Marise Ramos

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<p>35(1): 65-85 jan/abr 2010</p> <p>Implicaes Polticas e Pedaggicas da EJA integrada Educao Profissional1Marise Nogueira Ramos</p> <p>RESUMO - Implicaes Polticas e Pedaggicas da EJA integrada Educao Profissional. O texto aborda as implicaes polticas e pedaggicas da integrao entre educao bsica e profissional na EJA, analisando o desafio de incorporar o trabalho nessa modalidade, sem submet-la ao mercado e ao mito da empregabilidade. Para isto, recorre a pensadores do materialismo histrico-dialtico, que possibilitam compreender o trabalho no seu sentido ontolgico e histrico, bem como a relao entre trabalho, cincia e cultura. Retoma, de Marx e de Gramsci, a concepo de escola unitria e do trabalho como princpio educativo, para fundamentar o sentido da integrao como formao omnilateral dos trabalhadores. Ao discutir as implicaes pedaggicas, expe o desafio de o currculo proporcionar a integrao de conhecimentos gerais e especficos, pela mediao dos processos de produo. Palavras-chave: Educao profissional. Educao de jovens e adultos. Trabalho como princpio educativo. Escola unitria. Currculo integrado. ABSTRACT - Pedagogical and Policy Implications of Youth and Adults integrated with Professional Education. The text discuss the political and pedagogical implications of the integration between basic and professional education in EJA, analyzing the challenges in incorporate the work in this modality, without submitting it on the market and on the myth of employability. For this, the analysis is supported by the materialist intellectuals, who permit us understand the work in its ontological and historical senses, as well, the relationship between work, science and culture. It takes by Marx and Gramsci, the unit school conception and the work as educational principle, to support the integration sense as the works omnitaleral fomation. In discussing the pedagogical implications, shows the curricular challenge in integrate the general and the specifically knowledge, by production process mediation. Keywords: Professional education. Young and adult education. Work as educational principle. Unit school. Integrated curriculum.</p> <p>65</p> <p>IntroduoA integrao entre educao bsica e educao profissional na modalidade Educao de Jovens e Adultos uma poltica de governo, implementada por meio do Programa de Integrao da Educao Profissional com a Educao Bsica na Modalidade de Educao de Jovens e Adultos (PROEJA), o qual foi institudo, no mbito federal, pelo Decreto n. 5.840, de 13 de julho de 2006 e em curso em vrias instituies de ensino. Nossa abordagem, porm, no se centra nesse programa; ao contrrio, pretende, como o tema nos convida a fazer, discutir os fundamentos do que temos designado como educao integrada, com ateno a algumas especificidades da educao de jovens e de adultos. Abordando, inicialmente, as implicaes polticas, queremos questionar o que significa trazer o trabalho para o mbito da educao bsica de adultos - desafio este que se nos impe historicamente, adquirindo especificidades no modelo contemporneo de acumulao flexvel do capital - sem converter as prticas formativas que tenham o trabalho como princpio ou mesmo como contexto educativo, em processos de formao para o mercado de trabalho, sob o mito da empregabilidade. Afirmaremos a impertinncia histrica de se ignorar o trabalho como mediao fundamental para a produo da existncia do educando adulto; mas, tambm, a mesma impertinncia de compreend-lo exclusivamente como contexto econmico. Compreendido neste ltimo sentido, tende-se a reduzir a formao humana formao profissional e a educao bsica direito inalienvel, subjetivo e social preparao instrumental para a educao profissional. Por essas razes, explicitaremos nossa compreenso de que a forma integrada da educao bsica com a educao profissional, por si s, no expressa a riqueza, a complexidade e o desafio da concepo de educao integrada que tem como horizonte a formao politcnica e omnilateral dos trabalhadores. Ao discutirmos as implicaes pedaggicas, tomaremos alguns elementos dos estudos de currculo para introduzir nossa compreenso sobre o currculo integrado na concepo da educao integrada. A partir de ento, perguntamonos sobre a possibilidade de se tomar os processos produtivos concretos particularidade da dinmica histrico-social de um modo de produo da existncia humana como referncia para a elaborao de propostas curriculares integradas. Essas se caracterizariam por explicitar a relao entre conhecimentos gerais e profissionais, no sentido de que os primeiros fundamentam os segundos, enquanto esses se constituem em potncia produtiva proporcionada pelo desenvolvimento da cincia com a apreenso e apropriao humanas do real. Desta elaborao nos perguntamos sobre a possibilidade de realiz-las em cargas horrias formalmente propostas para a integrao entre educao bsica e profissional na EJA. Em nossas consideraes finais retomaremos os desafios, compreendendo a necessria crtica aos rumos da poltica pblica, juntamente com a mobilizao e com o comprometimento concreto dos educadores e da sociedade civil em</p> <p>66</p> <p>geral com a luta social pela garantia dos direitos. As reflexes aqui apresentadas assim se orientam e, como tal, tem o propsito de contribuir para o avano no s conceitual, mas tambm tico-poltico, da Educao de Jovens e Adultos em nosso pas.</p> <p>Da Forma Integrada de Finalidades Formativas ao Contedo Integrado da Escola Unitria: uma travessia necessriaA primeira questo a que o tema nos convida a refletir sobre o que significa a integrao entre a educao bsica seja ela na modalidade EJA ou no e a educao profissional. Ainda que sejamos levados a compreender tal integrao como uma forma de relacionar processos educativos com finalidades prprias em um mesmo currculo, compreendemos integrao como algo mais amplo. O primeiro sentido que atribumos integrao expressa uma concepo de formao humana que preconiza a integrao de todas as dimenses da vida o trabalho, a cincia e a cultura no processo formativo. Tal concepo pode orientar tanto a educao geral quanto a profissional, independentemente da forma como so ofertadas. O horizonte da formao, nessa perspectiva, a formao politcnica e omnilateral dos trabalhadores e teria como propsito fundamental proporcionar-lhes a compreenso das relaes sociais de produo e do processo histrico e contraditrio de desenvolvimento das foras produtivas. As dimenses fundamentais da vida, que estruturam a prtica social aqui apontadas como o trabalho, a cincia e a cultura so por ns compreendidas como apresentamos a seguir. O trabalho processo de objetivao humana inerente ao ser e mediao fundamental de suas relaes com a realidade material e social (sentido ontolgico do trabalho).2 Como afirma Marx,Certamente o trabalho, a atividade vital, a vida produtiva, aparece agora para o homem como o nico meio que satisfaz uma necessidade, a de manter a existncia fsica. A vida produtiva, entretanto, a vida genrica. a vida criando vida. No tipo de atividade vital est todo o carter de uma espcie, o seu carter genrico;... Em conseqncia, o elemento do trabalho objetivao da vida genrica do homem: ao no se reproduzir somente intelectualmente, como na conscincia, mas ativamente, ele se duplica de modo real e percebe a sua prpria imagem num mundo por ele criado (Marx, 2001, p. 116-117; grifos no original).</p> <p>O trabalho , tambm, prtica econmica, cujo contedo definido pela historicidade do modo de produo. Afinal:[...] at as categorias mais abstratas precisamente por causa de sua natureza abstrata , apesar de sua validade para todas as pocas, so, contudo, na determinidade desta abstrao, igualmente produto de condies histricas, e</p> <p>67</p> <p>no possuem plena validez seno para estas condies e dentro dos limites destas. (Marx, 1988, p. 120).</p> <p>Assim, se o significado do trabalho deve ser considerado em sua acepo geral como atividade produtiva, determinao ontolgica fundamental da humanidade, ou do modo realmente humano de existncia (Mszros, 2006) em sua acepo particular, seu significado redefinido pela forma capitalista da diviso do trabalho. Nessa forma, entre o trabalhador e sua atividade produtiva vital se interpem a propriedade privada, o intercmbio e a diviso social do trabalho. Essas compem um complexo cujo nico fator absoluto o trabalho. Absoluto porque o modo de existncia humano inconcebvel sem as transformaes da natureza realizadas pela atividade produtiva (Mszros, 2006, p. 79). Em consequncia, a superao da alienao implica o resgate do sentido ontolgico do trabalho. Disto decorre a possibilidade e a pertinncia pedaggicas de se compreender o conhecimento humano como produto de necessidades e prticas do ser social, que, historicamente condicionaram o contraditrio avano das foras produtivas. Como afirma Luckcs (1981, p. 21), [...] o trabalho criou a cincia como rgo auxiliar para alcanar um patamar cada vez mais elevado, cada vez mais social. O mesmo ocorre em relao cultura, correspondente s linguagens e aos cdigos ticos e estticos que orientam as normas de conduta de um grupo social. Luckcs explica que na formao do complexo social constitudo pela relao entre trabalho, cincia e cultura existe um condicionamento no qual, ontologicamente, um momento o pressuposto para a existncia do outro, sem que a relao possa ser invertida. Assim a relao que existe entre o trabalho e os outros momentos do complexo constitudo pelo ser social. Mesmo extensas, vale a pena transcrever literalmente algumas partes da explicao do autor, que nos do clareza quanto ao sentido do trabalho como o princpio ontolgico da referida integrao. Diz ele:[...] sem dvida possvel deduzir geneticamente a linguagem e o pensamento conceptual a partir do trabalho, uma vez que a execuo do processo de trabalho pe ao sujeito que trabalha exigncias que s podem ser satisfeitas reestruturando ao mesmo tempo quanto linguagem e ao pensamento conceptual as faculdades e possibilidades psicofsicas presentes at aquele momento, ao passo que a linguagem e o pensamento conceptual no podem ser entendidos nem em nvel ontolgico nem em si mesmos se no se pressupe a existncia de exigncias nascidas do trabalho e nem muito menos como condies que fazem surgir o processo de trabalho. obviamente indiscutvel que, tendo a linguagem e o pensamento conceptual surgido para as necessidades do trabalho, seu desenvolvimento se apresenta como uma ininterrupta e ineliminvel ao recproca e o fato de que o trabalho continue a ser o momento predominante no s no suprime estas interaes, mas, ao contrrio, as</p> <p>68</p> <p>refora e as intensifica. Disto se segue necessariamente que no interior desse complexo o trabalho influi continuamente sobre a linguagem e o pensamento conceptual e vice-versa. ... Na medida em que as experincias de um trabalho concreto so utilizadas num outro trabalho, elas se tornam gradativamente autnomas em sentido relativo ou seja, so generalizadas e fixadas determinadas observaes que j no se referem de modo exclusivo e direto a um determinado procedimento, mas, ao contrrio, adquirem um certo carter de generalidade como observaes que se referem a fatos da natureza em geral. So estas generalizaes que formam os germes das futuras cincias, cujos incios, no caso da geometria e da aritmtica, se perdem na noite dos tempos. Mesmo sem que se tenha uma clara conscincia disto, tais generalizaes apenas iniciais j contm princpios decisivos de futuras cincias de fato autnomas (Luckcs, 1981, p.27).</p> <p>Portanto, o trabalho, como princpio educativo, est na base de uma concepo epistemolgica e pedaggica, que visa a proporcionar aos sujeitos a compreenso do processo histrico de produo cientfica, tecnolgica e cultural dos grupos sociais, considerada como conhecimentos desenvolvidos e apropriados socialmente, para a transformao das condies naturais da vida e para a ampliao das capacidades, das potencialidades e dos sentidos humanos. Ao mesmo tempo, pela apreenso dos contedos histricos do trabalho, determinados pelo modo de produo no qual este se realiza, que se pode compreender as relaes sociais e, no interior dessas, as condies de explorao do trabalho humano, assim como de sua relao com o modo de ser da educao. Compreenso essa indispensvel luta pela superao da alienao e construo de uma sociedade de novo tipo. Em outras palavras, como resume Demerval Saviani:[...] num primeiro sentido, o trabalho princpio educativo na medida em que determina, pelo grau de desenvolvimento social atingido historicamente, o modo de ser da educao em seu conjunto. Nesse sentido, aos modos de produo [...] correspondem modos distintos de educar com uma correspondente forma dominante de educao (Saviani, 1989, p. 1).</p> <p>Por outro lado, produzimos nossa existncia em contextos produtivos concretos, tambm configurados economicamente pelo modo de produo, e com caractersticas histricas correspondentes ao nvel de avano das foras produtivas e de contradies das relaes sociais de produo. Tais caractersticas colocam, para os sujeitos, exigncias especficas de domnio tcnico-cientfico, para que se tornem aptos a produzir sua existncia mediante a insero nesses contextos. nessa perspectiva que o trabalho se torna princpio educativo num segundo sentido, ou seja, na medida em que coloca exigncias especficas que o processo educativo deve preencher em vista da participao direta dos membros da sociedade no trabalho socialmente produtivo3 (Saviani, 1989, p. 2). So essas exigncias que se tornam os fundamentos de atividades</p> <p>69</p> <p>produtivas, cujo exerccio especializado configuraram, historicamente, o mundo das profisses. De fato, a emergncia das profisses modernas consequncia da diviso social e tcnica do trabalho, exacerbada na diviso entre trabalho intelectual e manual, sendo hierarquizadas de acordo com as classes e estratos de classes sociais que podero exerc-las. Do ponto de vista da formao, as profisses passam a ser classificadas de acordo com o nvel de complexidade que, por sua vez, se relaciona com o nvel de escolaridade necessrio para o desenvolvimento de cada uma delas. nesse sentido, ento, que os contextos produtivos vo colocando exigncias para a educao, seja de aprendizagens bsicas, seja das aprendizagens especficas para o exerccio profissional. Se a relao entre trabalho e educao tanto ontolgica quanto histrica, na emergncia da era moderna a vinculao entre produo e ensino foi abordada de forma diversa pelos economistas clssicos e os socialistas utpicos. Os primeiros consideravam que a fragmentao e a simplificao dos procedimentos de trabalho levariam a um tal embrutecimento do trabalhador que este deveria ser docilizado e disciplinado desde a infncia. Esse preceito levou Adam Smith, ainda no sculo XVIII, a recomendar o ensino popular pelo Estado, embora em doses prudentemente homeopticas (Marx, 1988). No incio do sculo XX, no texto Americanismo e Fordismo, Gramsci (1991a), por sua vez, se referiu adaptao psicofsica do trabalhador nova estrutura social como uma necessidade determinada pela racionalizao industrial. Em oposio vinculao de ordem econ...</p>