mesa conservacao e restauro

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Prticas de Anlise e de Interveno em Conservao e Restauro de Bens Culturais. Daniele Baltz da Fonseca Coordenadora da Mesa Justificativa A proposta deste painel temtico no IV Seminrio Internacional de Memria e Patrimnio justifica-se na necessidade do intercmbio de informaes entre os profissionais e pesquisadores que atuam diretamente na interveno em Bens Culturais. A divulgao das pesquisas nessa rea contribui para a ampliao dos conhecimentos tcnicos, melhorando a qualidade das intervenes no Patrimnio, promovendo o resgate da Memria e a valorizao das Tradies.

Tema Por prticas de anlise, entende-se o conjunto de procedimentos que antecedem ou sucedem as prticas de conservao e restaurao, fornecendo e classificando informaes necessrias para a determinao dos procedimentos a serem adotados no processo de interveno, verificando, ou no, sua eficcia. Nesse sentido, o tema indicado abrange todo o processo tcnico e prtico da interveno nos bens de interesse cultural. Os trabalhos indicados contemplam, portanto, desde o inventrio, at as prticas de avaliao das medidas de conservao e restauro. Para ordenar e localizar o assunto de cada comunicao dentro do contexto geral de fases de um processo de interveno, so propostos quatro sub-temas conforme segue:

1. Inventrio e documentao: Dentro desta idia, a mesa buscou trabalhos como o de Daniele Luckow (Inventrios do Patrimnio Cultural: evoluo, definies e metodologia) e de Jeferson Sallaberry e Adriane Borda Almeida da Silva (Levantamento Fotogramtrico Digital da Antiga Cervejaria Sul RioGrandense). Estas pesquisas estudam aspectos de importantes ferramentas para a documentao dos bens urbanos: o inventrio e o cadastro arquitetnico.

2. Anlise qualitativa de materiais aplicada ao estudo da evoluo construtiva: O grupo formado por alunos da disciplina de Patologia das Construes, do programa de psgraduao em Engenharia Civil da UFRGS foi convidado a apresentar seu trabalho sobre a evoluo construtiva da Igreja Nossa Senhora das Dores, de Porto Alegre-RS, pesquisa que

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buscou identificar, atravs da caracterizao das argamassas de assentamento, as paredes da igreja que teriam sido construdas em pocas distintas.

3. Avaliao de mtodos e materiais As pesquisas de Alessandra Arduim e Marlia Pinto, respectivamente, Verificao da eficcia do Controle de Umidade Ascendente e Materiais e Tcnicas Tradicionais Tintas para conservao do Patrimnio Cultural, encaixam-se no sub-tema avaliao de mtodos e materiais. A primeira elabora uma anlise sobre as prticas usadas no saneamento de problemas de umidade ascendente em alvenarias de arquiteturas histricas, verificando sua eficcia. A segunda, testa o comportamento de dois tipos de tintas indicadas para fachadas de edificaes de interesse cultural, avaliando seu desempenho quanto absoro de umidade e vapor, facilidade de aplicao e textura.

4. Interveno em bens de interesse cultural Abordando no s as questes relacionadas s anlises necessrias s prticas do restauro, como os procedimentos de interveno propriamente ditos, a mesa tambm prope a apresentao dos trabalhos de Keli Scolari, Mariana Wertheimer e Andra Bachetini que abordam, respectivamente, a Restaurao de Escultura de Madeira Policromada e Dourada de So Manuel, a Restaurao dos Vitrais da Igreja So Pedro de Porto Alegre e a Restaurao do Ex-voto Pictrico da Capela Nossa Senhora do de Sabar MG.

Esta mesa prope, portanto, a apresentao de oito comunicaes com assuntos que contemplam o processo de interveno de forma geral. Espera-se que o intercmbio das informaes, das prticas e das descobertas dos pesquisadores da rea contribua para o desenvolvimento das aes que promovem a preservao do Patrimnio.

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Inventrios do patrimnio cultural: evoluo, definies e metodologia. Daniele Behling Luckow

Resumo O patrimnio cultural, com enfoque voltado para o conhecimento, gesto e preservao tem se mostrado tema cada vez mais importante na atualidade. As formas de cadastr-lo e organiz-lo vm sendo motivo de amplas discusses e modificaes no processo. Neste contexto que entram os inventrios, instrumento que nasce praticamente junto com a noo de patrimnio. Evoluindo ao longo do tempo de simples cadastros para a classificao das edificaes e a captura de suas caractersticas. A proposta deste trabalho mostrar a importncia desta ferramenta dentro do processo de preservao bem como esclarecer em que ela consiste. Traando um panorama de sua evoluo dentro do universo do patrimnio tanto a nvel mundial como de Brasil. Identificando suas definies, conceitos e uma estrutura metodolgica bsica. Palavras-Chave: Inventrio, patrimnio cultural, preservao.

O patrimnio cultural e a sua preservao tm se tornado um tema cada vez mais importante. Sobretudo, desde o incio do sculo XX, diversas organizaes internacionais vm discutindo o assunto. Os valores e os conceitos atribudos ao tema foram se modificando ao longo do tempo (CHOAY, 2001). Atualmente cada vez mais toma fora o pensamento voltado para a preservao das caractersticas locais, no mais apenas os apelos tursticos, que mostrou, na maioria dos casos, trazer mais malefcios do que benefcios. Dentro deste universo do patrimnio, que pode-se destacar uma questo bastante relevante: como identificar o que preservar? Preserva-se o que se conhece, portanto necessrio reconhecer o que possui significao cultural para cada cidade, regio, pas e tambm para o planeta. Conforme a Carta de Burra (1980) expressa:

[...] o valor esttico, histrico, cientfico ou social de um bem para as geraes passadas, presentes ou futuras. Nesse contexto, entram os inventrios, como um instrumento de conhecimento metodolgico e como base para futuros planos de conservao e de gesto integrada. A metodologia de inventariar tem demonstrado ser a melhor maneira de identificar o patrimnio existente e possibilitar aes de preservao e/ou valorizao do mesmo. Para o arquiteto e urbanista Paulo Ormindo Azevedo, este instrumento tem efeitos muito importantes, onde podem ser destacados: a possibilidade de divulgao ao pblico; o conhecimento sistemtico e

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aprofundado do patrimnio edificado; o carter legitimador de valores culturais no reconhecidos oficialmente (1998; pp. 71-72).

A evoluo dos inventrios no universo do patrimnio. As noes de patrimnio e de inventrio nascem e desenvolvem-se praticamente juntas. A de patrimnio produzida juntamente com a ideia de nao, no final do sculo XVIII, durante a Revoluo Francesa segundo a sociloga brasileira Maria Ceclia Fonseca (2005, p.37). Neste mesmo contexto, ainda na Frana, aparecem tambm os primeiros inventrios com a elaborao das perspectivas gerais, onde se fazia meno aos recursos agrcolas, aos econmicos dentre outros, as obras histricas interessantes e at mesmo belezas naturais (CHASTEL, 1990). Mas o termo historicamente utilizado desde o XVI, sendo derivado do latim clssico a ideia implica no ideal de encontrar, descobrir. (NAKAMUTA, 2006). A evoluo deste instrumento, acompanhado as transformaes dos conceitos e praticas patrimoniais, at chegar aos dias atuais passa por dois grandes perodos: de consolidao, aproximadamente do inicio do sculo XIX at a dcada de 1960, e de expanso, da dcada de 1960 at aproximadamente a dcada de 1980. O primeiro corresponde de forma geral ao perodo da consagrao do conceito de monumento histrico. Caracterizado pelos processos e conceitos em formao, a viso predominante do monumento como objeto isolado, e o valor de nacionalidade como o de maior peso (CHOAY, 2001). Neste contexto primeiramente, em 1837, na Frana, a prtica dos inventrios teve sua poltica formalizada com a Comisso dos Monumentos Histricos, com a funo de tombar os edifcios considerados monumentos histricos. A partir disso, muitos pases procuraram catalogar o seu patrimnio. Mas as dificuldades estavam em implementar um trabalho sistemtico e contnuo capaz de possibilitar um panorama do territrio nacional. Muitas naes europias, como a prpria Frana, s atingiram esse objetivo aps a Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, ainda que sem se constiturem em um levantamento completo, os inventrios so transformados em diversas partes do mundo, num instrumento complementar ao tombamento (AZEVEDO, 1987). O segundo perodo corresponde ao da expanso e transformao dos conceitos vinculados ao patrimnio. Este passa a ser discutido em uma viso mais universalista, procurando abranger um maior nmero de bens. Em 1963, o Conselho Europeu se pronuncia pela primeira vez, sobre a defesa e a valorizao dos stios e dos conjuntos urbanos. Passam a se realizar diversos congressos que resultam nas Cartas Patrimoniais, sendo a primeira deste perodo a de Veneza, de 1964. Foram tambm criados outros conselhos e rgos como o Conselho Internacional dos Monumentos e Stios (ICOMOS).676Anais do IV SIMP: Memria, patrimnio e tradio

Dentro destes encontros e dessa viso os inventrios foram sendo discutidos amplamente e se encaminhando para o estabelecimento de critrios e de uma metodologia mais unificada. Em 1962, a UNESCO recomenda aos pases membros a realizao de inventrios nacionais com base na cooperao internacional e na proteo do patrimnio mundial. Em 1965, o Conselho de Cooperao Cultural da Europa, em uma reunio, em Palma de Maiorca, procura definir os critrios e a metodologia do Inventrio de Proteo do Patrimnio Cultural Europeu (IPCE). Este inventrio e os encontros influenciaram outros pases fora da Europa. Em 1970, a Colmbia foi pioneira na Amrica Ibrica ao criar a Diviso de Inventrio do Patrimnio Cultural do Instituto Colombiano de Cultura (AZEVEDO, 1987). Em 1980, na Conferncia do ICOMOS, so selecionados sistemas de inventrios de pases representando os continentes, criado o Comit internacional de Inventrios e comea a preparao de um manual para analisar e comparar estes instrumentos escolhi