(Manuel Antnio Pina em La fentre claire) O sculo ? (Manuel Antnio Pina em La fentre

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  • Apresentao Presentation Presentacin

    : http://dx.doi.org/10.15448/1980-864X.2015.2.22566

    Revoltas PoPulaRes ContemPoRneas numa PeRsPeCtiva ComPaRada

    Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 41, n. 2, p. 232-241, jul.-dez. 2015

    A realidade uma hiptese repugnante / fora de mim, entrando por mim a dentro

    Solido errante / rf de centro.(Manuel Antnio Pina em La fentre claire)

    O sculo XXI nasceu sob o signo da insurreio. Num mundo em desassossego, e um pouco por todo o lado, a ideia de que nada ser como dantes parece ter vindo para ficar. As palavras cansam-se na tentativa de definir uma realidade que, de to apressada, parece tropear sobre si mesma. Protestos, tumultos, revoltas, revolues, contrarrevolues sucedem-se, trocam de lugar, aparecem, desaparecem, teimosamente resistem, ou transformam-se em sombras que inspiraro num futuro que cada vez mais se confunde com um longo presente, outros protestos, outros tumultos, e outras revoltas. E a cabea do ser humano neste nosso ainda jovem sculo roda, e gira, vertiginosamente procura de um centro, de uma orientao, de um eixo, para um mundo que parece ter sado dos eixos.

    A geografia da crise no tem um centro difusor, e ela, nas suas vrias manifestaes, tanto pode ser econmica, financeira, poltica, social, cultural ou todas ao mesmo tempo. A Oriente, ditaduras foram combatidas nas ruas, e enquanto umas caram, outras resistiram, transformaram-se, ou revigoraram-se. A Ocidente, movimentos estudantis e sociais desafiam o Estado, a democracia-liberal, e a globalizao capitalista, e muitos proclamam que um outro mundo no s possvel, como inevitvel. E toda esta onda de protesto rebentou nas ruas, nas caladas, nas avenidas, e nas praas, nas televises, na Internet e nas redes sociais, lugares fsicos e virtuais, onde se mobilizaram desejos e se celebraram indignaes, inconformismos, e a rejeio do mundo tal como ele . E no meio da ebulio, tambm irromperam guerrilhas urbanas, fizeram-se pilhagens e destruiu-se

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    propriedade, surgiram terroristas e lobos solitrios, e aperfeioaram-se tcnicas avanadas de controlo, vigilncia, e represso de protestos por parte do poder pblico, sempre reforando essa lei no escrita da Histria que nos diz que qualquer procura de emancipao popular tem sempre como hiptese latente, como via possvel, a violncia, seja de manifestantes, seja da ordem estabelecida.

    Nesta geopoltica contempornea do protesto, a fora propulsora do ativismo deriva, mais do que de teorizaes complexas, ou de programas detalhados para se revolucionar a sociedade, do fato desse mesmo ativismo ser visto, sentido, e experimentado, como um combate de todos aqueles que se encontram em baixo contra a minoria dos que se encontram em cima. Independentemente do contexto, o alvo a abater so sempre as elites; que podem ser personalizadas por tiranos, claro, mas tambm pelas oligarquias polticas e financeiras das democracias, por famlias todo-poderosas, pelos governantes, pela classe poltica, por grupos de media, e por toda uma rede de interesses e mecanismos, nacionais e transnacionais, que sustenta o poder e a soberania destes prncipes enquanto perpetua a destituio da plebe. Tudo isto ainda mais notvel quando se sabe, na senda dos trabalhos sobre protestos polticos de Charles F. Andrain e David Apter, que, ao longo dos tempos, a maioria das pessoas escolhem aceitar passivamente, e por razes pragmticas, os regimes existentes e estabelecidos. A confrontao implica sempre custos, pessoais, familiares, profissionais, que fazem dela apangio, sobretudo, de minorias. Mas hoje em dia, esta tendncia para a resignao no parece ser suficientemente forte para impedir, em muitos pases, a oposio mais vasta a regimes que, por uma mirade de razes, so vistos como ilegtimos.

    Para muitos destes indivduos, grupos, e movimentos de contestao, a avaliao sobre os males do mundo no deixa margem para dvidas. O diagnstico pessimista. Mas isso no desculpa para a inao. Esse desencanto contrabalanado pela crena que os atuais sistemas poltico-econmicos podem ser superados, que a democracia pode ser revitalizada, e que a opresso, a injustia e a desigualdade podem e devem ter um fim. Em suma, atravs da mobilizao e do voluntarismo possvel provar como falsa a ideia que durante muito tempo foi corrente, sobretudo no Ocidente, de que no h alternativa para o mundo atual e que este o melhor dos mundos possveis. No assim de estranhar que muitos destes ativistas do sculo XXI falem de novo em palavras como revoluo e utopia; e fazem-no sem vergonha ou inibio, mas com a conscincia que o resgatar desta imaginao radical constitui um necessrio primeiro passo para a trans- formao das nossas sociedades. Para muitos grupos, no fundo, como se combatessem entre dois mundos, um no crepsculo, e outro na aurora.

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    assim o mundo de hoje: em fluxo, em movimento, e tambm imprevisvel. E de uma maneira geral toda esta turbulncia contempornea apanhou as pessoas de surpresa. verdade que pode-se afirmar que estamos perante a Histria como ela realmente , e como sempre foi. Ou seja, como a emergncia do novo, do nunca visto, daquilo que nunca se pensou que pudesse acontecer, do que causa espanto, horror, ou maravilha. Mas importa dizer que num passado no muito distante, ou seja, durante boa parte da segunda metade do sculo XX, e por razes histricas concretas, esta interpretao da Histria como devir permanente era vista com muito mais cautela, conteno e ceticismo. Afinal de contas, o sculo XX despertou com uma sucesso de tentativas de aplicao na prtica de impulsos utpicos e de projetos de transformao coletiva que, cada um a sua maneira, tinha como fim libertar o ser humano das alienaes e misrias da Histria. Assim, o mundo assistiu tentativa sovitica de fazer do ideal comunista uma realidade viva, ao projeto fascista de iniciar uma nova Histria (um novo comeo) e de purgar a civilizao da sua decadncia (seja atravs da nao, seja atravs da raa), e mesmo muitos movimentos coloniais de libertao assentaram numa esperana radical de inaugurar no apenas um Estado-nao mas o comeo de uma nova poca na Histria (o revolucionrio anticolonialista Frantz Fanon apontou mesmo como finalidade da descolonizao a substituio de uma espcie humana por outra... o mundo virado ao contrrio, os ltimos transformam-se em primeiros). E no horizonte os amanhs cantavam.

    Mas esta narrativa de revoluo e emancipao esbarrou contra um obstculo. Algo correu mal. E esse algo foi a prpria realidade. Desta forma, o programa de libertao marxista acabou por servir de justificao ideolgica para regimes totalitrios, o projeto fascista tornou-se sinnimo de brutalidade humana e extermnio, e mesmo regimes de Estados ps-coloniais, no obstante as esperanas de muitos, na prtica foram durante muito tempo exemplos de explorao, represso e guerras sem fim. A conjugao destas experincias falhadas, e as suas consequncias (guerras mundiais e civis) provocaram uma hecatombe nos meios intelectuais e culturais da poca. Na altura, e como sinal desse terremoto, foi lanado um livro por dissidentes comunistas, publicado nos anos 50, com o elucidativo titulo O Deus que falhou, testemunhando essa transformao de sonhos infalveis em pesadelos reveladores da falibilidade humana. exatamente neste contexto que se levanta todo um movimento intelectual contra os males das ideologias, contra o utopianismo e contra as tentativas irrealistas e perigosas de encontrar alternativas totalizantes para o estado das coisas, seja nas sociedades, seja nas naes, seja no mundo. A lgica, apoiada na experincia de tragdias recentes, parecia ser um prolongamento do senso-comum. Ou seja, mais valia

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    manter as coisas como estavam, ou, no mximo, fazer mudanas progressi- vas e equilibradas, do que lanar-se em quimeras de transformao coletiva que inevitavelmente iriam deixar o mundo em pior estado.

    Intelectuais antiutpicos do ps-guerra, de todos os quadrantes ideolgicos, repudiaram qualquer possibilidade de emancipao coletiva. direita, Karl Popper, o filsofo da sociedade aberta e uma das grandes referncias do pensamento liberal, retratou projetos utpicos como inevitavelmente perigosos, perniciosos e autodestrutivos. Sociedades ideais emergem apenas a partir de nossos sonhos e dos sonhos dos nossos poetas e profetas. Elas no podem ser discutidas, apenas proclamadas em cima dos telhados. Elas no apelam para a atitude racional do juiz imparcial, mas para a atitude emocional do pregador apaixonado. A partir da esquerda, Hannah Arendt perguntou: E o que mais, enfim, este ideal [de emancipao] de sociedade moderna, seno o velho sonho dos pobres e miserveis, que pode ter um charme prprio, desde que ele um sonho, mas que se transforma em um paraso dos tolos, assim que realizado? Aleksndr Solzhenitsyn, que teve experincia ntima com um desses parasos (conheceu o Gulag sovitico, e esteve oito anos em campos de trabalhos forados) sabia de quem era a culpa: Graas ideologia, o sculo XX experimentou a maldade humana numa escala nunca vista. Isto no pode ser negado, no pode ser ignorado, no pode ser suprimido. E a lio no foi esquecida.

    Como consequncia vai-se assistir a uma defesa vigorosa, sobretudo na Europa e na Amrica do Norte, da poltica do equilbrio, orientada para a gesto do real, fazendo ajustes e mudanas importantes no sistema poltico e social, mas sem impulsos de transformao total e potencialmente destrutiva. Em suma, uma poltica desprovida de excessos ideolgicos e sem febres utpicas. O pensador francs Raymond Aron aplaudia este novo estado de esprito. Tinha chegado a hora de desafiar os profetas da redeno e de celebrar a chegada dos cpticos. verdade que esta narrativa do fim das ideologias foi contestada nos anos 1960 e 1970 por teologias da libertao, hippies, guerras de libertao nacional, lutas anti-imperialistas, subculturas alternativas, cruzadas pelos direitos civis, o ativismo antiguerra, protestos feministas e vrias foras sociais de uma nova esquerda empenhada em derrubar o sistema e alcanar uma total transformao do mundo moderno. O contedo da sonhada utopia divergia em seus detalhes, mas geralmente inclua, entre outros elementos, a eliminao de tabus sexuais, o fim da violncia, o estabelecimento de uma igualdade completa, a ascenso de comunidades abrangentes de amor e de partilha e o imaginrio da emancipao. Contudo, para muitos intelectuais, a suspeita de que no havia possveis alternativas positivas para o status quo permaneceu. Movimentos utpicos seriam apenas aberraes, que em

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    breve seriam englobados na marcha inevitvel em direo a um futuro racional. Essa perspectiva receberia seu aval com a desintegrao da Unio Sovitica, cujo colapso foi visto como evidncia convincente de que o previsto fim da histria havia de fato chegado, bem como o fim das ideologias e o fim da revoluo. O historiador Franois Furet termina o seu livro O passado de uma iluso com uma frase que testemunho de toda uma mentalidade: Aqui estamos ns, condenados a viver no mundo tal como ele . Condenados, portanto, a no haver alternativa.

    Na verdade, parecia que o mundo ocidental tinha entrado em um perodo de endism (ou o perodo dos fins), em que as utopias de transformao j no podiam ser imaginadas, muito menos propostas. O racionalismo burocrtico e uma suposta tecnificao da poltica, ao que parecia, tinha esmagado todos os rivais; a democracia representativa saa vitoriosa e o capitalismo era o triunfador. Os conflitos tormentosos sobre os sistemas polticos e econmicos (para no mencionar os espirituais), que deviam reger os assuntos humanos, haviam sido, com uma ou outra exceo, resolvidos. Este sentimento era difuso na poca e manifestava-se de vrias formas. Havia at um triunfalismo sobre a globalizao liberal-capitalista, como um quebrar definitivo de barreiras, e de fronteiras. E os prprios Estados-nao, para alguns, poderiam desaparecer debaixo desse magma do globalismo. E isto de certa forma tambm se relaciona com o entusiasmo de muitos estudos na dcada de noventa do sculo passado sobre a globalizao, como uma Nova Ordem Mundial, assente na expanso por todo o globo de uma democracia cosmopolita, como inevitvel, e em benefcio das relaes internacionais. Em suma, o melhor dos mundos possveis.

    Alis, a prpria transformao dos partidos polticos em mquinas de angariao de votos, dedicados a objetivos limitados e estreitos, de curto prazo, com o nico objetivo de vencer eleies, revela esta dinmica avassaladora do pragmatismo. Ao contrario dos partidos de massa de antigamente, que eram autenticas escolas de doutrinao e refgio espiritual, e que tinham um numero enorme de militantes, nos partidos contemporneos a militncia cada vez menor, e guiada mais pelo interesse e carreirismo do que, francamente, pelo entusiasmo. A poltica, desligada cada vez mais dos grandes projetos mobilizadores de transformao da sociedade, foi-se progressivamente desencantando. Dai que a apatia, o desinteresse, e a absteno, surjam quase como consequncias naturais, e ainda sentidas, da poltica partidria de hoje.

    E neste contexto que a narrativa do fim das ideologias vai ser levada para um outro patamar, mais alm: Francis Fukuyama foi o porta-voz mais conhecido da ideia do Fim da Histria. Logo em 1989 ele melancolicamente observou que o fim da histria ser um momento muito

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    triste. No entanto, a luta ideolgica mundial que apelava para a ousadia, a coragem, a imaginao, a criatividade e o idealismo era uma coisa do passado. Havia sido substituda pelo clculo econmico, a resoluo interminvel de problemas tcnicos, as preocupaes ambientais e a satisfao das exigncias dos consumidores mais sofisticados. O seu livro chamar-se- O fim da Histria e o ltimo Homem. E quem o ltimo Homem? o homem liberal. E a sua poltica do pragmatismo, do real contra a abstrao, da moderao, do debate razovel e racional e da gesto de interesses. Numa poltica que esvaziada de antagonismo, de intensidade e de paixo. por isso que, como nos avisa o filsofo poltico americano Michael Walzer, para um liberalismo que assenta a sua razo de ser na domesticao das paixes (vistas como irracionais, e abstratas) o excesso de entusiasmo na poltica potencialmente subversivo, e leva facilmente ao que visto como o inimigo mortal do liberalismo: o fanatismo, seja de esquerda, seja de direita. No estranha portanto, que, na passagem do sculo XX para o sculo XXI o socilogo Zygmunt Bauman reclamasse que estvamos todos a viver numa vergonhosa era ps-ideolgica e ps-utpica, sem grandes projetos, exceto para o indivduo (o centro absoluto do liberalismo), e a busca incessante do autointeresse e da felicidade individual.

    Mas, quando caminhamos para a terceira dcada do sculo XXI, ter esta acusao razo de ser? Os movimentos sociopolticos renunciaram mesmo aos elementos utpicos em seus modos de vida e imaginrios? No existem projetos, lcidos ou no, de transformao da sociedade? Os grandes sonhos e a ousadia de imaginar, e tentar por em prtica, o mundo imaginado no estaro de volta (assumindo como verdadeira a ideia improvvel de que alguma vez desapareceram)? Qualquer observador, por mais desatento que esteja, sabe qual a resposta a dar a estas interrogaes. A verdade que o Zeitgest (essa palavra alem que significa o esprito dos tempos) da nossa poca decididamente menos conformado, mais combativo, e acima de tudo, com uma crena difusa da insustentabilidade de muitos dos arranjos polticos, econmicos, sociais e at culturais do mundo de hoje. A mobilizao popular, seja quais forem as razes, e em contextos geogrficos e culturais diferentes, encontra-se em alta no mundo. Uns fazem-no para derrubar ditaduras ou regimes vistos como ilegtimos, outros para por um fim explorao econmica das elites sobre as massas, contra a austeridade, por educao e transportes gratuitos, pela defesa da qualidade de vida ou simplesmente (e muitas vezes paralelamente) por uma nova poltica, uma nova democracia, uma nova sociedade. Se h pouco tempo imperava a ideia do fim, agora muitos destes grupos de contestao so galvanizados pela ideia de comeo (incio de novas relaes polticas, sociais, humanas, e de novas experincias). Da ideia de que no h

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    alternativa para as sociedades liberais-capitalistas passou-se, em muitos casos, para a ideia que no existe outra alternativa seno imaginar, e lutar, por um status quo distinto do de hoje.

    O socilogo Daniel Bell, um dos antigos defensores da ideia do fim das ideologias, deu uma marcha-r no ano 2000, reconhecendo que talvez esse paradigma se tenha esgotado e que o recomeo da histria se tenha iniciado. sobre esta mudana de paradigma, e sobre este recomeo, que este dossi encontra a sua razo de ser no incio do sculo XXI.

    A Estrutura do DossierAtravs da discusso dos seus episdios mais marcantes, das ideias,

    formas de pensamento, quadros mentais, aes coletivas, e propostas, assim como das suas possveis consequncias, a ideia deste dossi a de mapear, percorrer e dar uma viso abrangente ainda que obviamente limitada a um nmero concreto de exemplos deste ciclo global de protestos. No h, nem pode haver uma nica narrativa para capturar uma onda de protestos que diversa, e que no obedece a um nico guio. Todos os protestos dependem de contextos nacionais, e de especificidades prprias. No h, alis, um nico movimento, mas vrios que, contudo, obedecem a um mesmo fio condutor, ou seja, a ideia de protesto, e a sua rejeio do status quo atravs da intensa mobilizao nas ruas e, tambm nalguns casos, atravs do ciberativismo. Este dossi reflete essa ausncia de uma interpretao unvoca. Optimismo e pessimismo percorrem, em igualdade, as suas pginas. Se estamos ou no numa mudana de paradigma civilizacional ainda esta por confirmar, mas os contributos deste dossi tem em ateno tanto a influencia da hegemonia dos velhos hbitos de pensar e de fazer a poltica, como as novas esperanas, experincias, e quem sabe, futuras hegemonias que se avistam no horizonte.

    Revoltas populares contemporneas numa perspectiva comparada est dividido em duas partes. A primeira, constituda por seis artigos, centra-se sobre as lies mais gerais e de vrios contextos geogrficos que se podem tirar deste ciclo global de protestos. Partindo do exemplo da Amrica do sul, Carlos de la Torre descreve a ascenso da poltica das ruas, e da ideia, cada vez mais difundida, de que a verdadeira democracia direta, comunal e nos antpodas da democracia representativa. Ele descreve as dinmicas desta viso, assim como os seus perigos. Importante tambm notar que este ciclo de protestos populares no exclusivo de pases com economias em queda, ou em dificuldade. Por exemplo, novas potncias econmicas como a Turquia e o Brasil tambm foram abaladas por uma massiva onda de contestao. Para Bulent Gokay e Farzana Shain, os protestos turcos de

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    2013 foram acima de tudo uma reivindicao de melhor qualidade de vida nos centros urbanos, contra a privatizao dos espaos comunitrios, num ambiente poltico progressivamente repressivo e antidemocrtico. Muitas destas revoltas foram estudantis, tornando-se smbolos de mobilizao popular, nas ruas, por um futuro diferente para a educao. No Qubec, como retrata Cayley Sorochan, assistiu-se a mais longa greve estudantil na histria do Canad, com o sindicalismo estudante a clamar, atravs de uma greve geral, e da desobedincia cvica, pelo fim do aumento dos custos da educao para os alunos. Se uma caracterstica fundadora destes protestos global a contraposio permanente entre o povo e as elites, a incluso do Tea Party neste volume no deve causar estranheza. Como refere George Michael, o Tea Party procura uma renovao conservadora da cultura poltica americana, em termos fiscais, mas tambm culturais, e a sua ao coletiva, a sua poltica das ruas, o seu ativismo na Internet, refletem o desejo de tomar de assalto um sistema visto como injusto e no-representativo dos interesses dos verdadeiros americanos. De certa forma, tem-se assistido a revoltas contra o Estado. Na forma dos tumultos ingleses de 2011, por exemplo, em que a destruio, os saques, e as pilhagens so um sintoma, como escreve Daniel Briggs, de excluso social e, ao mesmo tempo, de excessiva dependncia de uma cultura de consumo como a nica capaz de dar identidade a vidas sem sentido. A contestao popular tambm emergiu fortemente (e mediaticamente) no movimento espanhol dos Indignados, e Carlos Taibo refere que o movimento de 15 de Maio (a denominao preferida dos ativistas) criou uma nova identidade contestatria (primariamente anticapitalista) em Espanha assim como novas experincias de fazer poltica atravs de assembleias populares e espaos autnomos.

    J a segunda parte do dossi foca o caso portugus e, numa perspectiva histrica e contempornea, aborda as dinmicas de contestao popular desde as ultimas dcadas do sculo XX segunda dcada do sculo XXI. Tiago Fernandes argumenta que a democracia portuguesa que teve a sua origem numa revoluo social revela maiores ndices de mobilizao da sociedade civil (como organizaes de base popular, associaes e partidos) do que as democracias (como a espanhola) que resultaram de uma trajetria de reforma poltica. Mas tambm Portugal, como retratado por Guya Accornero e Pedro Ramos Pinto, conheceu um ciclo de protestos populares (e um movimento de Indignados), nomeadamente com os protestos da Gerao Rasca em 2011, que mobilizaram e depois desmobilizaram. Para estes autores, no entanto, existiram consequncias no mapa poltico: a emergncia de novos atores polticos e de possveis colaboraes entre eles e atores tradicionais na esquerda do espectro poltico. Finalmente,

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    Riccardo Marchi, mostra como esse impulso revolucionrio no exclusivo da esquerda mais esquerda, persistindo e manifestando-se tambm na direita radical, sobretudo na sua verso contempornea de um nacionalismo tnico e exclusivista. Ela visa tirar partido das contradies das democracias modernas, mas, em termos eleitorais, continua sem conseguir, em Portugal, os mesmos resultados dos populismos identitrios em voga noutros pases europeus. O dossier fica completo com a entrevista aos historiadores Antnio Manuel Hespanha e Ernesto Castro Leal, centrada exatamente nesse temtica do Poder e Resistncia na Histria de Portugal: do Antigo Regime Primeira Repblica, mostrando a evoluo das manifestaes de resistncia aos poderes institudos, assim como a sua represso, num perodo histrico alargado. Finalmente, na resenha ao livro Presos Polticos e perseguidos estrangeiros na Era Vargas (Rio de Janeiro: Mauad X; Faperj), Maurcio Parada, releva como seu grande mrito a sua chamada de ateno para a tradio autoritria do Estado brasileiro, que no caso da Era Vargas, se manifestou numa poltica acentuada de represso da (variada) oposio.

    Jos Pedro Zquete Organizador

    Antnio Costa Pinto Coorganizador

    RefernciasANDRAIN, Charles F.; APTER, David E. Political protest and social change: analyzing politics. London: Macmillan Press, 1995.

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    ARON, Raymond. 1955. O pio dos intelectuais. Coimbra: Coimbra Editora, 1981.

    BAUMAN, Zygmunt. In search of politics. Cambridge, UK: Polity Press, 1999.

    BELL, Daniel. The end of ideology: on the exhaustion of political ideas in the fifties. Revista. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2000.

    CROSSMAN, Richard (Org.). 1949. The God that failed. Columbia, NY: Columbia University Press, 2001.

    FANON, Frantz. Os condenados da Terra. Traduo de Jos Laurnio de Melo. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1961.

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    LINDHOLM, Charles; ZQUETE, Jos Pedro. The struggle for the World: liberation movements for the twentieth-first century. Palo Alto, CA: Stanford University Press, 2010.

    PINA, Manuel Antnio. Todas as palavras: poesia reunida. Porto: Porto Editora, 2013.

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    Autores/Authors:Jos Pedro Zquete Organizador. Investigador no Instituto de Cincias Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL). Tem experincia na rea de

    Histria Contempornea e Cincia Poltica, atuando principalmente nas pesquisas sobre nacionalismo, assim como aos estudos sobre antiglobalizao e geopoltica. Doutor em Poltica Comparada pela University of Bath, possui ps-doutoramento na Harvard University. Faz parte da rede europeia COST sobre populismo. Autor de vrios artigos cientficos, publicou os livros Missionary Politics in Contemporary Europe (Syracuse University Press, 2007) e The Struggle for the World (Stanford University Press, 2010). Coeditou tambm A vida como um filme (Leya, 2011) e Grandes Chefes na Histria de Portugal (Leya, 2013), alm de ter colaborado na obra Dimenses do poder: histria, poltica e relaes internacionais (EdiPUCRS, 2015).

    Organizer. Researcher at the Institute of Social Sciences, Universidade de Lisboa (ICS/UL), Portugal. He has experience in Contemporary History and Political Science, working mainly on themes such as Nationalism, Anti-globalization and Geopolitics. PhD in Comparative Politics (University of Bath, UK), he was also a post-doctoral fellow at Harvard University. Member of the European COST network on populism. Author of several scientific papers and books, among which stand out Missionary Politics in Contemporary Europe (Syracuse University Press, 2007) and The Struggle for the World (Stanford University Press, 2010). He is also co-editor of A Vida como um Filme (Leya, 2011) and Grandes Chefes na Histria de Portugal (Leya, 2013), and has collaborated to Dimenses do Poder: Histria, Poltica e Relaes Internacionais (EdiPUCRS, 2015).

    Antnio CostA Pinto Coorganizador. Investigador Coordenador no Instituto de Cincias Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL) e Professor

    Convidado no Instituto Universitrio de Lisboa (ISCTE). Doutorado pelo Instituto Universitrio Europeu e Agregado pelo ISCTE. Foi Professor Convidado na Universidade de Stanford e Georgetown, Investigador Visitante na Universidade de Princeton e na Universidade da California Berkeley. Entre 1999 e 2003 foi regularmente Professor Convidado no Institut Dtudes Politiques de Paris. As suas obras tm incidido sobretudo sobre o autoritarismo e fascismo, as transies democrticas e a justia de transio em Portugal e na Europa. A longevidade do Estado Novo portugus levou-o inicialmente ao estudo comparado dos sistemas autoritrios. Mais recentemente dedicou-se ao estudo do impacto da Unio Europeia na Europa do Sul. Outro tema a que se tem dedicado o das elites polticas e as mudanas de regime. autor de dezenas de artigos em revistas acadmicas portuguesas e Internacionais, publicou vrios livros, dentre os quais destacam-se: Os camisas azuis: Rolo Preto e o Fascismo em Portugal (EdiPUCRS, 2015).

    Co-organizer. Senior Researcher at the Institute of Social Sciences, Universidade de Lisboa (ICS/UL), and Visiting Professor at the Instituto Universitrio de Lisboa (ISCTE), Portugal. He has a doctoral degree from the Instituto Universitrio Europeu (1992) and aggregated from ISCTE (1999). He was Visiting Professor at Stanford University and Georgetown, Visiting Researcher at Princeton University and the University of California - Berkeley. Between 1999 and 2003 he was regularly Visiting Professor at Sciences Po. His works have focused mainly on Authoritarianism and Fascism, Democratic Transitions and Transitional Justice in Portugal and Europe. The longevity of the Portuguese Estado Novo led him to the comparative study of authoritarian systems. More recently, he has devoted himself to the study of the impact of the European Union in Southern Europe. He has also dedicated himself to the research of political elites and regime changes. He is the author of dozens of papers in academic journals and has published several books, among which are: Os Camisas Azuis: Rolo Preto e o Fascismo em Portugal (EdiPUCRS, 2015).

    POPPER, Karl. 1947. Utopia and violence. In: Conjectures and Refutations: the growth of scientific knowledge. Londres: Routledge and Kegan Paul, 1969. p. 355-363.

    SOLJENITSINE, Alexandre. Arquiplago de Gulag. Traduo de Francisco A. Ferreira, Maria M. Llist e Jos A. Seabra. Amadora: Bertrand, 1973.

    WALZER, Michael. Politics and passion: toward a more Egalitarian Liberalism. New Haven, CT: Yale University Press, 2004.

    Boto 1: