Maria Cristina Bohn Martins Bolsista Produtividade CNPq ... ?· arte e cultura, 1987, p. 255) ... nas…

Download Maria Cristina Bohn Martins Bolsista Produtividade CNPq ... ?· arte e cultura, 1987, p. 255) ... nas…

Post on 11-Nov-2018

213 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • JOSE CARDIEL: UMA VIAGEM E UM DIRIO

    Maria Cristina Bohn Martins

    Bolsista Produtividade CNPq. Prof da UNISINOS

    www.unisinos.br

    Resumo: Nos anos centrais do XVIII padres jesutas estiveram envolvidos em viagens de

    reconhecimento e misso nos territrios ao sul de Buenos Aires. Entre os textos que

    resultaram destas incurses destaco o Diario del Viaje ao Rio del Sauce (1748) de Jos

    Cardiel, que aqui analisado para refletir sobre sua qualidade de portador de informaes

    acerca das populaes nativas americanas e avaliar suas potencialidades para o trabalho de

    construo de conhecimento a respeito delas.

    Palavras-chave: populaes indgenas, histria, fontes

    Considera sua tarefa escovar a histria a contrapelo

    (Walter Benjamin. Sobre o conceito de Histria. In: Magia e Tcnica,

    arte e cultura, 1987, p. 255)

    Todos os historiadores que se ocupam do estudo das sociedades indgenas

    americanas admitem a enorme importncia dos textos que escreveram os jesutas, contendo

    suas experincias e percepes sobre os grupos nativos que conheceram1. Esta qualidade

    fica ainda mais ressaltada quando nos referimos a reas de fronteiras, em que a presena

    espanhola era parca, assim como eram escassas as informaes sobre seus habitantes. Este

    o caso da regio da Amrica do Sul para onde os jesutas voltaram sua ateno na

    tentativa de erigir as chamadas misses austrais j em meados do sculo XVIII. Falo das

    1 L. Karnal (1998, p. 87) chamou a ateno do papel relevante da Companhia na construo da memria brasileira. Segundo ele, h um processo de construo da memria jesutica com seus objetivos corporativos; h um processo correlato (...) de construo da memria historiogrfica a partir dos registros jesuticos e h uma terceira forma de constituir memria, esta mais sutil e permanente: a maneira de se conceber educao a partir do modelo jesutico. Por sua vez, F. Torres Londoo (2002) analisou as linhas de fora que atuam sobre a produo e circulao das cartas trocadas entre os padres e os efeitos sobre a memria que produzem.

  • reas que, ao sul da provncia de Buenos Aires, em meados dos Setecentos comeavam a

    sofrer a intensificao da presena dos colonizadores como resultado da renovada poltica

    imperial espanhola. Entre os vrios textos que resultaram desta iniciativa destaco o Diario

    del Viaje y Misin al ao Rio del Sauce (1748) de autoria do padre Jos Cardiel2, o qual

    analiso aqui buscando indag-lo enquanto portador de informaes sobre as populaes

    nativas americanas e de forma a avaliar suas potencialidades para o trabalho de construo

    de um renovado conhecimento a respeito delas.

    As misses austrais

    O Dirio de uma Viagem ao Rio Sauce foi escrito em meio s atividades do Padre

    Jose Cardiel para com as misses austrais. Estas misses, em nmero de trs, foram

    fundadas ao sul da fronteira do Rio Salado, no atual territrio da Provncia de Buenos

    Aires, e estiveram sob a jurisdio dos padres da Provncia Jesutica do Paraguai. O Salado

    se constitua, ento, na linha de cesura que marcava a fronteira entre dois mundos: aquele

    dos assentamentos hispano-crioulos e o das semi-desconhecidas sociedades indgenas do

    pampa.

    Jos Cardiel esteve entre elas como missionrio, mas tambm se deslocou pela

    regio na qualidade de viajante, isto , como um observador das suas caractersticas

    humanas, ecolgicas e geogrficas. Em 1746 ele havia j participado daquela que

    considerada a primeira expedio cientfica para a Patagnia, que foi organizada pelas

    autoridades metropolitanas e contou com a presena de trs padres da Companhia: alm de

    Cardiel, participaram dela os padres Strobel e Quiroga, este ltimo vindo da pennsula

    2 Nascido em La Guardia, Espanha, em 1704, Cardiel chegou a Buenos Aires em 1729. Dois anos depois, foi encaminhado para trabalhar nas redues de guaranis. Tambm omou parte na fundao das primeiras misses junto aos mocobis e abipones e participou da catequese de charruas, pampas e serranos. Ele estava nas redues de guaranis quando da assinatura e tentativa de execuo do Tratado de Madrid, e envolveu-se diretamente nas polmicas em curso, sofrendo, por isto, a censura do padre Visitador Lope Luis de Altamirano. Aps a Guerra Guarantica foi designado para restaurar a reduo de San Miguel destruda pelo conflito. Cumpriu, por estes anos, atividades intimamente vinculadas s esferas de poder poltico e diplomtico, e acompanhou o comissrio espanhol encarregado de estabelecer os limites entre as jurisdies dos dois imprios. Estava no povoado de Concepcin quando recebeu a notcia do decreto que expulsava os jesutas dos reinos americanos da Espanha. Foi detido em 1768 e embarcado com outros 30 jesutas. Chegando Cadiz em abril de 1769, foi enviado para Faenza, onde faleceu em dezembro de 1781.

  • especialmente para este projeto. O grupo viajou por mar, seguindo a linha litornea a bordo

    de uma fragata, mas mesmo seus desembarques e incurses pela costa, no oportunizaram

    nenhum contato com as populaes nativas.

    Pouco antes disto, em meados de 1740, havia se estabelecido a primeira das

    misses austrais, Nuestra Seora de la Purssima Concepcin de los Pampas, localizada

    ao sul da desembocadura do Rio da Prata. Mais tarde, em novembro de 1746, os Pes. Jose

    Cardiel e Toms Falkner fundariam Nuestra Seora del Pilar de los Serranos3 cerca de 16

    km da atual Mar del Plata. Pouco depois, seria organizada Madre de los Desamparados4

    [1749] a qual, assim como suas precedentes, seria caracterizada pela instabilidade e curta

    durao.

    Os portenhos at ento pouca ateno haviam dado aos territrios austrais,

    mantendo uma poltica defensiva em relao aos indgenas e realizando apenas esparsos

    movimentos em sua direo. Embora os jesutas da Provncia do Paraguai tivessem

    permisso para evangelizar a desde 1684, as iniciativas neste sentido somente se

    concretizaram a partir de 17405, dcada marcada pelo acirramento das investidas indgenas

    sobre aldeias e estncias espanholas. , pois, a partir do sculo XVIII que aparecem na

    pampa buenairense algumas instituies que foram caractersticas da colonizao

    espanhola em zonas de fronteira: estruturas de tipo militar como fortes e milcias e misses

    religiosas6. Sua instalao desenvolveu-se no mbito de uma poltica de expanso das

    3 Ou Pilar del Volcon. 4 Por vezes referida como Nuestra Seora de los Desamparados. 5 Segundo a Carta de Antonio Machoni, desde Crdoba ao Padre Francisco Retz, datada de janeiro de 1739, o retardamento na ateno dos jesutas sobre estes territrios se deveu ao pouco apoio do Governador de Buenos Aires e ao fato de terem concentrado suas atenes nas sociedades chaquenhas situadas no centro da Provncia. Cf. Transcrio de um fragmento de la Carta de Antonio Machoni al P. Francisco Retz, Prepsito Geral da Compaa de Jess (Roma). Apud: MARTNEZ MARTN, 1994, p. 166-167.

    6 Mesmo as misses no podiam prescindir de algumas estruturas defensivas. A dos pampas, por exemplo, descrita como um pequeno fortim. Ela tinha instalaes precrias: dois ranchos de adobe para os padres e um toldo de couro que servia de capela. Os 300 ou 350 indgenas que se reduziram dispuseram suas tendas de acordo com a usual planta jesutica. Um fosso foi construdo para dificultar possveis ataques (Strobel: apud: FURLONG, 1930, p. 250), e instalaram-se peas de artilharia leve fornecidas pelo Governador de Buenos Aires (BARCELOS, 2006, p. 248).

  • fronteiras coloniais e de reorganizao das relaes travadas com os grupos indgenas da

    rea, na medida em que os territrios por estes controlados passavam a freqentar a rbita

    de interesse da sociedade colonial platina. A constituio das trs referidas misses

    significava, desde o ponto de vista das autoridades coloniais, o surgimento de postos

    avanados de ocupao e, simultaneamente, de um flanco defensivo contra incurses

    indgenas.

    Pursima Concepcin teve como primeiros missionrios Manuel Querini e Matias

    Strobel e sua fundao relaciona-se intensificao dos malones dos pampas s regies

    vizinhas a Buenos Aires, bem como, de outra parte, s aes de represlia das autoridades

    da cidade. Pouco depois Thomas Falkner e Jose Cardiel, dirigiram-se para a Sierra del

    Volcn a aproximadamente 70 lguas de Buenos Aires, onde, junto aos serranos,

    iniciaram a nova misso; Nuestra Seora de los Desamparados ficar nas proximidades

    desta ltima. As trs misses tiveram uma durao bastante curta: 1740-1753 para a

    primeira delas, 1746-1751 para a segunda e 1750-1751 para a ltima. A primeira a ser

    abandonada foi Pilar, retirando-se os missionrios para Concepcin de los Pampas. Esta

    tambm veio a sucumbir em 1753. Antes disto, Madre de los Desamparados havia j sido

    abandonada diante dos ataques do cacique Cangapol, conhecido entre os espanhis como

    Bravo.

    As misses austrais em registro escrito

    As misses jesuticas foram documentadas em variadas formas, em boa medida a

    partir da iniciativa dos prprios religiosos da Companhia. Uma srie de escritos assume a

    forma de relatrios, cartas, informes, crnicas e memrias, registrando diferentes momentos

    da colonizao, a atuao dos padres nestas misses e a resposta dos nativos frente ao

    contato. Estas respostas foram no mais das vezes lidas pelos historiadores a partir das

    noes de recusa (de resistncia, violenta ou no) ou aceitao (que teria como

    conseqncia, a descaracterizao da cultura e identidade nativas) pelos ndios das

    propostas que lhes faziam os jesutas de passarem a viver nos pueblos. De toda sorte, o

  • papel reservado aos indgenas foi o de alvo da ao dos padres, como objetos de uma

    dinmica que lhes era exterior e que eles no controlavam. Apenas recentemente os

    estudiosos desta temtica passaram a analisar estes documentos a partir de outra opo

    terica, entendendo que os nativos no foram receptores passivos das inovaes culturais,

    mas partcipes e atores dos processos de transformao em curso (MANDRINI, 2004,

    2007).

    Muitos dos documentos produzidos pelos jesutas foram essencialmente

    apologticos, justificando o trabalho da Ordem e sua presena entre os ndios. No raras

    vezes, ressaltam as privaes dos sacerdotes e suas vitrias na conquista espiritual dos

    ndios, devidas aos seus esforos sem medida, mas tambm decisiva ajuda da

    Providncia Divina. Como no poderia deixar de ser, os missionrios so apresentados

    sempre como justos, abnegados e bondosos, enquanto os espanhis so cruis e

    gananciosos. Sobre os indgenas, alm de um repertrio de atributos que so mais ou menos

    extensivos aos vrios grupos que conheciam (barbarismo, preguia, etc...), uma

    caracterstica que era importante para os jesutas dizia respeito ao serem predispostos ou

    reativos doutrina crist.

    Meu exerccio de anlise aqui busca explorar as informaes registradas sobre os

    ndios destas misses, bem como refletir sobre as linhas de fora que atuam sobre elas.

    Como j afirmei, trata-se do Dirio sobre a viagem que empreendeu Cardiel em 1748,

    saindo e Buenos Aires para a Misso de Pilar nas proximidades da Sierra de las

    Ventanas, e da at o Rio del Sauce (Rio Negro). Cardiel estava determinado a encontrar

    algumas tolderias, a cujos habitantes ele gostaria de levar a catequese. Mas estava

    igualmente interessado em avaliar as condies da regio para receber portos e misses.

    Os dados consignados neste curto dirio podem ser mais bem apreciados se os

    avaliarmos a luz de outro texto, a Carta Relacin que o missionrio havia escrito um ano

    antes, 7 em que ele pondera sobre os grupos indgenas da regio a partir do que j havia

    conhecido (e verificado) sobre eles. Esta recomendao (ou necessidade) se faz diante da

    7 Publicada por Guillermo Furlon em 1953, a referida Carta foi dirigida por Cardiel em 1747 ao seu amigo P. de Catalayud a fim de proporcionar a ele um registro das atividades missionrias da Companhia na Amrica.

  • exigidade do dirio e da escassez de informaes que ele aporta sobre as populaes da

    rea.

    Diz ele que, depois de concluda a expedio de 1746, recebeu ordens de se dirigir a

    las Sierras del Volcn, onde chegou con [un] compaero a fines de agosto de 1746 (In:

    FURLONG, 1953, p. 206). Ao lhe ser destinada esta incumbncia, o jesuta tinha slida

    experincia, tanto junto aos guaranis, uma sociedade agricultora, quanto junto a povos que

    no eram aldees, como mocobis e abipones . So especialmente os guaranis, contudo, que

    servem de referencial e parmetro para as comparaes estabelecidas por Cardiel ao avaliar

    os grupos junto aos quais se encontravam os jesutas nesta nova oportunidade.

    Sanchez Labrador8 definiu em traos bastante gerais os indgenas com os quais se

    identificavam os trs povoados. Pursima Concepcin que se localizou ao sul do Rio

    Salado estava destinada aos pampas, como eram conhecidos os ndios que habitavam a

    rea de plancies nas proximidades de Buenos Aires. Pilar ficava um pouco mais distante,

    numa regio serrana a sudoeste de Buenos Aires, prxima a atual Mar del Plata, fundada

    que foi para reunir os serranos (ou puelches, ou ainda peguenches). Finalmente, Madre de

    los Desamparados deveria atender os tuelchus ou patagones, a nao mais numerosa que

    o jesuta dividia em tuelchus de a caballo, nas proximidades dos rios Negro e Colorado, e

    os tuelchus de a pie ao sul do rio Negro em direo ao estreito de Magalhes.

    Tambm Cardiel, logo na abertura de seu Dirio, anota quais eram os grupos

    indgenas que se encontravam nas reas que iria percorrer. Sua informao, embora de

    primeira mo, ainda mais exgua do que aquela feita por Sanchez Labrador e, como a

    deste, indica as parcialidades indgenas a partir do local em que elas poderiam ser

    encontradas:

    8 Sanchez Labrador no trabalhou nestas misses e retira suas impresses da leitura do que escreveram seus colegas. Ele foi um erudito em vrios campos das cincias naturais, assim como contribuiu para o conhecimento da geografia, das lnguas e da etnografia de vrias sociedades americanas. Natural da provncia de Toledo em setembro de 1717, ingressou na Companhia em 1732 e foi enviado para o Rio da Prata , em 1734. Foi professor de Teologia no Colgio Mximo de Buenos Aires e entre 1747 e 1757 esteve em diversas misses guaranis. Atuou tambm com os ndios tobas, antes de ver-se obrigado a abandonar Amrica em agosto de 1767, no momento em que retorna de uma longa viagem para as misses de chiquitos.

  • Este grande espacio de tierra de 400 leguas desde Buenos as al Estrecho de

    Magallanes, ocupaban primeramte los Indios Pampas que vivian entre los

    Espanoles en las Estancias de ganados de Buenos as . Despues de estos vive una

    parcialidad de los que en Buenos as llaman Cerranos, en la Sierra del Bolcal

    como 100 legaus de esta Ciudad, dejando el espacio intermedio de cerca de 100

    leguas vacio, y solo poblado de fieras y Yeguas Cerriles, vaguales como ac

    dicen (In: FURLONG, 1953, p. 245-246).

    Alm destes, Cardiel refere-se, tambm, aos Aucaes, que habitariam en la misma

    Cordillera en sus valles (In: FURLONG, 1953, p. 247). Embora aparentemente variado,

    este panorama etnogrfico, certamente no faz jus a multiplicidade e singularidade dos

    grupos presentes na rea. Sobre isto devemos destacar o problema das designaes

    impostas aos grupos indgenas, as quais atendem a uma necessidade prtica de identificar

    al otro y ordenar las relaciones que surgen de la situacin de contato (IRURTIA, 2008, p.

    203). preciso lembrar sobre isto que o XVIII foi a poca das classificaes, dos

    esforos por impor uma taxionomia que ordenasse o mundo natural (PRATT 1999,

    MANDRINI, 2007). No caso dos jesutas, esta necessidade se apresentava fortemente, uma

    vez que se encontravam diante do que se lhes parecia um confuso mosaico tnico.

    Conocer ese mundo y esas realidades implicaba pues describirlo y ordenarlo,

    determinar cules eran sus componentes - naturales y humanos y las relaciones entre

    ellos, fijarlos en el espacio y en el tiempo (MANDRINI, 2007, p. 28). Os primeiros

    etnlogos, contudo, tomaram tais descries como se fossem reflexos da realidade, e no

    como parte do esforo de orden-la, de compreend-la e apropriar-se dela. Apenas

    recentemente, dotados de novos aparatos de crtica, os historiadores passam a revisar e

    reorganizar estas informaes.

    De modo geral, a terminologia empregada confusa, mesclando critrios e

    produzindo uma pluralidade de nomes que podem dizer respeito a extensos grupos tnicos,

    tanto quanto se referir a pequenas parcialidades. Um mesmo termo pode designar distintos

    grupos ou contrariamente, pode ser aplicado a um mesmo grupo distintos nomes. Alm

    disto, suas observaes apenas reforam definies generalizantes e tributrias de

    preconceitos que j de longa data tinham se constitudo. Cardiel por exemplo, entende que

  • muitos dos ndios que visitavam Buenos Aires com alguma freqncia e se comunicavam

    em lngua espanhola: con ella han aprendido todas las malas costumbres de la gente de

    servicios, negros, mestizos, mulatos indios com quien mas tratan. Submetidos a tal

    influncia, eles acabariam se tornando inconvertveis (In: FURLONG, 1953, p. 247). Sobre

    os serranos de Ntra Sra del Pilar del Volcn ele recorda:

    Llegu all con mi compaero a fines de agosto de 1746 (...) Hall en ellas como

    300 indios de los que en Buenos Aires llaman Serranos. Declar el fin de mi

    venida. Llevrosla a bien, y vinieron todos al paraje que yo senal. Comenc a

    acariciarlos con los medios que dije tratando de los Abipones. Mostraban gusto

    que les formsemos pueblo, auque algunos se mostraban adversos a la

    cristianidad, diciendo que ser cristiano ser esclavo, y otros disparates a este

    modo. Este primer viaje era solo para ganarles la voluntad y tentar el vado, para

    volver despus viendole vadeable, con todo lo necesario para formarles pueblo

    (...) (In: FURLONG, 1953, p. 206).

    Cardiel se refere aqui, insistncia com que os nativos solicitavam presentes e at

    condicionavam tais ofertas a acolhida que davam aos padres. Ele levava consigo, entre

    outros itens, seis docenas de cuchillos de cabo ligero, tres frenos, dos palas, cinco clavos,

    e ainda cuentas de cristal y vainilla, para obter a boa vontade dos ndios que contatasse9

    Pode-se perceber a partir da, que avaliaes correntes sobre as demandas dos ndios para

    que se constitussem misses, como forma de se protegerem das entradas das milcias de

    hispano-crioulos, devem ser relativizadas e complementadas. As misses poderiam ser

    vistas como um refgio contra as agresses dos brancos, mas tambm como local onde se

    teria acesso a alguns itens que prestigiavam. As trs misses a que estou me referindo,

    inclusive guardavam a caracterstica de manterem uma populao indgena pouco estvel:

    os grupos permaneciam algumas temporadas e deixavam-nas em seguidas oportunidades e

    de acordo com sua convenincia. Parece at que eles manobram o empenho dos padres em

    reduzi-los de forma a obter artigos que cobiavam e, assim, tirar vantagens da situao.

    9 Razon y memria de lo que el Pe Joseph Cardiel de la Comp.a de jhs lleva pa la Mision de la Sierr, assi lo que se h comprado com plata, que para esse intento se le habia dado, como lo que el Pueblo de los Pampas h dado (Apud: FURLONG, 1939, p. 34).

  • Sobre os serranos, Cardiel informa que viveriam nas imediaes das nascentes do

    Rio Sauce, prximos da Cordilheira. O nmero de adultos (em condies de tomar

    armas) no passava de 200, mas eram capazes de estabelecer alianas com os peguenches

    e puelches de quem entendiam a lngua. Sua presena nas proximidades da Sierra del

    Volcn, a onde os encontrou, se devia aos deslocamentos que faziam em busca de guas e

    cavalos que caavam nestas paragens. Eles tambm se dirigiam para Buenos Aires onde,

    em troca de ponchos, compravam aguardente e guizos que usavam em suas festas. O

    sacerdote est informado que os serranos no fabricavam os ponchos, mas os obtinham com

    os aucaes10 em troca de cavalos que buscavam na regio do pampa.

    Podemos ver que, como tem confirmado a historiografia, a fronteira entre as

    sociedades nativas e os colonos hispano-americanos no era um espao que se constitusse

    unicamente em torno de conflitos e excluso. Ao contrrio, ela evidencia uma porosidade

    que permitiu que os indgenas desta regio estabelecessem uma complexa rede comercial

    que conectava grupos de regies diferentes e distantes. Da mesma forma, possvel

    apreciar as enormes transformaes operadas nas estruturas internas destes grupos que se

    fizeram caadores de gado selvagem primeiro, saqueadores depois e, mais tarde, pastores

    de rebanhos (MANDRINI, 2004). Tambm se percebe que os ndios podiam organizar

    circuitos comerciais de forma atender seus interesses e demandas, assim como o faziam os

    criollos11.

    Efetivamente, um dos aspectos sobressalentes das transformaes pelas quais

    passaram as sociedades indgenas em contato com a hispano-crioula diz respeito sua

    economia e se manifestou, por exemplo, na adoo de bens de origem europia. Embora os

    cavalos fossem os itens mais prestigiados pelos indgenas que os utilizavam com destreza,

    vacas, ovelhas, mulas e cabras eram igualmente apreciadas. Alm disto, os ndios

    incorporaram sua dieta acar, erva vinda das misses do Paraguai e farinhas feitas de

    cereais europeus. Tambm os instrumentos de ferro, as roupas europias e aguardente eram

    10 los Aucaes los hacen en sus tierras, en donde tienen ovejas con ms larga lana que las de otras partes. (In: FURLONG, 1953, p. 207). 11 Os ponchos son la vestidura que sirbe aqu de capa a la gente labradora (In: FURLONG, 1953, p. 207).

  • almejados12. Os ndios eram, por outro lado, fornecedores de sal ou ponchos para os

    povoadores brancos.

    Devemos reter a outra considerao importante. Diferentemente da viso

    consagrada pela historiografia chilena e argentina que, assentada na metodologia positivista

    e no iderio romntico-liberal, definiu as relaes entre as sociedades originrias e

    ocidentais unicamente a partir do binmio guerra e conflito, esta no foi uma situao

    nica ou permanente. Sem dvida a violncia se constituiu em um forte componente da

    vida nas reas de fronteiras, mas no foi exclusivo, fazendo parte de um complexo conjunto

    de relaes que envolviam outras possibilidades.

    Sobre os serranos, pareceu a Cardiel que eram um alvo importante para a

    continuidade dos trabalhos apostlicos da Companhia. No eran pedigeos, ni

    enfadadizos, mostraban humildad, y mucho agradecimiento a lo que se les daba, y afliccin

    a las cosas de la cristianidad que se les deca (In: FURLONG, 1953, p. 207). V-se que a

    chave de leitura pela qual os padres percebiam os ndios, isto , sua predisposio para o

    Evangelho, est presente na observao do jesuta, que agrega a ela as qualidades de no se

    entediarem facilmente, nem se apresentarem excessivamente motivados por presentes.

    Cardiel negociou com estes serranos uma viagem que o levasse at as terras de onde

    eles eram procedentes (sus tolderias del Sauce). Estes, no entanto, mesmo depois de

    verem atendidas suas exigncias13 desistiram de escolt-lo. Um dos motivos apontados era

    que tinham notcia de que os padres acabariam por escraviz-los. Outro era de que a

    viagem poderia levar o jesuta a um encontro perigoso com os auces malos pelo que

    eles temiam ser responsabilizados, bem como pelo rompimento das relaes de paz

    momentaneamente estabelecidas. O que parece importante no determinar o que motivou

    a conduta dos ndios, mas sua capacidade de fazer uma leitura da situao e optar pela

    poltica que pareceu mais vantajosa.

    12 A importncia quase exclusiva que j se deu ao chamado complexo eqestre como mobilizador dos desejos e demandas de produtos ocidentais pelos ndios vem sendo relativizada h algum tempo. Ver: MADNRINI, 2004. 13 Vino en ello, diles lo que pidieron de pano, cascabeles grandes y vainillas de laton (In: FURLONG, 1953, p. 208).

  • Ao mesmo tempo em que reitera sua confiana sobre as qualidades daqueles que

    viviam afastados do mau exemplo dos espanhis 14, Cardiel reputa aos demais ndios uma

    srie de atributos negativos15. So pedigeos, soberbos e pouco agradecidos. So ainda

    interesseiros e condicionam sua ateno s prdicas do padre a generosidade deste em

    presente-los. Finalmente, so negociantes astutos e prontos a enganar os incautos:

    Si les queremos comprar algn caballo o poncho para el uso y paga de nuestros

    peones, son tan caros, tan rateros, tan regateadores, y tal la vileza de su trato, que

    a ms de traer siempre lo peor, el peor caballo, cojo o manco o viejo etc. y el

    peor poncho, cuesta una insoportable molestia el ajustar el trato, porque es

    menester sacarle toda la tienda de cascabeles, vainilla o cuenta de vidrio para

    escoger; y uno a uno los va tentando, registrando, sonando, desechando ste por

    de mal color, el otro por de mal sonido o mal soldado, la otra por delgada, etc

    (In: FURLONG, 1953, p. 208).

    Lendo as queixas de Cardiel a contrapelo16, podemos entender que os ndios

    agiam de forma a no facilitar a presena dos jesutas e que manejavam a situao para

    criar dificuldades aos padres, sem se oporem diretamente a eles: y dado que me lleasen,

    me guiarian a sola una tolderia donde estan sus parientes, y me volverian por el mismo

    camino, sin querer hacer mas, por q. como infieles y barbaros no tienen obediencia ni

    respecto (In: CARDIEL, 1930, p.253).

    14 Estos Tuelchs del Sauce y de ms all, vuelvo a decir, son los que me robaban el corazn, por verlos libres de aquellas falsas aprehensiones de los que comunican con los Espaoles, y por las dems buenas calidades que dejo dichas (In: FURLONG, 1953, p. 208). 15 Adems de esto, son notablemente pedigueos: vienen a pedir con sobierba, como si todo se les debiese de justicia: se enojan fcilmente en no dndole cuanto piden, y luego dicen: como quieres que me haga cristino, si no me das todo lo que pido? No agradecen lo que se les da, antes bien, continuamente estn murmurando que no se les da de nada, por ms que se les d (In: FURLONG, 1953, p. 208).

    16 Sua opinio sobre os pampas reduzidos em Pilar e j catequizados tambm no favorvel: y como tampoco hay escolta de indios cristianos con quienes se pudiera ir, por q. aun q. los Pampas lo son ya, son muy pocos como 400 familias solamente, y adems de esto tan interesados aun en lo que necesitamos sus Padres espirituales, como los mismos infieles y adems de este inters no muestran amor y cario a los Padres, como los muestran las dems naciones del norte aun en los principios de su conversin. (CARDIEL, 1930, p. 253 - 254).

  • Outra nota feita sobre a qualidade das informaes obtidas de seus informantes

    permite uma reflexo que se desdobra em mais de uma possvel compreenso. Segundo

    Cardiel:

    un Misionero para poder formar Pueblo necesita ver y rexistrar quanto

    numero de gente hay en todo el contorno, pues por el solo dho de los indios no

    se puede formar concepto que Bosques, que montes y selvas para lea y fabricas,

    que tierra, pastos y rinconadas para cementeras, ganado mayor y menor, que

    rios, que aguas, y si algo forma puerto para embarcaciones y comunicacin por

    mar, y para todo esto es necesario deternerse y caminar arriba y abajo por varias

    partes... (CARDIEL, 1930, p.253).

    A afirmao pode ser mostra da opinio corrente sobre o pouco entendimento dos

    ndios, e de que eles no teriam condies intelectuais de avaliar corretamente as

    necessidades envolvidas. Ou podemos estar diante da evidncia que os nativos davam aos

    padres as informaes que eram convenientes para si mesmos So estes indgenas pouco

    confiveis que determinam, pela desero de seus guias, que a viagem terminasse antes do

    previsto:

    El da 21 estando ya cargadas las cabalgaduras, salieron el baqueano o gua, y el

    intrprete, diciendo que se queran volver, que hacia mucho fro y que estaba

    lexos. Ya las noches antecedentes haban hablado mucho de esto, a que aadan

    que los infieles que buscbamos eran muy brbaros y sangrientos, que nos

    haban de matar Volvieronse a galope dejndonos solos, vindome sin gua ni

    lengua imposibilitado no tanto a caminar adelante, cuanto a hablar y declarar a

    los indios mi venida, me fue preciso volver atrs ... . (In: FURLONG, , 1930:

    261).

    Em casos como o desta viagem, com escasso planejamento e pouco apoio

    institucional, a capacidade de improvisao e as estratgias que vo sendo construdas na

    prtica pelos missionrios eram fundamentais. Seus deslocamentos dependeram da

    informao e da ajuda oferecidas pelas populaes das reas percorridas. A falta ou

    interrupo desta ajuda, como no caso descrito, significava o ponto final da iniciativa.

  • Depois, portanto, de reconhecer o caminho da Serra do Vulco at o arroio de

    Claromec17, e tendo que abandonar o projeto de chegar ao Sauce, Cardiel regressa para

    Buenos Aires. Seu relato e informaes eram importantes para as autoridades e para a

    sociedade portenha, num momento em que aumentava o nvel de conflitividade com as

    sociedades indgenas.

    Um Dirio e os fragmentos do passado.

    O Dirio escrito pelo jesuta durante a viagem dista muito do tipo de escrita que

    costuma estar ligada iniciativa dos padres. um texto sbrio, econmico e que no se

    aproxima da literatura edificante tantas vezes a eles associada. Ele tambm escasso em

    informaes sobre as sociedades indgenas que circulavam pela rea visitada. Entre as

    temticas que retiveram a ateno de Cardiel se encontram, em primeiro lugar, as

    caractersticas geogrficas. Mesmo estando prximos de Buenos Aires, os missionrios

    eram a desafiados por problemas importantes, sendo esta regio muito diferente daquela

    em que tinham acumulado experincia anterior, com as aldeias de guaranis aparecendo

    como assentamentos estveis e onde era possvel obterem-se alimentos. As reas

    atravessadas agora, ao contrrio, eram percorridas por grupos com forte mobilidade18 sendo

    difcil a proviso de alimentos e os deslocamentos perigosos.

    Os registros do religioso ajudam a compreender as questes envolvidas na expanso

    das misses que passam a ser estimuladas agora que os territrios austrais assumem nova

    importncia, econmica e estratgica. Como afirma Cardiel: Adems de ganar estas almas

    para Dios, se hizo un bien impoderable a la Repblica, quedando los caminos seguros, el

    17 Quedose pues sabido para todos, que este camino (...) es no solo de cavalgaduras sino tambin de carretas, sin pantano alguno, con pasos por los rios aun por los grandes de las barrancas, con lama para pasar, porque aunque en algunas partes hay muy poa, se puede cargar en las que la hay, con abundancia de agua, de manera que casi siempre se puede hacer medio da en un arroyo, y noche en otro, camino de tierra adentro, y de la orilla de los arenales( FURLONG CARDIFF, 1930: 35 ) 18 Atualmente os especialistas no tema no mais aceitam as categorizaes de nomadismo para as populaes pampeanas. Contrariamente a isto, se entende que eles estariam assentados em locais em que a presena de pastos, lenha e gua, tornavam possvel a sobrevivncia. Reconhece-se sim, uma alta mobilidade empregada por estes grupos, seja por questes de abastecimento, seja para participar de rituais coletivos, por exemplo. Para algumas regies especficas seria possvel falar de um seminomadismo estacional, determinado pela necessidade de remover rebanhos em determinadas pocas do ano.

  • comercio libre, las sisas y alcabalas reales que a trechos se pagaban, corrientes; y los pobres

    espaoles contentos y sin susto en sus tierras y casas (Apud: FURLONG, 1939: 41).

    Pode-se concluir que a constante e intensa ateno que os jesutas emprestaram ao

    reconhecimento das caractersticas das sociedades indgenas, nem sempre resultou em

    descries de um mesmo padro. Alm das diferenas que certamente se estabelecem a

    partir dos autores considerados e suas idiossincrasias, outras linhas de fora se interpem

    entre o visto e o narrado. Nem sempre seus escritos especularam sobre temas teolgicos ou

    de moral, preocupando-se mais com as necessidades prticas da insero dos nativos nas

    formas de uma vida poltica e crist. Tambm nem sempre eles resultaram em textos

    diretamente portadores de informaes sobre as sociedades indgenas.

    Para os leitores modernos do Dirio, no h como seguir o curso das selees de

    memria e de inteligncia que operaram a reconstruo do que havia se passado, isto ,

    do tempo da viagem propriamente dita, e da confeco final do texto. O que ficou dela

    um relato sbrio e contido, apresentando uma descrio bastante objetiva da regio

    percorrida19, de suas caractersticas e das dificuldades que impunham aos que passassem

    por ali. Poder-se-ia dizer que um dirio de campo, com as caractersticas que ento

    eram apresentadas por este tipo de texto. Embora Cardiel no dispusesse do aparato que a

    cincia j colocara disposio de alguns de seus viajantes (teodolito, relgio, bssola,

    barmetro, por exemplo), ele procurou mximo rigor que as circunstncias lhe permitiam.

    Alm da precariedade dos meios tcnicos de que dispunha, outro elemento marca uma

    diferena substancial entre a viagem de Cardiel e aquelas que, como lembra Pratt (1999),

    tinham a pretenso de constituir-se em um gnero narrativo caracterstico: a literatura de

    sobrevivncia, que comeara a ser tornar popular no sculo XVIII. At mesmo na descrio

    das dificuldades enfrentadas, o jesuta econmico com as palavras.

    Finalmente, podemos apontar uma outra distncia muito clara entre o Dirio e

    outras obras que eram resultado de expedies de explorao deste sculo, em que

    19 Quedose pues sabido para todos, que este camino (...) es no solo de cavalgaduras sino tambin de carretas, sin pantano alguno, con pasos por los rios aun por los grandes de las barrancas, con lama para pasar, porque aunque en algunas partes hay muy poa, se puede cargar en las que la hay, con abundancia de agua, de manera que casi siempre se puede hacer medio da en un arroyo, y noche en otro, camino de tierra adentro, y de la orilla de los arenales( FURLONG CARDIFF, 1930: 35 )

  • estudiosos europeus percorreram o interior dos continentes para inventariar o mundo

    (RAMINELLI, 1998: 157). Nestes textos Mary Louise Pratt encontrou um cuidadoso

    empenho dos cientistas em naturalizar sua presena (1999: 61) naqueles espaos que

    percorriam. Cardiel no se vale deste expediente. O conhecimento a ser alcanado no

    para ele desinteressado, obtido em favor da cincia, Ao contrrio, ele um propsito

    muito claro, o de possibilitar a expanso da autoridade da monarquia espanhola e das

    misses da Companhia de Jesus na rea. assinalando esta convico que ele termina seu

    registro dizendo: Esta es la historia de este viaje: quiera el Seor que se prosiga para

    sacar de las garras del Diablo tantos ndios (In: FURLONG, 1930, p. 287).

    Bibliografia

    AMAYA, Yesica. Itinerrios de viagem pelos confins do territrio americano: os missionrios

    jesutas e a expanso para a rea ao sul de Buenos Aires In: ANZAI, Leny Caselli e MARTINS, M

    Cristina B. Histria colonial em reas de fronteira. ndios, jesutas e colonos. SL/Cuiab: Oikus,

    Ed. da UNISINOS, Ed. da UFMT, 2008, pp. 13-38.

    BARCELOS, Artur, O mergulho no seculum: explorao conquista e organizao espacial na

    Amrica espanhola colonial, Tese de Doutorado. PUCRS. Porto Alegre, 2006.

    BARNADAS, Josep M. A Igreja Catlica na Amrica Espanhola Colonial. In: BETHELL, Leslie.

    Histria da Amrica Latina 1. SoPaulo: EDUSP, 1997, p. 521-552.

    CARDIEL, Jos, Diario de viaje y Misin al Ro Sauce realizado en 1748, con prlogo de G.

    Furlong-Cardiff y F. Outes, Buenos Aires, 1930.

    FURLONG, Guillermo S.J. Jos Cardiel S.J. y su Carta Relacin (1747). Escritores Coloniales

    Rioplatenses II. Buenos Aires: Libraria del Plata, 1953.

    GARAVAGLIA, Juan Carlos MARCHENA, Juan. Amrica Latina de los orgenes a la

    independencia. II. La Sociedad colonial ibrica en el siglo XVIII. Barcelona, Crtica, 2005.

    IRURTIA, Mara Paula. El cacicazgo en la regin pampeana-norpatagnica argentina a mediados

    del siglo XVIII: La actuacin de los caciques en torno a la instalacin de las misiones jesuticas.

    Anthropologica, dic. 2008, vol.26, no.26, pp.199-228.

    KARNAL, Leandro; Memria Infinita para a Glria de Deus. Tempo Brasileiro, vol. 135, Rio de

    Janeiro, RJ, BRASIL, 1998, pp.77-88.

  • LOZANO, Pedro, Diario de un viaje a la costa de la Mar Magallnica en 1745, desde

    Buenos Aires hasta el estrecho de Magallanes. Formado sobre las observaciones de los PP.

    Cardiel y Quiroga, Buenos Aires, Imprenta del Estado, 1836. In: http: //www.cervantes

    virtual.com Capturado em maro de 2007.

    LOZANO, Pedro. Historia de la conquista del Rio de la Plata, Paraguay y Tucumn. Tomo

    I. Buenos Aires, 1873. In: http://www.cervantesvirtual.com. Capturado em maro de 2007.

    MANDRINI, Ral. Las fronteras y la sociedad indgena en el mbito pampeano. Anuario

    del IEHS. n.12, Tandil. pp. 23-34, marzo de 2004.

    MANDRINI, Ral. La historiografa argentina, los pueblos originarios y la incomodidad de

    los historiadores. Quinto Sol, n. 11, 2007, pp. 19-38.

    MARTNEZ MARTN, Carmen. Las reducciones de los pampas (1740-1753):

    aportaciones etnogeogrficas al sur de Buenos Aires. Revista Complutense de Historia da

    Amrica, nm. 20. 145-167. Ed. Complutense, Madrid, 1994.

    PRATT, Mary Louise. Os olhos do Imprio. Relatos de viagem e transculturao. Bauru,

    SP: EDUSC, 1999.

    TORRES LONDOO, Fernando. Escrevendo cartas: jesutas, escrita e misso no sculo

    XVI. In: Tempos do Sagrado. Revista Brasileira de Histria. So Paulo:

    ANPUH/Humanitas Publicaes, v. 22, n. 42, 2002, pp. 11 32.

Recommended

View more >