MATO GROSSO NOS ESTUDOS HISTORIOGRÁFICOS

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<ul><li><p>Revista Territrios &amp; Fronteiras, Cuiab, vol. 5, n. 2, jan-jul., 2012 </p><p>MATO GROSSO NOS ESTUDOS HISTORIOGRFICOS MATO GROSSO IN HISTORIOGRAPHICAL STUDIES </p><p>Otavio Canavarros Maria Adenir Peraro Fernando Tadeu de Miranda Borges Vitale Joanoni Neto Universidade Federal de Mato Grosso Correspondncia: Programa de Ps-Graduao em Histria Av. Fernando Corra da Costa, n 2367 - Bairro Boa Esperana - Cuiab - MT - 78060-900 E-mail: otaviocanavarros@terra.com.br / adperaromt@hotmail.com / jneto@uol.com.br Resumo: Este artigo destaca em linhas gerais a produo historiogrfica de Mato Grosso e busca contribuir com o alargamento da pesquisa histrica numa rea de fronteira em que pesquisadores provenientes das mais diversas regies do pas debruaram-se sobre a escrita da histria regional. Palavras-chave: Mato Grosso; produo historiogrfica; histria regional. </p><p>Abstract: This article highlights outline the historical production of Mato Grosso and seeks to contribute to the enlargement of historical research in a frontier area in which researchers from the various regions of the country have focused on the writing of regional history. Keywords: Mato Grosso; historical production; Regional History </p></li><li><p>O. Canavarros/ M. A. Peraro / F. T. M. Borges / V. J. Neto P g i n a | 80 </p><p>Revista Territrios &amp; Fronteiras, Cuiab, vol. 5, n. 2, jan-jul., 2012 </p><p>Apontamentos Iniciais Nas reflexes sobre a produo historiogrfica de Mato Grosso optamos inici-</p><p>almente por trazer uma breve apresentao dos trabalhos realizados pelos arquivos e ins-tituies de pesquisas: Instituto Histrico e Geogrfico de Mato Grosso (IHGMT)1, Academia Mato-Grossense de Letras2, Arquivo Pblico de Mato Grosso (APMT)3 e Instituto do Patrimnio Histrico e Arquitetnico Nacional (IPHAN), </p><p> As revistas do IHGMT e da Academia Mato-Grossense de Letras, desde sua fundao aos dias atuais, particularmente os catlogos4, publicaes avulsas5, homena-gens a personagens com destaque para Lenine Pvoas6 e lbuns comemorativos aos jubileus, tem sido consideradas importantes fontes de consulta7. Um conjunto de obras de scios e de patronos8 pode ser encontrado, a exemplo das obras de Jos de Ms-quita9, que nos ltimos anos tem sado do IHGMT, para acompanhar os estudos de historiadores e estudiosos interessados em pesquisar a respeito da histria das origens e prticas jurdicas em Mato Grosso10, sobre personagens femininas11 e famlias.12 Cita-mos a ttulo de ilustrao a tese de Renilson Rosa Ribeiro, sobre o Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro e a inveno da idia de Brasil Colnia no Brasil Imprio, em que dis-cute a nacionalidade, a partir de Francisco Adolfo de Varnhagem. </p><p>O Arquivo Pblico de Mato Grosso (APMT), um dos arquivos estaduais que possui o maior volume de documentos sobre os perodos colonial, imperial e republi-</p><p> 1 O IHGMT foi fundado em 1919. 2 A Academia Mato-Grossense de Letras data de 1932, tendo sua origem no Centro Mato-Grossense de Letras criado no ano de 1921. 3 O Arquivo Pblico de Mato Grosso (APMT) um dos arquivos estaduais que possui o maior volume de documentos sobre os perodos colonial, imperial e republicano. 4 SIQUEIRA, Elizabeth Madureira (Org.). Catlogo das Revistas do Centro Mato-Grossense de Letras e da Academia Mato-Grossense de Letras (1922-1996). Casa Baro de Melgao. Cuiab: Grfica Defanti, 1999. 5 A coleo Publicaes Avulsas destaca-se pelas Monografias pelos Relatos e Biografias. 6 PVOAS, Lenine de Campos. O ciclo do acar e a poltica de Mato Grosso. Cuiab: IHGMT, 2000. 7 Jubileu dos 90 anos do IHGMT (Jubileu de lamo) 1919-2009. Instituto Histrico e Geogrfico de Mato Grosso. Cuiab: Entrelinhas/FAPEMAT, 2010. 8 Citamos o portugus Jos Barbosa de S, patrono n 1 do Centro Mato-Grossense de Letras que escreveu uma das crnicas basilares dos primrdios das minas e do povoamento de Cuiab, denominada Relao das povoaes do Cuiab e Mato Grosso de seus princpios at os presentes tempos. 9 Consultar: Revista do IHGMT Cuiab, TOMO CXXXVII-CXXXVIII, Ano LXIV, 1992. 10 MACHADO FILHO, Oswaldo. Os jogos da responsabilidade penal e da determinao psicolgica em Jos de Mesquita: as mulheres e os crimes clebres em Mato Grosso - sculo XIX. Territrios e Fronteiras. v. 05, n.2, 2004, p.171-206. 11 PINTO, Luiz Renato de Souza. Rica/Bendita;Pobre/Mal-dita: As cores da mulher em Jos de Mesquita (1915-1961). Cuiab, 2005. Dissertao (Mestrado) Departamento de Histria, Programa de Ps-Graduao Mestrado em Histria, ICHS, UFMT. 12 ALENCAR, Adauto. Roteiro Genealgico de Mato Grosso. volumes1-4. Cuiab: Genus; Defanti, s.d. </p></li><li><p>O. Canavarros/ M. A. Peraro / F. T. M. Borges / V. J. Neto P g i n a | 81 </p><p>Revista Territrios &amp; Fronteiras, Cuiab, vol. 5, n. 2, jan-jul., 2012 </p><p>cano. Das publicaes do APMT, encontram-se as revistas do Arquivo Pblico, edita-das ao longo da dcada de 1980 e livros publicados em parceria com o Instituto do Patrimnio Histrico e Arquitetnico Nacional (IPHAN). O APMT em parceria com o Departamento de Histria da UFMT, sob a coordenao de Cndido Moreira Rodrigues13, organizou em 2008 o colquio 200 anos da vinda da Famlia Real para o Brasil: Mato Grosso na formao da nao brasileira. </p><p>A Trajetria da Pesquisa Histrica nas Instituies de Ensino Superior de Mato Grosso. </p><p> Na segunda metade do sculo XX, em Mato Grosso, um dos marcos da </p><p>pesquisa histrica diz respeito criao do Departamento de Histria e do Ncleo de Documentao e Informao Histrica Regional (NDIHR)14, em 1975, no campus de Cuiab da Universidade Federal de Mato Grosso. Tambm como marco destes lti-mos quarenta anos, na dcada de 1980, foram criados, no Campus Pedaggico de Rondonpolis da Universidade Federal de Mato Grosso, o Departamento de Histria e o Ncleo de Documentao Otvio Canavarros;15 em Cceres, o Departamento de Histria e o Ncleo de Documentao de Histria Escrita e Oral (NUDHEO) da Uni-versidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) foram criados no incio da dcada de 1990. </p><p>As linhas de pesquisa que foram desenvolvidas no Departamento de Histria e no NDIHR da UFMT, na dcada de 1980, e agregaram professores e tcnicos admi-nistrativos em torno delas so destacadas a seguir: Poltica colonial portuguesa na fronteira Oeste do Brasil; As minas de Cuiab; primeiros tempos; A insero do indio na sociedade nacional; A economia aucareira em Mato Grosso sculos XVIII, XIX e XX; Elaborao de material didtico instrucional de Histria de Mato Grosso para o ensino de 2 grau; Preparao de Instrumentos de trabalho para os estudos sobre a regio; Levantamento de Fontes Primrias do Arquivo da Delegacia do Ministrio da Fazenda de Mato Grosso. </p><p> 13 RODRIGUES, Cndido Moreira. (Org). 200 anos da vinda da Famlia Real para o Brasil: Mato Grosso na formao da nao brasileira. Cadernos de Memria. Cuiab: APMT, 2009. 14 O Ncleo de Documentao e Informao Histrica Regional NDIHR- teve seu projeto elaborado e aprovado no ano de 1975 tendo na equipe de elaborao: Clia Camargo De Simone,Therezinha de Jesus Arruda, Maria Ceclia Guerreiro de Sousa, Oswaldo Seva e consultores: Ana Maria de Almeida Camargo, Clia Camargo De Simone e Raquel Glezer. A Revista eletrnica do NDIHR, Documento /Monumento, criada no ano de 2009 pode ser acessada no site: http:ufmt.br/ndihr/revista/ 1744):?? 15 O Departamento de Histria, campus de Rondonpolis, foi criado no ano de 1985. Em 2005, o Colegiado de Departamento aprovou um projeto que criou o Ncleo de Documentao Otvio Canavarros. Dentre a produo deste Departamento, destacamos o peridico Coletneas de Nosso Tempo, cujo primeiro nmero remonta ao ano de 1997. </p></li><li><p>O. Canavarros/ M. A. Peraro / F. T. M. Borges / V. J. Neto P g i n a | 82 </p><p>Revista Territrios &amp; Fronteiras, Cuiab, vol. 5, n. 2, jan-jul., 2012 </p><p>Vale lembrar que poca a UFMT recebeu os seus primeiros professores, ori-undos na sua maior parte, dos mais variados estados brasileiros, que acompanhavam o movimento de deslocamento populacional rumo ao Centro-Oeste do pas com um imenso desejo de conhecer, de criar, e de engajar-se no mercado de trabalho. </p><p>Do encontro desses professores, no Departamento de Histria da UFMT, na dcada de 1980, frutificaram pesquisas, dissertaes e teses, com objetos de estudo so-bre a Poltica Colonial Portuguesa na Fronteira Oeste do Brasil, Mo-de-Obra In-dgena, Escravido, Criana Negra, Movimentos Sociais, Atividades Indus-triais, Relao CidadeCampo e Poltica Internacional, discutidas em Cursos de Especializao e apresentadas em seminrios e em publicaes 16, a exemplo da Revis-ta da UFMT e em peridicos do Jornal do NDIHR. </p><p>Tais estudos se encontravam em sintonia com as pesquisas em voga, relaciona-das, na sua quase totalidade, ao campo da Histria Econmica Brasileira e Regional, e preocupadas com a histria enquanto modo privilegiado de acesso compreen-so/explicao do social. Nesse aspecto o campo econmico era considerado o lugar privilegiado para as mudanas. </p><p> Nesta seara, localizamos as pesquisas pioneiras de Alfredo de Mota Mene-zes17, voltadas ao cenrio das relaes do Brasil com pases sul-americanos, particular-mente, o Paraguai, a exemplo de A herana de Stroessner: Brasil-Paraguai: 1955-1980 e Do Sonho Realidade: a integrao econmica latino-americana. </p><p>A Universidade de So Paulo (USP), dentre as melhores do mundo, nesse Peri-odo, j se destacava como centro de produo do conhecimento e dotado do nico curso de doutorado do pas, e para onde, dirigiam-se grande parte dos professores da UFMT. </p><p>Neste sentido citamos os livros A conquista da terra no universo da pobreza: a forma-o da fronteira Oeste do Brasil, de Luiza Rios Ricci Volpato18 e Mato Grosso: trabalho es-cravo e trabalho livre (1850-1888), de Lcia Helena Gaeta Aleixo19. O trabalho de Volpa-to considerado determinante para os estudos de Mato Grosso Colonial por contri-buir com a abertura da discusso acerca de Mato Grosso no mbito do quadro do Na-</p><p> 16 BOAVENTURA, Toms de Aquino S. A viso do governo portugus do Mato Grosso da segunda metade do sculo XVIII: uma anlise das Instrues de Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cceres. Cuiab: PROED/UFMT, 1987. ASSIS, Edvaldo de. Contribuio para o estudo do negro em Mato Grosso. Cuiab: UFMT: PROED, 1988, BANDEIRA, Maria de Lourdes. Territrio negro em espao branco-estudo antropolgico de Vila Bela. So Paulo: Brasiliense, 1988; CASTRO, Maria Ins Malta; ALEIXO, Lcia Helena Gaeta. Memria histrica da indstria de Mato Grosso. Cuiab: FIEMT: UFMT, 1987. 17 MENEZES, Alfredo da Mota. A herana de Stroessner: Brasil e Paraguai, 1955-1980. Campinas: Papirus, 1987; Do Sonho Realidade: a integrao econmica latino-americana. So Paulo: Alfa mega, 1990 18VOLPATO, Luiza Rios Ricci. A Conquista da terra no universo da pobreza: a formao da fronteira Oeste do Brasil. So Paulo: Hucitec: Braslia: INI, 1987. 19 ALEIXO, Lcia Helena Gaeta. Mato Grosso: trabalho escravo e trabalho livre (1860-1888). Braslia: Ministrio da Fazenda, Diviso de Documentao, 1983. </p></li><li><p>O. Canavarros/ M. A. Peraro / F. T. M. Borges / V. J. Neto P g i n a | 83 </p><p>Revista Territrios &amp; Fronteiras, Cuiab, vol. 5, n. 2, jan-jul., 2012 </p><p>tigo Sistema Colonial e do conceito de poltica de fronteira. Na pesquisa de Aleixo, vem tona, a discusso sobre a economia mato-grossense e a diversidade de ativida-des agrcolas e fabris, desenvolvidas pelos homens livres e escravos na Provncia de Mato Grosso. </p><p>Valmir Batista Correa20, Lcia Salsa Correa21 e Gilberto Luiz Alves22 destacam-se, igualmente, ao trazer para a academia estudos acerca da formao, desenvolvi-mento e navegao fluvial da Provncia sob a gide do capital financeiro, respectiva-mente. </p><p>Diversos outros importantes estudos so lembrados, principalmente, por tradu-zirem a pujana das linhas de pesquisa do Departamento de Histria e do Ncleo de Documentao e Informao Histrica Regional (NDIHR), da UFMT, entre os quais ressaltamos os estudos de Carlos Francisco Moura23, Therezinha de Jesus Arruda24, Carlos Alberto Rosa25 sobre o perodo colonial, notadamente, o arraial de Cuiab, os aspectos do comrcio26 e as naes indgenas do Pantanal. </p><p>Elmar Figueiredo de Arruda,27 em Formao do Mercado Interno de Mato Grosso, sculo XVIII, contribui para o debate sobre Mato Grosso Colonial, ao rebater a noo divulgada na historiografia sobre o declnio da minerao no sculo XVIII. O livro, Do Extrativismo Pecuria: algumas observaes sobre a histria econmica de Mato Grosso, 1870 a 193028, de Fernando Tadeu de Miranda Borges, tornou-se referncia, ao discutir a insero do Centro-Oeste na ordem capitalista mundial. No livro Economia Brasileira: </p><p> 20CORREA, Valmir Batista Correa. Mato Grosso: 1817-1840 e o papel da violncia no processo de formao e desenvolvimento da Provncia. So Paulo, 1976. Dissertao (Mestrado) Departamento de Histria, FFLCH; Coronis e Bandidos em Mato Grosso (1889-1943) So Paulo, 1981. Tese (Doutorado). Departamento de Histria, FFLCH. 21 CORREA, Lcia Salsa. Corumb: um ncleo comercial na fronteira de Mato Grosso, 1870-1920. So Paulo, 1981 Dissertao (Mestrado) Departamento de Histria, FFLCH. 22 ALVES, Gilberto Luiz. Mato Grosso e a Histria: 1870-1929 (Ensaio sobre a transio do domnio econmico da casa comercial para a hegemonia do capital financeiro). In: Boletim Paulista de Geografia. So Paulo. v. 2, n.6, 1984, p. 5-81. 23 MOURA, Carlos Francisco. D. Antonio Rolim de Moura - Primeiro Conde de Azambuja. Cuiab: UFMT, 1982; Arraial do Cuiab, Vila Real do Senhor Bom Jesus (1719-1727). Cuiab, 1979; A contri-buio naval formao do Extremo Oeste. Rio de Janeiro, 1986. 24 ARRUDA, Therezinha de Jesus; SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. Mo de obra-indgena ao p da obra: a presena do ndio no processo produtivo do Brasil Colnia. Revista Universidade. ano IV, n. 2, 1984 e ARRUDA, Therezinha de Jesus. Mato Grosso colonial: pistas para uma abordagem alternativa. Revista Universidade. ano III, n.1, 1983. 25 ROSA, Carlos Alberto. O comrcio da conquista. Revista Universidade. ano II, n.01,1982, p.33-42. 26 BORGES, Fernando Tadeu de Miranda. Do extrativismo pecuria: algumas observaes sobre a histria econmica de Mato Grosso, 1870 a 1930. So Paulo: Scortecci , 1991. 27 ARRUDA, Elmar Figueiredo de. Formao do Mercado Interno em Mato Grosso, sculo XVIII. So Paulo: PUC, 1987. 28 Dissertao de mestrado defendida na USP em 1991 e publicada em forma de livro no mesmo ano: BORGES, Fernando Tadeu. Do Extrativismo Pecuria: algumas observaes sobre a Histria Econmica de Mato Grosso, 1870 a 1930. So Paulo: Scortecci, 1991. </p></li><li><p>O. Canavarros/ M. A. Peraro / F. T. M. Borges / V. J. Neto P g i n a | 84 </p><p>Revista Territrios &amp; Fronteiras, Cuiab, vol. 5, n. 2, jan-jul., 2012 </p><p>Posies Extremas, de Borges, um debate importante merece ser refletido e ampliado no mbito da historiografia mato-grossense, tendo em vista que as concepes que preva-leceram sobre o desenvolvimento mato-grossense em grande medida tenderam [...] a se polarizar, alguns privilegiando os fatores externos e outros os fatores in...</p></li></ul>