(Manuel António Pina em La fenêtre éclairée) O século ?· (Manuel António Pina em La fenêtre…

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  • Apresentao Presentation Presentacin

    : http://dx.doi.org/10.15448/1980-864X.2015.2.22566

    Revoltas PoPulaRes ContemPoRneas numa PeRsPeCtiva ComPaRada

    Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 41, n. 2, p. 232-241, jul.-dez. 2015

    A realidade uma hiptese repugnante / fora de mim, entrando por mim a dentro

    Solido errante / rf de centro.(Manuel Antnio Pina em La fentre claire)

    O sculo XXI nasceu sob o signo da insurreio. Num mundo em desassossego, e um pouco por todo o lado, a ideia de que nada ser como dantes parece ter vindo para ficar. As palavras cansam-se na tentativa de definir uma realidade que, de to apressada, parece tropear sobre si mesma. Protestos, tumultos, revoltas, revolues, contrarrevolues sucedem-se, trocam de lugar, aparecem, desaparecem, teimosamente resistem, ou transformam-se em sombras que inspiraro num futuro que cada vez mais se confunde com um longo presente, outros protestos, outros tumultos, e outras revoltas. E a cabea do ser humano neste nosso ainda jovem sculo roda, e gira, vertiginosamente procura de um centro, de uma orientao, de um eixo, para um mundo que parece ter sado dos eixos.

    A geografia da crise no tem um centro difusor, e ela, nas suas vrias manifestaes, tanto pode ser econmica, financeira, poltica, social, cultural ou todas ao mesmo tempo. A Oriente, ditaduras foram combatidas nas ruas, e enquanto umas caram, outras resistiram, transformaram-se, ou revigoraram-se. A Ocidente, movimentos estudantis e sociais desafiam o Estado, a democracia-liberal, e a globalizao capitalista, e muitos proclamam que um outro mundo no s possvel, como inevitvel. E toda esta onda de protesto rebentou nas ruas, nas caladas, nas avenidas, e nas praas, nas televises, na Internet e nas redes sociais, lugares fsicos e virtuais, onde se mobilizaram desejos e se celebraram indignaes, inconformismos, e a rejeio do mundo tal como ele . E no meio da ebulio, tambm irromperam guerrilhas urbanas, fizeram-se pilhagens e destruiu-se

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    propriedade, surgiram terroristas e lobos solitrios, e aperfeioaram-se tcnicas avanadas de controlo, vigilncia, e represso de protestos por parte do poder pblico, sempre reforando essa lei no escrita da Histria que nos diz que qualquer procura de emancipao popular tem sempre como hiptese latente, como via possvel, a violncia, seja de manifestantes, seja da ordem estabelecida.

    Nesta geopoltica contempornea do protesto, a fora propulsora do ativismo deriva, mais do que de teorizaes complexas, ou de programas detalhados para se revolucionar a sociedade, do fato desse mesmo ativismo ser visto, sentido, e experimentado, como um combate de todos aqueles que se encontram em baixo contra a minoria dos que se encontram em cima. Independentemente do contexto, o alvo a abater so sempre as elites; que podem ser personalizadas por tiranos, claro, mas tambm pelas oligarquias polticas e financeiras das democracias, por famlias todo-poderosas, pelos governantes, pela classe poltica, por grupos de media, e por toda uma rede de interesses e mecanismos, nacionais e transnacionais, que sustenta o poder e a soberania destes prncipes enquanto perpetua a destituio da plebe. Tudo isto ainda mais notvel quando se sabe, na senda dos trabalhos sobre protestos polticos de Charles F. Andrain e David Apter, que, ao longo dos tempos, a maioria das pessoas escolhem aceitar passivamente, e por razes pragmticas, os regimes existentes e estabelecidos. A confrontao implica sempre custos, pessoais, familiares, profissionais, que fazem dela apangio, sobretudo, de minorias. Mas hoje em dia, esta tendncia para a resignao no parece ser suficientemente forte para impedir, em muitos pases, a oposio mais vasta a regimes que, por uma mirade de razes, so vistos como ilegtimos.

    Para muitos destes indivduos, grupos, e movimentos de contestao, a avaliao sobre os males do mundo no deixa margem para dvidas. O diagnstico pessimista. Mas isso no desculpa para a inao. Esse desencanto contrabalanado pela crena que os atuais sistemas poltico-econmicos podem ser superados, que a democracia pode ser revitalizada, e que a opresso, a injustia e a desigualdade podem e devem ter um fim. Em suma, atravs da mobilizao e do voluntarismo possvel provar como falsa a ideia que durante muito tempo foi corrente, sobretudo no Ocidente, de que no h alternativa para o mundo atual e que este o melhor dos mundos possveis. No assim de estranhar que muitos destes ativistas do sculo XXI falem de novo em palavras como revoluo e utopia; e fazem-no sem vergonha ou inibio, mas com a conscincia que o resgatar desta imaginao radical constitui um necessrio primeiro passo para a trans- formao das nossas sociedades. Para muitos grupos, no fundo, como se combatessem entre dois mundos, um no crepsculo, e outro na aurora.

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    assim o mundo de hoje: em fluxo, em movimento, e tambm imprevisvel. E de uma maneira geral toda esta turbulncia contempornea apanhou as pessoas de surpresa. verdade que pode-se afirmar que estamos perante a Histria como ela realmente , e como sempre foi. Ou seja, como a emergncia do novo, do nunca visto, daquilo que nunca se pensou que pudesse acontecer, do que causa espanto, horror, ou maravilha. Mas importa dizer que num passado no muito distante, ou seja, durante boa parte da segunda metade do sculo XX, e por razes histricas concretas, esta interpretao da Histria como devir permanente era vista com muito mais cautela, conteno e ceticismo. Afinal de contas, o sculo XX despertou com uma sucesso de tentativas de aplicao na prtica de impulsos utpicos e de projetos de transformao coletiva que, cada um a sua maneira, tinha como fim libertar o ser humano das alienaes e misrias da Histria. Assim, o mundo assistiu tentativa sovitica de fazer do ideal comunista uma realidade viva, ao projeto fascista de iniciar uma nova Histria (um novo comeo) e de purgar a civilizao da sua decadncia (seja atravs da nao, seja atravs da raa), e mesmo muitos movimentos coloniais de libertao assentaram numa esperana radical de inaugurar no apenas um Estado-nao mas o comeo de uma nova poca na Histria (o revolucionrio anticolonialista Frantz Fanon apontou mesmo como finalidade da descolonizao a substituio de uma espcie humana por outra... o mundo virado ao contrrio, os ltimos transformam-se em primeiros). E no horizonte os amanhs cantavam.

    Mas esta narrativa de revoluo e emancipao esbarrou contra um obstculo. Algo correu mal. E esse algo foi a prpria realidade. Desta forma, o programa de libertao marxista acabou por servir de justificao ideolgica para regimes totalitrios, o projeto fascista tornou-se sinnimo de brutalidade humana e extermnio, e mesmo regimes de Estados ps-coloniais, no obstante as esperanas de muitos, na prtica foram durante muito tempo exemplos de explorao, represso e guerras sem fim. A conjugao destas experincias falhadas, e as suas consequncias (guerras mundiais e civis) provocaram uma hecatombe nos meios intelectuais e culturais da poca. Na altura, e como sinal desse terremoto, foi lanado um livro por dissidentes comunistas, publicado nos anos 50, com o elucidativo titulo O Deus que falhou, testemunhando essa transformao de sonhos infalveis em pesadelos reveladores da falibilidade humana. exatamente neste contexto que se levanta todo um movimento intelectual contra os males das ideologias, contra o utopianismo e contra as tentativas irrealistas e perigosas de encontrar alternativas totalizantes para o estado das coisas, seja nas sociedades, seja nas naes, seja no mundo. A lgica, apoiada na experincia de tragdias recentes, parecia ser um prolongamento do senso-comum. Ou seja, mais valia

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    manter as coisas como estavam, ou, no mximo, fazer mudanas progressi- vas e equilibradas, do que lanar-se em quimeras de transformao coletiva que inevitavelmente iriam deixar o mundo em pior estado.

    Intelectuais antiutpicos do ps-guerra, de todos os quadrantes ideolgicos, repudiaram qualquer possibilidade de emancipao coletiva. direita, Karl Popper, o filsofo da sociedade aberta e uma das grandes referncias do pensamento liberal, retratou projetos utpicos como inevitavelmente perigosos, perniciosos e autodestrutivos. Sociedades ideais emergem apenas a partir de nossos sonhos e dos sonhos dos nossos poetas e profetas. Elas no podem ser discutidas, apenas proclamadas em cima dos telhados. Elas no apelam para a atitude racional do juiz imparcial, mas para a atitude emocional do pregador apaixonado. A partir da esquerda, Hannah Arendt perguntou: E o que mais, enfim, este ideal [de emancipao] de sociedade moderna, seno o velho sonho dos pobres e miserveis, que pode ter um charme prprio, desde que ele um sonho, mas que se transforma em um paraso dos tolos, assim que realizado? Aleksndr Solzhenitsyn, que teve experincia ntima com um desses parasos (conheceu o Gulag sovitico, e esteve oito anos em campos de trabalhos forados) sabia de quem era a culpa: Graas ideologia, o sculo XX experimentou a maldade humana numa escala nunca vista. Isto no pode ser negado, no pode ser ignorado, no pode ser suprimido. E a lio no foi esquecida.

    Como consequncia vai-se assistir a uma defesa vigorosa, sobretudo na Europa e na Amrica do Norte, da poltica do equilbrio, orientada para a gesto do real, fazendo ajustes e mudanas importantes no sistema poltico e social, mas sem impulsos de transformao total e potencialmente destrutiva. Em suma, uma poltica desprovida de excessos ideolgicos e sem febres utpicas. O pensador francs Raymond Aron aplaudia este novo estado de esprito. Tinha chegado a hora de desafiar os profetas da redeno e de celebrar a chegada dos cpticos. verdade que esta narrativa do fim das ideologias foi contestada nos anos 1960 e 1970 por teologias da libertao, hippies, guerras de libertao nacional, lutas anti-imperialistas, subculturas alternativas, cruzadas pelos direitos civis, o ativismo antiguerra, protestos feministas e vrias foras sociais de uma nova esquerda empenhada em derrubar o sistema e alcanar uma total transformao do mundo moderno. O contedo da sonhada utopia divergia em seus detalhes, mas geralmente inclua, entre outros elementos, a eliminao de tabus sexuais, o fim da violncia, o estabelecimento de uma igualdade completa, a ascenso de comunidades abrangentes de amor e de partilha e o imaginrio da emancipao. Contudo, para muitos intelectuais, a suspeita de que no havia possveis alternativas positivas para o status quo permaneceu. Movimentos utpicos seriam apenas aberraes, que em

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    breve seriam englobados na marcha inevitvel em direo a um futuro racional. Essa perspectiva receberia seu aval com a desintegrao da Unio Sovitica, cujo colapso foi visto como evidncia convincente de que o previsto fim da histria havia de fato chegado, bem como o fim das ideologias e o fim da revoluo. O historiador Franois Furet termina o seu livro O passado de uma iluso com uma frase que testemunho de toda uma mentalidade: Aqui estamos ns, condenados a viver no mundo tal como ele . Condenados, portanto, a no haver alternativa.

    Na verdade, parecia que o mundo ocidental tinha entrado em um perodo de endism (ou o perodo dos fins), em que as utopias de transformao j no podiam ser imaginadas, muito menos propostas. O racionalismo burocrtico e uma suposta tecnificao da poltica, ao que parecia, tinha esmagado todos os rivais; a democracia representativa saa vitoriosa e o capitalismo era o triunfador. Os conflitos tormentosos sobre os sistemas polticos e econmicos (para no mencionar os espirituais), que deviam reger os assuntos humanos, haviam sido, com uma ou outra exceo, resolvidos. Este sentimento era difuso na poca e manifestava-se de vrias formas. Havia at um triunfalismo sobre a globalizao liberal-capitalista, como um quebrar definitivo de barreiras, e de fronteiras. E os prprios Estados-nao, para alguns, poderiam desaparecer debaixo desse magma do globalismo. E isto de certa forma tambm se relaciona com o entusiasmo de muitos estudos na dcada de noventa do sculo passado sobre a globalizao, como uma Nova Ordem Mundial, assente na expanso por todo o globo de uma democracia cosmopolita, como inevitvel, e em benefcio das relaes internacionais. Em suma, o melhor dos mundos possveis.

    Alis, a prpria transformao dos partidos polticos em mquinas de angariao de votos, dedicados a objetivos limitados e estreitos, de curto prazo, com o nico objetivo de vencer eleies, revela esta dinmica avassaladora do pragmatismo. Ao contrario dos partidos de massa de antigamente, que eram autenticas escolas de doutrinao e refgio espiritual, e que tinham um numero enorme de militantes, nos partidos contemporneos a militncia cada vez menor, e guiada mais pelo interesse e carreirismo do que, francamente, pelo entusiasmo. A poltica, desligada cada vez mais dos grandes projetos mobilizadores de transformao da sociedade, foi-se progressivamente desencantando. Dai que a apatia, o desinteresse, e a absteno, surjam quase como consequncias naturais, e ainda sentidas, da poltica partidria de hoje.

    E neste contexto que a narrativa do fim das ideologias vai ser levada para um outro patamar, mais alm: Francis Fukuyama foi o porta-voz mais conhecido da ideia do Fim da Histria. Logo em 1989 ele melancolicamente observou que o fim da histria ser um momento muito

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    triste. No entanto, a luta ideolgica mundial que apelava para a ousadia, a coragem, a imaginao, a criatividade e o idealismo era uma coisa do passado. Havia sido substituda pelo clculo econmico, a resoluo interminvel de problemas tcnicos, as preocupaes ambientais e a satisfao das exigncias dos consumidores mais sofisticados. O seu livro chamar-se- O fim da Histria e o ltimo Homem. E quem o ltimo Homem? o homem liberal. E a sua poltica do pragmatismo, do real contra a abstrao, da moderao, do debate razovel e racional e da gesto de interesses. Numa poltica que esvaziada de antagonismo, de intensidade e de paixo. por isso que, como nos avisa o filsofo poltico americano Michael Walzer, para um liberalismo que assenta a sua razo de ser na domesticao das paixes (vistas como irracionais, e abstratas) o excesso de entusiasmo na poltica potencialmente subversivo, e leva facilmente ao que visto como o inimigo mortal do liberalismo: o fanatismo, seja de esquerda, seja de direita. No estranha portanto, que, na passagem do sculo XX para o sculo XXI o socilogo Zygmunt Bauman reclamasse que estvamos todos a viver numa vergonhosa era ps-ideolgica e ps-utpica, sem grandes projetos, exceto para o indivduo (o centro absoluto do liberalismo), e a busca incessante do autointeresse e da felicidade individual.

    Mas, quando caminhamos para a terceira dcada do sculo XXI, ter esta acusao razo de ser? Os movimentos sociopolticos renunciaram mesmo aos elementos utpicos em seus modos de vida e imaginrios? No existem pr...

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