mattei, v. ao sabor dos ventos

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Ao Sabor dos Ventos

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    AO SABOR DOS VENTOS Controvrsias em torno da instalao de uma Usina Termoeltrica no Vale do

    Paraba (SP)

    No temas voar, o seguro de voar estar inseguro, que nada vem te amparar nem aparar nem parar, estas paragens tu tens que dominar sem dominar s assim te evitas e voars de acordo com tua conscincia e direo de mundo (...)." (Arthur Martins Cecim, Habeas Asas, Serto do Cu!, 2010)

    O antroplogo Eduardo Viveiros de Castro, em Conferncia na Universidade de

    So Paulo, em dezembro de 2013, lembrou que, assim como os Guarani,

    ns tambm (os brancos) andamos especulando ultimamente freneticamente sobre o fim do mundo. O problema do fim do mundo, o problema da destruio do mundo, e as lendas sobre a destruio do mundo, lendas cientficas e outras, tornou-se um problema de todos, na verdade, ou antes, eu diria, melhor dizendo, todos entre aspas que tornou-se uma categoria polmica a partir do momento em que o problema do fim do mundo tornou-se um problema de todos1.

    Concluiu ento, concordando com Bruno Latour, que estamos diante de um

    retorno progressivo, portanto, s cosmologias antigas e s suas inquietudes, as quais

    ns percebemos subitamente que no eram assim to mal fundadas2.

    Em 10 de dezembro de 2013, segundo reportagem de um jornal,

    O governo regional da Catalunha, no nordeste da Espanha, decretou um plano de emergncia devido aos nveis de contaminao presentes na cidade de Barcelona, que est a quase uma semana parcialmente coberta por uma camada de poluio todas as manhs3.

    A notcia ainda revela que a neblina cinza resultado da forte presena de

    dixido de nitrognio e partculas contaminantes na atmosfera, tendo os nveis de

    contaminao referenciados sido superados pelo menos sete vezes at a reportagem.

    1 III Conferncia Curt Nimuendaj, ltimas notcias sobre a destruio do mundo, com Eduardo

    Viveiros de Castro, pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, evento promovido pelo Centro de Estudos Amerndios CestA, vinculado Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo, proferida em 6 de dezembro de 2013, na Biblioteca Brasiliana, Auditrio Istvn Jancs USP. Transcrio da fala extrada da internet de 200.144.182.130/cesta/ndex.php/PT/vdeos, em dezembro de 2013 e janeiro de 2014. 2 Conforme o conferencista, a citao epgrafe da conferncia ltimas notcias sobre a destruio

    do mundo, extrada de um livro recente de Bruno Latour 3 Extrado de http://ne10.uol.com.br/canal/cotidiano/internacional/noticia/2013/12/10/poluicao-do-ar-deixa-barcelona-em-alerta-459627.php, em 11 de dezembro de 2013.

  • 2

    Em 31 de janeiro de 2014, conforme a Reuters Brasil, a usina de

    reprocessamento nuclear de Sellafield, na costa noroeste da Inglaterra, afirmou ter

    detectado um aumento nos nveis de radioatividade e ordenou que todos os

    funcionrios no essenciais ficassem em casa. Apesar disso, a Usina ainda afirmou

    que no h riscos para o pblico em geral e para os trabalhadores. Foi neste local,

    que est passando por um programa de desmantelamento, onde ocorreu o pior

    acidente nuclear da Gr-Bretanha, quando um dos seus reatores pegou fogo em

    1957. Segundo seu vice-diretor, George Beveridge, em declarao de 2009, trata-se

    da mais perigosa instalao industrial da Europa ocidental 4.

    Por toda mdia, o que se pode ler so inmeros exemplos identificados como

    problemas ambientais, os quais, como relatado por Eduardo Viveiros de Castro,

    tornaram-se, mais do que ambientais, problemas de todos. Desde 1988, a

    comunidade cientfica internacional se rene periodicamente, no mbito do Painel

    Intergovernamental de Mudanas Climticas IPCC, criado pela Organizao

    Meteorolgica Mundial (OMM) e vinculado ao Programa das Naes Unidas Para o

    Meio Ambiente (PNUMA), com o objetivo de analisar, de forma exaustiva, objetiva,

    aberta e transparente, a informao cientfica, tcnica e socioeconmica relevante

    para entender os elementos cientficos do risco que supem as mudanas climticas

    provocadas pelas atividades humanas, suas possveis repercusses e as possibilidades

    de adaptao e atenuao 5. Se o IPCC tem sido a base para diversas Conferncias

    Mundiais, em especial as Conferncias das Naes Unidades para o Meio Ambiente e o

    Desenvolvimento (CNUMAD) estabelecer polticas intergovernamentais e mesmo

    dentro de cada governo, Hulme (2009, p.392, apud Bailo, 2013, em fase de

    elaborao6) considera que o Painel (IPCC) representa um novo ambiente de

    operao para a cincia (...), voltada para uma cincia ps-normal, cincia em que os

    fatos soam incertos, os valores esto em disputa, os riscos so altos e as decises 4 Todas as informaes acima extradas, em fevereiro de 2014, de

    BR.reuters.com/article/topNews/idBRSPEAOU01520140131?pageNumber=2&virtualBrandChannel=0&SS=true. 5 Extrado a pgina da internet do IPCC ipcc.ch/organization.shtml#.UvTPWfldW1V, em fevereiro de

    2014, traduzido diretamente do espanhol por mim. 6 Dissertao de mestrado do Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social da Universidade de

    So Paulo de Andr Bailo em fase de elaborao consultada em novembro de 2013 Cincias e Mundos Aquecidos: Redes e Controvrsias Cientficas sobre Mudanas Climticas em So Paulo. A referncia citada pelo autor Hulme, M. Why we disagree about Climate Change undeerstanding controversy, inaction and opportunity (2nd. Ed., p. 392). Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

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    urgentes diferenciando-se da cincia normal newtoniana (Bailo, 2013, em fase de

    elaborao). Santos (2002) acredita que

    hoje mais do que nunca evidente que o universalismo da cincia moderna um particularismo ocidental cuja particularidade consiste em ter poder para definir como particulares, locais, contextuais e situacionais todos os conhecimentos que com ela rivalizam. Disso decorre a constatao de que houve e h outras cincias e outras modernidades no ocidentais e muitos outros conhecimentos que se validam por outros critrios que no o serem cientficos ou serem modernos. [...] O reconhecimento mesmo viciado de outros conhecimentos rivais j uma manifestao de crise de confiana epistemolgica. (SANTOS, 2002, p.14).

    Para Ulrich Beck (2010, pp. 229-30), vivemos em uma sociedade de riscos,

    uma poca em que os aspectos negativos do progresso determinam cada vez mais a

    natureza das controvrsias que animam a sociedade. Corremos riscos dos efeitos

    secundrios da industrializao, do aumento das tecnologias, no mais limitveis

    espacialmente ou socialmente, os quais no podem ser atribudos a pessoas com base

    nas regras da causalidade, da culpabilidade e da responsabilidade em vigor. E conclui,

    quanto s cincias, o que esperar de uma mudana:

    No se trata, pois, de uma cincia de respostas, mas de uma cincia de perguntas. Mas ela tambm pode expor objetivos e normas a um teste de opinio pblica, no contexto de opinies controvertidas, e assim levantar dvidas e torn-las tenaz, dvidas que sempre ficaro afastadas, de modo crnico, do campo da cincia, tradicionalmente cego s conseqncias e perigos. (BECK, 2010, p. 250)

    A observao de como tem se desenvolvido as polticas de meio ambiente no

    Brasil, diante de grandes investimentos empreendidos, pode ser ilustrativa para indicar

    o quanto desta caracterizao de crise est permeada em nosso cotidiano. Assistimos

    a grandes debates oferecidos pelos processos de licenciamento ambiental como,

    apenas para citar de pronto, da construo das Hidreltricas nos rios Jirau e Madeira,

    no Amazonas, a partir de 2009, a construo dos canais de transposio do rio So

    Francisco, iniciada em 2007 e ainda a construo da Usina Hidreltrica de Belo Monte,

    no rio Xingu, Par, que iniciou seus estudos de viabilidade em 1980 e at hoje, apesar

    da licena j concedida, ainda apresenta reveses na sua implantao. Povos indgenas,

    ribeirinhos, pescadores, religiosos e diversos outros grupos reagem s imposies e

    buscam garantir direitos frente aos impactos provocados por grandes obras.

  • 4

    Em maro de 2011, a empresa AES Tiet apresentou a diversos grupos em

    Lorena e regio, no Vale do Paraba, nordeste do estado de So Paulo, um projeto para

    construo e operao de uma Usina Termoeltrica a gs natural com 550 MW de

    potncia, o equivalente necessidade energtica de uma cidade de 2,5 milhes de

    habitantes. A previso que a Usina integre o Sistema Interligado Nacional - SIN,

    devendo gerar energia toda vez que houver necessidade do sistema. Como exigncia

    do rgo ambiental estadual Companhia Ambiental do Estado de So Paulo - CETESB,

    foi elaborado e apresentado um Estudo de Impacto Ambiental EIA para avaliar os

    possveis impactos da Usina. Por ser um grande empreendimento, que deve gerar uma

    srie de gases lanados diretamente na atmosfera, a populao local dedicou especial

    interesse aos estudos de qualidade do ar e disperso atmosfrica apresentados.

    Os estudos feitos ressaltam a qualidade e atualidade das anlises, destacando

    que o estudo de disperso atmosfrica o mesmo exigido pela Agncia Norte-

    Americana de Proteo Ambiental EPA, uma modelagem que permite prever com

    dados conservadores qual ser o impacto sofrido pela atmosfera, concluindo que

    todas as projees apontam para resultados muito abaixo dos padres de qualidade

    do ar exigidos tanto pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente CONAMA quanto

    pelo governo do Estado de So Paulo, sendo portanto um empreendimento seguro.