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MEMRIA: fonte inesgotvel da histria 1

Elisngela Maria Ricardo

Mestranda do Curso Interdisciplinar em Humanidades - UNILAB

Dr. Roberto Kennedy Gomes Franco

Doutor em Educao Brasileira UFC

Universidade da Integrao Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira- UNILAB e-mail: proppg@unilab.edu.br

Resumo: Este texto compreende parte da anlise bibliogrfica sobre histria oral e memria que ser utilizada comoaporte metodolgico a compreenso de nosso objeto de pesquisa que culminar na dissertao do MestradoInterdisciplinar em Humanidades da UNILAB. A qual faremos o cruzamento entre o 1 Inqurito da Subverso Militarem Parnaba PI, BNM n 349 com cerca de duas mil pginas, que consta o interrogatrio de trinta e quatro pessoas,em sua maioria sindicalistas e estudantes, considerados subversivos e a histria oral de alguns destes sujeitos,devolvendo-lhes o direito de ter sua contribuio nos relatos histricos, assim como est intrnseca em suas memrias, operodo da ditadura civil militar brasileira (1964-1985). Para tanto nos embasamos em Le Goff (1990), Ecla Bosi(2003), Thompson (1992) Portelli (1997) e Ricouer (2003), que contriburam consideravelmente para alargar nossosconhecimentos sobre a elaborao de trabalhos que valorizem e ressaltem a memria, e a histria oral.

Palavras-Chave: Memria. Histria Oral. Ditadura Civil Militar.

1. INTRODUO

Este texto compreende uma pequena parte de uma anlise bibliogrfica sobre histria

oral e memria que ser utilizada como aporte metodolgico a compreenso de nosso objeto de

pesquisa que ser desenvolvido e culminar na dissertao do Mestrado Interdisciplinar em

Humanidades da Universidade da Integrao Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira UNILAB

a qual sou discente. Nesse sentido importante destacar que nossa pesquisa compreende a anlise

do 1 Inqurito da Subverso Militar em Parnaba PI processo crime contra o Estado e a Ordem

Poltica e Social, instaurado aps o golpe civil militar que ocorreu no Brasil entre os anos de 1964 a

1985, mediante as pistas e vestgios deixados a margem da histria oficial contada pela classe

dominante, e o resgate da histria oral dos investigados por subverso, suprimida na histria oficial.

Para averiguar o que levou estudantes e sindicalistas serem considerados subversivos, pois,

acreditamos que existem inmeros casos omissos de sonegao de direitos, ocorridos naquela

poca, que foram mascarados pelos poderes ditatoriais e por esse motivo, sentimos a necessidade de

aprofundar os debates em torno desta temtica.

Neste breve resumo expandido, destacamos autores que tratam sobre a importncia da

efetivao da memria, a um povo que ficou a margem da histria oficial. Nossa pesquisa um

1 Referente ao Projeto de Pesquisa intitulado DITADURA CIVIL MILITAR NO PIAU: Anlise do 1 Inquritosobre a Subverso Militar em Parnaba/PI do Mestrado Interdisciplinar em Humanidades da Universidade da IntegraoInternacional da Lusofonia Afro-Brasileira UNILB.

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bom exemplo dessa supremacia classista nas narrativas oficias, pois, mediante o 1 IPM documento

oficial dos poderes hegemnicos, tudo que era contrrio a este poder, foi suprimido de suas pginas.

Portanto, acreditamos que uma pesquisa que faa o cruzamento das fontes orais e escrita, pode

contribuir sobremaneira ao resgate das memrias de um povo, que mesmo no sendo oficialmente

lembrado, foi perseguido, torturado, morto, pelas implicaes do regime civil militar.

Nesse sentido, as pesquisas que compreendem a histria oral so deveras vlidas para

fazer jus s narrativas que foram esquecidas no decorrer do tempo pela histria oficial. Na

contemporaneidade, muitos autores sustentam a importncia de rever a histria contada pelas elites

sociais, aliando as narrativas de um povo que vivenciou os acontecimentos, para contrapor estas

idias e ideais e reescrever a histria abrangendo e dando direito aos oprimidos de fazerem parte e

se identificarem na prpria histria.

Portanto, para aprofundamento da temtica, nos apoiaremos nos pressupostos de autores

como Le Goff (1990), Ecla Bosi (2003), Thompson (1992) Portelli (1997) e Ricouer (2003)

porque acreditamos que estes podem contribuir consideravelmente para alargar nossos

conhecimentos sobre a elaborao de trabalhos que valorizem e ressaltem a memria,

consequentemente a histria oral de um povo.

2. MEMRIA

Por um longo perodo a histria foi contada apenas pelas nuances e impresses das

camadas superiores da sociedade. As escolas e as mdias, meio de reproduo dessas narrativas,

foram utilizadas para construo de uma memria coletiva, fazendo com que pessoas que

vivenciaram muitas cenas cotidianas passassem a descrever os fatos a partir do que lhes foi sugerido

e no verdadeiramente como ocorreu de fato. Suas impresses foram relegadas a merc de uma

classe dirigente que cooptou e sujeitou a seu bel prazer memria de um povo.

Subordinados aos desgnios das elites, a classe oprimida que teve sua histria contada

por aqueles que no conhecem de fato sua realidade, tem apenas a memria como pressuposto de

tudo que viveu. Condicionada pela ao do tempo e as circunstncias da vida essa memria vai se

tornando cada dia mais enfraquecida e adepta das verses hegemnicas da histria a estes impostas.

Para Le Goff (1990) a memria tem como propriedade conservar informaes guardadas em nossas

funes psquicas na qual podemos recorrer para atualizar impresses e lembrar informaes

passadas. Esse poder de reter dentro de si um numeroso contingente de lembranas faz do homem

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um ser nico, que pode narrar os fatos com preciso de detalhes e fazer com que suas lembranas se

tornem vivas para todos aqueles que o escutam.

Diante da memria est o esquecimento, causado por problemas psquicos ou pelo jogo

de poder entre as sociedades. Aqueles que possuem o poder manipulam as histrias passada,

transformando a memria de um povo a meras recordaes de algo que viveram, porm como se

no tivesse vivido. Sua memria, lembra a histria como os livros contam, falta os detalhes to

pertinentes que a tornam vivas e significativas. Le Goff (1990) ressalta que:

[...] a memria coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das foras sociaispelo poder. Tornarem-se senhores da memria e do esquecimento uma das grandespreocupaes das classes, dos grupos, dos indivduos que dominaram e dominam associedades histricas. Os esquecimentos e os silncios da histria so reveladores dessesmecanismos de manipulao da memria coletiva (LE GOFF, 1990, p. 426).

No basta aos poderes hegemnicos manipular o mundo do trabalho, mediante os meios

de produo, submetendo os trabalhadores a um sistema desumano que no lhes permitem serem

homens livres, a sua memria tambm alvo de disputa. A guerra pelo poder faz com que a classe

oprimida seja ainda mais submetida ao esquecimento social, relegada a viver a margem da histria

oficial, mesmo sendo parte integrante e muitas vezes a prpria criadora da histria.

Nesse sentido, Bosi (2003, p. 15) ressalta que a histria que se apia unicamente em

documentos oficiais no pode dar conta das paixes individuais que se escondem atrs dos

episdios. Muitos pesquisadores se acostumaram a utilizar apenas os documentos oficiais como

anlise de suas pesquisas, mas quando estes documentos envolvem seres humanos possvel fazer

um link entre as narrativas oficiais com o relato oral daqueles que fizeram parte do ocorrido. Dessa

maneira as pesquisas se tornam ricas e muito mais precisas. Muitos documentos oficiais suprimem

informaes, por isso a necessidade de contrapor as fontes. Mais que o documento unilinear, a

narrativa mostra a complexidade do acontecimento. a via privilegiada para chegar at o ponto de

articulao da Histria com a vida quotidiana. (BOSI, 2003, p. 19-20) No entanto, importante

que o pesquisador esteja atento aos relatos orais, para que no caia no engodo da memria coletiva.

Diante dos argumentos de Bosi, sobre a importncia de incorporar as fontes orais com

as fontes escritas, ressaltamos que nossa pesquisa compreende o cruzamento entre a fonte escrita, a

saber o 1 Inqurito da Subverso Militar em Parnaba PI, BNM n 349 com cerca de duas mil

pginas, na qual consta o interrogatrio de trinta e quatro pessoas, em sua maioria sindicalistas e

estudantes, considerados subversivos. Disponvel para anlise no acervo digital do Projeto Brasil

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Nunca Mais BNM http://www.prr3.mpf.gov.br/bnmdigital/. Vale ressaltar que esse processo foi

instaurado na cidade de Parnaba litoral do Piau em abril de 1964, antes mesmo da capital do

estado, Teresina.

2.1 Histria Oral

Paul Ricouer (2003) enfatiza que a memria a prpria reapropriao do passado e no

somente a matriz da histria. Para este autor a memria o que nos assegura que alguma coisa de

fato aconteceu, podendo assim recontar as coisas do passado mediante o testemunho, lembrando

sobretudo que h nesse contexto, o esquecimento como uma condio histrica de todos os seres

humanos, por isso a necessidade de publicar a memria de um povo mediante a histria oral.

Mas para que a histria oral seja efetivamente expressiva ao meio cientfico, as

pesquisas devem ser efetuadas por pesquisadores comprometidos, que compreendem a importncia

da memria na construo da histria para alm das imposies dos poderes hegemnicos e todas as

variaes no discurso de suas fontes, lembrando que esto sobrepujadas pelo meio em que vivem,

para que seus dados realmente venham colaborar para uma anlise profunda e significativa,

contrapondo as fontes escritas oficiais com as entrevistas de sujeitos que vivenciaram determinado

acontecimento histrico social.

Neste contexto, Thompson (1992) enfatiza sobre a importncia da histria oral como

uma metodologia utilizada para escrever a histria nos dias atuais. Discutindo os contedos do

passado, nos apropriando das representaes que os indivduos fazem deste passado, mediante suas

narrativas. Assim democratizamos a possibilidade de outras pessoas que no so historiadores a

escreverem a histria, que est intrinsecamente relacionada memria.

Thompson (1992) ressalta que quando trabalhamos apenas com os documentos,

escrevemos os fatos neles destacados, sem saber quem so os sujeitos envolvidos, suas percepes

e viso do ocorrido. Amparados somente na descrio elaborada pelos poderes hegemnicos.

Mediante a histria oral podemos lidar com as emoes de vrias pessoas, no apenas de um

determinado grupo. Podemos observar a manifestao de sua subjetividade, processo de construo

dos indivduos na interao histrica, com sua prpria histria de vida.

As pessoas constroem as narrativas permeadas por suas prprias vivncias, relaes

econmicas, sociais, religiosas, de acordo com seu lugar na histria, no mundo. Essa subjetividade

muitas vezes tambm condicionada pela imposio de uma organizao econmica mundial que

impinge nas pessoas uma vontade que no a sua. Por isso os pesquisadores devem compreender

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de onde estas pessoas esto falando, considerando sua subjetividade e todas as nuances que

permeiam suas narrativas. Nesse sentido Thompson (1992) refora sobre a necessidade de se fazer

uma entrevista bem estruturada e comprometida com a cincia. Para isso ressalta a importncia do

pesquisador desenvolver uma variedade de mtodos de entrevista acordados com sua prpria

personalidade, mediante perguntas relevantes, utilizando termos tcnicos que podem levar o

entrevistado a lembrar os fatos mais obscuros e significantes pesquisa.

Para Thompson (1992), uma boa entrevista gira em torno do preparo e muita dedicao

do pesquisador. necessrio que este se disponha a estudar, ler muito a respeito do assunto que ser

abordado e principalmente conhecer aspectos relevantes da vida do entrevistado, pois isso facilitar

o dilogo e propiciar a instaurao de respeito mutuo e confiana, to necessrios para que a

entrevista seja realmente satisfatria. Alm disso, a entrevista deve ser realizada em ambiente

calmo, sem barulho paralelo, com perguntas pertinentes cuidadosamente elaboradas, em tom de

conversa amigvel, para que ambos se sintam a vontade. O pesquisador deve ter flexibilidade, ou

melhor, dizendo, sensibilidade para se envolver nos caminhos que a pessoas est direcionando suas

palavras sem perder o foco do que realmente est querendo compreender naquela narrativa.

O argumento em favor de uma entrevista completamente livre em seu fluir fica mais fortequando seu principal objetivo no a busca de informaes ou evidncia que valham por simesmas, mas sim fazer um registro subjetivo de como um homem, ou uma mulher, olhapara trs e enxerga a prpria vida, em sua totalidade, ou em uma de suas partes. Exatamenteo modo como fala sobre ela, como a ordena, a que d destaque, o que deixa de lado, aspalavras que escolhe, que so importantes para a compreenso de qualquer entrevista(THOMPSON, 1992, p. 258).

Porm, uma boa entrevista no pode ser completamente livre, deve haver um norte a

seguir. O pesquisador deve ao menos fazer uma pergunta inicial e deixar com que seu interlocutor

responda livremente, sem interrupes desnecessrias. No decorrer da entrevista, ao passo que vai

surgindo fatos pertinentes, pode fazer outras perguntas para aprofundar as questes ou lembrar

acontecimentos que antes ainda no haviam sido abordados na fala do entrevistado.

Thompson (1992) tambm ressalta a importncia de pesquisadores humanizados, que

so sensveis as histrias que lhes so contadas. No podemos abordar as pessoas de forma aptica,

insensveis. Um bom pesquisador, antes de tudo um estudioso, que compreende e se prepara para

dialogar com sujeitos de classes diversificada, idias, ideais e costumes distintos dos seus e mesmo

assim respeitar sua fonte oral. Um entrevistador que compreende essas variveis pode aprofundar as

generalizaes estereotipadas, chegando a um detalhamento profundo dos episdios a ele narrados.

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nesse sentido que queremos abordar nossas fontes, ancorados mediante uma entrevista

humanizada, livre, mas no totalmente solta, com perguntas pertinentes que possam nos levar a

compreenso de nosso objeto em suas particularidades profundas, que o faz pertinente a sociedade

em que vivemos. Sobretudo respeitando nossas fontes no seu relato dos fatos vivenciados durante o

perodo da ditadura civil militar.

3. CONSIDERAES FINAIS

Diante de tudo que abordamos compreendemos que a memria uma fonte inesgotvel

da histria. Ela pode e deve ser utilizada como um mecanismo crucial para contrapor os

documentos oficiais quanto sua veracidade, pois, atravs da memria de um povo de uma

sociedade possvel validar a histria e recont-la abordando no somente as nuances do poder

hegemnico, mas dando voz aos oprimidos que tambm fazem parte da histria, mas estiveram

sujeitos ao esquecimento durante quase toda histria oficial.

Ao utilizar a histria oral como fonte metodolgica, poderemos obter respostas a vrios

questionamentos que a histria oficial no conseguiu responder. Por isso acreditamos que a histria

oral daqueles que foram investigados no 1 IPM de Parnaba-PI ser uma ferramenta que

possibilitar ampliar o conhecimento cientfico sobre o perodo da ditadura. Portanto, ressaltamos

que deve ter sua validade reconhecida e assegurada no meio acadmico, como sendo um suporte a

mais na investigao de certo documento histrico. Por isso pode ser utilizada por quem pretenda

fazer o cruzamento entre as fontes e assim aprofundar a anlise de documentos oficiais, para que a

parte suprimida na histria tambm seja explanada.

4. REFERNCIAS

BOSI, Ecla. O tempo Vivo da Memria: ensaios de psicologia. So Paulo: Ed. Atelie Editorial,2003.

LE GOFF, Jacques. Histria e Memria. Campinas: Ed. Da Unicamp, 1990.

PORTELLI, Alessandro. Forma e Significado na Histria Oral: a pesquisa como um experimentoem igualdade. Trad. Maria Therezinha Janine Ribeiro. Ver. Dea Rbeiro Fenelon. In: Proj. Histria,So Paulo, 1997.

RICOEUR, Paul. Memria, Histria, Esquecimento. Conferencia Internacional HauntingMemories? Budapeste, 2003.

THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: histria oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

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