se personalidade do soldado branco. Todos lembrariam dele por esse nome. E Pssaro Esperneante, acompanhado por duas testemunhas, estava presente quando o Grande Esprito fez a revelao. Enquanto descia a encosta da montanha, repetia o nome para si mesmo. O som era to bom quanto o nome. Dana com Lobos.

5

No fim, a inspirao tudo. Isto para Exene Cervenka

6

CAPTULO I

umO Tenente Dunbar no havia sido realmente engolido. Mas essa foi a primeira palavra que lhe veio mente. Tudo era imenso. O cu enorme e sem nuvens. O oceano ondulante de relva. Nada mais, at onde a vista alcanava. Nenhuma estrada. Nem sinal de sulcos para a passagem da grande carroa. Somente espao, puro espao vazio. Ele estava deriva. A idia dava ao seu corao um ritmo estranho e profundo. Sentado no banco descoberto da carroa, com o corpo acompanhando o movimento ondulante da pradaria, o Tenente Dunbar ouvia o prprio corao. Estava emocionado. Contudo, o sangue no corria mais rpido em suas veias. Sentia-se calmo. Esse fato estranho criava pensamentos deliciosos. Palavras surgiam em sua mente, tentando formar frases e sentenas para descrever o que sentia. Era difcil definir exatamente. No terceiro dia a voz em sua mente disse, Isto religio, e parecia a coisa mais acertada a se pensar at aquele momento. Mas o Tenente Dunbar jamais fora um homem religioso, assim, embora a frase parecesse certa, ele no sabia como explic-la. Se no estivesse to emocionado, provavelmente conseguiria explicar, mas no seu devaneio no se preocupou com isso. O Tenente Dunbar estava apaixonado. Apaixonado por aquela regio selvagem e bela e por tudo que ela continha. Era o tipo de amor que as pessoas sonham sentir por outra pessoa, generoso e livre de dvidas, reverente e eterno. Seu esprito acabava de receber uma promoo e seu corao saltava, excitado. Talvez por isso o belo tenente da cavalaria houvesse pensado em religio. Com o canto dos olhos viu Timmons virar a cabea para o lado e cuspir, pela milsima vez, na relva alta. Como sempre acontecia, a saliva saiu num jato irregular e o cocheiro limpou a boca com a manga. Dunbar no disse nada, mas aquele hbito constante de Timmons o repugnava. Era um ato inofensivo, mas irritante, como o ato de levar constantemente o dedo ao nariz. Durante toda a manh tinham viajado lado a lado. Mas s porque o vento soprava na direo certa. Embora separados por menos de um metro, a brisa leve e persistente estava na direo certa e o Tenente Dunbar no sentia o cheiro de Timmons. Nos seus quase trinta anos de vida j havia7

sentido o cheiro da morte e no havia nada pior. Mas a morte estava sempre sendo levada para outro lugar, enterrada ou deixada para trs e no era possvel fazer nada disso com Timmons. Quando o vento mudava, o fedor envolvia o Tenente Dunbar como uma nuvem imunda e invisvel. Assim, quando o vento soprava do lado errado, o tenente passava do banco para o alto da pilha de provises, na parte de trs da carroa. s vezes viajava ali durante horas. Outras vezes, saltava para a relva alta, desamarrava Cisco e cavalgava uns dois ou trs quilmetros na frente. Olhou para Cisco, atrs da carroa, satisfeito, com o focinho enfiado no saco de rao, o plo castanho brilhando ao sol. Dunbar sorriu e por um momento desejou que os cavalos vivessem tanto quanto os homens. Com sorte, Cisco viveria mais uns dez ou doze anos. Outros viriam ocupar o seu lugar, mas ele era o tipo de animal que s se tem uma vez na vida. Jamais seria substitudo. Enquanto o tenente o observava, o pequeno baio ergueu os olhos ambarinos do saco de rao, como para verificar onde estava seu dono e, satisfeito com o que viu, voltou a mastigar pacientemente. Dunbar endireitou o corpo no banco e tirou de dentro da tnica um papel dobrado. Aquele papel oficial do exrcito o preocupava porque continha suas ordens. Seus olhos escuros haviam percorrido as frases uma meia dzia de vezes, desde que saram do Forte Hays, porm, essa repetio no melhorava o que sentia a respeito das ordens. Seu nome estava escrito errado duas vezes. O major, exalando um forte bafo de bebida ao assinar a ordem, havia passado a manga pela tinta mida e a assinatura oficial ficara borrada. A data da ordem fora escrita pelo Tenente Dunbar quando j estavam viajando. Mas escreveu a lpis e ela contrastava visivelmente com os rabiscos do major e as letras impressas do formulrio. O Tenente Dunbar suspirou olhando para o documento oficial. No parecia uma ordem do exrcito. Parecia lixo. Lembrou-se ento da origem da ordem e isso o deixou mais perturbado ainda. A estranha entrevista com o major com bafo de bebida. Ansioso para receber o novo posto, ele foi direto da estao para o quartel-general. O major foi a primeira e nica pessoa com quem falou, desde sua chegada at o fim da tarde, quando subiu na carroa e sentou ao lado do fedorento Timmons. O major examinou-o demoradamente com os olhos congestionados. Quando falou, afinal, foi com extremo sarcasmo. Quer lutar contra os ndios, certo? O Tenente Dunbar jamais vira um ndio em toda a sua vida, muito menos havia lutado contra eles. Bem, no no momento, senhor. Acho que eu poderia lutar. Eu sei lutar.8

Um caador de ndios, hem? O tenente no respondeu. Olharam em silncio um para o outro por um longo tempo e o major comeou a escrever. Escrevia furiosamente, ignorando o suor que escorria copioso da testa. Dunbar via mais gotas oleosas aparecendo no alto da cabea quase completamente calva. Alguns fiapos gordurosos de cabelo grudavam-se no topo da calva, atravessando-a de um lado ao outro. O penteado fez o Tenente Dunbar pensar em alguma coisa doentia. O major parou de escrever s uma vez. Tossiu e cuspiu uma bola de catarro no balde sujo ao lado da mesa. Naquele momento, o Tenente Dunbar desejou que a entrevista acabasse logo. Tudo naquele homem o fazia pensar em doena. O Tenente Dunbar havia acertado mais do que imaginava, pois h muito tempo apenas um fio tnue ligava o major sanidade mental, um fio que se partiu finalmente dez minutos depois de o tenente deixar seu escritrio. O major cruzou as mos sobre a mesa, calmamente, e esqueceu de toda a sua vida. Uma vida insignificante, alimentada pelas mseras esmolas que recebem todos os que servem obedientemente, sem marcar sua presena. Porm, todos os anos em que fora ignorado, todos os anos de solitrio celibato, todos os anos de luta com a bebida, desapareceram como num passe de mgica. A amarga escravido da vida do Major Fambrough foi suplantada por um evento iminente e encantador. Antes do jantar ele seria coroado rei do Forte Hays. O major terminou de escrever e ergueu a mo com o papel. Eu o estou designando para o Forte Sedgewick. Apresente-se diretamente ao Capito Cargill. O Tenente Dunbar olhou para o formulrio borrado de tinta. Sim, senhor. Como eu chego l, senhor? Voc pensa que eu no sei, no ? disse o major, asperamente. No, senhor, de modo nenhum. S que eu no sei. O major recostou na cadeira, ps as mos na frente do corpo e sorriu maliciosamente. Estou me sentindo generoso e vou lhe dar uma pista. Uma carroa carregada com mercadorias vai sair brevemente do reino. Procure o campons chamado Timmons e v com ele. Apontou para a folha de papel na mo do tenente. Minha assinatura vale como salvo-conduto por duzentos e cinquenta quilmetros do territrio dos pagos. Desde o comeo da sua c