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  • Mediao policial, segurana pblica e segurana humana: uma abordagem reflexiva

    Police mediation, public security and human security: a reflexive approach

    Aline Chianca Dantas*

    Universidade de Braslia, Braslia-DF, Brasil

    1. Introduo

    Este trabalho visa a discutir as nuances da mediao policial, tentando perceber sua importncia dentro do sistema penal e estatal, suas falhas e dificuldades de implementao, alm de buscar debater se esse instru-mento tem o condo de realmente promover a humanizao da segurana pblica, ou seja, tornar o indivduo o cerne das preocupaes e valoraes.

    Para isso, so analisadas as premissas da segurana pblica brasileira, do sistema policial e a conexo com a figura do Estado; em seguida, so apresentadas as crticas e as tentativas de reforma do setor de segurana, revelando as implicaes para o Direito e para a segurana pblica, no sen-tido de se pensar a segurana de maneira mais abrangente.

    Nesses termos, utilizada a teoria da segurana humana, com intuito de ressaltar o papel do indivduo e as preocupaes amplas de seguran-a, para alm da simples represso da violncia fsica direta. Dessa forma, apresenta-se um quadro comparativo entre a segurana pblica tradicional e a segurana pblica humana, alm de serem ressaltados apontamentos tericos em torno do assunto.

    * Doutoranda em Relaes Internacionais pela Universidade de Braslia (UNB), Mestre em Relaes Interna-cionais pela Universidade Estadual da Paraba (UEPB), Graduada em Direito pela Universidade Federal da Paraba (UFPB), Graduada em Relaes Internacionais pela UEPB e Advogada. E-mail: alinechiancadantas@gmail.com.

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    Assim, no tpico especfico sobre mediao, discutida a linguagem desse procedimento, referendando o porqu de se trabalhar com essa forma de resoluo de conflitos frente ao direito formal. Posteriormente, detalha--se a mediao policial e as diversas problemticas que esto no seu entor-no, discutindo como essa prtica est inserida dentro do sistema de poltica criminal estatal liberal e revelando alguns casos prticos de sua aplicao.

    Ainda, analisa-se a relao entre a mediao policial e a segurana hu-mana, percebendo as implicaes da sensao de segurana refletidas por essa forma de resoluo de conflitos, bem como a situao da vtima e a relao entre Estado e sociedade. Aps o delineamento dessas discusses, pretende-se debater se a mediao policial pode ou no ser compreendida enquanto uma prtica que promove a humanizao da segurana pblica.

    Dessa maneira, a metodologia utilizada no trabalho fundamenta-se em pesquisas bibliogrficas sobre o tema, a fim de realizar uma anlise explo-ratria em torno da relao entre a mediao policial e a segurana humana e de instigar o uso de tal prtica, mas sem perder de vista a anlise crtica sobre o assunto.

    Portanto, o estudo que aqui se objetiva realizar tem como cerne refe-rendar um movimento reflexivo amplo em torno da temtica da segurana pblica e de processos de humanizao dessa esfera. Isto, tendo em vista que esse mbito ainda se encontra bastante arraigado de valores tradicio-nais de segurana, vertidos para o uso da fora como aspecto central da conteno da violncia e da criminalidade.

    Alm disso, pretende-se instigar a aproximao da sociedade frente s problemticas de segurana pblica, mas sem que os cidados funcionem apenas como instrumentos de fortalecimento da prpria figura do Estado. Pelo contrrio, devem funcionar como maneira de promover a potenciali-zao dos indivduos e, consequentemente, a paz social, considerando uma abordagem de segurana pautada na reforma do referido setor, promovendo um pensamento integrado entre o local, o nacional e, at mesmo, o global.

    2. Breve anlise sobre a segurana pblica brasileira e o sistema policial

    Historicamente, pertinente referendar que as Constituies brasileiras de 1824 a 1967/69 no faziam aluso segurana pblica. Sendo assim, a Constituio Cidad de 1988, como intitulada, inova ao abarcar o tpico sobre a segurana pblica; contudo, ainda so perceptveis diversas pro-

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    blemticas em torno do assunto, que passam a ser debatidas. A segurana pblica, conforme o art. 144 da Constituio da Repblica Federativa do Brasil (1988), consiste na preservao da ordem pblica e da segurana das pessoas e do patrimnio. luz dessa definio, pode-se aduzir que, no por acaso, o termo segurana pblica primeiro est ligado ideia de segu-rana do Estado e, apenas em seguida, ressaltada a segurana do indiv-duo. Essa viso, segundo Hampson et al., caracterstica do Estado demo-crtico liberal, pois, nesse espao, o indivduo possui papel secundrio1.

    De forma dspare, a teoria da segurana humana coloca o indivduo como elemento de referncia da anlise de segurana e justamente em torno dessa perspectiva que se objetiva problematizar, ao longo do tra-balho, as possveis estratgias de humanizao da segurana pblica e se a mediao policial ou no um desses instrumentos. Esse debate fun-damenta-se em virtude da importncia da conexo entre a segurana do Estado e a segurana do indivduo2.

    Considerando, ento, a viso de segurana pblica mais restrita im-plantada na atual Carta Magna, observa-se o delineamento de um aparato institucional voltado para a garantia da ordem, da segurana individual e da segurana patrimonial. Para tal, tem-se no Brasil: a polcia federal, a polcia rodoviria federal, a polcia ferroviria federal, as polcias civis, as polcias militares e o corpo de bombeiros militares. No presente traba-lho, so focadas as polcias civis e militares; por isso, ressaltam-se as suas funes, respectivamente, conforme a Constituio de 1988: as primeiras so dirigidas por delegados de polcia de carreira, so responsveis pelas funes de polcia judiciria e pela apurao das infraes penais, excetu-ando-se as infraes militares; as segundas, por sua vez, possuem papel de polcia ostensiva, visando preservao da ordem pblica.

    Considerando o exposto, visualiza-se uma separao entre as funes das duas polcias no Brasil, distintamente do que ocorre em outros pases3. H, ento, implicaes para a prpria segurana pblica, j que se percebe a dificuldade de interao entre ambas as polcias e a clara separao entre policiamento e investigao, quando essas atuaes deveriam acontecer juntas 4. Ademais, fica explcito que o papel da polcia militar tem carter

    1 HAMPSON, et al., 2002, p. 6.

    2 ARAVENA, 2007, p.8

    3 BEATO, 2012.

    4 Ibid.

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    repressivo, bem como o da prpria polcia civil que, em tese, deve agir apenas aps o relato de uma notcia crime e de maneira investigativa, por meio do inqurito policial.

    Nesse sentido, notrio o distanciamento da polcia de prticas ver-dadeiramente preventivas do crime ou da violncia. De encontro a esse quadro e em consonncia com os estudos mais abrangentes da segurana pblica, que vm sendo desenvolvidos principalmente aps os anos de 19905, que esse trabalho se prope a debater a funo do policial en-quanto verdadeiro mediador de conflitos.

    Ainda cabe acrescentar o debate que alguns autores incitam, como Luiz Eduardo Soares6, sobre a necessidade de desconstitucionalizao das pol-cias. Justifica-se esse argumento pelas caractersticas peculiares dos estados no combate violncia e criminalidade; pois, na contramo de suas necessi-dades, encontram-se cerceados em decorrncia do modelo nacional imposto.

    Regras gerais nacionais, como ressalta Soares7, so relevantes, mas no a implantao de um modelo e de funes determinadas para as polcias de todo o pas. Esse ponto de vista extremamente pertinente, embora difcil de ser implementado no curto prazo, mas representa claramente as diferenas regionais existentes no Brasil e a importncia de tratamentos diferenciados para lidar com essas distines de maneira mais eficaz.8

    vlido inferir o significado da palavra segurana pblica, a qual deve ser compreendida como a segurana do povo. Por isso, a relevncia da sociedade civil nas aes voltadas para a concretizao dessa segurana. Nesses termos, Zaluar referenda que no h segurana sem que as pessoas compreendam os perigos e riscos que correm e faam, elas mesmas, o que podem para control-los ou evit-los.9

    No se busca com essa discusso desconsiderar o papel do Estado e de suas instituies, mas sim ensejar a participao da sociedade civil na luta contra a criminalidade e a violncia. Ressalta-se tambm a relevncia de se instigar um olhar vertido para quem a segurana pblica deve verdadeira-mente se voltar, ou seja, o povo.

    5 SOUZA, 2012, p. 67.

    6 SOARES, 2006, p. 101.

    7 Ibid.

    8 Ibid., p. 93.

    9 ZALUAR, 2002, p. 24.

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    Cabe, ainda, referendar um debate mais especfico sobre a polcia. As-sim, tem-se que a atividade policial um instrumento do Estado, mas, em ltima instncia, a favor dos indivduos. Ocorre que o dilema entre a segurana estatal e a segurana humana mostra-se perceptvel na sociedade contempornea quando se depreende dos fatos o conflito entre policiais e grupos sociais. Frente a isso, fundamental pensar um pouco sobre a instituio policial.

    Conforme Muller10, a palavra polcia possui a mesma raiz etimolgica do vocbulo poltica e est ligada ao governo da cidade. Assim, a atividade policial tem como condo pacificar a vida social, isto , promover a liber-dade do domnio da violncia e a funo policial consiste na garantia da liberdade dos cidados, bem como da segurana destes. Dessa forma, os policiais devem ser agentes da paz e tm como tarefa primordial prevenir e resolver o

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