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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA - FACULDADE DE EDUCAO DEPARTAMENTO DE EDUCAO I Disc. - EDC 283: CURRCULO Profa. Maria Roseli Gomes Brito de S

CURRCULO: CONCEPES, CAMPO DE ESTUDO E RELAES Para comear O estudo do currculo escolar torna-se um imperativo para qualquer educador/a na atualidade, quando todos/as que participam da educao escolar, seja qual for o vnculo estabelecido, so convocados/as de alguma forma a participar da discusso sobre o currculo, uma vez que o mesmo vai dar subsdios para os percursos formativos dos estudantes que esto em nossas escolas. A escola considerada aqui como um espao por excelncia dedicado promoo e ao acompanhamento dos percursos formativos das pessoas a ela confiadas pela sociedade para esse fim, embora se reconhea serem mltiplos os espaos de aprendizagem em que os sujeitos sociais transitam e nos quais vo reunindo referncias fundamentais para sua compreenso de mundo. no cotidiano da escola que as aprendizagens se desenvolvem. E o currculo o meio pelo qual se d o acesso aos saberes selecionados e organizados de acordo com os propsitos da sociedade, com as orientaes oficiais e com as intenes da escola para desenvolver essas aprendizagens. Vamos comear nossa incurso no campo de estudos do currculo por especulaes acerca de diversas definies do termo currculo, procurando situ-las no espao/tempo em que foram veiculadas, a fim de perceber os diversos enfoques e direcionamentos dados historicamente aos estudos e prticas curriculares. Discutiremos algumas relaes fundamentais no currculo e os mbitos em que se do as escolhas que definem um currculo e sustentam a idia do mesmo como um recorte intencional. 1- O que mesmo o Currculo? Encontramos em muitos textos, referncias ao carter polissmico do termo currculo. Sem dvida, so muitos os sentidos atribudos a esse

termo, que passou a ser utilizado em muitas partes do mundo a partir do Sculo XX para se referir a aspectos fundamentais do planejamento e organizao da atuao pedaggica nas instituies escolares. Os sentidos to variados atribudos ao currculo esto relacionados a determinadas formas de pensar a funo social da escola. Levantamos da bibliografia sobre o histrico do currculo algumas definies que podero mostrar alguns desses sentidos: 1. Srie estruturada de resultados buscados na aprendizagem 2. Conjunto de estratgias para preparar o jovem para a vida adulta 3. Todas as experincias que os estudantes desenvolvem sob tutela da escola 4. Ambiente fornecido ao estudante para experienciar a vida mesma 5. Conjunto de matrias 6. Seleo de conhecimentos extrados de uma cultura mais ampla 7. Modo pelo qual a cultura representada e reproduzida no cotidiano das instituies escolares 8. Artefato social e cultural 9. Arena poltica, rea contestada 10. Terreno de produo e criao simblica, cultural Uma primeira leitura dessas definies pode no dizer muita coisa, porm, uma breve anlise como a que realizamos aqui pode revelar sentidos diferenciados, presentes em discursos construdos com diferentes intenes ou em diferentes momentos histricos. Assim, podemos perceber nas duas primeiras definies uma idia de currculo como instrumento de controle, de regulao das aprendizagens. Ademais, a concepo de aprendizagem que se encontra implcita na segunda definio aquela que desconsidera a histria que os sujeitos do currculo1 constroem em outros espaos fora da escola. Poderamos fazer uma analogia dessa concepo com a educao bancria denunciada por Paulo Freire (1987) em sua proposta de uma Pedagogia do Oprimido: as mentes seriam um mero depositrio de contedos, acomodados em compartimentos que se abririam medida que fosse necessrio lembrar desse ou daquele contedo. O currculo que se apia em tal concepo1

Sujeitos do currculo: O acontecer do currculo envolve os sujeitos que possibilitam sua realizao, considerados aqui como os sujeitos do currculo. Esses sujeitos so, especialmente os estudantes, ou alunos, ou aprendentes, enfim, aqueles que se encontram em processo de formao; tambm so sujeitos do currculo os professores, ou ensinantes e demais profissionais envolvidos na dinmica curricular.

certamente privilegiar os resultados, os quais, para serem alcanados, dependem do estabelecimento de um aparato tcnico bastante eficiente. Observem que as duas definies seguintes mudam a direo: do controle externo para a ao dos sujeitos do currculo. a experincia dos estudantes que conta, nessa concepo de currculo. Mas ser que essa experincia, por si s, garantiria o aporte de conhecimentos necessrios para a formao pretendida? Essa uma discusso que ganhou muito espao na literatura educacional brasileira, notadamente nos anos 1980, quando muitas obras veicularam debates mostrando as diferenas entre a funo da escola requerida pelos adeptos do movimento pedaggico denominado de Escola Nova (que certamente adotaria concepo semelhante a essas duas aqui analisadas) e a funo para os que consideravam fundamental privilegiar o contedo historicamente produzido pela humanidade, como forma de promover a cidadania. A definio de currculo como conjunto de matrias por demais difundida, a ponto de habitar o imaginrio pedaggico de forma indiscriminada. Essa definio no pode ser descartada, pois o currculo no prescinde do conhecimento, porm a idia de matria est demarcada pela lgica disciplinar conferida historicamente aos currculos. Lgica essa inspirada no modo de produo de conhecimentos cientficos institudo na modernidade. Assim como a cincia constituda demarca seus objetos, os decompe em unidades independentes, a fim de obter melhores resultados de anlise, os contedos curriculares so demarcados a partir de unidades mnimas, a fim de serem melhor assimilados por aqueles que os recebem. A matria seria a unidade didtica em que se constitui o conhecimento a ser veiculado pelo currculo. Notaram que as quatro ltimas definies acrescentam elementos como a cultura, a produo simblica, os embates de diferentes significados que so conferidos por diferentes sujeitos e diferentes esferas de poder? Notaram que a stima definio traz a idia de uma cultura externa que representada e reproduzida no cotidiano da escola? E que as demais mostram outra perspectiva, a de produo de significados? Essas so poucas das diversas definies formuladas e publicadas e das numerosas idias de currculo que habitam o imaginrio social. Se fssemos levantar aqui entre ns, definies possveis de currculo, certamente teramos muitas e com sentidos diferentes, de acordo com nossa insero no mundo do currculo, seja como estudante, seja como profissional. Concorda?

1.1 Currculo: fenmeno/processo Como vimos, so muitos os sentidos atribudos ao currculo e vamos discuti-los muito ao longo de nossos estudos. No pensem que vamos ter uma definio nica, mas queremos registrar alguns aspectos importantes: o currculo aqui considerado tanto em sua dimenso de fenmeno passvel de ser estudado como na dimenso de processo que se concretiza no espao concreto da escola. O acontecer do currculo envolve os sujeitos que possibilitam sua realizao, considerados aqui como os sujeitos do currculo. Para estudar o currculo, poderamos tom-lo como um fenmeno e falar sobre ele na forma de um objeto de estudos, mas queremos nos sentir tambm sujeitos desse currculo, em seu processo de constituio histrica, da porque o consideramos aqui como fenmeno/processo, usando uma expresso formulada pela Professora Teresinha Fres Burnham (1998) em uma de suas publicaes. O prprio termo currculo, em sua etimologia, traz uma dimenso longitudinal, d essa idia de percurso, de processo, como vem mostrar Macedo (2007), fazendo referncia ao estudioso portugus Jos Pacheco: [...] o lexema currculo, proveniente do timo latino currere, significa caminho, jornada, trajetria, percurso a seguir e encerra, por isso, duas idias principais: uma de seqncia ordenada, outra de noo de totalidade de estudos. (MACEDO, 2007, p. 22). Com essa citao, reafirma-se o carter processual do currculo. Tal aspecto ser permanentemente enfatizado em nossos estudos nesta disciplina. A observao da pluralidade de vises possveis a respeito do fenmeno/processo currculo tem como pressuposta a complexidade da prpria realidade e, mais especificamente, da realidade educacional em seu caminhar histrico. Podemos, assim, identificar um campo de estudos e uma prtica curricular diferenciada de acordo com os sentidos e os propsitos estipulados para tal, como vimos acima. Vamos, ento, ampliar nossos estudos, indagando sobre a existncia desse campo de estudos e como o mesmo se constituiu historicamente.

Referncias FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17 ed. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1987. FRES BURNHAM, Teresinha. Complexidade, multirreferencialidade, subjetividade: trs referncias polmicas para a compreenso do currculo escolar. In: BARBOSA, Joaquim. G. (Org.). Reflexes em torno da abordagem multirreferencial. So Carlos: Ed. da UFSCar, 1998. p. 36 55. MACEDO, Roberto Sidnei. Currculo: campo, conceito e pesquisa. Petrpolis, RJ: Vozes, 2007. MOREIRA, Antnio Flvio B.; SILVA, Tomaz Tadeu da(orgs). Currculo, Cultura e Sociedade. 3 ed. So Paulo: Cortez, 1999. SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introduo s teorias do currculo. 2 ed. Belo Horizonte: Autntica, 2003. Consulte os sites: No site: http://www.anped.org.br/ voc encontra resumos e artigos completos apresentados nas reunies anuais da Associao Nacional de Pesquisadores em Educao desde 2001. Procure pelo GT (grupo de trabalho) 12, destinado ao tema Currculo. A revista Brasileira de educao tambm disponibiliza textos de associados Anped. Veja: http://www.anped.org.br/revistabrasileiradeeducao Visite tambm bibliotecas virtuais, como a Prossiga: http://www.bibliotecavirtual.prossiga.br/bvtematicas

CURRCULO: CONCEPES, CAMPO DE ESTUDO E RELAES 2- Existe uma teoria de Currculo? Aspectos histricos da constituio do campo Alguns estudiosos brasileiros vm se dedicando a estudar a constituio histrica do campo de estudos do currculo, a exemplo