Manuela de ?· 2017-12-19 · Fomos para lá, fizemos várias coisas de Gil Vicente, Teixeira de Pascoaes…

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  • Na primeira pessoa Sinais de cena 2. 2004Sebastiana Fadda e Rui Cintra quarenta e um

    Manuela de Freitas, actualmente assessora de direco da Cinemateca Portuguesa, assume a sua vocao como umaforma de estar na vida. O seu percurso, feito de entrega apaixonada, de uma coerncia exemplar. Em seu entender,o teatro tem componentes ticas, estticas, artsticas e sociais s quais no consegue renunciar. E defende, semhesitaes, conceitos em vias de extino: o teatro como partilha comunitria e prtica cvica em benefcio da comunidade.

    Manuela de FreitasUma actriz que tudo ou nadaSebastiana Fadda e Rui Cintra

    Como foi o seu primeiro contacto com o teatro?Os meus pais iam muito ao teatro. Tnhamos muitas peasem casa e eu, desde mida, representava para os meusirmos, entrava nas peas da Igreja de Nossa Senhora deFtima. No liceu, participava nas peas de finalistas. NaMocidade Portuguesa, que era uma coisa obrigatria,tinha que escolher entre canto coral, lavores e arte dedizer: era esta a que escolhia sempre. Isto no Liceu Filipade Lencastre, uma espcie de campo de concentraoonde estive durante sete anos. A minha libertao era

    nessa aula de arte de dizer. Foi l que aprendi O passeiode Santo Antnio, que ainda hoje sei de cor. Pertencitambm a uma associao catlica, que eram as Noelistas,e a fiz Os desastres de Sofia, mas nunca me passou pelacabea vir a ser actriz. Vivia num ambiente repressivo econservador, por isso ser actriz era impensvel. Acabei oliceu e tirei um curso de secretariado. Com o primeiroordenado que ganhei fui ao Festival de Avignon, sozinha,aos dezoito anos. Vi a Maria Casars e o Jean Vilar aindahoje me lembro e arrepio-me toda.

    Manuela de Freitas: Uma actriz que tudo ou nada

    Um sonho,

    de August Strindberg,

    enc. Lus Miguel Cintra,

    Teatro da Cornucpia, 1998

    (Manuela de Freitas,

    Lus Miguel Cintra

    e Rita Duro),

    fot. Paulo Cintra.

    2 Cf. Jorge Silva Melo,

    entrevista de Ana Maria

    Azevedo, Anick Bilreiro,

    Francisco Frazo, Nuno

    Pernandes e Pedro Barros,

    in Os fazedores de letras,

    Lisboa, Associao de

    Estudantes da Faculdade

    de Letras da Universidade

    de Lisboa, Ano VII, n 24,

    Janeiro de 1999,

    pp. 12-15.

  • Sinais de cena 2. 2004 cinquenta e umNa primeira pessoa

    grito. O Joo Mota obrigou-me a fazer o grito mudo, a lera carta alto, mas para dentro, a gritar, porque aquela cenaera uma citao do grito mudo da clebre encenao deBrecht. Esse trabalho ia to ao pormenor que s vezescaam-me lgrimas e o Joo dizia-me: No preciso terlgrimas, sem isso seria melhor, porque nessa altura tus uma mscara e portanto no h lgrimas; a emoono passa por a, onde est a emoo?. um trabalhototal, o mais bonito do mundo.

    Houve algum papel que representou e em que sentiuque havia uma coincidncia muito mais forte do queem outros espectculos entre a sua personalidade ea personalidade da sua personagem?Eu decoro o texto por assimilao. medida que eu voutrabalhando uma personagem, o texto vai-se decorando,sai e passa a ser a fala daquela personagem. Mas hmomentos da minha vida em que reaparecem frases e eudigo olha, a Blanche; olha a Mary.... So todos bocadosde mim, mas no h coincidncia. Pelo contrrio, lembro-me que no primeiro filme do Jorge Silva Melo eu acheique aquela personagem era muito parecida comigo epercebi que nunca posso levar os meus clichs, pensarque o caminho mais curto. A personagem est l, tema sua vida prpria, eu vou ao encontro dela e ela vem aomeu encontro. Em cena, aparece essa mistura. Isto paramim tem a ver com muitas coisas, com o zen, com a artedo tiro ao arco.

    Essa mesmo a imagem com que se fica ao v-laactuar. Alis, uma das perguntas que lhe queramosfazer era a seguinte: a Manuela de Freitas aparece emcena extremamente concentrada, ou se podemos utilizaruma metfora, aparece como um arco tenso e prontopara lanar a seta. O espectador sente essa concentraoe fica suspenso, no sabendo at onde conseguir levaressa tenso. A entra a sua relao com o encenador,no verdade?O mestre Stanislavski diz A inspirao uma grande

    dama, s entra numa casa bem arrumada, portanto euprimeiro tenho de arrumar a casa. Perceber o que querdizer a pea, o que que o encenador quer da pea, o que que uma determinada cena quer dizer, quem essapersonagem, que idade tem, de onde que vem, tristeou alegre... E depois em cada cena pergunto-me como que ela reage, est a mentir ou a falar verdade... umtrabalho imenso. Depois de ter isto tudo feito umadramaturgia clara vou para o palco mais segura, voubuscar as emoes e met-las ali dentro. Nos ensaios isso, e muito importante que o encenador me guie e mecorrija.

    E o que acontece quando um encenador no a guia?Uma das experincias mais traumticas que eu tive foinuma pea em que a encenadora achava que tudo o queeu fazia era muito bem feito. Se calhar era, salvo a devidamodstia. Um dia, para mostrar o meu horror peranteaquilo fiz uma mesma cena de cinco maneiras diferentese ela achou todas muito boas. No havia uma linha,portanto saa-me umas vezes duma maneira, outras vezesdoutra. A personagem ia-se soltando, mas eu no sabiaquem era a personagem. Foi uma experincia difcil. Paramim o encenador fundamental, desde que saiba o quequer e mo pea. Eu respeito o encenador e s sei trabalhartendo confiana. Preciso saber para onde lanar a seta. a tenso entre o conhecido e o desconhecido. Cadaespectculo um mergulho no desconhecido. E perigosssimo para mim. Tenho medo, no sei para ondevou, o que me vai acontecer...

    Se calhar por causa dessa entrega total que precisada proteco do encenador, de ter algum que acontrole, que a segure?No, que me encaminhe. Que encaminhe a demncia, aimaginao, a criatividade. O teatro uma obra de arte,no uma exibio. Tem regras, h uma pea, h umadramaturgia e respeitando essas regras que eu possoatingir a iluminao ou morrer. No pode ser o improviso.

    Sebastiana Fadda e Rui CintraManuela de Freitas: Uma actriz que tudo ou nada