MATO GROSSO NOS ESTUDOS HISTORIOGRÁFICOS

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  • Revista Territrios & Fronteiras, Cuiab, vol. 5, n. 2, jan-jul., 2012

    MATO GROSSO NOS ESTUDOS HISTORIOGRFICOS MATO GROSSO IN HISTORIOGRAPHICAL STUDIES

    Otavio Canavarros Maria Adenir Peraro Fernando Tadeu de Miranda Borges Vitale Joanoni Neto Universidade Federal de Mato Grosso Correspondncia: Programa de Ps-Graduao em Histria Av. Fernando Corra da Costa, n 2367 - Bairro Boa Esperana - Cuiab - MT - 78060-900 E-mail: otaviocanavarros@terra.com.br / adperaromt@hotmail.com / jneto@uol.com.br Resumo: Este artigo destaca em linhas gerais a produo historiogrfica de Mato Grosso e busca contribuir com o alargamento da pesquisa histrica numa rea de fronteira em que pesquisadores provenientes das mais diversas regies do pas debruaram-se sobre a escrita da histria regional. Palavras-chave: Mato Grosso; produo historiogrfica; histria regional.

    Abstract: This article highlights outline the historical production of Mato Grosso and seeks to contribute to the enlargement of historical research in a frontier area in which researchers from the various regions of the country have focused on the writing of regional history. Keywords: Mato Grosso; historical production; Regional History

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    Apontamentos Iniciais Nas reflexes sobre a produo historiogrfica de Mato Grosso optamos inici-

    almente por trazer uma breve apresentao dos trabalhos realizados pelos arquivos e ins-tituies de pesquisas: Instituto Histrico e Geogrfico de Mato Grosso (IHGMT)1, Academia Mato-Grossense de Letras2, Arquivo Pblico de Mato Grosso (APMT)3 e Instituto do Patrimnio Histrico e Arquitetnico Nacional (IPHAN),

    As revistas do IHGMT e da Academia Mato-Grossense de Letras, desde sua fundao aos dias atuais, particularmente os catlogos4, publicaes avulsas5, homena-gens a personagens com destaque para Lenine Pvoas6 e lbuns comemorativos aos jubileus, tem sido consideradas importantes fontes de consulta7. Um conjunto de obras de scios e de patronos8 pode ser encontrado, a exemplo das obras de Jos de Ms-quita9, que nos ltimos anos tem sado do IHGMT, para acompanhar os estudos de historiadores e estudiosos interessados em pesquisar a respeito da histria das origens e prticas jurdicas em Mato Grosso10, sobre personagens femininas11 e famlias.12 Cita-mos a ttulo de ilustrao a tese de Renilson Rosa Ribeiro, sobre o Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro e a inveno da idia de Brasil Colnia no Brasil Imprio, em que dis-cute a nacionalidade, a partir de Francisco Adolfo de Varnhagem.

    O Arquivo Pblico de Mato Grosso (APMT), um dos arquivos estaduais que possui o maior volume de documentos sobre os perodos colonial, imperial e republi-

    1 O IHGMT foi fundado em 1919. 2 A Academia Mato-Grossense de Letras data de 1932, tendo sua origem no Centro Mato-Grossense de Letras criado no ano de 1921. 3 O Arquivo Pblico de Mato Grosso (APMT) um dos arquivos estaduais que possui o maior volume de documentos sobre os perodos colonial, imperial e republicano. 4 SIQUEIRA, Elizabeth Madureira (Org.). Catlogo das Revistas do Centro Mato-Grossense de Letras e da Academia Mato-Grossense de Letras (1922-1996). Casa Baro de Melgao. Cuiab: Grfica Defanti, 1999. 5 A coleo Publicaes Avulsas destaca-se pelas Monografias pelos Relatos e Biografias. 6 PVOAS, Lenine de Campos. O ciclo do acar e a poltica de Mato Grosso. Cuiab: IHGMT, 2000. 7 Jubileu dos 90 anos do IHGMT (Jubileu de lamo) 1919-2009. Instituto Histrico e Geogrfico de Mato Grosso. Cuiab: Entrelinhas/FAPEMAT, 2010. 8 Citamos o portugus Jos Barbosa de S, patrono n 1 do Centro Mato-Grossense de Letras que escreveu uma das crnicas basilares dos primrdios das minas e do povoamento de Cuiab, denominada Relao das povoaes do Cuiab e Mato Grosso de seus princpios at os presentes tempos. 9 Consultar: Revista do IHGMT Cuiab, TOMO CXXXVII-CXXXVIII, Ano LXIV, 1992. 10 MACHADO FILHO, Oswaldo. Os jogos da responsabilidade penal e da determinao psicolgica em Jos de Mesquita: as mulheres e os crimes clebres em Mato Grosso - sculo XIX. Territrios e Fronteiras. v. 05, n.2, 2004, p.171-206. 11 PINTO, Luiz Renato de Souza. Rica/Bendita;Pobre/Mal-dita: As cores da mulher em Jos de Mesquita (1915-1961). Cuiab, 2005. Dissertao (Mestrado) Departamento de Histria, Programa de Ps-Graduao Mestrado em Histria, ICHS, UFMT. 12 ALENCAR, Adauto. Roteiro Genealgico de Mato Grosso. volumes1-4. Cuiab: Genus; Defanti, s.d.

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    cano. Das publicaes do APMT, encontram-se as revistas do Arquivo Pblico, edita-das ao longo da dcada de 1980 e livros publicados em parceria com o Instituto do Patrimnio Histrico e Arquitetnico Nacional (IPHAN). O APMT em parceria com o Departamento de Histria da UFMT, sob a coordenao de Cndido Moreira Rodrigues13, organizou em 2008 o colquio 200 anos da vinda da Famlia Real para o Brasil: Mato Grosso na formao da nao brasileira.

    A Trajetria da Pesquisa Histrica nas Instituies de Ensino Superior de Mato Grosso.

    Na segunda metade do sculo XX, em Mato Grosso, um dos marcos da

    pesquisa histrica diz respeito criao do Departamento de Histria e do Ncleo de Documentao e Informao Histrica Regional (NDIHR)14, em 1975, no campus de Cuiab da Universidade Federal de Mato Grosso. Tambm como marco destes lti-mos quarenta anos, na dcada de 1980, foram criados, no Campus Pedaggico de Rondonpolis da Universidade Federal de Mato Grosso, o Departamento de Histria e o Ncleo de Documentao Otvio Canavarros;15 em Cceres, o Departamento de Histria e o Ncleo de Documentao de Histria Escrita e Oral (NUDHEO) da Uni-versidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) foram criados no incio da dcada de 1990.

    As linhas de pesquisa que foram desenvolvidas no Departamento de Histria e no NDIHR da UFMT, na dcada de 1980, e agregaram professores e tcnicos admi-nistrativos em torno delas so destacadas a seguir: Poltica colonial portuguesa na fronteira Oeste do Brasil; As minas de Cuiab; primeiros tempos; A insero do indio na sociedade nacional; A economia aucareira em Mato Grosso sculos XVIII, XIX e XX; Elaborao de material didtico instrucional de Histria de Mato Grosso para o ensino de 2 grau; Preparao de Instrumentos de trabalho para os estudos sobre a regio; Levantamento de Fontes Primrias do Arquivo da Delegacia do Ministrio da Fazenda de Mato Grosso.

    13 RODRIGUES, Cndido Moreira. (Org). 200 anos da vinda da Famlia Real para o Brasil: Mato Grosso na formao da nao brasileira. Cadernos de Memria. Cuiab: APMT, 2009. 14 O Ncleo de Documentao e Informao Histrica Regional NDIHR- teve seu projeto elaborado e aprovado no ano de 1975 tendo na equipe de elaborao: Clia Camargo De Simone,Therezinha de Jesus Arruda, Maria Ceclia Guerreiro de Sousa, Oswaldo Seva e consultores: Ana Maria de Almeida Camargo, Clia Camargo De Simone e Raquel Glezer. A Revista eletrnica do NDIHR, Documento /Monumento, criada no ano de 2009 pode ser acessada no site: http:ufmt.br/ndihr/revista/ 1744):?? 15 O Departamento de Histria, campus de Rondonpolis, foi criado no ano de 1985. Em 2005, o Colegiado de Departamento aprovou um projeto que criou o Ncleo de Documentao Otvio Canavarros. Dentre a produo deste Departamento, destacamos o peridico Coletneas de Nosso Tempo, cujo primeiro nmero remonta ao ano de 1997.

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    Vale lembrar que poca a UFMT recebeu os seus primeiros professores, ori-undos na sua maior parte, dos mais variados estados brasileiros, que acompanhavam o movimento de deslocamento populacional rumo ao Centro-Oeste do pas com um imenso desejo de conhecer, de criar, e de engajar-se no mercado de trabalho.

    Do encontro desses professores, no Departamento de Histria da UFMT, na dcada de 1980, frutificaram pesquisas, dissertaes e teses, com objetos de estudo so-bre a Poltica Colonial Portuguesa na Fronteira Oeste do Brasil, Mo-de-Obra In-dgena, Escravido, Criana Negra, Movimentos Sociais, Atividades Indus-triais, Relao CidadeCampo e Poltica Internacional, discutidas em Cursos de Especializao e apresentadas em seminrios e em publicaes 16, a exemplo da Revis-ta da UFMT e em peridicos do Jornal do NDIHR.

    Tais estudos se encontravam em sintonia com as pesquisas em voga, relaciona-das, na sua quase totalidade, ao campo da Histria Econmica Brasileira e Regional, e preocupadas com a histria enquanto modo privilegiado de acesso compreen-so/explicao do social. Nesse aspecto o campo econmico era considerado o lugar privilegiado para as mudanas.

    Nesta seara, localizamos as pesquisas pioneiras de Alfredo de Mota Mene-zes17, voltadas ao cenrio das relaes do Brasil com pases sul-americanos, particular-mente, o Paraguai, a exemplo de A herana de Stroessner: Brasil-Paraguai: 1955-1980 e Do Sonho Realidade: a integrao econmica latino-americana.

    A Universidade de So Paulo (USP), dentre as melhores do mundo, nesse Peri-odo, j se destacava como centro de produo do conhecimento e dotado do nico curso de doutorado do pas, e para onde, dirigiam-se grande parte dos professores da UFMT.

    Neste sentido citamos os livros A conquista da terra no universo da pobreza: a forma-o da fronteira Oeste do Brasil, de Luiza Rios Ricci Volpato18 e Mato Grosso: trabalho es-cravo e trabalho livre (1850-1888), de Lcia Helena Gaeta Aleixo19. O trabalho de Volpa-to considerado determinante para os estudos de Mato Grosso Colonial por contri-buir com a abertura da discusso acerca de Mato Grosso no mbito do quadro do Na-

    16 BOAVENTURA, Toms de Aquino S. A viso do governo portugus do Mato Grosso da segunda metade do sculo XVIII: uma anlise das Instrues de Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cceres. Cuiab: PROED/UFMT, 1987. ASSIS, Edvaldo de. Contribuio para o estudo do negro em Mato Grosso. Cuiab: UFMT: PROED, 1988, BANDEIRA, Maria de Lourdes. Territrio negro em espao branco-estudo antropolgico de Vila Bela. So Paulo: Brasiliense, 1988; CASTRO, Maria Ins Malta; ALEIXO, Lcia Helena Gaeta. Memria histrica da indstria de Mato Grosso. Cuiab: FIEMT: UFMT, 1987. 17 MENEZES, Alfredo da Mota. A herana de Stroessner: Brasil e Paraguai, 1955-1980. Campinas: Papirus, 1987; Do Sonho Realidade: a integrao econmica latino-americana. So Paulo: Alfa mega, 1990 18VOLPATO, Luiza Rios Ricci. A Conquista da terra no universo da pobreza: a formao da fronteira Oeste do Brasil. So Paulo: Hucitec: Braslia: INI, 1987. 19 ALEIXO, Lcia Helena Gaeta. Mato Grosso: trabalho escravo e trabalho livre (1860-1888). Braslia: Ministrio da Fazenda, Diviso de Documentao, 1983.

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    tigo Sistema Colonial e do conceito de poltica de fronteira. Na pesquisa de Aleixo, vem tona, a discusso sobre a economia mato-grossense e a diversidade de ativida-des agrcolas e fabris, desenvolvidas pelos homens livres e escravos na Provncia de Mato Grosso.

    Valmir Batista Correa20, Lcia Salsa Correa21 e Gilberto Luiz Alves22 destacam-se, igualmente, ao trazer para a academia estudos acerca da formao, desenvolvi-mento e navegao fluvial da Provncia sob a gide do capital financeiro, respectiva-mente.

    Diversos outros importantes estudos so lembrados, principalmente, por tradu-zirem a pujana das linhas de pesquisa do Departamento de Histria e do Ncleo de Documentao e Informao Histrica Regional (NDIHR), da UFMT, entre os quais ressaltamos os estudos de Carlos Francisco Moura23, Therezinha de Jesus Arruda24, Carlos Alberto Rosa25 sobre o perodo colonial, notadamente, o arraial de Cuiab, os aspectos do comrcio26 e as naes indgenas do Pantanal.

    Elmar Figueiredo de Arruda,27 em Formao do Mercado Interno de Mato Grosso, sculo XVIII, contribui para o debate sobre Mato Grosso Colonial, ao rebater a noo divulgada na historiografia sobre o declnio da minerao no sculo XVIII. O livro, Do Extrativismo Pecuria: algumas observaes sobre a histria econmica de Mato Grosso, 1870 a 193028, de Fernando Tadeu de Miranda Borges, tornou-se referncia, ao discutir a insero do Centro-Oeste na ordem capitalista mundial. No livro Economia Brasileira:

    20CORREA, Valmir Batista Correa. Mato Grosso: 1817-1840 e o papel da violncia no processo de formao e desenvolvimento da Provncia. So Paulo, 1976. Dissertao (Mestrado) Departamento de Histria, FFLCH; Coronis e Bandidos em Mato Grosso (1889-1943) So Paulo, 1981. Tese (Doutorado). Departamento de Histria, FFLCH. 21 CORREA, Lcia Salsa. Corumb: um ncleo comercial na fronteira de Mato Grosso, 1870-1920. So Paulo, 1981 Dissertao (Mestrado) Departamento de Histria, FFLCH. 22 ALVES, Gilberto Luiz. Mato Grosso e a Histria: 1870-1929 (Ensaio sobre a transio do domnio econmico da casa comercial para a hegemonia do capital financeiro). In: Boletim Paulista de Geografia. So Paulo. v. 2, n.6, 1984, p. 5-81. 23 MOURA, Carlos Francisco. D. Antonio Rolim de Moura - Primeiro Conde de Azambuja. Cuiab: UFMT, 1982; Arraial do Cuiab, Vila Real do Senhor Bom Jesus (1719-1727). Cuiab, 1979; A contri-buio naval formao do Extremo Oeste. Rio de Janeiro, 1986. 24 ARRUDA, Therezinha de Jesus; SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. Mo de obra-indgena ao p da obra: a presena do ndio no processo produtivo do Brasil Colnia. Revista Universidade. ano IV, n. 2, 1984 e ARRUDA, Therezinha de Jesus. Mato Grosso colonial: pistas para uma abordagem alternativa. Revista Universidade. ano III, n.1, 1983. 25 ROSA, Carlos Alberto. O comrcio da conquista. Revista Universidade. ano II, n.01,1982, p.33-42. 26 BORGES, Fernando Tadeu de Miranda. Do extrativismo pecuria: algumas observaes sobre a histria econmica de Mato Grosso, 1870 a 1930. So Paulo: Scortecci , 1991. 27 ARRUDA, Elmar Figueiredo de. Formao do Mercado Interno em Mato Grosso, sculo XVIII. So Paulo: PUC, 1987. 28 Dissertao de mestrado defendida na USP em 1991 e publicada em forma de livro no mesmo ano: BORGES, Fernando Tadeu. Do Extrativismo Pecuria: algumas observaes sobre a Histria Econmica de Mato Grosso, 1870 a 1930. So Paulo: Scortecci, 1991.

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    Posies Extremas, de Borges, um debate importante merece ser refletido e ampliado no mbito da historiografia mato-grossense, tendo em vista que as concepes que preva-leceram sobre o desenvolvimento mato-grossense em grande medida tenderam [...] a se polarizar, alguns privilegiando os fatores externos e outros os fatores internos, embora grande parte dos autores reconhea que ambos atuam simultaneamente como determinantes das caractersticas do desenvolvimento de Mato Grosso29. Em tais ps-quisas, o sistema capitalista continuaria a ser a grande explicao para a realidade so-cial. Eventos e fatos seriam relacionados s fases do capitalismo. Do ponto de vista terico-metodolgico, as referidas pesquisas revelavam a influncia do marxismo, at-entando na compreenso das sociedades tomadas para estudo, no caso, Mato Grosso.

    Estas pesquisas acompanhavam os interesses acadmicos de analisar a natu-reza das relaes entre Portugal e a Colnia portuguesa na Amrica. Nesta linha de pesquisa citamos a importncia do dilogo do Departamento de Histria com Alcir Lenharo, que em sua estada como professor visitante na UFMT, no final da dcada de 1970, dentre vrias contribuies, deixou como legado, os livros Crise e Mudana na frente Oeste de colonizao: um estudo sobre as relaes mercantis de Mato Grosso com o litoral e Colonizao e trabalho no Brasil: Amaznia, Nordeste e Centro-Oeste30.

    As dissertaes de mestrado de Maria de Ftima Costa31, Tanque Novo: a di-menso poltica de um movimento religioso MT (1930 1934) e A Rusga em Mato Grosso: edio crtica de documentos histricos, de Elizabeth Madureira Siqueira32, permitiram a demonstrao da pujana dos arquivos locais, como o APMT. Aqui as massas, mer-gulhadas na obscuridade, foram recuperadas em meio ao movimento messinico lider-ado por Dona Doninha e Rusga, este, um movimento regencial ocorrido em Cuiab, ainda a ser revelado no mbito da historiografia nacional. Com Elizabeth Ma-dureira Siqueira33, em O Processo Histrico de Mato Grosso, passa a ocorrer uma aproxi-mao mais consistente entre o saber acadmico e o saber escolar, para alm dos um-ros da UFMT.

    E ainda, alguns outros trabalhos tornaram-se igualmente referncia na historio-grafia regional por expressarem com toda fora as marcas das relaes conflituosas

    29BORGES, Fernando Tadeu de Miranda. Economia Brasileira: Posies Extremas. Cuiab: Genus, 1992, p. 29-33. 30 LENHARO, Alcir. Crise e mudana na frente Oeste de colonizao. Cuiab: Imprensa Universitria: UFMT: PROEDI, 1982. (Coleo Ensaios) e Colonizao e trabalho no Brasil: Amaznia, Nordeste e Centro-Oeste. 2 ed. Campinas: EdUNICAMP, 1986. Sobre o legado de Alcir Lenharo para a historiografia de Mato Grosso, consultar: Revista Territrios e Fronteiras. v. 2, n. 2, Jul/Dez.,2001. 31 COSTA, Maria de Ftima. Tanque Novo: a dimenso poltica de um movimento religioso MT 1930 1934. Braslia, 1987. Dissertao (Mestrado). Departamento de Histria da Universidade de Braslia,UNB. 32 SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. A Rusga em Mato Grosso: edio crtica de documentos histricos. So Paulo: 1992. Dissertao (Mestrado). Departamento de Histria, FFLCH. 33 Siqueira, Elizabeth Madureira. O Processo Histrico de Mato Grosso. Cuiab: Ed. Guaicurus,1990.

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    entre cidade-campo como os de Joo Mariano de Oliveira,34 A esperana vem na frente: contribuio ao estudo da pequena produo em Mato Grosso, o caso de SINOP; Regina Beatriz de Guimares Neto35, A lenda do ouro verde: poltica de colonizao no Brasil con-temporneo e Eudson de Castro Ferreira36, Posse e Propriedade: a luta pela terra em Mato Grosso. Inovaram sob o ponto de vista terico-metodolgico pela temtica e por incor-porar o uso de fontes orais, ainda escassas nas universidades brasileiras da poca.

    A capacitao de professores, na dcada de 1990, foi mantida e possibilitou aos Departamentos de Histria da UFMT, em Cuiab e Rondonpolis, uma diversi-ficao de paradigmas, do ponto de vista terico-metodolgico, em que mesclavam-se paradigmas de explicao dominantes: o Marxismo e a Escola dos Annales, refletindo na ampliao dos eixos temticos de pesquisas histricas.

    Luiza Rios Ricci Volpato, em Cativos do Serto: vida cotidiana e escravido em Cuiab: 1850-188837, contribuiu de maneira decisiva na abertura de novas fontes para a interpretao da escravido urbana em Mato Grosso.

    Estudos sobre as naes indgenas foram implementados por Edir Pina de Bar-ros, Joana Fernandes38, Maria de Ftima Roberto e Denise Maldi Meireles39, que de-senvolveram atividades de ensino e pesquisa junto ao Departamento de Histria, prin-cipalmente, atividades de ensino-pesquisa e extenso junto ao Museu Rondon (Museu do ndio), da UFMT.

    Tais pesquisas tornaram-se importantes referncias na elaborao de trabalhos sobre a temtica indgena, como o de Lilya da Silva Guedes Galetti 40 que anos mais tarde, em sua tese de doutorado, Nos Confins da Civilizao: serto, fronteira e identidade nas representaes sobre Mato Grosso, discutiu as imagens construdas pelos olhares etno-cntricos dos viajantes e autoridades provinciais de Mato Grosso. Dentro da temtica indgena, ressaltamos os trabalhos de Paulo Augusto Mrio Isaac,41 Educao Escolar

    34 OLIVEIRA, Joo Mariano. A esperana vem na frente: contribuies ao estudo da pequena produo em Mato Grosso, o caso Sinop. So Paulo, 1983 Dissertao (Mestrado) Departamento de Geografia, FFLCH. 35 GUIMARES NETO, Regina Beatriz. A lenda do ouro verde: poltica de colonizao no Brasil Contemporneo. Cuiab: UNICEM, 2002. (Coleo Tibanar de estudos mato-grossenses 2). 36 FERREIRA, Eudson de Castro. Posse e propriedade territorial: a luta pela terra em Mato Grosso. Campinas, 1986. Dissertao (Mestrado) UNICAMP. 37 VOLPATO, Luza Rios Ricci. Cativos do serto: vida cotidiana e escravido em Cuiab: 1850-1888. So Paulo: Editora Marco Zero: Cuiab: EdUFMT, 1993. 38 FERNANDES, Joana. ndio-Esse Nosso Desconhecido.Cuiab: EdUFMT, 1993. 39MEIRELES, Denise Maldi. Guardies da fronteira: Rio Guapor, sculo XVIII. Petrpolis: Vozes, 1989. 40GALETTI, Lilya da Silva Guedes. Nos Confins da Civilizao: serto, fronteira e identidade nas representaes sobre Mato Grosso. So Paulo, 2000. Tese (Doutorado) Departamento de Histria, FFLCH. 41 ISAAC, Paulo Augusto Mauro. Educao Escolar Indgena Be-Bororo - Alternativa e Resistncia em Tadarimana Cuiab, 1997. Dissertao (Mestrado) Instituto de Educao da UFMT;_____. Modo de

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    Indgena Be-Bororo - Alternativa e Resistncia em Tadarimana e Modo de Existir: Terenas na Comunidade multitnica que vive em Mato Grosso; a dissertao de mestrado de Odemar Leotti42, Labirinto das Almas: Poltica Indigenista em Mato-Grosso (1831-1895). A Diretoria Geral dos ndios; a tese de doutorado de Thereza Martha Borges Presotti43, Nas Trilhas das guas. ndios e Natureza na conquista colonial do centro da Amrica do Sul: Sertes e Mi-nas do Cuiab e Mato Grosso (Sculo XVIII); e a dissertao de Mestrado de Maria Ins Malta Castro, O Preo do Progresso. A Construo da estrada de Ferro Noroeste do Brasil (1905-1914), pormenorizando tenses e extermnio da populao indgena em uma re-lao de confronto entre civilizao e barbrie de nome progresso.

    As publicaes na linha Documentao, Percorrendo manuscritos: entre Langsdorff e DAlincourt, de Maria de Ftima Costa e, Viajando nos bastidores: documentos de viagem da expedio Langsdorff, de Maria de Ftima Costa e Pablo Diener, inaugu-raram a linha de pesquisa,Viajantes nos sculos XVIII ao XIX na Amrica Meridio-nal44.

    Ainda na linha Documentao, citamos pesquisas voltadas aos estudos sobre Educao e Memria, de Elizabeth Madureira Siqueira e Nicanor Palhares S, com desdobramentos na confeco de arranjo de arquivos voltados preservao da me-mria local e regional. Tambm de Elizabeth Madureira Siqueira a tese de doutorado, Luzes e Sombras: modernidade e educao pblica em Mato Grosso45. A temtica Educao e Memria foi ampliada com os estudos dos historiadores Laci Maria Arajo46, em O processo de expanso escolar em Mato Grosso (1910-1946): uma abordagem histrica e Memria e Patrimnio histrico em Rondonpolis; Maria Elsa Markus Alves47, em Conselho de pais e mes: o desafio participativo numa proposta de democratizao da escola pblica e Ivanildo Jos Ferreira em, Direitos Humanos e Educao Popular. Carlos Amrico

    Existir Terenas na Comunidade multitnica que vive em Mato Grosso. So Paulo, 2004. Tese (Doutorado). PUC/SP. 42 LEOTTI, Odemar. Labirinto das Almas: Poltica Indigenista em Mato Grosso (1831-1895). A Diretoria Geral dos ndios. So Paulo, 2001 Dissertao (Mestrado) UNICAMP. 43 PRESOTTI, Thereza Martha. Nas Trilhas das guas..ndios e Natureza na conquista colonial do centro da Amrica do Sul: Sertes e Minas do Cuiab e Mato Grosso (Sculo XVIII).Braslia, 2008. Tese (Doutorado) Departamento de Histria da UNB. 44 COSTA, Maria de Ftima (Org.). Percorrendo manuscritos: entre Langsdorff e DAlincourt.Cuiab; Editora Universitria, 1993; COSTA, Maria de Ftima e DIENER, Pablo. Viajando nos bastidores: documentos de viagem da Expedio Langsdorff. Cuiab: EdUFMT, 1995; 45 Tese defendida no Instituto de Educao, UFMT, em 1999 e publicada: SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. Luzes e sombras: modernidade e educao pblica em Mato Grosso ( 1870-1890). Cuiab: INEP: COMPED: EdUFMT, 2000. 46ARAJO, Laci Maria. O processo de expanso escolar em Mato Grosso (1910-1946): uma abordagem histrica. Dissertao, 1994 (Mestrado) Instituto de Educao da UFMT. 47ALVES, MARIA ELZA MARKUS. Conselho de pais e mes: o desafio participativo numa proposta de democratizao da escola pblica. Cuiab, 1997 Dissertao (Mestrado) Instituto de Educao da UFMT.

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    Bertolini48 em, Encenaes patriticas: a educao e o civismo a servio do Estado Novo (1937-1945, abordou o carter pedaggico das encenaes que representavam as imagens de unanimidade nacional e de harmonia social, diretrizes tericas da ao educacional do Estado Novo.

    Os Mapas de Habitantes de Mato Grosso (1768-1872), de Edvaldo de Assis49 e estu-dos embasados em registros eclesisticos, de Maria Adenir Peraro50, possibilitaram a abertura de linhas de pesquisa voltadas a temtica sobre populao e instituies, famlias, igreja e exrcito. Tambm na linha de pesquisa sobre populao, insere-se o trabalho de Jovam Vilela da Silva51, ao discutir a composio da populao de Mato Grosso no perodo colonial, caracterizada pela fuso inter-tnica de ndios, negros e brancos.

    Na dcada de 1990, localizamos pesquisas relevantes voltadas aos sculos XVIII e XIX, com temticas sobre a vida urbana colonial, montagem da estrutura ins-titucional de poder nos primrdios da Vila de Cuiab, narrativas de representaes de naturalistas sobre o Pantanal brasileiro, formas de ocupao ao sul da provncia de Mato Grosso, famlias e sociedade poca da Guerra do Paraguai.

    Carlos Alberto Rosa52, em A Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiab, (Vida Urba-na em Mato Grosso no sculo XVIII: 1722-1808, contribuiu para avanar os estudos volta-dos vida urbana colonial como uma das dimenses do processo colonizador. Otvio Canavarros53, em O poder metropolitano em Cuiab (1727-1752,) retomou os estudos so-bre a formao do Imprio colonial lusitano e analisou a montagem da estrutura insti-tucional e o exerccio do poder poltico na Vila de Cuiab. Uma pesquisa que merece ser destacada como resultado do trabalho realizado pelo Departamento de Histria com o NDIHR refere-se a Coletnea de Documentos Raros do Perodo Colonial (1727-1746), dos autores Eliane Maria Oliveira Morgado54, Nileide Souza Dourado, Otvio Cana-varros e Vera Lcia Duarte Macedo, pesquisa esta retomada aps vrias dcadas com

    48BERTOLINI, Carlos Amrico. Encenaes patriticas: a educao e o civismo a servio do Estado Novo (1937-1945). Cuiab, 2000. Dissertao (Mestrado). Instituto de Educao da UFMT. 49ASSIS, Edvaldo de. Os mapas de habitantes de Mato Grosso (1768-1872). Guia de pesquisa. So Paulo, 1994. Dissertao (Mestrado) Departamento de Histria, FFLCH. 50PERARO, Maria Adenir. A populao de Cuiab no final do sculo XIX (1 871-1890), segundo os registros paroquiais (Consideraes preliminares), Cuiab, 1992 (mimeo). 51SILVA, Jovam Vilela. Mistura de cores: poltica de povoamento e populao na capitania de Mato Grosso, sculo XVIII. Cuiab: EdUFMT, 1995. 52 ROSA, Carlos Alberto. A Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiab (Vida Urbana em Mato Grosso no sculo XVIII: 1722-1808) .So Paulo,1996, Tese (Doutorado) Departamento de Histria, FFLCH. 53Tese de doutorado defendida na USP em.1998 com o ttulo: O Poder Metropolitano e seus objetivos geo-polticos no Extremo Oeste (1727-1752) e publicada: CANAVARROS, Otvio. O poder metropolitano em Cuiab (1727-1752). Cuiab: Editora UFMT, 2004. 54MORGADO, Eliane Maria Oliveira et al. Coletnea de Documentos Raros do Perodo Colonial (1727-1746). Volumes I, II, III, IV. Cuiab: EdUFMT e Entrelinhas, 2007.

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    inspirao no projeto Inventrio de Documentos Histricos sobre o Centro-Oeste, Coleo Documentos Ibricos.

    Maria de Ftima Costa55, em Histria de um pas inexistente. O Pantanal entre os sculos XVI e XVIII, trouxe para os estudos histricos a preocupao com as represen-taes de leituras sobre o espao sul-americano, denominado Pantanal. Situamos os estudos de Leny Caselli Anzai56, Doenas e prticas de cura na capitania de Mato Grosso: o olhar de Alexandre Rodrigues Ferreira, sobre doenas endmicas que atingiram os moradores da Capitania de Mato Grosso, em fins do sculo XVIII. E ainda de Leny Caselli Anzai, em parceria com Janana Amado57, a publicao Anais de Vila Bela, 1734-1789, com infor-maes sobre a memria cronolgica da regio do Guapor nos oitocentos.

    Sobre o sculo XIX, Joo Antonio Botelho Lucdio58, em Nos Confins do Imp-rio. Um deserto de homens povoado por bois. (A ocupao do Planalto Sul Mato Grosso, 1830-1870), trouxe tona diferentes vises de serto para detectar as formas de organi-zao de vida no planalto central brasileiro. Lucdio59 tambm escreveu o livro Ofcio e Arte. Fotgrafos e Fotografias em Mato Grosso (1860-1960), trazendo no trabalho uma refle-xo sobre as mudanas ocorridas no espao mato-grossense atravs de imagens foto-grficas. Maria Adenir Peraro60, em Bastardos do Imprio. Famlia e sociedade em Mato Grosso na segunda metade do sculo XIX, percorreu caminhos engendrados no contexto da reproduo da bastardia, durante o perodo de vigncia da Guerra com o Paraguai, abrindo novas perspectivas de estudos sobre famlias e casamentos em Mato Grosso a partir de registros eclesisticos. A temtica guerra, foi discutida no 1 Ciclo Internacio-nal de Conferncias: Guerra do Paraguai e Mercosul um paralelo historiogrfico, realizado pelo Departamento de Histria do campus de Rondonpolis, com resultados publica-dos na revista Coletnea do Nosso Tempo. 61

    55Maria de Ftima Costa. Histria de um pas inexistente. O Pantanal entre os sculos XVI e XVIII. So Paulo: Estao Liberdade: Kosmos,1999. 56ANZAI, Leny Caselli. Doenas e prticas de cura na Capitania de Mato Grosso: o olhar de Alexandre Rodrigues Ferreira .Braslia, 2004 . Tese (Doutorado) Departamento de Histria da UNB. 57AMADO, Janana e ANZAI, Leny Caselli ( Orgs.). Anais de Vila Bela 1734-1789. Cuiab: Carlini & Caniato: EdUFMT, 2006. 58LUCDIO, Joo Antonio Botelho. Nos Confins do Imprio. Um deserto de homens povoado por bois. (A ocupao do Planalto Sul Mato Grosso, 1830-1870). Niteri, 1993. Dissertao (Mestrado). Departamento de Histria do Instituto de Cincias Humanas e Filosofia da Universidade Fluminense. 59LUCDIO, Joo Antonio Botelho. Ofcio e Arte. Fotgrafos e fotografia em Mato Grosso (1860-1960). Cuiab: EdUFMT e Carlini & Caniato Editorial, 2008. 60PERARO, Maria Adenir.Bastardos do Imprio: famlia e sociedade em Mato Grosso no sculo XIX.So Paulo: Contexto, 2001. 61 Revista Coletneas do Nosso Tempo. Departamento de Histria, campus de Rondonpolis. n. 4 e n.5, 2000 -2001.

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    O livro de Oswaldo Machado Filho62, Ilegalismos e Jogos de Poder: um crime cle-bre em Cuiab (1872), suas verdades jurdicas e outras histrias policiais, exemplo de como a histria do acontecimento pode ser rica combinando a histria do tempo curto com as conjunturas e estruturas. Ernesto Cerveira de Sena63, Entre anarquizadores e pessoas de Costumes. A dinmica poltica nas fronteiras do Imprio. Mato Grosso, 1834-1870, contribuiu com o estudo da histria poltica regional ao fornecer vozes aos prprios atores da arena partidria mato-grossense.

    A diversificao dos centros de produo do conhecimento histrico no pas contribuiu para a multiplicao das tendncias historiogrficas, confirmadas na d-cada de 1990 com a implantao de novos Programas de Ps-Graduao, mestrados em Histria, nas regies Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Dentre os Programas de mestrado criados no final da dcada de noventa, destacamos o Programa de Ps-Graduao, Mestrado em Histria - Histria: Territrios e Fronteiras, do Departamento de Histria do ICHS-UFMT, cuja implantao ocorreu no ano de 1999.

    A Produo Historiogrfica do Programa de Ps-Graduao em Histria da UFMT As teses e os projetos de pesquisa dos docentes que viabilizaram a implantao

    da proposta do Programa em seus primeiros cinco anos e os que a ela se agregaram posteriormente, deram uma importante contribuio rea de concentrao do Programa Histria, Territrios e Fronteira e foram decisivos na afirmao das linhas de pesquisa: Territrio e Fronteiras: Temporalidades e Espacialidades e Fronteiras, Identidades e Transculturao.

    O debate intelectual impulsionado pelas linhas de pesquisa encontrava-se em consonncia com a proposta original do Programa e em direo a uma concepo mais abrangente da noo de fronteira. Os projetos contemplaram campos de ps-quisa que abarcaram os perodos colonial, imperial, republicano e contemporneo si-tuados na configurao territorial da Amrica do Sul, da Amaznia e do Centro-Oeste do Brasil.

    A trajetria dos projetos do PPGHis tornou possvel o aprofundamento de ps-quisas relacionadas a temas multifacetados como: Cidades de Minerao64, Vivncias

    62MACHADO FILHO, Oswaldo. Ilegalismos e jogos de poder. Um crime clebre em Cuiab (1872), suas verdades jurdicas e outras histrias policiais. Cuiab: Carlini & Caniato, 2006. 63SENA, Ernest Cerveira de. Entre anarquizadores e pessoas de Costumes. A dinmica poltica nas fronteiras do Imprio. Mato Grosso, 1834-1870. Cuiab: EdUFMT e Carlini & Caniato, 2009, p.09. 64GUIMARES NETO, Regina Beatriz. Cidades da Minerao: memria e prticas culturais. Mato Grosso na primeira metade do sculo XX. Cuiab: EdUFMT: Carlini & Caniato, 2006.

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    Urbanas65, Rios e Cidade66, Garimpos67, Arquivos Eclesisticos68, Arsenal de Guerra e Infncia pobre69; Viajantes nos Sculos XVIII ao XIX na Amrica Meridional70, Indgenas e quilombolas71, Mitos do Pantanal72, Migrao e Colonizao73, Igreja Catlica74, Histria da Leitura75, Cidades da Amaznia76 e Relaes Internacionais 77.

    De 2004 a 2010, as pesquisas temticas, afirmaram-se no Programa e outras foram sendo elaboradas, dando origem a grupos78 e ncleos de pesquisa79, que fomen-

    65ROSA, Carlos Alberto e JESUS, Nauk Maria (Orgs.). A terra da conquista: histria de Mato Grosso. Cuiab: Adriana, 2003; MACHADO FILHO, Oswaldo. Ilegalismos e jogos de poder. Um crime clebre em Cuiab (1872), suas verdades jurdicas e outras histrias policiais. Cuiab: Carlini & Caniato, 2006. 66COSTA, Maria de Ftima e DIENER, Pablo.Cuiab: rio, porto, cidade. Cuiab: Secretaria de Estado de Cultura;Secretaria Municipal de Cultura, 2000; BRANDO, Ludmila de Lima. A casa subjetiva: matrias, afetos e espaos. So Paulo: Perspectiva; Cuiab: SEC de Mato Grosso, 2002. 67BARROZO, Joo Carlos. Garimpos de diamante do Alto Paraguai-Diamantino. Revista Territrios e Fronteira,.Cuiab, v.1, n.1, 2000, p.95-124. 68PERARO, Maria Adenir. As fontes paroquiais: uma experincia de pesquisa. Revista Territrio e Fronteiras. v.01 , n.01, 2000, p.11-24. 69CRUDO, Matilde Araki. Os aprendizes do Arsenal de Guerra de Mato Grosso: trabalho infantil e educao. Cuiab, 1999. Tese (Doutorado) Instituto de Educao, UFMT. 70COSTA, Maria de Ftima. Entre Xarai, Guaicur e Payagu: ritos de vida no Pantanal. In: PRIORE, Mary Del e GOMES, Flvio dos Santos. Os Senhores dos Rios. Amaznia, Margens e Histria. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2003. 71LEITE, Jos Carlos. Agricultura dos quilombolas no Guapor. Conferncia no II Seminrio Nacional- Fronteiras: Identidades, integrao regional e transculturao em Mato Grosso. Cuiab: UFMT, 2006. 72A respeito ver Revista Territrios e Fronteiras. v. 1,n.1,2000, onde consta artigos de : LEITE, Mrio Csar. Silva. O grande livro encantado: aspectos e percepes da natureza, p.191-218; SILVA, Joana Aparecida Fernandes. Tempo, mito e histria em Mimoso, p.253-282. 73 BARROZO, Joo Carlos. Diamantino: do extrativismo agricultura moderna. Cuiab: Albert Editora, 2004. 74JOANONI NETO, Vitale. Fronteiras da crena: da libertao ao carisma: a presena catlica na cidade de Juna (1978-1998). Assis, 2004. Tese (Doutorado). Faculdade de Letras/UNESP/Assis. 75CANAVARROS, Otvio. Prticas de leitura na Biblioteca Universitria. Coletneas do Nosso Tempo. Ano VI, n.6, 2003, p.161-170 76GUIMARES NETO, Regina Beatriz. Vira mundo, vira mundo: trajetrias nmades. As cidades na Amaznia - Mato Grosso. Revista de Ps-Graduao da PUC. v. 27, 2003, p.49-69. 77PENNA FILHO, Pio. Itamaraty e a represso alm fronteiras: o Centro de Informaes do Exterior- CIEX (1966-1986). In: FICO, Carlos et al. (Org.). 1964-2004 40 anos do Golpe-Ditadura militar e resistncia no Brasil. Rio de Janeiro: Sete Letras, 2004, p. 163-169. 78Grupos de pesquisa e respectivos coordenadores: Fronteiras: Identidades, Integrao Regional e Transculturao, desenvolvido no Programa de Apoio ao Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (PADCT), por Pio Penna Filho, entre os anos de 2004 a 2006; Migraes, Culturas e Cidades, na Amaznia Meridional-MT, coordenado por Regina Beatriz Guimares Neto de 2004 a 2008; Mulheres paraguaias, militares e Guerra do Paraguai, por Maria Adenir Peraro, de 2004 a 2009 e depois por Fernando Tadeu de Miranda Borges; Histria e Leitura em Mato Grosso, por Otvio Canavarros, de 2004 aos dias atuais; Histria, Arte , Cincia e Poder, coordenado por Maria de Ftima Costa, de 2005 aos dias atuais; Histria, Terra e Trabalho coordenado por Vitale Joanoni Neto, de 2005 aos dias atuais; Grupo Laboratrio de Estudo da Antiguidade e do Medievo (VIVARIUM,) coordenado por Marcus Cruz, de 2008 aos dias atuais.

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    taram uma importante produo cientfica no Programa e Departamento de Histria, possvel de ser vislumbrada mediante seminrios, cursos de especializao, publica-es em editoras local, nacional e internacional.

    Ao longo de onze anos de produo historiogrfica do Programa, torna-se possvel notar a tendncia de pesquisas identificadas com os paradigmas da Histria Cultural. 80

    A pesquisa de Ana Carolina da Silva Borges81, Nas margens da Histria Meio ambiente e ruralidade em comunidades ribeirinhas do Pantanal Norte (1870-1930), sob a orientao de Oswaldo Machado Filho, denota a qualidade dos estudos avana-dos, nvel mestrado no mbito do PPGHis, que premiou a referida pesquisa com a pu-blicao em forma de livro, em comemorao aos dez anos de existncia do PPGHis/UFMT.

    Esses estudos permitem que tenhamos em mos um instigante painel de como est sendo escrita a Histria de Mato Grosso em tempos histricos distintos, a partir de perspectivas e enfoques diferenciados.

    Nesse aspecto, podemos situar a contribuio historiogrfica de Regina Beatriz Guimares Neto82, com o livro Cidade de minerao, na qual a autora traz fontes orais e fotogrficas da ocupao do antigo leste de Mato Grosso, na primeira metade do s-culo XX por migrantes vindos da Bahia. Outra pesquisa sobre minerao, que desta-camos, refere-se ao trabalho Em busca da pedra que brilha como estrela, de Joo Carlos Barrozo83, onde o autor abordou os garimpos de Alto Paraguai e Diamantino (MT), e recuperou as rotas migratrias de garimpeiros entre Bahia e Mato Grosso. Tambm organizado por Joo Carlos Barrozo84 ressaltamos o livro Diamantino: do extrativismo agricultura moderna, em que so tratados aspectos histricos e sociolgicos dessa cidade e de seu entorno, passando pela presena da Igreja Catlica e pela questo agrria.

    79Ncleo de Pesquisa: Ncleo de Pesquisa em Histria coordenado por Vitale Joanoni Neto, de 2005 aos dias atuais. 80SILVA, Rosani Kellen dos Santos. Levantamento estatstico das dissertaes de mestrado em Histria da UFMT. Cuiab, 2008. Monografia (Graduao) Departamento de Histria, ICHS, p.10. sob orientao de Otvio Canavarros, continua sendo referncia para os anos de 2008 a 2010, quando afirmou que do total das ento 83 das dissertaes estudadas e defendidas entre dezembro de 2000 a fevereiro de 2008, o maior interesse foi pelo estudo da Histria Cultural com 37,34%, vindo a seguir a Histria Poltica com 26,52% e a Histria Social com 20,48%. Quantificadas as dissertaes por temticas, a preferncia maior primou por estudos sobre colonizao/migraes/povoamento, fronteiras, indgenas, mulheres e sade/doena. 81 BORGES, Ana Carolina da Silva. Nas margens da Histria Meio ambiente e ruralidade em comunidades ribeirinhas do Pantanal Norte (1870-1930). Cuiab: EdUFMT/Carlini e Caniato, 2010. 82 GUIMARES NETO, Regina Beatriz. Cidades de minerao. Memria e prticas culturais. Mato Grosso na primeira metade do sc. XX. Cuiab: EdUFMT e Carlini & Caniato, 2006. 83BARROZO, Joo Carlos. Em busca da pedra que brilha como estrela. Garimpos e garimpeiros do Alto Paraguai-Diamantino. Cuiab: EdUFMT/Carlini & Caniato, 2007. 84 BARROZO, Joo Carlos (Org.). Diamantino: do extrativismo agricultura moderna. Cuiab: NERU: UFMT: SMEC: Diamantino, 2002

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    Joo Carlos Barrozo85 organizou ainda a coletnea Mato Grosso: do sonho utopia da terra, uma amostragem do potencial da produo de pesquisas consumadas em disser-taes no PPGHis. Tambm o referido autor86, em co-autoria, junto equipe do N-cleo de Estudos Rurais e Urbanos (NERU), publicou o livro Colonizao oficial em Mato Grosso: a nata e a borra da sociedade, em que traz resultados de pesquisa sobre o processo de ocupao da BR-163, por iniciativa da colonizao dirigida.

    Vitale Joanoni Neto87 em Fronteiras da crena, abordou o processo de coloni-zao, no noroeste de Mato Grosso, entre o final de 1970 e meados de 1980, discutiu as experincias de ocupao realizadas pelo governo estadual, com destaque para a presena da Igreja Catlica, e mediante documentos orais, trouxe as vicissitudes e ES-tratgias da vida dos migrantes. Na coletnea Da esperana do El Dorado degradao do humano Vitale Joanoni Neto88 reuniu relatrios de bolsistas do Programa de Bolsas de Iniciao Cientfica, ligados a projeto desenvolvido pelo Grupo de Estudos Histria, Terra e Trabalho, com temas relacionados ocupao do Estado e efeitos sociais sobre trabalhadores migrantes.

    Destacam-se ainda os trabalhos de mestrado e doutorado de Cristiane Thais do Amaral Cerzosimo Gomes, voltados para a temtica da imigrao italiana em Mato Grosso, ambos produzidos no Programa de Ps-Graduao em Histria da PUC-SP e publicados recentemente em livros.89

    Em Histria, Terra e Trabalho em Mato Grosso: ensaios tericos e resultados de ps-quisa, Marluza Marques Harres90 e Vitale Joanoni Neto, apresentaram os resultados das pesquisas desenvolvidas no Vale do Araguaia mato-grossense tendo como focos a Igreja Catlica, a explorao da fora de trabalho migrante e a pequena propriedade de produo familiar.

    No livro Esperando o trem: Sonhos e Esperanas de Cuiab, Fernando Tadeu de Mi-randa Borges91, fez um amplo levantamento dos sonhos e das esperanas dos habi-

    85 BARROZO, Joo Carlos (Org.). Mato Grosso: do sonho utopia da terra. Cuiab: EdUFMT, 2008. 86CASTRO, Sueli P. et. al. A colonizao oficial em Mato Grosso: a nata e a borra da sociedade. Cuiab: EdUFMT, 2002. 87JOANONI NETO, Vitale. Fronteiras da crena. Ocupao do Norte de Mato Grosso aps 1970. EdUFMT: Carlini & Caniato, 2007 88JOANONI NETO, Vitale (Org.). Da esperana do El Dorado degradao do humano. Mapeamento das redes de resistncia e conivncia em plos irradiadores de trabalho escravo no estado de Mato Grosso. Cuiab: EdUFMT, 2008. 89 O Mestrado foi defendido em 2001 e Doutorado em 2009. Livros: GOMES, C. T. A. C. . Fronteiras de imigrao no caminho das guas do Prata: italianos em Mato Grosso - 1856 a 1914. Cuiab/MT: EdUFMT, 2011. GOMES, C. T. A. C. . Viveres, fazeres e experincias dos italianos na cidade de Cuiab (1890-1930). Cuiab/MT: Entrelinhas/EdUFMT, 2005. 90HARRES, Marluza Marques e JOANONI NETO, Vitale (Orgs.). Histria, Terra e Trabalho. Ensaios tericos e resultados de pesquisas. So Leopoldo: Cuiab: Oikos; UNISINOS:/EdUFMT, 2009. 91BORGES, Fernando Tadeu de Miranda. Esperando o trem: Sonhos e Esperanas de Cuiab. So Paulo: Scortecci, 2005.

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    tantes de Cuiab, Centro Geodsico da Amrica do Sul, que espera, desde 1852, por um trem que nunca chegou. Em Prosas com Governadores de Mato Grosso (1966-2006), Borges92 apresentou os relatos colhidos entre 14 ex-governadores de Mato Grosso, ma-peando o cotidiano do contexto histrico atravs da memria dessas lideranas pol-ticas.

    A temtica relaes internacionais foi foco da ateno de professores do PPGHis. No livro de Alfredo da Motta Menezes93 e Pio Penna Filho, Integrao rgio-nal Os Blocos Econmicos nas Relaes Internacionais, o conceito de integrao econ-mica foi discutido, assim como os seus principais estgios de desenvolvimento em ter-mos de abrangncia e profundidade no mbito da Associao Latino Americana de Livre Comrcio. Tereza Cristina Cardoso de Souza Higa94 organizou o livro Estudos Regionais Sul-Americanos, resultante dos resultados de pesquisa apresentadas no I Semi-nrio Internacional de Estudos Sul-Americanos, realizado na cidade de Cuiab, em 2005, com abordagens sobre fronteiras, economia e integrao regional, diversidade de pai-sagens e aspectos culturais.

    Laci Maria Arajo95 em Movimentos sociais em Mato Grosso: desafios e conquistas, traou um panorama da histria dos movimentos sociais em Mato Grosso, particu-larmente em Rondonpolis, tendo como foco central as Comunidades Eclesiais de Ba-se e suas lutas no perodo de 1974 a 1989. Flvio Antonio da Silva Nascimento96, em Acelerao temporal na fronteira: estudo do caso de Rondonpolis, MT, fez um estudo sobre a ocupao territorial do Vale de So Loureno combinada expanso do capitalismo no territrio nacional.

    No livro Memria da Igreja em Mato Grosso. O arquivo da Cria Metropolitana de Cuiab, de Maria Adenir Peraro97, Elizabeth Madureira Siqueira e Sibele Moraes, Fo-ram contempladas discusses metodolgicas sobre a montagem do arranjo docu-mental, e formas de acesso aos cdices, livros de batismo, crisma, bitos, casamentos e acervo fotogrfico. Em Educao e Modernidade: os salesianos em Mato Grosso, 1894-1919, Adilson Jos Francisco98, discutiu o iderio educativo dos religiosos de Dom

    92BORGES, Fernando Tadeu de Miranda. Prosas com governadores de Mato Grosso 1966-2006. Cuiab: Carlini & Caniato: 2007 93 MENEZES, Alfredo da Motta e PENNA FILHO. Pio. Integrao Regional - Os Blocos Econmicos nas Relaes Internacionais. Rio de Janeiro: Campus, 2006. 94 SOUZA HIGA, Tereza Cristina Cardoso de (Org.). Estudos regionais sul-americanos. Sociocultura, economia e dinmica territorial na rea central do continente. Cuiab: EdUFMT, 2008. 95 ARAJO, Laci Maria. Movimentos sociais em Mato Grosso: desafios e conquistas. Cuiab: EdUFMT, 2008 96 NASCIMENTO, Flvio Antnio da Silva. Acelerao temporal na fronteira: estudo do caso de Rondonpolis, MT. So Paulo, 1997. Tese (Doutorado) Departamento de Histria da FFLCH. 97 PERARO, Maria Adenir et al. Memria da Igreja em Mato Grosso. O arquivo da Cria Metropolitana em Cuiab. Catlogo de documentos histricos. Cuiab: Entrelinhas, 2002. 98 FRANCISCO, Adilson Jos. Educao e Modernidade - Os salesianos em Mato Grosso (1894-1919). Cuiab: EdUFMT: Entrelinhas, 2010.

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    Bosco atuantes em Mato Grosso, desde a primeira Repblica, em sintonia com a disci-plina, racionalidade e educao para o trabalho.

    A Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT)

    Dentre os historiadores da nova gerao que tm ou tiveram vnculos com a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), passamos a destac-los a seguir.

    Romyr Conde Garcia na dissertao de mestrado, defendida em 1995 na USP, Nos descaminhos dos reais direitos: o contrabando entre as capitanias do Rio de Janeiro e Minas Gerais (1770-1790), examina o problema dos desvios ou descaminhos dos produtos das extraes, na rea das Minas Gerais e do litoral fluminense, com todas as implicaes, dos agentes, dos mecanismos, da legislao, das prticas, das representaes e seus desdobramentos e na tese de doutorado, defendida tambm na USP, em 2003, Mato Grosso (1800 1840): crise e estagnao do projeto colonial, caracteriza Mato Grosso como uma regio de encontro das guas. Discorre ainda na pesquisa realizada sobre os principais mitos da historiografia da regio, com destaque para o mito do isso-lamento e o mito no-isolamento, entrando a seguir nos estudos da demografia e da economia.

    Maria de Ftima Mendes Lima de Moraes, na dissertao de mestrado defen-dida em 2003, Vila Maria do Paraguai: espao planejado para consolidar a fronteira Oeste, 1778-1801, estuda o planejamento e a estruturao do espao urbano, com enfoque para as estratgias utilizadas por Portugal para efetivar a poltica de edificao de p-voaes, vilas e fortificaes na Capitania de Mato Grosso.

    Otvio Ribeiro Chaves, com a tese defendida em 2008, sob o ttulo: Poltica de povoamento e a constituio da fronteira Oeste do imprio portugus: a Capitania de Mato Gros-so na segunda metade do sculo XVIII, d nfase aos estudos fronteirios, iniciados por o-casio da defesa de pesquisa de mestrado, na Universidade Federal da Bahia no ano de 2000, com a dissertao Escravido, Fronteira e Liberdade Resistncia escrava em Mato Grosso (1750-1850). Nesse trabalho, Otvio Chaves examina os sertes de Mato Grosso, sob as perspectivas da colonizao, escravido e fronteira, com seus conflitos e como espaos de liberdades, principalmente para os cativos.

    Nauk Maria de Jesus produziu em 2001 a dissertao de mestrado no PPGHis da UFMT com o ttulo, Sade e doena: prticas de cura no Centro da Am-rica do Sul (1727-1808). E, em 2006, defendeu a tese de doutorado Na trama dos confli-tos. A administrao na fronteira oeste da Amrica portuguesa (1719 1778), no PPGH, da

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    UFF. Tambm de Nauk de Jesus99 a coletnea: Ensino de Histria, trajetrias em movi-mento, na qual colaborou com o captulo Olhares e reflexes sobre africanos e afrodescenden-tes em Mato Grosso Sculos XVIII e XIX.

    Adentrando a problemtica oitocentista na Provncia de Mato Grosso, esmiu-ando os seus meandros, entre 1842 e 1888, recorte do ltimo perodo escravista, ds-tacamos o trabalho de Clementino Nogueira de Sousa, Entre a vida e a morte no jogo das paixes mulheres e homens no espao urbano de Cuiab no Sculo XIX, dissertao de mestrado, defendida no PPGHis/UFMT, em 2001. Nela, Clementino de Sousa pri-vilegiou as figuras femininas de Cuiab, e analisou experincias de mulheres livres e escravas.

    Ainda sobre o sculo XIX, Maria de Lourdes Fanaia Castrillon, em 2006, ela-borou a dissertao de mestrado O Governo local na fronteira oeste do Brasil: A Cmara Municipal de Vila Maria do Paraguai (1859 1889), defendida no PPGHis, da UFMT. Trata-se de uma pesquisa de histria poltica, da administrao pblica de uma regio de fronteira. Seu objetivo mais geral foi dar visibilidade Cmara Municipal de C-ceres, no perodo recortado, onde os bons desejos dos polticos locais se chocavam com os recursos diminutos da administrao. Nesse estudo, registram-se os compor-tamentos e atitudes das autoridades locais frente emergncia da Guerra do Paraguai. No perodo mais recente, a autora organizou em co-autoria, a coletnea Histria e Me-mria, mltiplas experincias de pesquisas histricas sobre o portal da Amaznia e do Xingu.

    Recortando o Sculo XX, encontramos a dissertao de mestrado de Adson de Arruda, defendida no PPGHis da UFMT, em 2002, sob o ttulo: Imprensa, vida ur-bana e fronteira: a cidade de Cceres nas primeiras dcadas do sculo XX (1900 1930). um estudo pioneiro de formas de representao da urbanidade em Mato Grosso, a-travs da utilizao do mtodo de levantamento dos peridicos, da histria da im-prensa e dos registros oficiais municipais, como relatrios, ofcios, posturas e discursos dos intendentes.

    Acir Montechi, com Teatro de imagens. A bandeira de Anhanguera atravs das len-tes de Antonio Scatori (1937), introduziu novos olhares sobre o perodo e a temtica do Estado Novo.

    Maria do Socorro de Sousa Arajo, na dissertao de mestrado defendida em 2002, com o ttulo Paixes Polticas em Tempos Revolucionrios: nos caminhos da militncia, o percurso de Jane Vanini (1964-1974), auxiliou na ampliao do conhecimento sobre as prticas de militncia de esquerda ocorridas durante as ditaduras na Amrica Latina, tendo como fio condutor as aes de uma cacerense, Jane Vanini, cujo percurso de vi-da foi traado mediante documentao escrita e depoimentos de familiares a respeito da vida da militante entre Europa, Cuba e Chile.

    99 JESUS, Nauk Maria de (organizadora). Ensino de Histria, trajetrias em movimento. Cceres: Editora da UNEMAT, 2007.

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    Revista Territrios & Fronteiras, Cuiab, vol. 5, n. 2, jan-jul., 2012

    Com a dissertao de mestrado, defendida em 2006, Prolas Negras: as mulheres de Vila Bela na luta pela afirmao da identidade tnica, 1970-2000, Silviane Ramos Lopes da Silva, analisou os espaos ocupados pelas mulheres no mbito da comunidade de Vila Bela, dando visibilidade para as narrativas femininas da comunidade, que remon-tam criao de Vila Bela e sua constituio enquanto comunidade negra.

    Adriana Cristina Venturoso Aleixo ao analisar a trajetria do personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, privilegiou em sua dissertao de mestrado, o dia-logo da literatura com a histria, contribuindo para o aprofundamento dos estudos so-bre essa imagem emblemtica que ainda hoje povoa o imaginrio social brasileiro e que parece sustentar a presente indagao, Um pas de Jecas Tats: uma imagem do traba-lhador nacional?

    Inz Aparecida Deliberaes Montecchi, em Entre os labirintos da fico, uma his-tria para o Brasil em Quarup, de Antonio Callado, discutiu as fronteiras entre as narra-tivas da fico e os discursos da histria. Montecchi ao reler o panorama nacional que precedeu ao golpe militar, a partir dos acontecimentos polticos, sociais e culturais das dcadas de 1950 e 1960, possibilitou que viesse tona o pensamento intelectual da poca em relao cultura nacional.

    Em 2006, Joo Edson Arruda Fanaia, defendeu uma dissertao de mestrado na UFRJ, com o ttulo Elites e prticas polticas em Mato Grosso na primeira Repblica (1889-1930), considerada importante para a compreenso da ao poltica mato-gros-sense no mbito da Primeira Repblica. Carlos Ediney de Oliveira, em 2009, defendeu a tese Migrao e escolarizao: histria das instituies escolares de Tangar da Serra, MT (1964-1976), na UFU, com interessantes reflexes sobre escolas rurais e urbanas, colhi-das mediante depoimentos de autoridades e professores.

    Fruto de dissertao de mestrado defendida no PPGHis da UFMT, Cidade e Loucura, de Rachel Tegon Pinho, abordou uma Cuiab submetida aos projetos moder-nizadores do final do sculo XIX e inicio do XX e a loucura transformada em proble-mtica no mbito de projeto de construo da nao.

    Sobre a problemtica da fronteira, contribuiu para o debate da diversidade cultural relacionada escolaridade e aprendizagens, numa perspectiva multicul-turalista, a tese de doutorado de Elias Renato da Silva Janurio100, publicada em for-ma de livro, com o ttulo Caminhos da Fronteira Educao e diversidade cultural em Escolas da Fronteira Brasil Bolvia (Cceres, MT), em 2004.

    Clio Pedraa lanou em 2010, O universo ideolgico de Dom Aquino e os anos Vargas: entre a Igreja e o Estado (1930 1945), fruto das pesquisas para a dissertao de mestrado, defendida no PPGHis/UFMT, em 2006. Ao prosseguir com as pesquisas, Clio Marcos Pedraa, organizou em co-autoria, a coletnea Histria e Memria, sobre pesquisas histricas do Xingu e da Amaznia, lanada em Cuiab em 2008, na qual o

    100 JANURIO, Elias Renato da Silva. Caminhos da Fronteira Educao e diversidade cultural em Escolas da Fronteira Brasil Bolvia (Cceres, MT). Cceres: EdUNEMAT, 2004.

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    Revista Territrios & Fronteiras, Cuiab, vol. 5, n. 2, jan-jul., 2012

    autor contribuiu com um captulo intitulado O universo mtico e ideolgico da Marcha para o Oeste: reflexos de uma poltica de colonizao.

    Lembramos, ainda, de Rubens Gomes Lacerda, cuja dissertao de mestrado, Os artesos da memria das tramas e retramas da Histria: Cceres no limiar do Sculo XX para o Sculo XXI, foi defendida no PPGHis/UFMT, em 2009. Nesse estudo, Lacer-da expe e examina o discurso identitrio das personalidades locais, nos lugares da memria da Cidade, demostrando as intencionalidades legitimadoras de falsas tra-dies.

    Consideraes Finais A produo historiogrfica em Mato Grosso teve como mola propulsora o

    Departamento de Histria da UFMT, de onde frutificaram linhas de pesquisas que ao longo das dcadas de 1980 a 2010 possibilitaram a criao do Programa de Ps-Gra-duao, Mestrado e Doutorado em Histria, pioneiro no Estado de Mato Grosso. Essa criao propiciou a visibilidade do esforo realizado pela UFMT em capacitar os primeiros mestres e doutores, que por sua vez multiplicaram os conhecimentos com pesquisas nas mais diversas frentes da histria, orientao de monografias, coordena-es e realizao de projetos de pesquisas, de extenso, participao em seminrios e congressos, organizao de seminrios e encontros, produo de artigos, livros e cole-tneas de mbito nacional e internacional.

    Novos desafios so apresentados aos Cursos de Histria dos campi da UFMT de Cuiab e Rondonpolis e ao Curso de Histria do campus de Cceres da UNEMAT, mas o legado deixado pelos que por aqui passaram continua sendo a fonte de referncia dos historiadores das novas geraes, pois como observam Novais e Sil-va101, [...] a historiografia moderna tem componentes que lhe so especficos, e man-tm os antigos, tradicionais, inextricavelmente fundidos. E nada estabelece de ante-mo a predominncia dos novos imperativos sobre os velhos irrelevantes [...] o que a historiografia moderna tem em comum com a tradicional no mnimo to rele-vante quanto o que tem de varivel [...] .

    Autores convidados, artigo recebido em 30 de julho de 2012.

    101 NOVAIS, Fernando Antonio e SILVA, Rogrio Forastieri. Introduo; Para a Historiografia da Nova Histria. In: NOVAIS, Fernando Antonio e SILVA, Rogrio Forastieri (Orgs.). Nova Histria em perspectiva. So Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 15.

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