matrix e o despertar do heroi

Download Matrix E O Despertar Do Heroi

Post on 04-Aug-2015

947 views

Category:

Documents

4 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões. Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual faze

TRANSCRIPT

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma viso diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenmeno cultural, conquistando milhes de admiradores e instigando intensas discusses. Em linguagem descontrada, o autor nos revela a estrutura mitolgica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedio moderna do antigo mito da jornada do heri, e o compara ao processo individual de autorrealizao, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experincia do amor, a morte e o renascer. Podemos ser muito mais que meras peas autmatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstncias, sem conscincia do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heris mticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande heri de nossas prprias vidas.

2

RICARDO KELMER

e o despertar do heriA jornada mtica de autorrealizao em Matrix e em nossas vidas

1 edio impressa: jul/2005 - 3 edio para PDF: jun/2012 Capa: Miragem So Paulo-SP - Brasil - Terra, 3 Pedra do Sol

3

O filme Matrix chegou aos cinemas em 1999, ou seja, um filme do sculo passado. Entretanto, as ideias que ele trouxe esto cada vez mais vivas no mundo do sculo 21: tecnologia, dominao, liberdade, a natureza da realidade... Este livro, porm, pe de lado os aspectos mais bvios nas discusses sobre Matrix e foca naquilo que, para o autor, o grande motivo do sucesso do filme: os fundamentos mitolgicos de seu enredo, mais especificamente o mito da jornada do heri. Contado durante sculos ao redor de fogueiras, esse mito continua a ser contado e recontado, agora nos livros e nas salas de cinema, para que sua mensagem principal nunca se perca: o heri aquele que se realiza a si mesmo. Em que parte do roteiro de sua jornada voc se encontra agora? A sociedade j sabe que voc o Escolhido? Onde esto o Morfeu e a Trinity para ajud-lo? O traidor j apareceu? Seja bem-vindo novamente fascinante aventura de Neo. Dessa vez, porm, voc o acompanhar sob a luz da mitologia e da moderna psicologia do inconsciente. E ver que, na verdade, o heri est do outro lado da tela. o mesmo que agora l estas palavras.

4

Ento os deuses, aps criarem a raa humana, entraram numa discusso a respeito de onde esconder as respostas para as questes da vida, para que os seres humanos se vissem forados a procur-las. "Podemos escond-las no topo de uma montanha de difcil acesso" disse um deus. "No" disseram os outros. "Eles logo as encontraro". "Podemos ocult-las no centro da Terra" sugeriu outro deus. "No" replicaram os outros. "Eles logo as encontraro". Outro deus props escond-las no fundo do mar. "L tambm eles logo as encontraro" disseram os outros. Todos se calaram... Depois de algum tempo outro deus sugeriu: "Devemos colocar as respostas s questes da vida dentro dos seres humanos. Eles nunca iro procurar l". E assim fizeram.

A voc que um dia tambm se fez a perguntinha safada

5

NDICE

Apresentao 07 I - Cinema, mito e psicologia 09 II - Toc, toc, toc... Acorde, Neo! 29 III - No existe colher ... 45 IV - Morrendo para vencer ... 69 V - Matrix Reloaded e Matrix Revolutions 90 VI - Os personagens 100 VII - Quadro comparativo 104

6

APRESENTAO

Maio de 1999. O filme Matrix estreia no Brasil e eu, com quinze minutos de exibio, encontro-me atnito, como se uma fora emanasse da tela e me espremesse contra a poltrona. Apesar da supervalorizao dos efeitos especiais e das armas, sinto que estou diante de muito mais que um grande filme de aventura e fico futurista. Percebo que o enredo tem profundas bases mitolgicas e formado por importantes arqutipos do inconsciente coletivo. Saio do cinema atordoado, envolto em mil pensamentos, preciso ver este filme de novo... De fato, voltei mais vezes ao cinema e vi e revi o filme na TV. Um dia deu-se o claro: a histria de Matrix podia perfeitamente ser compreendida como metfora do processo de individuao (neste livro chamarei de autorrealizao) de que nos fala a psicologia junguiana. Se os irmos diretores tinham ou no cincia disso quando criaram o enredo, no importa. O processo todo est l, camuflado em obra de fico. O sucesso mundial reforou minha primeira impresso: Matrix mesmo um fenmeno cultural, lotando cinemas, influenciando comportamentos e provocando discusses sobre tecnologia, dominao cultural, controle social, religio e natureza da realidade. Jamais uma obra artstica unira entretenimento, tecnologia e filosofia em tais dimenses e provocara tanto a mente das pessoas no mundo inteiro. Decidi expressar minha interpretao da obra e, ainda em 1999, comecei a escrever artigos para jornais e sites na internet, procurando discutir aspectos sobre os quais o filme nos fazia pensar como mitologia, psicologia, filosofia, religio, misticismo e tecnologia. Em 2000 fui convidado a falar sobre Matrix durante o Encontro da Nova Conscincia*. Falei sobre a aventura de Neo para um pblico de quinhentas pessoas, comparando-a ao mito da jornada do heri e ao processo de autorrealizao do ser humano, que Jung, o notvel pesquisador da alma, descobriu em seus estudos e no atendimento psicolgico a seus pacientes e denominou processo de individuao. Desde ento recebo convites de variados lugares para falar sobre o filme dentro dessa viso mitolgico-psicolgica, o que7

confirma que Matrix exerce um notvel fascnio sobre muitas pessoas, jovens e adultos, no apenas fs de fico futurista ou manacos por computadores. Como o segundo e o terceiro filmes da srie no trouxeram muitos elementos novos para a anlise que faremos aqui, ns nos concentraremos mais no filme inicial pois ele contm os elementos principais da ideia sobre a qual fala este livro. Minha inteno utilizar a estrutura mitolgica do enredo de Matrix (a jornada do heri) para falar de um tema que considero imprescindvel nas discusses mais profundas sobre o ser humano: a questo do autoconhecimento psicolgico como fator indispensvel para a verdadeira realizao pessoal. Pretendo, dessa forma, mostrar s pessoas que podemos sim, cada um de ns, sermos os grandes heris de nossas prprias vidas, ou seja, nos realizarmos da forma mais ntima e verdadeira possvel. Para isso, porm, precisaremos fazer como Neo em Matrix: despertar, conhecer nossas possibilidades e assumir nosso destino. Usando um filme que sucesso mundial, alm de ser considerado um marco na histria do cinema, creio que fica mais fcil levar esta questo ao grande pblico e no somente aos que se interessam por mitologia e psicologia. Espero que meu livro possa lhe ser til.

RK Rio de Janeiro, maio de 2005

* Festival multicultural que acontece anualmente nos dias de carnaval em Campina Grande, Paraba, e que rene representantes de diversas reas da cincia, da arte, da filosofia e das tradies espirituais.

8

I Cinema, mito e psicologia

resumo do filmeNo futuro a Inteligncia Artificial, uma avanada gerao de mquinas pensantes, entra em guerra contra os humanos e vence. Como praticamente no h mais fontes de energia no planeta, os corpos dos humanos sobreviventes so usados para manter as mquinas funcionando. Para que eles no percebam o que acontece, a Inteligncia Artificial faz uso da Matrix, um superprograma de realidade virtual ao qual so conectadas as mentes dos humanos. Dessa forma, adormecidos e indefesos, os humanos dormem e vivem um sonho coletivo onde o mundo como era no final do sculo 20. Um grupo de humanos, porm, despertou e mantm-se fora da realidade virtual. Eles se escondem das mquinas, invadem o sistema e tentam fazer as pessoas despertarem. Esses rebeldes creem na profecia do Orculo que diz que o Predestinado um dia vir para destruir a Matrix e libertar a espcie humana de sua priso mental. Eles acreditam que Neo, um jovem que vive na Matrix, o Predestinado. Neo de fato desconfia que h algo errado com a realidade mas no pode aceitar que ele seja o to aguardado salvador. Comea ento sua guerra, contra a Matrix e contra si prprio.

escravos da prpria criao O filme Matrix entra para a histria como uma das obras que mais simbolizam o esprito de nossa poca, onde a espcie humana festeja e glorifica a suprema tecnologia mas ao mesmo tempo comea a despontar no horizonte uma ameaa que nos aterroriza: a possibilidade de nos tornarmos escravos de nossa prpria criao. De certa forma j somos escravos. A tecnologia atual nos faz9

depender das mquinas para quase tudo no dia a dia, desde o momento em que acordamos at a hora de dormir. Muitos inclusive s conseguem dormir se houver ar condicionado, ventilador, calefao, msica no rdio ou com a TV ligada. Faa um teste: da prxima vez que faltar energia eltrica, perceba como as pessoas se comportam. como se de repente a vida ficasse suspensa. Muitos simplesmente no sabem o que fazer e andam de um lado para outro feito zumbis, como se aguardassem uma ordem para voltar a funcionar. Outros saem no escuro procura de fsforos ou isqueiros, praguejam por ter esquecido onde guardaram aquele resto de vela e chegam ao cmulo de pressionar o interruptor de luz quando entram na cozinha para procurar fsforos, to automtico esse gesto se tornou. Panes eltricas geram srios contratempos, verdade, mas at mesmo elas podem trazer benefcios. L em casa, por exemplo, quando faltava luz, amos para o quintal e deitvamos no cho para olhar o cu e procurar estrelas cadentes. Meu pai e eu discutamos sobre o Universo ser ou no infinito, a velocidade da luz, as galxias... A imensido do Cosmos nos inspirava certa reverncia, nos fazendo lembrar do quo pequenos somos. Quando a energia voltava eu sempre estava mais calmo. s vezes, naqueles poucos minutos, conversvamos mais que durante o ms inteiro. A pane eltrica, ironicamente, forava a famlia a se reunir. O desenvolvimento tecnolgico importante. A espcie humana s sobreviveu at os