MARIO TOURASSE TEIXEIRA NOTAS BIOGRFICAS 1 - Festschrift/34 - Romelia - final.pdf Mario estudou

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Mario Tourasse Teixeira: notas biogrficas RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 407 MARIO TOURASSE TEIXEIRA: NOTAS BIOGRFICAS1 Romlia Mara Alves Souto UFSJ - Brasil Apresentao Mario Tourasse Teixeira foi um matemtico brasileiro, pernambucano, radicado em So Paulo, que teve sua vida acadmica ligada UNESP de Rio Claro, onde ajudou a fundar o Departamento de Matemtica em fins dos anos 1950. O Prof. Mario, como ficou conhecido, foi um mestre no que, na poca, era uma estranha disciplina, a Lgica. Com a justeza de sua conduta, impressionou a todos os que com ele conviveram. Grande educador, inovou em seu tempo com idias fecundas e originais sobre educao e matemtica tornando-se o precursor do movimento de educao matemtica que surgiu e se consolidou em Rio Claro a partir dos anos 1980. Seu maior legado, no entanto, reside nas qualidades humanas que cultivou e soube exercer, de modo mpar, influenciando os destinos de muitos alunos e deixando profundas impresses em todos os que o conheceram. Acreditava vivamente na doao como caminho para a plenitude do ser humano, tanto no plano individual como no coletivo. Nisso, ele no s acreditou como tambm procurou vivenciar em cada instante de sua existncia. Primava pela retido da sua conduta e viveu de uma forma profundamente coerente com os princpios que assumiu. Era intensamente dedicado ao trabalho e sabia amar as pessoas ao seu redor. Tinha disposio para a bondade e a indulgncia, sem ostentao. Mostrava-se generoso em todas as suas relaes, na forma como ensinava e na sua maneira de fazer cincia. Para os que o conheceram, sua presena era tocante e luminosa. Tinha a limpidez e a pureza interior prpria das crianas e demonstrava uma inteligncia profunda. Era dono de um humor mordaz, era crtico, e ao mesmo tempo delicado e bondoso. Em seu comportamento manifestava-se um desprendimento total. Teve grande influncia sobre seus amigos e sobre seus alunos que no hesitam em afirmar a participao decisiva do Prof. Mario na constituio de valores morais e na formao matemtica que receberam. O homem Mario Tourasse Teixeira nasceu em Recife, a onze de setembro de 1925. Seu pai era um comerciante portugus, Eduardo Machado Teixeira, natural do Porto, e sua me, Luiza Tourasse Teixeira, filha de franceses, era natural de Botucatu, interior do estado de 1Esse tema parte de minha pesquisa em nvel de doutorado, desenvolvida no Programa de Ps-graduao em Educao Matemtica da UNESP-Rio Claro, sob orientao do Prof. Dr. Sergio Roberto Nobre. Revista Brasileira de Histria da Matemtica Especial no 1 Festschrift Ubiratan DAmbrosio (dezembro/2007) Publicao Oficial da Sociedade Brasileira de Histria da Matemtica ISSN 1519-955X Romlia Mara Alves Souto RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 408 So Paulo. O casal Eduardo e Luiza teve mais dois outros filhos: Eugnio Machado Teixeira e Helena Tourasse Teixeira. A famlia veio para o Rio de Janeiro com os filhos ainda pequenos. Mario estudou no Colgio Pedro II, concluindo o curso ginasial em 1946, o mesmo ano da morte de seu pai. No Colgio Rabello ele cursou o Cientfico, terminando em 1948. Em tempos de guerra, foi convocado para trabalhar como controlador de vo no aeroporto de Belm do Par. Com a doena e a morte do pai, assume a incumbncia de, junto com o irmo Eugnio, prover o sustento da famlia. Ao retornar ao Rio de janeiro descobriu uma grave enfermidade no pulmo, a mesma que vitimou seu pai aos cinqenta e seis anos de idade. O rigor do tratamento da poca obrigou-o a uma convalescena prolongada e imprimiu-lhe no fsico uma marca permanente. Todas essas circunstncias certamente concorreram para provocar a demora na concluso do curso Colegial, que s aconteceu quando Mario tinha vinte e trs anos de idade. O Prof. Mario Tourasse foi casado com Joepha de Souza Teixeira e no tiveram filhos. Eles se conheceram no final da dcada de 1950, em So Paulo, numa penso em que Mario Tourasse residia enquanto fazia um curso de especializao na USP. Vieram juntos para Rio Claro, em 1958, e residiram por mais de vinte anos numa casa que construram, onde havia um belo canteiro de rosas, que o Professor cuidava pessoalmente e tinha gosto em mostrar aos amigos que o visitavam. Daquele canteiro de rosas ele sabia tudo muitas vezes, antes de entrar em casa, a visita era levada para ver todas as flores que haviam desabrochado naquele dia ou na tarde anterior. O Prof. Mario era uma pessoa difcil de descrever pela singularidade de seu carter e de seu comportamento despojado e profundamente solidrio. Tinha uma grande capacidade de compreenso e aceitao do outro. Sua postura e suas manifestaes eram, para muitos, desconcertantes e, para quase todos, surpreendentes. Seu esprito era dotado de grande sensibilidade e desprendimento, mostrava muito gosto pelo teatro, pela poesia e pela msica e tinha especial apreo por crianas, pssaros e flores. Escreveu poemas, contos e diversas peas de teatro. Era considerado inteligente e arguto, muitos anos adiante de seu tempo, tanto no aspecto humano quanto no profissional, segundo diversas pessoas que partilharam suas vivncias com ele por mais de quinze anos. Alguns percebem em seus modos traos de uma personalidade crtica expressa, muitas vezes, por uma sutil ironia. Para outras pessoas aparentava candura e fragilidade, apesar da estatura de 1,78m. Na lida profissional, mostrava-se incrivelmente modesto e desprendido. Tratava com indiferena os tradicionais valores acadmicos e mantinha-se alheio a disputas por cargos, ttulos e publicaes que, para ele, pareciam no ter significado. Era homem de poucas palavras e atitudes inesperadas. sua costumeira modstia associava-se uma firme opo por uma atitude mais quieta e uma postura mais recolhida que foram, por vrias pessoas, interpretadas como opo por um modo de vida recluso. Tinha doura no trato com as pessoas e era incapaz de uma atitude agressiva. Atingia seus interlocutores com observaes calmas, diretas, incisivas e surpreendentes. Impressionava as pessoas pela radicalidade com que assumia suas convices e as vivenciava na prtica, em todas as instncias da vida. A Profa. Maria da Conceio Ferreira Reis Fonseca, ex-aluna do Prof. Mario Tourasse, fala das experincias de interao com ele que constituam-se numa interlocuo ao final da qual o narrador quedava-se desconcertado, despojado de seus argumentos, atnito e comovido com a surpreendente Mario Tourasse Teixeira: notas biogrficas RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 409simplicidade da soluo que o Professor propunha para a questo que at ento lhe parecia extremamente complexa; ou com a revelao pelo Professor da complexidade insuspeita da situao, que o narrador inadvertidamente julgara ter cercado e controlado sob todos os aspectos.2 Para o Prof. Artibano Micali, que foi membro da banca de doutorado do Prof. Mario Tourasse, e tambm seu amigo, Mario era um homem delicioso, afvel, modesto em suas asseres cientficas /.../ Nosso contato nunca foi dos mais efusivos pois Mario era calado e eu tambm. Mas atrs daquele sorriso tmido havia algo de extraordinariamente contagiante. Eu sempre tive a impresso, em meus poucos contatos com o Mario, que ele queria me dizer ou nos dizer que freqentemente o silncio de ouro. Mario foi um pensador e no um falador.3 O Prof. Caio Jos C. Negreiros no hesita em afirmar que os ensinamentos do Prof. Mario Tourasse, juntamente com os de sua famlia, sempre orientaram sua vida pessoal e profissional e completa: aprendi com ele valores morais e matemtica, que formaram, junto com a educao dos meus pais, uma base slida para a minha vida tanto como cidado quanto professor de matemtica da Unicamp.4 Dono de uma personalidade singular, Mario Tourasse era avesso s normas e regras pr-estabelecidas e a comportamentos padronizados, mostrando uma percepo aguada e profunda em relao ao que se passava ao seu redor, sendo capaz de grande acolhimento e receptividade. Perto dele, emergia o melhor e o pior de ns que ele acolhia com igual generosidade. Acho que o pior de ns ele acolhia at com mais alegria, conforme relata a ex-aluna Maria da Conceio.5 aluna Cludia Coelho de Segadas Vianna, o Prof. Mario confessou, certa vez, que gostaria de ter sido poeta: era como poeta que tratava a matemtica e a educao. Seus textos e o que falava sobre estes temas tinham ritmo, encadeamento e, sobretudo, beleza. Tudo o que escrevia era agradvel de ler, suas idias eram criativas, o que era difcil tornava-se aparentemente fcil. Sua expresso era serena e tratava a todos de uma forma carinhosa. Praticava o que acreditava sem fazer qualquer alarde, era bondoso e genuinamente humilde, um grande amigo.6 2 Trechos retirados dos apontamentos feitos por Maria da Conceio Ferreira Reis Fonseca, para o seu pronunciamento na mesa redonda A ps-graduao em Educao Matemtica da UNESP-Rio Claro no perodo de 1984 a 1991, na Conferncia Vinte Anos de Ps-graduao em Educao Matemtica, UNESP-Rio Claro, maro de 2004. 3 Depoimentos dados pelo Prof. Artibano Micali em abril de 2005 e abril de 2006. 4 Depoimento dado pelo Prof. Caio Jos C. Negreiros, em abril de 2006. 5 Trechos retirados dos apontamentos feitos por Maria da Conceio Ferreira Reis Fonseca, para o seu pronunciamento na mesa redonda A ps-graduao em Educao Matemtica da UNESP-Rio Claro no perodo de 1984 a 1991, na Conferncia Vinte Anos de Ps-graduao em Educao Matemtica, UNESP-Rio Claro, maro de 2004. 6 Trecho de um depoimento da Profa. Cludia Coelho de Segadas Vianna, ex-aluna do Prof. Mario Tourasse. Romlia Mara Alves Souto RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 410 Sobre o gosto pela poesia, tambm a Profa. Jnia Borges Botelho, da USP-SP, que conviveu com o Prof. Mario na UNESP-Rio Claro, relata que, nas cartas que recebia do Prof. Tourasse, nos anos em que esteve estagiando no IMPA, havia sempre algumas poesias, com a recomendao de que fossem lidas antes dos seminrios. O Prof. Mario Tourasse Teixeira tem sido reconhecido e lembrado como algum em quem a humanidade se manifestou de uma forma mais substancial. O educador A memria do Prof. Mario Tourasse freqentemente reverenciada, tanto por aqueles que foram seus alunos quanto por colegas de trabalho e outros amigos, pela sua reconhecida atuao como educador. Suas idias sobre o ensinar Matemtica e sobre a educao em geral so consideradas avanadas para o seu tempo. J nos primeiros anos da dcada de 1970, o Prof. Tourasse falava em criao de ambientes de aprendizagem, em incluso, e era avesso s formas de ensino autoritrias e reprovao. Seu discurso preconizava o trabalho cooperativo e aconselhava uma menor preocupao com o progresso individual; incentivava a expressividade dos alunos, promovia um ambiente de maior compreenso, de estmulo criatividade e de maior proximidade entre alunos e professor. Tambm, j naquela poca, criticava o peso da rotina e da indisposio para a mudana, que ele acreditava predominar nos ambientes educacionais. H indcios dessas preocupaes do Prof. Tourasse desde 1967 e nos documentos que encontramos, as primeiras referncias explcitas que ele faz a trabalhos de pesquisa voltados para a Educao datam de 1971. Esses fatos demonstram o seu pioneirismo nessa rea no mbito do Departamento de Matemtica da UNESP-Rio Claro e at mesmo do pas. Segundo Dante(1980: 32-40), o movimento de Educao Matemtica no Brasil comeou a ganhar impulso somente a partir de 1973, atravs de importantes iniciativas, dentre as quais ele destaca: a elaborao de propostas curriculares estaduais para o ensino de Matemtica nas escolas bsicas; o desenvolvimento de projetos para a melhoria do ensino da Matemtica, em convnios firmados entre o Ministrio da Educao e Cultura - MEC, as Universidades e Grupos de Estudos; a formao de outros Grupos de Estudos sobre Educao Matemtica em Campinas, no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Rio Claro; a formao de Comisses na Sociedade Brasileira de Matemtica e no MEC, para tratar de assuntos relacionados ao ensino da Matemtica; a produo de Boletins Informativos e Revistas de divulgao sobre temas de Educao Matemtica; a realizao, no Brasil, da 5. Conferncia Interamericana de Educao Matemtica e a eleio de um brasileiro, o Prof. Ubiratan DAmbrosio, para presidir o Comit Interamericano de Educao Matemtica. Importa lembrar aqui, que a Educao Matemtica no existia como disciplina independente quela poca e como rea de estudos e pesquisa comearia a se firmar cerca de dez anos mais tarde. Em 1974, no Departamento de Matemtica da Faculdade de Filosofia Cincias e Letras de Rio Claro, surgiu, por iniciativa do Prof. Mario Tourasse Teixeira, o movimento do SAPO Servio Ativador em Pedagogia e Orientao. Segundo declaraes de seus integrantes, o movimento pretendia contribuir para o aprimoramento das prticas pedaggicas dentro do Departamento de Matemtica da Faculdade. O SAPO constituiu-se no instrumento de divulgao das idias e concepes do Prof. Mario Tourasse, e de outros professores que a Mario Tourasse Teixeira: notas biogrficas RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 411ele se juntaram, sobre Educao Matemtica. Ao Prof. Mario atribudo o mrito de ter sido o mentor e protagonista do SAPO, assumindo todo o trabalho desenvolvido pelo grupo at o momento em que ele deixou de existir, em 1979, e seu pioneirismo amplamente reconhecido por todos que testemunharam as aes do grupo. O movimento do SAPO estava sediado em Rio Claro e seus integrantes empenharam-se, desde o incio, na divulgao de suas idias e na tarefa de angariar novos adeptos. Conclamavam todas as pessoas interessadas em contribuir para vitalizar e melhorar a vivncia educativa (SPEANDO No. 01, 1974:01). O grupo instalado em Rio Claro produzia um boletim informativo trimestral - O SAPEANDO que era distribudo gratuitamente aos scios do SAPO. O movimento teve uma durao de cinco anos, de 1974 a 1979 e, nesse tempo, chegou a contar com quatrocentos scios e publicar dezenove boletins. O Prof. Mario Tourasse editava os boletins e divulgava neles, anonimamente, suas idias e algumas de suas produes acadmicas e literrias.7 O Prof. Mario criou um personagem, o Figurinha Difcil, que protagonizava histrias de sua autoria publicadas pelo SAPO sob o ttulo As desventuras do Figurinha Difcil. Esse personagem incorporava traos da personalidade e convices prprios do seu criador. Ao Figurinha o Prof. Mario atribua uma inquietude de esprito, muita imaginao, ternura, criatividade, um humor refinado, uma averso s normas e uma rebeldia diante dos padres estabelecidos, um jeito mordaz, uma diversidade de talentos artsticos e uma grande capacidade de sempre surpreender. Essas caractersticas tambm foram atribudas ao Prof. Mario Tourasse pelas pessoas que o conheceram. Acreditamos, por isso, que as histrias vividas pelo Figurinha Difcil eram o maior e mais poderoso instrumento de divulgao das idias, crenas e concepes do Prof. Mario. Nessas histrias so abordadas questes que, ainda hoje, preocupam os educadores e so centrais no campo da Educao Matemtica. Na maioria dos textos que publicava, o Prof. Mario Tourasse insistia sempre na importncia do que ele chamava de criao de ambientes. Para ele, o professor deveria empenhar-se na criao de um ambiente propcio, que estimulasse a criatividade e auxiliasse o aluno em sua aprendizagem. Ele acreditava que o papel do professor era conduzir o aluno, explorando suas capacidades, para que ele atingisse o mximo de suas possibilidades, e no das expectativas do professor, o que o levava a uma paciente aceitao das diferenas individuais. Isso poderia explicar sua oposio s reprovaes visto que procurava julgar o esforo realizado pelo aluno. As concepes do Prof. Mario Tourasse aqui implcitas sobre a relao professor-aluno, o ambiente de aprendizagem e a avaliao encontram eco nas vozes de muitos educadores da atualidade. Percebe-se aqui a defesa do Prof. Tourasse pela participao ativa do aluno em seu processo de aprendizagem, pelo papel no autoritrio 7 Duas dissertaes de mestrado, defendidas na UNESP-Rio Claro abordam o tema relacionado ao movimento do SAPO: A histria da Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras de Rio Claro e suas contribuies para o movimento de Educao Matemtica, defendida em 1999, por Suzeli Mauro e O movimento do S.A.P.O. Servio Ativador em Pedagogia e Orientao e algumas de suas contribuies para a Educao Matemtica, defendida em 2002, por Ndia Regina Baccan. Os dois trabalhos foram orientados pelo Prof. Dr. Sergio Roberto Nobre. Uma outra dissertao, defendida em 1999, na Universidade Mackenzie, em So Paulo, sob orientao do Prof. Dr. Ubiratan DAmbrosio, analisa as publicaes do SAPO, mostrando suas conexes com o BOLEMA Boletim de Educao Matemtica, do Programa de Ps-graduao em Educao Matemtica da UNESP-Rio Claro. Romlia Mara Alves Souto RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 412 que faz do Professor um auxiliar nesse processo e pelo respeito aos ritmos individuais. Ao defender a valorizao do esforo realizado pelo aluno, a trajetria por ele realizada na busca do conhecimento, a partir de suas possibilidades, o Prof. Tourasse torna sem sentido as avaliaes convencionais, especialmente aquelas de cunho puramente quantitativo, que buscam atribuir um peso ou uma medida capacidade de reproduzir conhecimentos demonstrada pelo aluno em provas e testes, amplamente difundidas em seu tempo. O Prof. Mario Tourasse fazia contundentes crticas educao vigente em sua poca, considerando-a promotora do individualismo e da irresponsabilidade social. Para ele, o modelo de educao que se praticava nas escolas tambm pecava por trabalhar isoladamente apenas alguns traos da personalidade dos educandos, concentrando-se, artificialmente, na formao de habilidades muito especficas. Isso se devia, segundo o Prof. Tourasse, predominncia de uma mentalidade cientfica nas escolas, responsvel pela desumanizao do ensino e pela coibio dos aspectos emotivos e artsticos. s prticas educativas com essas caractersticas, ele debitava a inrcia do sistema escolar, a indisposio para a mudana e a aprendizagem lenta e logo esquecida. Diante dessas constataes, o Prof. Mario Tourasse propunha a criao de outros ambientes, educativamente fecundos e explicava que a gerao e manuteno desses ambientes devem provir do dar-se pleno e integral de professores e alunos, envolvendo todos os aspectos de suas vivncias, incluindo o emotivo e o artstico, extremamente importantes nesse mister. Tal dar-se corresponde a um esvaziar-se, perder-se, dissolver-se no ambiente. Vivificado por essas contnuas ddivas individuais, o ambiente vai se formando, crescendo, expandindo at que se torna uma fora e um encanto, unindo e amplificando, preenchendo com uma vida nova e mais rica os que se entregam sua criao. E esses ambientes, caracteristicamentes envolventes e expansivos, acabam por transcender a vivncia escolar, acompanhando os alunos fora da escola, influindo em outras pessoas, espairando-se por outros ambientes. (SAPEANDO, no. 01, 1974:10) Nas idias sobre educao, divulgadas pelo Prof. Tourasse, podemos entrever o alcance de suas propostas, que iam muito alm da transformao da prtica educativa escolar, mas apontavam para a ao coletiva, com vistas transformao de toda a sociedade. Ele acreditava que a criao dos ambientes descritos acima provocaria a passagem do isolado e esttico para o global e dinmico, do psicolgico para o social, das conquistas individuais para a interao social, da competio para a cooperao. E essa transformao iria contribuir decisivamente na direo de uma sociedade mais coesa e cooperativa. (SAPEANDO, no. 01, 1974:10). Ainda segundo o Prof. Mario Tourasse, Tal modificao acarreta outra mudana importante: a da preparao para a ao. /.../ Finalmente, teramos a transformao da rotina e do impositivo para a aventura e o criativo. Os professores, antes que reforadores de objetividades, seriam criadores de iluses. Sob a luz dessas iluses e o alento da dinmica criativa dos ambientes, novas realidades iriam emergir, que transformariam a sociedade. (SAPEANDO, no. 01, 1974:11) Mario Tourasse Teixeira: notas biogrficas RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 413As concepes do Prof. Mario Tourasse acerca da educao, explicitadas em seu discurso e em suas prticas, eram, poca, no s inovadoras mas tambm revolucionrias. As aes do SAPO, empreendidas fundamentalmente pelo Prof. Tourasse, constituam um movimento de resistncia e de insubmisso educao escolar praticada naquela poca, sob a fora da ditadura militar. O Prof. Mario Tourasse insiste a todo momento na mudana, na concretizao do sonho, na construo de uma vida nova, na transformao do indivduo com vistas transformao da sociedade. preciso lembrar que estamos tratando de uma poca singular da nossa histria anos 1970 em que a educao escolar no Brasil estava sujeita ao controle poltico e ideolgico de uma opressiva ditadura militar. O sistema educacional, subjugado pela doutrina de segurana nacional, era excludente e guiava-se por princpios autoritrios. As inovaes preconizadas pelo Prof. Mario Tourasse, em seu discurso e sua prtica, no que diz respeito Educao, contrariavam frontalmente esse sistema. A prpria sigla do movimento (SAPO), detentora de significados vrios, audaciosa e irreverente. A palavra sapo tanto nos remete idia de metamorfose, transformao, renovao e evoluo como, tambm, idia do visitante intruso, incmodo, no convidado. O manifesto inaugural do movimento, publicado no primeiro volume do Sapeando, traz como subttulo O Canto da Sereia, que nos remete ao mito de Ulisses.8 O canto da sereia uma expresso j consagrada quando se deseja sugerir o poder encantatrio das palavras e a seduo voluntria, mas dissimulada, de um ato. utilizada quando se deseja referir ao sentido duplo e contraditrio de um discurso ou de uma atitude que expressa ao mesmo tempo, encanto e desencanto, promessas e perigos. No Manifesto, o Prof. Mario parece querer alertar o leitor para a audcia da sua proposta, que conclama para uma transformao ampla e profunda, tarefa rdua que demanda coragem, determinao, desprendimento e esforo. Em sua concepo, o ambiente de aprendizagem no poderia ser fechado, no sentido de j ter pr-estabelecidos os procedimentos e j traados os caminhos onde as pessoas deveriam se enquadrar. No se pode negar a ousadia do gesto e o alcance da viso do Prof. Mario Tourasse no que diz respeito s questes educacionais, principalmente se atentarmos para o fato de que o movimento de Educao Matemtica no Brasil era, ainda, de pequeno alcance quela poca, conforme j comentamos nos pargrafos anteriores. O Programa de Ps-graduao em Educao Matemtica da UNESP-Rio Claro, primeiro Programa do gnero credenciado no Brasil, s foi criado em 1984. O Prof. Mario Tourasse Teixeira pode, com razo, ser considerado o precursor do movimento de Educao Matemtica que nasceu e se consolidou em Rio Claro. Suas idias e preocupaes com o ensino da Matemtica, inicialmente relacionadas com a prtica pedaggica que se fazia no mbito do Departamento de Matemtica e com a formao inicial de professores, disseminaram-se culminando com a criao do curso de ps-graduao em Educao Matemtica. 8 As peregrinaes de Ulisses, em seu retorno ao reino de taca, aps vencer a Guerra de Tria, so narradas na Odissia, de Homero. Uma de suas aventuras se passa na Costa das Sereias. Ali, os marinheiros que tinham o infortnio de ouvir o canto das sereias, ficavam enfeitiados e sentiam-se impelidos, de forma irresistvel, a se atirar ao mar, onde encontravam a morte. Romlia Mara Alves Souto RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 414 O matemtico O Professor Mario Tourasse Teixeira licenciou-se em Matemtica em 1954, pela antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Ali teve como colegas de turma, dentre outros, os professores Constantino de Barros, Jorge Emmanuel Ferreira Barbosa, Odelar Leite Linhares e Lafayette de Moraes. Pouco temo depois prestou servios como consultor em organizao de bibliografias de matemtica e fsica no Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentao, colaborando, especificamente, na pesquisa, seleo e classificao de trabalhos para a Bibliografia Brasileira de Matemtica e Fsica 1950-54 publicada pelo Instituto9. Em 1957-1958, por indicao do Prof. Leopoldo Nachbin, especializou-se em Fundamentos de Matemtica e Lgica Simblica, com o Prof. Edson Farah, na Universidade de So Paulo. O Professor Tourasse foi um dos pioneiros da Lgica no Brasil, participando juntamente com Benedito Castrucci, Newton Afonso Carneiro da Costa e Lenidas Hegenberg, de um grupo de estudiosos, que se formou em So Paulo, no final da dcada de 1950, sob a liderana de Edson Farah. Em maro de 1959, ano em que se inicia o funcionamento da Faculdade de Filosofia Cincias e Letras (FFCL) de Rio Claro, criada em 1958, contratado para reger a cadeira de Geometria Analtica, Projetiva e Descritiva da referida Faculdade. Os professores Nelson Onuchic e Mario Tourasse Teixeira lideraram o grupo dos fundadores do Departamento de Matemtica da recm-criada FFCL e, juntamente com a Profa. Junia Borges Botelho foram os primeiros professores da rea de matemtica a ir para Rio Claro. De agosto de 1960 a fevereiro de 1961, o Prof. Mario realizou um estgio de especializao com o suporte da CAPES e do CNPq - em lgebra da lgica e funes recursivas na Universidad Nacional del Sur, em Bahia Blanca e no Centro Atmico de Bariloche, na Argentina, sob orientao dos Profs. Antnio Aniceto Ribeiro Monteiro e Jean Porte. Nessa poca, no existiam no Brasil os Programas de ps-graduao10, embora linhas de investigao matemtica consolidadas existissem, tanto no Rio de Janeiro como em So Paulo, desde a dcada de 1940. Com a criao, no incio da dcada de 1950, dos rgos de 9 O Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentao (IBBD), fundado em 1954, como rgo do ento Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), tinha como objetivos: promover a criao e o desenvolvimento dos servios especializados de bibliografia e documentao; estimular o intercmbio entre bibliotecas e centros de documentao, no mbito nacional e internacional; incentivar e coordenar o melhor aproveitamento dos recursos bibliogrficos e documentrios do pas, tendo em vista, particularmente, sua utilizao pela comunidade cientfica e tecnoLgica. O Instituto desenvolvia tambm atividade de ensino e pesquisa, reconhecidos em nvel nacional e internacional, sendo pioneiro na introduo, no pas, de novas tcnicas para o tratamento da informao. A partir de 1976, o IBBD foi transformado no Instituto Brasileiro de Informao em Cincia e Tecnologia IBICT, com o objetivo de atender s necessidades de fornecimento de informaes em Cincia e Tecnologia, propondo e executando polticas para o setor de informao cientfica e tecnoLgica (dados obtidos no site do IBICT - www.ibict.br, acesso em maro de 2005). 10 De acordo com Ribeiro (1989:168-169), a Lei no. 5540/68, que reforma o ensino superior, introduziu modificaes na estrutura interna das universidades com vistas a produzir a necessria expanso com um mnimo de custos. Dentre essas modificaes, alm da institucionalizao da ps-graduao, destacam-se a organizao departamental, agrupando disciplinas afins, a matrcula por disciplina, a extino da ctedra, a periodizao semestral e a diviso do currculo escolar de graduao em dois ciclos, um bsico e outro profissionalizante. De acordo com Germano (1994:145), a reforma universitria implantada nos anos 1960, definiu as funes de ensino e pesquisa como indissolveis no ensino superior acarretando a efetiva implantao da ps-graduao, tornando possvel a pesquisa universitria, ainda que permeada de notrios limites. Mario Tourasse Teixeira: notas biogrficas RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 415fomento pesquisa e formao de recursos humanos em Cincia e Tecnologia CNPq e CAPES a institucionalizao da pesquisa matemtica no Brasil se consolidou. Esses rgos passaram a financiar os programas de professores visitantes para instituies brasileiras e a conceder bolsas de estudos para docentes do ensino superior que desejassem prosseguir seus estudos no pas ou no exterior. Foi, portanto, com esse suporte que o Prof. Mario Tourasse realizou seus estudos em Bahia Blanca. L ele iniciou um trabalho de pesquisa, sob a orientao do Prof. Antonio Monteiro, que culminou com sua defesa de doutorado realizada em 1965. O contato entre os professores Tourasse e Monteiro iniciou em julho de 1959, no 2. Colquio Brasileiro de Matemtica, realizado em Poos de Caldas. Nessa ocasio, Antonio Monteiro esteve no Brasil, convidado pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Fsicas, na qualidade de membro fundador, para a comemorao do dcimo aniversrio dessa Instituio. Aqui ele permaneceu durante cinco meses e participou do 2. Colquio, evento em que o Prof. Mario Tourasse tambm esteve presente. A seguir, mostramos a referncia ao Prof. Tourasse feita pelo Prof. Antnio Monteiro numa carta datada de 23 de maio de 1960, dirigida ao Dr. Almir Castro, ento diretor de Programas da CAPES: Por ocasio da minha permanncia no Segundo Colquio Brasileiro de Matemtica, em Poos de Caldas, em Julho de 1959, tive a oportunidade de conhecer o Professor Mario Tourasse Teixeira, do Departamento de Matemtica da Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras de Rio Claro, que est interessado em estudar Lgica Matemtica. Dos contatos pessoais que tive nessa oportunidade com o referido professor fiquei com a impresso de que se trata de uma pessoa com uma inteligncia invulgar, o que resto me foi confirmado pelo seu antigo professor o destacado matemtico brasileiro Leopoldo Nachbin.11 Entre os Professores Antonio Monteiro e Mario Tourasse estabeleceram-se fortes laos de amizade e uma estreita correspondncia que se estendeu para alm das orientaes do trabalho de doutorado, por mais de uma dcada. Entre os papis deixados pelo Prof. Mario encontramos vrias cartas do Prof. Monteiro que a ele se dirigia sempre com interesse e satisfao. Abaixo, mostramos uma foto dos dois professores, no Bairro Universitrio, em Bahia Blanca. A tese de doutorado M-lgebras foi defendida em 22 de dezembro de 1965, na Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras da USP, em So Paulo. Nessa poca, em que a FFCL de Rio Claro funcionava na condio de Instituto Isolado de Ensino Superior e os ttulos acadmicos eram atribudos somente pela USP, no Estado de So Paulo, muitos dos primeiros docentes da Faculdade, assim como o Prof. Mario Tourasse Teixeira, obtiveram seu grau de doutor naquela Universidade. (MAURO, 1999:32). A institucionalizao da ps-graduao em forma de Programas, como atualmente, ainda no existia, e o candidato ao doutoramento se inscrevia na Faculdade onde, depois, apresentava o trabalho. No havia cursos a serem feitos. O Prof. Mario Tourasse se inscreveu, pois, na cadeira do Prof. Edson 11 Esse documento se encontra em poder do Prof. Luiz Monteiro (filho do Prof. Antnio Monteiro), da Universidad Nacional del Sur, em Bahia Blanca, Argentina, quem me fez a gentileza de transcrever alguns trechos via correio eletrnico. Romlia Mara Alves Souto RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 416 Farah que, na ocasio do Concurso ao Doutoramento em Cincias por ele prestado, presidiu a Banca Examinadora constituda, tambm, pelos Professores: Newton Carneiro Affonso da Costa, Artibano Micali, Carlos Benjamin de Lyra e Benedito Castrucci.12 O ttulo M-lgebras uma homenagem ao Prof. Monteiro, orientador do trabalho, que, como j mencionamos, se tornou amigo do Prof. Mario Tourasse. Em sua tese de doutorado o Prof. Mario Tourasse introduz a noo de M-lgebras e estuda alguns casos particulares dessa noo, segundo ele, num desenvolvimento de idias originais do Prof. Antonio Monteiro. Embora fosse avesso s formas tradicionais, no que diz respeito s questes relacionadas educao, tanto no seu discurso como em sua prtica, ao fazer matemtica, o Prof. Tourasse apegava-se forma cannica. O trabalho sobre as M-lgebras inscreve-se numa corrente logicista com forte influncia cultural dos Bourbakistas13, se considerarmos sua nfase sobre a abstrao e a preocupao com a anlise de esquemas amplos. Outra caracterstica do trabalho do Prof. Mario Tourasse que o aproxima das pretenses Bourbakistas a adeso, sem concesses, ao tratamento axiomtico, numa forma abstrata e geral que enfatiza a estrutura lgica. O Prof. Mario Tourasse foi considerado por seus pares um dos maiores matemticos do Brasil e teve em seu tempo o respeito, a admirao e a amizade de grandes nomes do universo acadmico. Em sua habitual modstia, esquivava-se sempre de apresentar resultados de suas reflexes e de suas pesquisas e, com freqncia atribua a outros os mritos que lhe eram devidos. Em vrios escritos do Prof. Mario, por exemplo, os mritos dos resultados obtidos no tratamento das M-lgebras so atribudos ao Prof. Monteiro. Esse fato contestado pelo Prof. Monteiro em uma de suas cartas: Alguns dos resultados que indica na segunda parte do seu trabalho tm relao com resultados de um ingls David Makinson sobre lgebras de Morgan. S agora 12 Desses cinco membros da Banca, trs j faleceram: o Prof. Carlos Benjamin de Lyra, em 1974, o Prof. Bendito Castrucci, em 1995 e o Prof. Edson Farah, em 2006. 13 Nicolas Bourbaki um nome grego tomado para designar um grupo de matemticos, quase exclusivamente franceses, que trabalharam na elaborao de uma grande obra lments de mathmatique, em vrios volumes, que pretendia captar toda a matemtica. O primeiro volume dos lments apareceu em 1939. Mario Tourasse Teixeira e Antonio Aniceto Ribeiro Monteiro. Mario Tourasse Teixeira: notas biogrficas RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 417depois de ler a segunda parte da sua tese notei esta circunstancia. (O senhor entretanto continua nas suas cartas a atribuir-me todos os seus mritos e j comeo a aborrecer-me).14 No obstante seu reconhecido talento para a Matemtica e seu vasto conhecimento acerca da Lgica, a maior contribuio prestada por ele Matemtica brasileira reside no estmulo e no incentivo que, incansavelmente, dispunha-se a oferecer aos alunos que passavam pelo curso de Matemtica de Rio Claro. Essa influncia contribuiu muito para que Rio Claro tivesse uma presena expressiva na Matemtica brasileira, atravs dos alunos que l se graduaram. Nesse aspecto, a participao do Prof. Mario foi decisiva. Ele era um estimulador nato, um indicador de caminhos que se distinguiu, em seu tempo, pela influncia benfica exercida sobre os que lhe estavam prximos. O Prof. Mario Tourasse trabalhava de uma forma silenciosa e, um pouco avesso aos valores acadmicos, no se interessava pela publicao de seus resultados de pesquisa. Pode-se encontrar, no entanto, algumas importantes publicaes de sua autoria. Na poca em que colaborou no Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentao, escreveu, no Boletim desse Instituto, em 1956, uma nota sob o ttulo A contradio de Russel e a documentao. O operador de conseqncia de Tarski e estruturas algbricas associadas ao clculo proposicional intuicionista um trabalho publicado no Boletim da Sociedade Matemtica de So Paulo, 13: 67/74, 1961. A Conferncia Funes Recursivas e Fundamentos da Matemtica proferida no Instituto de Matemtica Pura e Aplicada no Rio de Janeiro, foi publicada na Gazeta de Matemtica, 22:12/16,1961. Sua participao em alguns Colquios Brasileiros de Matemtica tambm se encontra registrada nas Atas desses eventos. Uma outra importante publicao de autoria do Prof. Mario Tourasse, em parceria com o Prof. Fausto Alvim Jnior15 o verbete sobre Lgica Matemtica da Enciclopdia Mirador Internacional, uma publicao da Encyclopaedia Britannica do Brasil, editada em 1976.16 O Prof. Tourasse participou diversas vezes de cursos e seminrios organizados em outras instituies com especialistas como Edson Farah, Benedito Castrucci, Alesio de Caroli, Jacob Zimbarg Sobrinho e Jacy Monteiro na USP; Antnio Monteiro, Jean Porte e Antonio Diego na Universidad Nacional del Sur, Bahia Blanca, Argentina; Dov Tamari na Universidade Federal do Cear; Newton da Costa na Universidade Federal do Paran e Giberto Loibel da Escola de Engenharia de So Carlos. Ele prprio encarregou-se de organizar ciclos de Seminrios em Rio Claro. No perodo de 1964 a 1965, os seminrios abordaram Fundamentos da Matemtica, Teoria dos Conjuntos, lgebra, Topologia, e Probabilidade, Teoria da Medida e Teoria da Informao. Nos anos de 1966 e 1967, os seminrios trataram de Fundamentos da Matemtica, Mdulos, lgebra Tensorial e 14 Trecho retirado de uma carta de Antonio Aniceto Ribeiro Monteiro ao Prof. Mario Tourasse Teixeira, datada de 17 de maio de 1966. 15 Na poca da publicao, Professor do Departamento de Matemtica da Universidade de Braslia. 16 O Prof. Lenidas Hegenberg relata, num depoimento oral realizado pelos Arquivos Histricos do Centro de Lgica, Epistemologia e Histria da Cincia-UNICAMP, que coordenou toda a parte referente Matemtica da enciclopdia, recorrendo, para isso, principalmente a uma grande equipe de professores do IMPA Instituto de Matemtica Pura e Aplicada e da Universidade de So Paulo. Para a parte relacionada Lgica, o professor Lenidas contou com a colaborao dos professores Newton da Costa, Mario Tourasse Teixeira e Fautos Alvim. Romlia Mara Alves Souto RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 418 Exterior, Formas Diferenciais, lgebra Multilinear, Variedades e Integrao em Variedades. No incio da dcada de 1970, participavam, regularmente, desses seminrios em Rio Claro, Antonio Mario Sette, Luiz Paulo de Alcntara, tala Maria Loffredo DOttaviano e Irineu Bicudo. A fotografia mostrada a seguir foi feita na Universidade Federal do Cear, no incio de 1962, durante um seminrio sobre lgebra e Lgica, organizado pelo Prof. Dov Tamari. Na primeira fila esto Ayda Arruda, Oswaldo Chateaubriand e Jos Morgado. Na segunda fila, Dov Tamari (ao lado, uma pessoa que no pude identificar). E na ltima fila, Mario Tourasse Teixeira e Joo Pitombeira.17 O Professor Mario Tourasse orientou diversos trabalhos ao longo de sua carreira, na UFF, USP, UNICAMP e UNESP, nas reas de Lgica, Fundamentos da Matemtica e Educao Matemtica, como, por exemplo: Sobre o conceito de dualidade - Irineu Bicudo, PUC-So Paulo: 1972 (doutorado); Completamento e decibilidade - Brasil Terra Leme, USP-So Carlos:1972 (mestrado); Fechos caracterizados por interpretaes- tala M. Loffredo DOtaviano, UNICAMP:1973. (mestrado); Universos Ordenados - Eurides Alves de Oliveira, FFCL-Rio Claro: 1973. (doutorado); Fecho e Imerso - Albrecht G. Hoppmann, FFCL-Rio Claro: 1973. (doutorado); Compatibilidade e Fechos - Paulo Jorge Magalhes Teixeira, UFF: 1986. (mestrado); O papel do raciocnio dedutivo no ensino da matemtica - Cludia Segadas Viana, UNESP-Rio Claro: 1988. (mestrado); O evocativo na matemtica - Maria da Conceio Ferreira Fonseca, UNESP-Rio Claro: 1991. (mestrado). 17 Esta foto me foi gentilmente cedida pelo Prof. Oswaldo Chateaubriand, da PUC-Rio. Na ocasio do seminrio realizado na Universidade Federal do Cear, em 1962, o Prof. Oswaldo, que estava trabalhando com o Prof. Antonio Monteiro em Buenos Aires, conheceu o Prof. Mario Tourasse. Segundo ele, foi por intermdio do Prof. Tourasse que ele entrou em contato com o Prof. Edson Farah e comeou a lecionar disciplinas de Lgica na USP. Mario Tourasse Teixeira: notas biogrficas RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 419A partir de 1982 o Prof. Mario Tourasse comeou a ministrar cursos na ps-graduao e orientar monografias no Instituto de Matemtica da Universidade Federal Fluminense. Ali, onde trabalhavam os professores Jorge Barbosa18, Doris Ferraz Aragon, Ilka Dias de Castro e Paulo Alcoforado, surgiu no incio da dcada de 1980, um Instituto de Lgica e Teoria da Cincia (ILCT). Foi implantado tambm, um curso de Ps-Graduao em Lgica, para o qual o Prof. Mario Tourasse prestou importantes contribuies, orientando alunos e realizando seminrios. Sobre a participao do Prof. Mario no chamado grupo de Niteri, o Prof. Lenidas Hegenberg se manifestou de forma incisiva, ao fazer um balano da Lgica no Brasil: o Prof. Tourasse, de Rio Claro, participou ativamente dos programas de Ps-graduao de Niteri, auxiliando vrios jovens em seus trabalhos de mestrado e doutorado e deixando, por alguns momentos, o anonimato em que, h muitos anos, deliberou viver o que uma pena, conhecendo-se sua capacidade. Esse fato explica, em parte, o gradual desaparecimento de Rio Claro como centro de estudos de Lgica (Hegenberg, 1986: 337-338). O nome do Prof. Mario Tourasse tem estado fortemente associado histria do curso de ps-graduao em Educao Matemtica de Rio Claro, pioneiro do gnero no Brasil. A ele tem sido atribudo o mrito de ter sido o grande incentivador e precursor das idias que se originaram e se desenvolveram em Rio Claro, culminando com a implantao do curso em 1984. Em 1. de maro de 1991, o Professor Mario Tourasse Teixeira aposentou-se, vindo a falecer, dois anos depois, em 12 de junho de 1993 aos sessenta e sete anos de idade, vtima de um ataque cardaco. Referncias bibliogrficas BACCAN, N. R. O movimento do S.A.P.O. Servio Ativador em Pedagogia e Orientao e algumas de suas contribuies para a Educao Matemtica. 2002. 224 f. Dissertao (Mestrado em Educao Matemtica) Programa de Ps-Graduao em Educao Matemtica, UNESP, Rio Claro, 2002. BOLETIM SAPEANDO. Rio Claro: Boletim do S.A.P.O. Servio Ativador em Pedagogia e Orientao, n. 01, dez. 1974. GERMANAO, J. W. Estado militar e educao no Brasil: 1964-1985. 1. ed. So Paulo: Cortez, 1994. 297 p. (1. ed. 1992). MAURO, S. A Histria da Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras de Rio Claro e suas contribuies para o movimento de Educao matemtica. 1999. 159 f. Dissertao (Mestrado em Educao Matemtica) UNESP, Rio Claro, 1999. RIBEIRO, M. L. S. Histria da educao brasileira: a organizao escolar. 9. ed. So Paulo: Cortez: Autores Associados, 1989. 180 p. 18 Segundo o Prof. Lenidas Hegenberg, os primeiros cursos de Lgica Moderna em escolas superiores e com carter regular, aqui no Brasil, foram implantados por ele no ITA em So Jos dos Campos e pelo Prof. Jorge Barbosa na Universidade Federal Fluminense. A, o Porf. Jorge Barbosa liderou tambm um grupo de Lgica, com a participao de seus assistentes e mais tarde com a colaborao do Prof. Constantino de Barros. Essas informaes se encontram nos depoimentos orais realizados pelos Arquivos Histricos do Centro de Lgica, Epistemologia e Histria da Cincia/UNICAMP. Romlia Mara Alves Souto RBHM, Especial no 1, p. 407-420, 2007 420 TASSINARI, E. N. C. A voz do Passado e a Memria dos Homens: um estudo sobre os peridicos (1974-1979) antecedentes ao do BOLEM Boletim de Educao Matemtica (1985-1994) da Ps-graduao em Educao Matemtica, do IGCE da UNESP, Campus de Rio Claro, So Paulo, Brasil. 1999. 337f. Dissertao (Mestrado em Educao) Universidade Presbiteriana Mackenzie, So Paulo, 1999. HEGENBERG, L. Entrevista realizada por Hiro Barros Kumasaka, em 04 de novembro de 1987. Transcrio disponvel no endereo: Acesso em abril de 2006. TEIXEIRA, M. T. M-lgebras, 1965. 94 f. Tese (Doutorado em Cincias) Universidade de So Paulo, So Paulo, 1965. Romlia Mara Alves Souto Departamento de Matemtica, Estatstica e Cincias da Computao da Universidade Federal de So Joo del-Rei MG. E-mail: romelia@ufsj.edu.br