mia couto e as literaturas africanas de ungua portuguesa .mia couto e as literaturas africanas

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  • RCV,.a de Filologa Romnica. Anejos ISSN: 02I2-99~X2001,II: 85-205 ISIRN: 84-95215-18-?

    Mia Couto e as literaturas africanasdeunguaportuguesa

    JosPIRES LARANJEIRAUniversidadedeCoimbra

    A CONSTRUCAODO IDEAL NACIONAL E A CONSTITUICAODE NOVAS LITERATURAS EM FRICA

    A fonnayoe o desenvolvimentodasliteraturasafricanasde lnguapor-tuguesa,desdeo primeiro livro impresso,em 1849,at actualidade,pas-sarampelaconstru9aodo idea]nacionalno discurso.No discursoliterrio,o nacionalismofoi aantecipa~oda nacionalidade,modoespecficodea es-crita se naturalizarcomoprpriade urnaNago-Estadocm germina~o.Aconscincianacional,no discursoliterrio, atravessou,assim,diversoses-lidios de evolu~o,desdemeadosdo sculoxix at actualidade.

    Encontrando-seo estudodasliteraturasafricanasaindanumafasede re-conhecimentoe estabi1iza~o,adivisoem fasesesttico-literrias,mais doqueem rela9aoa outrasliteraturasdecisivamenteestabelecidas,apresenta-secomomuito provisria,isto , maiscomotentativade teoriza9obasca-da quernosfactos textuaise contextuais,quernoutrasteorizayesnome-nos precrias.Refazemosaqui o esquemaperiodolgico(de fases>queempreendemosno manualescritoparaa UniversidadeAberta(de Portugal),intitulado Literaturas africanas de expressoportuguesa (995).

    Podemosestabelecerduaspocasfundamentais:a pocaColonial,desdeo aparecimentodeesparsose escassostextos, antesde 1849,none-eessariamcnteJiterriosnemafricanos,masrelacionadoscomAfrica, atsindependnciasdos pases,cm 1975; a pocaPs-colonial,emquea lite-raturase vai libertandoda el da vida colonial, parase assumrcomodeci-sivamenteemancipada,desdeas independncias,at actualidade.Tendocm contaessasduasgrandesdivisijesperiodolgicas,de carcterhistricoe literrio, massobretudodesde1849,quandofoi publicadoo primeiro liv-

    185

  • ,losPijes Laran/cira Mio Catite e os huraturas afruanas de iii gua portuguesa

    ro impressocm frica (maL precisamentecm Angola\ Espontaneidadesda miii ha alma, poemasde Mala Ferreira,consideramosquese sucedorarnseis fases.

    Consideremosaliteraturaangolanacorno paradigmtica,isto , comoum modelo de irradiaaoapartir do qual podemosestabelocerfasesapli-cveis as ontras,evidentementedc um modo nomecnico,tendo cmatenyoquecadaurna tem o senpercursoespecfico,se bern que no con-texto colonial de dominioportugus,interessandodelimitaros contornoscornuns que, textual e contextualmente, as explicam e aproximam,tantocomodasliteraturasportuguesae brasiloira,maisdo quede outras.Trata-seaqui de um esquema,de umapropostamulto esquemticade sintetiza~odeprocessos,movimentose tendncias.aindasemfazeraproxima9eseficazese pormenorizadasaosperodosda literaturabrasileiraemesmoportuguesa.Duascaractersticasnospermitetal operayiiotendopormodeloa literaturaangolana:por um lado,a quantidadeevariedadedeobras;por ontro. acon-tinuidadede produgoao longodasdcadas,sobretudoa partir dosanos30dostesculo.lm disso, tantoMoyambiquocomoCaboVerde,sobretudoestosespaQos,mastambmSoTorne Prncipe(e noa Guin-Bissau,cmrazodo sistemticodesertocultural, segundournaeoncepyomoderna),semprequea sua produ~ose revelon inovadora,tcra() contribuidoparaurnamodit5ca~odo sistemaliterrio na suapermanenteovoluyo.No seperderde vistao faetode CaboVerdeconstituirum arquiplagomuitodi-ferenciado,impondo,portanto,urna dialcticadasfasesparcialmentecmeonjunqo,mas, sobretudo,cm desfasamento(cm notrio afastarnento?)corn as dosoutrosespayos.E normalqueo inicio dasfasessojaconsidera-do coma publica~ode um livro fundamental nosomontepor interm-dio do um merotexto isolado),do urnaantologia,de urnarevistaou senipreque se declarequalquernovaalteray~oda ordoni esttica.Assim se com-preendequeo fim dasfases(suaextin9oou exausto)surjaatravsda pu-blica~ode un dorradeirolivro, maspodendoconsiderar-sequeas carac-tersticasdossafasesobrevivam,num livro inoxpressivoou cm textosdispersos,paraalmdo surgimontode ontra ordona~oesttico-literria.Convmaindatercm contaque, por exomplo,certosprocessosrealistas,comoa prticada descri~oobjectivanteou a inclusaodo frasesdo umaun-guaafricanano texto cm portugus,caractersticosdo oltocentisnio,saoin-tensificadose passama predominarcm cortosautoresou movmontosdosculoxx, podendo,por isso,concluir-seque tragosdo regionalismo,docasticismoen da africanidadepassarama sertomadoscomodeterminantesde novasestticascomvistaao aprofundamentonacionalistadostextos.

    RcVida dc IdoIo~ia Rorndn

  • JosPites Lwaneira Ma Coato e as literaturas alrc-anas de agua portuguesa

    A primeira fase, estendendo-se,cm Angola, at 1881,antecedendo,portanto. a saidada noveletaNgarnutri (1882),de Alfredo Troni, carac-teriza-sepeloBaixo-romantismo(aplicamosaqui.parausogeneralizado,aexpressode FtimaMendongarelativaa Mo9ambique),de claraadopyoportuguesa,emboratambmcom contributosfrancesese ingleses.O seupopulismocultural podechamar-seexgeno,namedidaem queas apetn-ciaspopulares,em formase temas,dizemrespeitoheran~acultural lusa-da, apresentadacomoparadigmaa seguircom inequvocodeslumbramen-to, cedendoo passos coisas angolanassomenteem termos deencomisticareferencialidadeespacialou onomstica,nopropriamenteso-cial, histricaou poltica,o queapenasaconteceriamais tarde,por exemplo.coma Mensagem.Dealgurn modo, como se urnaideologiade apreyopeaaristocracia(visvel no agradocomquese dedicarnpoemasao grupopos-sidente.comdefernciasparaos monrquicos)convivessedescomplexa-damentecom,porexemplo,formaspoticashauridasnasbarcarolasvene-zianas,nos lieds germnicosou nasmodinhasbrasileiras,ao mesmotempoquese usaa medidapopularportuguesada redondilhamajor.

    na segunda rse, que se espraiapelasdcadasde 80 e 90 do scu-lo xix, tantoem Angola comoem CaboVerde,o Realismo,igualmentedeinspirayoportuguesa,deixaas suasmarcas,no casodaqueleterritrio,atra-vs da notria atitudequeirosianade Alfredo Troni. Tendo em aten~oqueo negro surgetratadonos textos, se bernquedo pontode vistade umcomplexode inferioridade,enquantoindividuo com possibilidadesde as-censosocial,com frequnciacomofigura central(em poemasou na no-veletaMga mutri), chamamosaestafasea do Negro-realismo(termocriado para indicar urna realidadeliterria especficade frica, bastanteaproximadados Negrismosamericanos).Sob o signo da ConfernciadeBerlim, estigmacolonial quemarear,aferro e fogo,o continenteafricanoatdepoisda PrimeiraGuerraMundial, estafase,quevai sensivelmenteat1900, co-natural imprensalivre e assumeo negro(maisparticular-mente,a negra)comopersonagemou figura que aspira integrayonaso-ciedade(nAo o conseguindointegralmente,por preconceitoon macaba-mentodo processo).Alfredo Troni e Cordeiroda Matta,ern Angola, CostaAlegre.em SaoTome Prncipe,ou CamposOliveira,cm Mo9ambique,re-presentamessafacetade referir a cor da pelecom preconceito,0w ento,sema assumirdescompiexadamente,mesmoqueseverifiqueurna acuito-rayoque, cm principio, conduziriaa urna hipotticaintegra9oplena.Numaconcep~oirrestrita, mas noeclctica,de Realismooitocentistaaplicados colnias,o Negro-realismoabrangeefeitosestilsticose una-

    Reviva it Filologa Romnha. Anejos2001. II: 1 85-205187

  • JosPiresLatantira Ma Conte) e as barataras atrie.-anas de ltigu.I portuguesa

    gticospertencentesao territrio do parnasianismo,do simbolismoe do de-cadentismo,entendidosestescomomerosepifenmenosna eontinuayodopredominiodaquele.

    Segue-sea terceirafrise, do RegionalismoAfricano. No inicio do s-culo xx, em 1901,cm Angola,a intervenyocolectivade um grupode in-telectuaisque se manifestoucontraun artigo colonialistade jornal, ren-nindo colabora~essob o ttulo de Vo: JAngo/a - clamandono deserto(1901),abriuurnafrentede reivindicayoda igualdadee fraternidade,pre-cursoradosdireitoshumanos.definvel comonativismo (inicio do Regio-nalismo),querdizer,de uma posturadecisivamenteconscientede ansetosautonomistas,reagindos guerrasde ocupayomovidaspeapotnciaco-lonizadora.

    Qualquermodode RegionalismoAfricano (1901-1941),sejao nativis-mo ou o ipicismo, tambmun modode africanidadedosprimeiros mo-mentos(por localistaqueseja),antecedendoadecisivaassunyoda africa-nidade negritudinista,esta muito mais radical segundoa prticapan-africanistade Csaire,Du Bois e Padmore.

    O primeiro RegionalismoAfricano,o do naivismo,visvel na OdeaAfrica e na actividadejornalsticado Manducodc PedroCardoso(CaboVerde),em Surgeet ambula,Psda histria,e outrospoemasde Ruide Noronha(Moyambique),em poemasvriosde Marcelo da Veiga (SoTome Prncipe),ou cm Anlnio de AssisJnior(Angola), transforma-senumasubtil, masdecidida,prineirainsurgnciaanti-metropolitana.Ca-racteriza-seideologicamentepor mii autonomismosuprclassista,comori-gemnos ideais republicanos,may$nicos.logo se associandoa um pan-africanismomoderado,permitindo aceder,por essamistura subversiva,modernidadepossvcl,vazadanum conservadorisunofomul e retrico.

    Essainsurgnciaintelectualsofreum rude golpecom a ditaduradoEstadoNovo, chefiadapor Salazar,quemarcao fim da chamadaimpren-sa livre e abreum lapsode tempo,dc 1926 a 1941,atreitoa dois tipos detip iCiSflO.

    Por urn lado,ternosurn tipicisino/olc.ior.sae cosiumbrista.evocativo,reconstituidorda vida culturalpopularurbanaon do mato,de quea obradcOscarRibas (Angola) sero paradigmacom inusitadosseguidoresemtemposmais revolucionrios.Este tipicismo de cariz etnogrficotem ocontrapontoevasionistae mesmoextico. alm de ideologicamentecolo-nialista, napoesiade TomazVieira da Cruz(Angola). Noutros,como bAoAlbasini e CaetanoCampo(Moyambique)ou aindanaquelesdo chamadoperodo hesperitanode Cabo Verde(com JosLopese outros),se en-

    Re [vio de Filologa Romnh o. Ane os2001,11:355-205 188

  • los Pijes Laran ira Ma Couto e as literaturas alije anas de ungua portuguesa

    contraro apelo,aindaevasivoe esquivo,de urnapeculiaridadetelricaehumanaque se desejademarcadorada colonialidade,masnAo o ensejandoem pertinncia.E urnaestticada evaso,da hiper-idealizaqodo real, t-pica, cm frica, de urn regionalismo,conquantotil, sobretudoestiliza-dor, tur~tico, parausarurnametforadepreciativa,ou seja,inconsequentequantoao nacionalismo.