maurice druon - os reis malditos 5 - a loba de frança

Download Maurice Druon - Os Reis Malditos 5  - A loba de França

Post on 14-Jun-2015

636 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

Maurice Druon

A Loba de Frana1323-1328Ttulo do original: "La Louve de France" Copyright 1965 Atelier Litteraire Maurice Druon, Librairie Plon et ditions Del Duca Traduo: Nair Lacerda CRCULO DO LIVRO S.A. Caixa postal 7413 01051 So Paulo, Brasil Edio integral Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia da Difel Difuso Editorial S.A. Composto pela Linoart Ltda. Impresso e encadernado pelo Crculo do Livro S.A. 2468 10 9753 88 90 91 89 87

Este romance foi realizado com a colaborao de: Georges Kessel Pierre de Lacretelle Madeleine Marignac O autor expressa direo da Biblioteca Nacional e aos servios dos Arquivos Nacionais de Paris, assim como ao governador-mor da Torre de Londres e ao sr. J. A. F. Thomson do Balliol College, em Oxford, seus agradecimentos pelo precioso auxlio que deram a seus trabalhos.

"A histria um romance que aconteceu..." Edmond e jules de Goncourt

Estremecemos ao pensar em quantas investigaes so necessrias para se chegar verdade sobre o mais ftil pormenor. Stendhal

Principais personagensO REI DA FRANA CARLOS IV, chamado o Belo, dcimo quarto sucessor de Hugo Capeto, bisneto de So Lus, terceiro e ltimo filho de Filipe IV, o Belo, e de Joana de Navarra, anteriormente esposo de Branca de Borgonha, conde da Marca, vinte e nove anos. AS RAINHAS DA FRANA MARIA DE LUXEMBURGO, filha primognita de Henrique VII, imperador da Alemanha, e de Margarida de Brabante, dezenove anos. JOANA D'EVREUX, filha de Lus de Frana, conde d'Evreux, irmo de Filipe, o Belo, e de Margarida d'Artois, mais ou menos dezoito anos. AS RAINHAS VIVAS DA FRANA CLEMNCIA DA HUNGRIA, princesa d'Anjou-Siclia, sobrinha do rei Roberto de Npoles, segunda esposa e viva de Lus X, o Turbulento, trinta anos. JOANA DE BORGONHA, viva do rei Filipe V, o Longo, filha do conde Oto de Borgonha e da condessa Mafalda d'Artois, trinta anos. O REI DA INGLATERRA EDUARDO II, Plantageneta, nono sucessor de Guilherme, o Conquistador, filho de Eduardo I e de Leonor de Castela, trinta e nove anos. A RAINHA DA INGLATERRA ISABEL DE FRANA, esposa do precedente, filha de Filipe, o Belo, e irm do rei da Frana, trinta e um anos. O PRNCIPE HERDEIRO DA INGLATERRA EDUARDO, filho primognito dos precedentes, futuro rei Eduardo III, onze anos. A CASA DOS VALOIS MONSEIGNEUR CARLOS, neto de So Lus e irmo de Filipe, o Belo, tio do rei da Frana, conde apanagista de Valois, do Maine, d'Anjou, d'Alenon, de Chartres, do Perche, par do reino, ex-imperador titular de Constantinopla, conde da Romanha, cinqenta e trs anos. MONSEIGNEUR FILIPE, conde de Valois e do Maine, filho primognito de

Carlos de Valois e de sua primeira esposa Margarida d'Anjou-Siclia, futuro rei Filipe VI, trinta anos. JOANA DE VALOIS, condessa de Hainaut, filha de Carlos de Valois e de Margarida d'Anjou, irm do precedente, esposa do conde Guilherme de Hainaut, vinte e sete anos. JOANA DE VALOIS, condessa de Beaumont, filha de Carlos de Valois e de sua segunda esposa, Catarina de Courtenay, meia irm dos precedentes, esposa de Roberto III d'Artois, conde de Beaumont, mais ou menos dezenove anos. MAFALDA DE CHTILLON-SAINT-POL, condessa de Valois, terceira esposa de monseigneur Carlos. JOANA, chamada a Coxa, condessa de Valois, filha do duque da Borgonha e de Agnes de Frana, irm de Margarida de Borgonha, neta de So Lus, esposa de monseigneur Filipe, vinte e oito anos. A CASA DE NAVARRA JOANA DE NAVARRA, filha de Lus X, o Turbulento, e de Margarida de Borgonha, herdeira do reino de Navarra, doze anos. FILIPE DE FRANA, conde d'Evreux, esposo da precedente, filho de Lus de Frana, conde d'Evreux e primo irmo de Carlos, o Belo, futuro rei de Navarra, mais ou menos quinze anos. A CASA D'ARTOIS CONDESSA MAFALDA D'ARTOIS, par do reino, viva do conde palatino Oto IV de Borgonha, me de Joana e Branca de Borgonha, mais ou menos cinqenta e quatro anos. ROBERTO III D'ARTOIS, sobrinho e adversrio da precedente, conde de Beaumont-le-Roger, sire de Conches, genro de Carlos de Valois, trinta e seis anos. THIERRY LARCHIER D'HIRSON, cnego, chanceler da condessa Mafalda, cinqenta e trs anos. BEATRIZ D'HIRSON, sobrinha do precedente, dama de cerimnia da condessa Mafalda, mais ou menos vinte e nove anos. A CASA DE HAINAUT JOO DE HAINAUT, irmo de Guilherme, o Bom, conde de Hainaut, da Holanda e da Zelndia. FILIPA DE HAINAUT, sua sobrinha, segunda filha de Guilherme, o Bom, e de Joana de Valois, noiva do prncipe Eduardo da Inglaterra, nove anos. OS GRANDES OFICIAIS DA COROA DA FRANA

LUS DE CLERMONT, sire, depois primeiro duque de Bourbon, neto de So Lus, camarista-mor da Frana. GAUCHER DE CHTiLLON, sire de Crvecoeur, conde de Porcien, condestvel de Frana desde 1302. JOO DE CHERCHEMONT, chanceler. HUGO DE BOUVILLE, antigo camareiro-mor de Filipe, o Belo, embaixador.

OS PARENTES DO REI DA INGLATERRA TOMS DE BROTHERTON, conde de Norfolk, marechal da Inglaterra, filho de Eduardo I da Inglaterra e de sua segunda esposa, Margarida de Frana, meio irmo do rei Eduardo II e primo do rei da Frana, vinte e trs anos. EDMUNDO, conde de Kent, irmo mais novo do precedente, governador de Dover, guardio dos Cinco-Portos, vinte e dois anos. HENRIQUE, conde de Leicester e de Lancastre, chamado Pescoo-Torto, neto de Henrique III da Inglaterra, primo irmo do rei Eduardo III, quarenta e dois anos. OS CONSELHEIROS HUGO DESPENSER, o Velho, conde de Winchester, sessenta e um anos. HUGO DESPENSER, o Jovem, filho do precedente, conde de Gloucester, favorito do rei Eduardo II, trinta e trs anos. BALDOCK, arcediago, chanceler de Eduardo II. WALTER STAPLEDON, bispo de Exeter, lorde-tesoureiro. Os condes D'ARUNDEL e de WARENNE. AS DAMAS DE CERIMNIA DA RAINHA ISABEL LADY JOANA MORTIMER, nascida Joinville, sobrinha-neta do senescal de Joinville, esposa de Rogrio Mortimer, de Wigmore, trinta e sete anos. LADY LEONOR DESPENSER, nascida Clare, esposa de Hugo Despenser, o Jovem. A OPOSIO BARONIAL ROGRIO MORTIMER, o Velho, lorde de Chirk, antigo grande juiz do Pas de Gales, sessenta e sete anos. ROGRIO MORTIMER, o Jovem, oitavo baro de Wigmore, antigo lugartenente do rei e grande juiz da Irlanda, sobrinho do precedente, trinta e sete anos. JOO MALTRAVERS, TOMS DE BERKELEY, TOMS GOURNAY, JOO DE CROMWELL, etc, fidalgos ingleses. OS LORDES-BISPOS INGLESES

ADO ORLETON, bispo de Hereford. WALTER REYNOLDS, arcebispo de Canterbury. JOO DE STRATFORD, bispo de Winchester. OS GUARDAS DA TORRE DE LONDRES ESTVO SEAGRAVE, condestvel. GERALDO DE barbeiro.ALSPAYE,

tenente.

OGLE,

A CORTE DE AVIGNON O PAPA JOO XXII, ex-cardeal Tiago Duze, eleito no conclave de 1316, setenta e nove anos. BELTRO DU POUGET, GAUCELIN DUEZE, GAILLARD DE LA MOTE, ARNALDO DE VIA, RAIMUNDO, O Ruivo, parentes do papa, cardeais. TIAGO DE FOURNIER, conselheiro de Joo XXII, futuro papa Bento XII. OS LOMBARDOS SPINELLO TOLOMEI, banqueiro de Siena, instalado em Paris, mais ou menos sessenta e nove anos. GUCCIO BAGLIONI, seu sobrinho, banqueiro de Siena da Companhia Tolomei. BOCCACCIO, viajante da companhia Bardi, pai do poeta Boccaccio. A FAMLIA CRESSAY PEDRO e JOO DE CRESSAY, filhos do falecido sire de Cressay, mais ou menos trinta e um e vinte e nove anos. MARIA, irm dos precedentes, esposa secreta de Guccio Baglioni, vinte e cinco anos. JOO, chamado Jeannot ou Giannino, suposto filho de Guccio Baglioni e de Maria de Cressay, na realidade Joo, o Pstumo, filho de Lus X, o Turbulento, e de Clemncia da Hungria, sete anos. Todos esses nomes so histricos, e as idades correspondem ao ano de 1323.

Prlogo...E os castigos anunciados, as maldies lanadas do alto de sua fogueira pelo gro-mestre dos Templrios, continuaram a tombar sobre a Frana. O destino derrubava os reis como se fossem peas de xadrez. Depois de Filipe, o Belo, fulminado, depois de seu primognito, Lus X, assassinado ao fim de dezoito meses de reinado, o segundo filho, Filipe V, parecia destinado a um longo governo. Seis anos se haviam passado, e Filipe V morrera, por sua vez, antes de alcanar os trinta anos de idade. Detenhamo-nos por um momento nesse reinado, que parece um perodo de trgua fatalidade quando comparado aos dramas e derrocadas que a ele se seguiram. Para quem folheia distraidamente a histria, tal reinado parece plido, sem dvida porque o leitor no retira da pgina a mo tinta de sangue. Entretanto... Vejamos de que so feitos os dias de um grande rei quando a sorte lhe adversa. Porque Filipe V, o Longo, fora um grande rei. Pela fora e pela astcia, pela justia e pelo crime, apossara-se ele, ainda jovem, da coroa posta no leilo das ambies. Um conclave aprisionado, um palcio real tomado de assalto, uma lei sucessria, inventada, uma revolta provinciana desbaratada ao fim de sete dias, um grande senhor atirado ao calabouo, uma criana real assassinada no bero era nisso, pelo menos, que se acreditava , tinham sido as rpidas etapas de sua corrida para o trono. Naquela manh de janeiro de 1317, quando, ao som de todos os sinos a ecoar no cu, sara da Catedral de Reims, o segundo filho do Rei de Ferro poderia acreditar-se vitorioso. E livre para recomear a grande poltica que admirara em seu pai. Toda a sua famlia, por obrigao, se havia dobrado. Os bares haviam sido dominados, o Parlamento sofria a sua ascendncia, e a burguesia aclamava-o, em seu entusiasmo per ter encontrado de novo um prncipe forte. Sua esposa estava redimida das ndoas da Torre de Nesle. Sua descendncia parecia assegurada pelo filho que acabava de nascer, e a sagrao, enfim, revestira-se de intangvel majestade. Para gozar da felicidade relativa dos reis, nada faltava a Filipe V, nem sequer a sensatez de desejar a paz e de conhecer-lhe o preo. Trs semanas mais tarde seu filho morria. Era seu nico filho varo, e a rainha Joana, dali por diante marcada pela esterilidade, no lhe daria outros. Ao iniciar-se o outono, a fome devastava o pas, juncando as cidades de cadveres. A seguir, um vento de demncia soprou sobre toda a Frana. Que mpeto cego, que sonhos elementares de santidade e av