Maria Cristina Brito - um xam, o ator instaura a cerimnia do invisvel modelando o espao em palavra e gesto. A relao entre a palavra e o gesto, o movimento e o som,

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  • O Teatro da Crueldade e a Possesso do Verbo pelo Ator-Xam

    Maria Cristina Brito

    Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

    Palavras-Chave: ator- xam / Teatro da Crueldade/ possesso/ palavra/ mito

    Antonin Artaud e a possesso do verbo pelo ator-xam

    Antonin Artaud em sua potica teatral O Teatro e seu Duplo reconhece uma identidade

    de essncia entre o teatro e a alquimia: para ele ambos so artes virtuais que carregam em si a

    sua finalidade e a sua realidade. Nessa perspectiva, o pensamento de Artaud considera a

    alquimia e o teatro como o duplo de uma outra realidade que tem uma natureza espiritual. Essa

    realidade espiritual se traduz em uma linguagem simblica e tem a caracterstica de ser virtual.

    E nessa virtualidade de existncia a realidade se constri ilusria como uma miragem: Todos

    os verdadeiros alquimistas sabem que o smbolo alqumico uma miragem assim como o teatro

    uma miragem.( ARTAUD, 1993: 44)

    Com estas palavras, Artaud nos remete identidade que existe entre tudo que constitui

    a realidade virtual do teatro e a realidade supostamente ilusria sobre a qual evoluem os

    smbolos da alquimia.Esse pensamento nos parece importante na medida em que Artaud

    reconhece na virtualidade do teatro a sua natureza mgica e alqumica. E nessa alquimia o

    teatro busca na virtualidade da sua realidade promover a realidade do encontro do ator com o

    espectador.

    Neste encontro, cuja natureza simultaneamente real e virtual, o ator se aproxima do

    espectador atravs da construo de um universo visvel e invisvel. O visvel tudo que se

    constri objetivamente no espao. O invisvel a sua magia. A manifestao do invisvel no

    espao atuaria da mesma maneira em que no plano ilusrio evoluem, segundo Artaud, os

    smbolos da alquimia. Neste espao do invisvel se tece o carter mgico do teatro que tem na

    crueldade o seu poder de agir sobre o outro. nessa magia que repousa tambm o seu carter

    teraputico: O teatro, como a peste, uma crise que se resolve pela morte ou pela cura.

    (ARTAUD, 1993: 26) Artaud acrescenta que, como a peste, o teatro reconduz o esprito

    origem dos seus conflitos. O carter teraputico ou empesteado do teatro conduzido assim

    pelo ator, que age como um xam ao se relacionar com o espectador na cerimnia do teatro..

    Isso porque no espao empesteado do invisvel que se d o encontro entre o

    espectador, que sofrer a ao da crueldade inerente ao teatro e o ator que, como um xam (ou

    curandeiro), tece a natureza mgica da cerimnia atravs da qual se desencadeia o poder de

    cura do teatro. Como um xam, o ator instaura a cerimnia do invisvel modelando o

    espao em palavra e gesto. A relao entre a palavra e o gesto, o movimento e o som,

    , simultaneamente, real e simblica. Nesse universo de virtualidade e smbolo, o gesto

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  • atua em interao ntima e cmplice como uma coreografia visvel do invisvel da

    palavra. A palavra ento se modela em forma cujo sentido apresenta uma oralidade

    que pode ser lida nessa escritura do gesto no espao. A palavra busca nesse instante no

    universo do invisvel, tornar possvel a virtualidade do impossvel.

    Para desenvolver a sua coreografia da palavra no espao necessrio que o

    ator escute com muito cuidado o que a palavra tem a dizer, o que ela quer dizer. Diante

    da vontade da palavra a vontade do ator atua transformando significados em formas. O

    ator escuta a palavra, dialoga com ela, mergulhando nas suas possibilidades de

    significao.

    Mas para que isso acontea necessrio um ato de entrega, de sacrifcio ritual do

    ator com o verbo em busca de suas possibilidades significativas. Para isso necessrio

    possuir a palavra. Possuir a palavra aceitar ser possudo por ela. Nesse sentido, atuar

    praticar um ato de amor com a palavra. Atuar escrever a palavra em gestos, sons e

    afetos no espao, penetrando profundamente em sua intimidade mais recndita. O ator

    entra na palavra possuindo-a e deixando-se possuir por ela. Atuar um ato de

    possesso. Nessa possesso, nesse transe do absoluto, o ator o xam da cerimnia do

    teatro. Segundo a crena, ao cair em estado de transe, o xam fica possudo por espritos

    que falam e agem atravs dele. No teatro o esprito que fala atravs do ator a

    palavra.

    Ao atuar como um xam o ator possudo pelas possibilidades da palavra, pelo

    seu conjunto de significaes e sugestes semnticas e sensoriais enquanto busca

    escrever no espao um texto dramatrgico. A dramaturgia do espao, a encenao, ou o

    prprio teatro procura traduzir o universo da palavra no espao da cena. Isso implica

    em fazer do espao um discurso onde os signos que o compem podem ser lidos como

    um texto. A encenao uma escritura que se escreve pelo domnio afetivo do mistrio

    da palavra. O ator como um sacerdote, como um xam, revela com a sua conscincia

    e sensibilidade aquilo que a palavra pode sugerir de significao e encantamento. Nesse

    processo o ator sujeito do verbo. Ser sujeito do verbo implica em ser da palavra o seu

    duplo, revelando suas possibilidades em formas, sons e afetos que a escrevem no

    espao. Nessa escritura o ator, no espao sagrado do invisvel tornado visvel,

    redescobre do verbo o absoluto.

    Essa descoberta do absoluto do verbo um exerccio contnuo de atletismo

    afetivo que o ator pratica como um ato de possesso e que traduz uma profunda

    relao de intersubjetividade. A palavra em estado de possesso um duplo invisvel

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  • do ator e o ator em possesso o xam, o duplo visvel do invisvel da palavra. A palavra ressuscitada nessa relao de duplo revela os seus ecos afetivos na alma do ator,

    afirmando a sua identidade como atleta do corao e a essncia do teatro como duplo da vida.

    Esse duplo, esse lugar do verbo que dialoga com o ator e com o seu universo afetivo,

    manifestao do invisvel da palavra que o ator, como um xam do verbo busca magicamente

    encontrar. Nesse encontro a palavra simultaneamente se revela e se esconde. nesse jogo de

    duplo de profunda experincia de subjetividade que o ator xam se manifesta. nesse

    momento ritual e mgico da palavra, em que ela simultaneamente se diz e silencia, que o

    espectador encontra no ator o seu duplo. A realidade desse momento resultado de um

    contnuo exerccio de atletismo afetivo.Encontrar a essncia da palavra um exerccio de

    atletismo afetivo que busca discriminar no verbo o duplo.

    Uma das maneiras de o ator se exercitar como um atleta afetivo se d atravs do

    contato com seu duplo revelado na palavra em sua densidade mtica. Nesse encontro o ator que

    abriga foras primordiais que precisam ser expressas em afetos e smbolos, enfim, em

    linguagem, percorre a conscincia metafsica do homem atravs dos mitos. Fazendo nos textos

    uma leitura mtica, o ator exercita cognitiva e afetivamente o equivalente natural e mgico

    dos dogmas que Artaud nos aponta como essencial natureza do teatro.

    O conhecimento ntimo desse duplo, encontrado no universo do mito como uma

    manifestao de uma experincia da subjetividade, um exerccio de atletismo afetivo que d

    ao ator a desenvoltura mgica de lidar com signos na busca de sua expressividade simblica e

    sensvel. O ator constri nesse sentido o espao do mito do duplo onde o invisvel se .torna

    visvel. Nesse espao singular se d o encontro do homem, espectador, com o homem, ator, no

    universo de arqutipos que, vivenciados em afetos, em foras primordiais, se revelam em

    possibilidades de sentidos, de significados, de sensaes que tm uma natureza universal.

    assim que o ator e o espectador se aproximam na escritura da cena revelando-se um ao outro

    no encontro do homem consigo mesmo.

    O mito, como um duplo das possibilidades afetivas do ator, vai se desdobrando em

    experincias distintas, conduzindo o ator, pelo discurso e pela ao, a caminhar pelo duplo de

    si mesmo. O discurso cnico do qual o ator o autor se escreve como um processo de atletismo

    afetivo. O atletismo afetivo do ator o conduz busca de sua identidade xamnica onde a

    conscincia metafsica do homem se expressa e se revela no espao da vida e da cena como

    uma realizao do mito do duplo.

    Nesse processo revela-se cerimonialmente o misterioso mundo invisvel do verbo que o

    ator escreve como um poeta em versos livres no espao. O teatro a poesia do ator no espao.

    Poesia que revelao. nessa revelao que a palavra se encontra em ato de possesso. O ator

    entre verbos e afetos conduz os signos para um mundo onde tudo no princpio e no espao o

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  • verbo. E o verbo no teatro no ator . E o verbo o ator. E o teatro, na cerimnia da possesso

    do verbo pelo ator- xam, , como afirma Artaud, o duplo da vida.

    Bibliografia:

    ARTAUD, Antonin. O Teatro e seu Duplo. So Paulo: Martins Fontes. 1993

    BROOK, Peter. A Porta Aberta.Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira. 1999.

    ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. So Paulo: Martins Fontes. 2001.

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    Antonin Artaud e a possesso do verbo pelo ator-xam

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