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  • MANUEL ANTNIOPINA

    RUI LAGE

    IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRACOIMBRA UNIVERSITY PRESS

    Verso integral disponvel em digitalis.uc.pt

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  • MANUEL ANTNIOPINA

    RUI LAGE

    Verso integral disponvel em digitalis.uc.pt

  • COORDENAO EDITORIAL

    Imprensa da Universidade de Coimbra

    E-mail: imprensa@uc.pt

    URL: www.uc.pt/imprensa_uc

    Vendas online: http://livrariadaimprensa.uc.pt

    CONCEPO GRFICA

    Antnio Barros

    INFOGRAFIA

    Carlos Costa

    EXECUO GRFICA

    www.artipol.net

    ISBN

    978-989-26-1259-1

    ISBN DIGITAL

    978-989-26-1260-7

    DOI

    https://doi.org/10.14195/978-989-26-1260-7

    DEPSITO LEGAL

    417068/16

    Dezembro 2016. Imprensa da Universidade de Coimbra

    Verso integral disponvel em digitalis.uc.pt

  • MANUEL ANTNIOPINA

    RUI LAGE

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  • 7

    S U M R I O

    1. Das franjas para o centro ........................................ 9

    2. O ltimo dos homens e aquele que quer morrer ......15

    3. Com que palavras e sem que palavras? ...................31

    4. A presena do mistrio .......................................... 43

    5. Talvez no passe tudo de memria Infncia:

    quando eu ainda no tinha morrido...................... 63

    6. O intruso de si mesmo Como quem

    ao fim do dia volta a uma casa ..............................81

    7. Antologia .............................................................. 97

    8. Bibliografia seleccionada .....................................147

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  • 38

    jovem poeta (NPNL, p. 274) com a rosa (a rosa no-dita,

    e no a palavra rosa):

    Procura a rosa.

    Onde ela estiver

    ests tu fora

    de ti. Procura-a em prosa []

    (NPNL, p. 274)

    Uma rosa parente daquela que Jorge Luis Borges di-

    zia concentrar a essncia da poesia, colhida nos versos

    do poeta mstico alemo Angelus Silesius (1624-1677):

    a rosa sem porqu; floresce porque floresce// est em

    flor porque flor./ No pergunta se a vemos. De si no

    quer saber40. A perceo dessa rosa, desse algo exterior

    linguagem e que no se pode conhecer ou contemplar,

    teria certamente laivos de platonismo, de ideia eterna e

    imutvel, no sucedesse que tal rosa nada tem de intelig-

    vel, no uma forma ou um modelo da realidade sensvel.

    Para alm disso, se, em Plato, saber recordar, em Pina

    saber esquecer (AQQM, p. 85). Para ver essa alguma

    coisa autntica preciso no a ver, fazer a passagem para

    o que no se v, para essa coisa imensa diante da qual

    o sujeito fica acordado toda a noite de olhos fechados

    (NS, p. 105). No podemos aceder rosa mas apenas sua

    traduo mundana: prosa ( prosa do mundo)41. Porque

    40 Na traduo de Joo Barrento (O cardo e a rosa: poesia do barroco alemo, Lisboa, Assrio & Alvim, 2002, p. 89).41 J Rilke se interrogava sobre a insolubilidade da rosa na prosa: Diz-me o que faz com que,/ fechada em ti mesma, rosa,/ tua substncia

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    as palavras perseguem a sua miragem (AQQM, p. 78).

    O que pode ento ser a poesia? Pode ser Poesia, saudade

    da prosa (NPNL, p. 269). A partir de Cuidados intensivos,

    essa prosa ser significada, por palavras do autor, como

    secularizao, despoetizao, da poesia, reencontro, talvez,

    da poesia com o mundo42. Reencontro do rosto com o corao

    e afastamento do niilismo inicial. O que no quer dizer que

    a linguagem no deva estar recetiva ao ser; pelo contrrio:

    ela est-o antes de mais quando potica.

    Tal demanda em prosa traduz-se numa progressiva

    aproximao do ideal ao real a partir do conjunto de livros

    entre O caminho de casa (1989) e Cuidados intensivos

    (1994). Se antes o real no passa de iluso ou padece de

    incurvel inconsistncia, em O caminho de casa as filhas

    falam, barulhentas e reais, so o modo visvel e material

    de alguma coisa que existe. Mas essa despoetizao da

    poesia, como veremos, s lateralmente se verificar.

    sobretudo a partir de Nenhuma palavra e nenhuma

    lembrana que a poesia de Pina tende convocao dos

    lugares-comuns da domesticidade e do quotidiano43. Inte-

    gram-se objetos sem aparente significado, abre-se espao

    a uma coreografia de pequenos gestos declinantes, a uma

    difusa ordene,/ a todo este espao em prosa,/ tantos arroubos areos? (RILKE, Rainer Maria Frutos e apontamentos. Trad. de Maria Gabriela Llansol. Lisboa, Relgio dgua, 1996, p. 269). Acrescente-se que a rosa de A um jovem poeta partilha dos atributos da flor do poema Versos Ana no dia do Anaversrio: Nem a flor sabia/ que existia./ Em qualquer stio, sem saber, floria (in O pssaro da cabea, ob. cit., p. 56).42 Dito em voz alta (ob. cit.), p. 23.43 Como vincou com humor Ricardo Arajo Pereira ao abordar as correspondncias entre a poesia e as crnicas de Manuel Antnio Pina: Poeta d explicaes de quotidiano (por 0,90 ao dia) (in JL/Jornal de Letras, Artes e Ideias, n. 1060, 18 a 31 de Maio de 2011, p.11).

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  • 40

    cenografia urbana e crepuscular. No entanto, a mesma falta de

    alguma coisa, a mesma perceo da presena de um mistrio

    radical e de um significado oculto, a mesma desconfiana

    do visvel e do dizvel, estaro presentes nos livros tardios.

    De resto, no se deve perder de vista que um pensamento

    abstrato ou uma sensao no so menos reais que os entes

    visveis (real era o meu medo FHF, p. 171); nem se deve

    perder de vista que sob o rio real h um rio que arrasta o

    sujeito e que corre dentro ou fora dele, e que um rio de

    palavras (OCDC, p. 136). No se deve perder de vista que

    tudo, inclusive o eu, e o eu que se escreve, literatura (e que

    esta a memria da literatura): E a alma? Mas por esta

    altura/ j tudo e eu prprio somos literatura (OCDC, p.

    149); literatura, tornou-se tudo literatura! (AEF, p. 282).

    Em Gdel em Princeton o sujeito anseia por alguma coisa

    real, aspira a que algum o leve pela mo por uma realidade/

    feita da minha vida e de coisas reais/ a que pertencemos eu

    e o que pensa (OCDC, p. 138).

    Tal hiperconscincia da linguagem poderia fazer su-

    por uma poesia da poesia. Foi esse afinal o cdigo do

    perodo na dcada de 60, altura dos primeiros poemas

    de Pina. No h dvida de que no discurso potico do

    autor a palavra questiona a palavra, a linguagem coloca

    perguntas linguagem, especulando-se acerca das con-

    dies do dizvel. No entanto, a autorreferencialidade do

    nosso autor referencia o que est em falta, declinando-se

    como negatividade: o que falta que fala (NPNL,

    p. 272). As poticas autotlicas que dominaram as

    dcadas de cinquenta e sessenta, problematizando o

    signo, afirmavam a sua confiana na palavra potica

    para transfigurar o mundo. Imbuda de valor totmico, a

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  • 41

    palavra aproximava-se de um discurso demirgico. Mas

    em Pina a nica magia est onde a poesia no chega. O

    poema no consegue sair da inautenticidade do mun-

    do ao mesmo tempo que est pobre diante do mundo,

    porque no consegue sair de si mesmo (da linguagem)

    e revelar o ser. Tal no significa que Manuel Antnio

    Pina no se exercite no subgnero da arte potica. F-lo

    explicitamente na Arte potica de Os livros, bem como

    no ttulo da sua antologia pessoal, Poesia, saudade da

    prosa (2011), e f-lo implicitamente em poemas que o

    autor diria despoetizados, caso de Uma prosa sobre os

    meus gatos (NPNL, p. 270):

    mas um tema no chega para um poema

    nem sequer para um poema sobre;

    porque o poema o tema,

    forma apenas.

    Todavia, esta fecundidade especulativa no versa tanto

    o que seja o poema ou as palavras quanto o que estes no

    sejam. A poesia no aqui lugar de transmutao alqu-

    mica do mercrio do real no ouro do verbo, mas duvidoso

    processo (NPNL, p. 271), lugar de carncia e de perda,

    de despojamento. A constante problematizao do estatuto

    ontolgico e categorial (retrico) do sujeito articula-se com

    uma reiterada suspeio da linguagem, com uma potica

    da descrena expressa numa espcie de pudor pelo poema,

    sem que tal tenha servido de pretexto ao autor para afirmar,

    como se tornaria moeda corrente na primeira dcada do

    sculo XXI, a inutilidade da poesia. A utilidade da poesia

    a sua inutilidade.

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  • 43

    4 | A P R E S E N A D O M I S T R I O

    Manuel Antnio Pina ter sido o primeiro poeta portu-

    gus a articular coerentemente a negatividade constitutiva

    do ser e da linguagem. Foi simultaneamente o primeiro

    a super-la ao reencontrar as modalidades epistmicas

    da interrogao e da especulao. Tal veio interrogativo

    e especulativo confere aos seus poemas um carcter ex-

    ploratrio, confirmvel na tendncia do autor para a in-

    ventio de novos termos e conceitos, mtodo mais comum

    no pensamento filosfico (Deleuze, por exemplo) que na

    poesia: infalvel, descriar, impresente ou estra-

    nhido so alguns exemplos de palavras formadas por

    derivao criativa que surgem nesta obra. Mas tambm

    a persistncia das perguntas, bem como a sua simulada

    ou irnica inge