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Mia Couto - Estórias Abensonhadas

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MIA COUTO nasceu na Beira, Moambique, em 1955

Mia Couto

Estrias Abensonhadas

CONTOS

2. edio

CAMINHO

UMA TERRA SEM AMOSEste livro foi digitalizado por Sandra Leonor Ferreira em Maio de 2008 para uso exclusivo de deficientes visuais.MIA COUTO nasceu na Beira, Moambique, em 1955. Foi director da Agncia de Informao de Moambique, da revista Tempo e do jornal Notcias de Maputo.

Em 1983 publica o seu primeiro livro: Raiz de Orvalho (poemas); depois, editado inicialmente pela Associao de Escritores Moambicanos, um livro de contos, Vozes Anoitecidas, publicado pela Caminho em 1986. Deste livro saiu j a edio inglesa na srie africana da Heinmann.

Em 1990 a Caminho publica o seu livro de estrias Cada Homem Uma Raa, e em 1991 Cronicando, tambm inicialmente publicado em Moambique.

Em 1992 sai o seu primeiro romance: Terra Sonmbula.

Vrias obras de Mia Couto esto traduzidas ou em curso de traduo em diversas lnguas: espanhol, francs, italiano, alemo, sueco.

ESTRIAS ABENSONHADAS (2. edio) Autor: Mia Couto Design grfico: Jos Seno Ilustrao da capa: Ivone Ralha Reviso: Seco de Reviso da Editorial Caminho Editorial Caminho, SA, Lisboa - 1994 Tiragem: 2000 exemplares Composio: Seco de Composio da Editorial Caminho Impresso e acabamento: Tipografia Lousanense Data de impresso: Janeiro de 1996 Depsito legal n." 75 475/94 ISBN 972-21-0933-2

Estas estrias foram escritas depois da guerra. Por incontveis anos as armas tinham vertido luto no cho de Moambique. Estes textos me surgiram entre as margens da mgoa e da esperana. Depois da guerra, pensava eu, restavam apenas cinzas, destroos sem ntimo. Tudo pesando, definitivo e sem reparo.

Hoje sei que. no verdade. Onde restou o homem sobreviveu semente, sonho a engravidar o tempo. Esse sonho se ocultou no mais inacessvel de ns, l onde a violncia no podia golpear, l onde a barbrie no tinha acesso. Em todo este tempo, a terra guardou, inteiras, as suas vozes. Quando se lhes imps o silncio elas mudaram de mundo. No escuro permaneceram lunares.

Estas estrias falam desse territrio onde nos vamos refazendo e vamos molhando de esperana o rosto da chuva, gua abensonhada. Desse territrio onde todo homem igual, assim: fingindo que est, sonhando que vai, inventando que volta.

NDICE

Nas guas do tempo 11As flores de Novidade 19O cego Estrelinho 27Na esteira do parto 35O perfume 41O calcanhar de Viriglio 49Chuva: a abensonhada 57O cachimbo de Felizbento 63O poente da bandeira 69Noventa e trs 75Jorojo vai embalando lembranas 81Pranto de coqueiro 87No rio, alm da curva 95O abrao da serpente 103Sapatos de taco alto 109Os infelizes clculos da felicidade 115Jootnio, no enquanto 121Os olhos fechados do diabo do advogado 127

A guerra dos palhaos 133

Lenda de Namari 139

A velha engolida pela pedra 145

O bebedor do tempo 151

O padre surdo157

O adivinhador das mortes 165

O adeus da sombra 173

A praa dos deuses 181

Nota: Os textos assinalados com * so inditos. Os restantes

foram publicados no jornal Pblico.

NAS GUAS DO TEMPO

Meu av, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho (1). Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda c, onda l, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.

- Mas vocs vo aonde?

Era a aflio de minha me. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vov era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.

- Voltamos antes de um agorinha, respondia. Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe no era.

Porque a rede ficava amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta hora, o dia j crepusculando, ele me segurava a mo e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculneo. O av era um homem em flagrante infncia, sempre arrebatado pela novidade de viver.

(1) Concha: canoa, pequena embarcao.

13Entrvamos no barquinho, nossos ps pareciam bater na barriga de um tambor. A canoa solavanqueava, ensonada. Antes de partir, o velho se debruava sobre um dos lados e recolhia uma aguinha com sua mo em concha. E eu lhe imitava.

- Sempre em favor da gua, nunca esquea! Era sua advertncia. Tirar gua no sentido contrrio ao da corrente pode trazer desgraa. No se pode contrariar os espritos que fluem.

Depois viajvamos at ao grande lago onde nosso pequeno rio desaguava. Aquele era o lugar das interditas criaturas. Tudo o que ali se exibia, afinal, se inventava de existir. Pois, naquele lugar se perdia a fronteira entre gua e terra. Naquelas inquietas calmarias, sobre as guas nenufarfalhudas, ns ramos os nicos que prepondervamos. Nosso barquito ficava ali, quieto, sonecando no suave embalo. O av, calado, espiava as longnquas margens. Tudo em volta mergulhava em cacimbaes, sombras feitas da prpria luz, fosse ali a manh eternamente ensonada. Ficvamos assim, como em reza, to quietos que parecamos perfeitos.

De repente, meu av se erguia no concho. Com o balano quase o barco nos deitava fora. O velho, excitado, acenava. Tirava seu pano vermelho e agitava-o com deciso. A quem acenava ele? Talvez era a ningum. Nunca, nem por instante, vislumbrei por ali alma deste ou de outro mundo. Mas o av acenava seu pano.

- Voc no v l, na margem? Por trs do cacimbo? Eu no via. Mas ele insistia, desabotoando os nervos. - No l. l. No v o pano branco, a danar-se?

Para mim havia era a completa neblina e os receveis alns, onde o horizonte se perde. Meu velho, depois, perdia a miragem e se recolhia, encolhido no seu silncio. E regressvamos, viajando sem companhia de palavra.

Em casa, minha me nos recebia com azedura.

14E muito me proibia, nos prximos futuros. No queria que fssemos para o lago, temia as ameaas que ali moravam. Primeiro, se zangava com o av, desconfiando dos seus no-propsitos. Mas depois, j amolecida pela nossa chegada, ela ensaiava a brincadeira:

- Ao menos vissem o namwetxo moha! Ainda ganhvamos vantagem de uma boa sorte...

O namwetxo moha era o fantasma que surgia noite, feito s de metades: um olho, uma perna, um brao. Ns ramos midos e saamos, aventurosos, procurando o moha. Mas nunca nos foi visto tal monstro. Meu av nos apoucava. Dizia ele que, ainda em juventude, se tinha entrevisto com o tal semifulano. Inveno dele, avisava minha me. Mas a ns, miudagens, nem nos passava desejo de duvidar.

Certa vez, no lago proibido, eu e vov aguardvamos o habitual surgimento dos ditos panos. Estvamos na margem onde os verdes se encaniam, aflautinados. Dizem: o primeiro homem nasceu de uma dessas canas. O primeiro homem? Para mim no podia haver homem mais antigo que meu av. Acontece que, dessa vez, me apeteceu espreitar os pntanos. Queria subir margem, colocar p em terra no-firme.

- Nunca! Nunca faa isso!

O ar dele era de maiores gravidades. Eu jamais assistira a um semblante to bravio em meu velho. Desculpei-me: que estava descendo do barco mas era sum pedacito de tempo. Mas ele ripostou:

- Neste lugar, no h pedacitos. Todo o tempo, a partir daqui, so eternidades.

Eu tinha um p meio-fora do barco, procurando o fundo lodoso da margem. Decidi me equilibrar, busquei cho para assentar o p. Sucedeu-me ento que no encontrei nenhum fundo, minha perna descia engolida pelo abismo. O velho acorreu-me e me puxou. Mas a fora que me sugava era maior que o nosso esforo. Com a agitao, o barco virou e fomos dar com as costas posteriores na gua.15

Ficmos assim, lutando dentro do lago, agarrados s abas da canoa. De repente, meu av retirou o seu pano do barco e comeou a agit-lo sobre a cabea.

- Cumprimenta tambm, uoc! Olhei a margem e no vi ningum. Mas obedeci ao av, acenando sem convices. Ento, deu-se o espantvel: subitamente, deixmos de ser puxados para o fundo. O remoinho que nos abismava se desfez em imediata calmaria. Voltmos ao barco e respirmos os alvios gerais. Em silncio, dividimos o trabalho do regresso. Ao amarrar o barco, o velho me pediu:

- No conte nada o que se passou. Nem a ningum, ouviu?

Nessa noite, ele me explicou suas escondidas razes. Meus ouvidos se arregalavam para lhe decifrar a voz rouca. Nem tudo entendi. No mais ou menos, ele falou assim: ns temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, que quase todos esto cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? Sim, esses que nos acenam da outra margem. E assim lhes causamos uma total tristeza. Eu levo-lhe l nos pntanos para que voc aprenda a ver. No posso ser o ltimo a ser visitado pelos panos.

- Me entende?

Menti que sim. Na tarde seguinte, o av me levou uma vez mais ao lago. Chegados beira do poente ele ficou a espreitar. Mas o tempo passou em desabitual demora. O av se inquietava, erguido na proa do barco, palma da mo apurando as vistas. Do outro lado, havia menos que ningum. Desta vez, tambm o av no via mais que a enevoada solido dos pntanos. De sbito, ele interrompeu o nada:

- Fique aqui!

E saltou para a margem, me roubando o peito no susto. O av pisava os interditos territrios? Sim, frente

16

ao meu espanto, ele seguia em passo sabido. A canoa ficou balanando, em desequilibrismo com meu peso mpar. Presenciei o velho a alonjar-se com a discrio de uma nuvem. At que, entre a neblina, ele se declinou em sonho, na margem da miragem. Fiquei ali, com muito espanto, tremendo de um frio arrepioso. Me recordo de ver uma gara de enorme brancura atravessar o cu. Parecia uma seta trespassando os flancos da tarde, fazendo sangrar todo o firmamento. Foi ento que deparei na margem, do outro