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MANIFESTO PROTESTANTE ANTIFUNDAMENTALISTALUTAPELO

PROGRESSO DA REFORMA PROTESTANTE BRASIL

NO

Ricardo Quadros Gouva

2002

IntroduoEstamos em um momento crtico e singular na histria do protestantismo brasileiro. A ameaa neo-puritana e fundamentalista mostra-se cada vez mais real e j tempo de todos aqueles que abraam de corao o genuno esprito da reforma protestante se manifestem e se organizem, antes que seja tarde demais e que as foras sectaristas levem as denominaes histricas para os radicalismos puritnicos, fundamentalistas e carismticos. Este breve ensaio visa dar incio a esta atividade que hoje imprescindvel se quisermos ainda sonhar com o progresso do protestantismo e da reforma no Brasil. Trata-se de um manifesto que prope um redirecionamento programtico para a igreja e a teologia evanglicas do sculo 21, um redirecionamento que nos sirva de orientao, de mapa intelectual para as igrejas histricas. Minha inteno apresentar dez pontos programticos, na forma de um verdadeiro manifesto com vistas restruturao da reflexo teolgica no Brasil. Entretanto, antes de entrarmos nos dez pontos programticos, comearemos este estudo respondendo a quatro perguntas introdutrias fundamentais, muito comuns hoje nos crculos evanglicos de reflexo eclesial e teolgica. As quatro perguntas so: a) o que ser cristo hoje; b) o que ser igreja crist hoje; c) o que ser um pastor cristo hoje; e d) o que fazer teologia crist hoje. Deixo claro desde j que no tenho a pretenso de esgotar estes assuntos. Como poderia? Minha inteno fomentar o debate, e tornar bvia a necessidade de buscarmos respostas para estas perguntas que, por estarem carecendo de respostas satisfatrias e por serem fundamentais, fazem-nos contemplar a necessidade deste redimensionamento do fazer teolgico a que nos propomos. A meditao nestes temas, portanto, proporcionar a atmosfera adequada para a reflexo programtica que segue. Aps oferecer respostas provisrias a estas quatro perguntas, apresentaremos e discutiremos os dez pontos programticos essenciais que consideramos adequados para o nosso momento histrico tanto na vida da igreja quanto na teologia. Passemos agora, ento, s perguntas sugeridas:

A. O que significa ser cristo hoje? Muitos se dizem cristos, mas nem todos de fato o so. Muitos se dizem cristos, mas nem todos vivem de forma consistente com esta declarao. Isto no um julgamento de indivduos em particular, mas uma verdade evanglica. O prprio Senhor Jesus alertou-nos para este fato, ao dizer que muitos o chamariam de Senhor, sem que houvesse autenticidade nesta confisso, e ao dizer que haveria falsos profetas e lobos cobertos com peles de ovelhas no meio do rebanho. Assumimos desde j, portanto, que nem todos os que se dizem cristos, de fato, o so. Por inferncia, assumimos que nem todos que se dizem protestantes, de fato, o so; que nem todos os que se dizem evanglicos, de fato, o so; e que nem todos os que se dizem reformados, de fato, o so. Muito pelo contrrio, o mundo protestante brasileiro parece, em grande parte, ter-se esquecido o que significa ser protestante. O esprito dos reformadores no se faz mais presente no corao da maioria dos evanglicos que, consciente ou inconscientemente, sucumbem a um lento e progressivo processo de catolicizao, re-catolicizao ou medievalizao. A cosmoviso que se desenvolveu a partir da reforma v-se hoje sob o risco de ser substituda por novas cosmovises catolicizantes, judaizantes e carismticas. H um engano sendo vivido e proclamado pelas igrejas evanglicas. Eis o engano: pensa-se que basta ser evanglico de carteirinha, isto , freqentar uma igreja evanglica, usar o jargo evanglico (o chamado evangeliqus) no linguajar dirio, abraar uma tica pessoal em consonncia com os costumes evanglicos, e assim por diante, para ser um verdadeiro cristo, isto , para viver a comunho com Deus por meio de Cristo. Com esse engano, estamos re-inventando no Brasil a figura do cristo evanglico nominal. por isso que temos visto celebridades facilmente se declararem evanglicas. Muitos hoje esto emulando a graa barata de que Dietrich Bonhoeffer nos fala no seu Nachfolge, seu clssico sobre o discipulado cristo. O que define o cristo no o fato de ele se dizer cristo ou evanglico, nem o fato de freqentar uma igreja evanglica, nem mesmo o fato de ler a Bblia ou fazer suas oraes dirias. O que determina que algum seja ou no seja um cristo sua vida, seu modus vivendi, que deve estar em consonncia com a Orao do Senhor, que diz: Venha o Teu Reino; seja feita a Tua vontade, Pai Celeste, assim na terra como no cu. No h salvao sem discipulado, e discipulado significa ser um aluno de Jesus Cristo e seguir os seus passos. Ser cristo hoje, portanto, deveria ser entendido como a disposio de seguir os passos de Jesus, de ser um discpulo de Cristo e viver a vida de Jesus Cristo hoje, e ento poder dizer, como disse Paulo, j no sou eu quem vive, Cristo quem vive em mim, ainda que tenhamos, no fim do dia, de confessar nossa incapacidade de tornar real nossa inteno manifesta em nossa orao matinal, de que a beleza e o aroma de Cristo sejam encontrados em cada um de ns.

No estamos com isso querendo sugerir uma forma de neonomismo legalista. Muito pelo contrrio, percebemos que foram exatamente os fundamentalistas e puritanos legalistas que nos trouxeram at esta crise atual, pois, pelo estabelecimento de regras comportamentais pueris, levaramnos a coar o mosquito e engolir o camelo. As grandes questes ticas, conectadas invariavelmente aos relacionamentos sociais, foram minimizadas sob o peso de regras de conduta ascticas que nos levaram a uma tica pessoal individualista e pragmtica e, portanto, anti-tica, isto , uma verdadeira contradio em termos, uma contradio tpica dos extremismos. A resposta, portanto, no est nem no antinomianismo da graa barata nem no neonomismo do legalismo comportamentalista, mas em uma tica fundamentada em princpios bblicos, que priorize os relacionamentos e dignifique cada ser humano, dando-lhe a competncia e a responsabilidade de escolher suas atitudes e definir suas prticas a partir de parmetros normativos divinamente outorgados e no a partir de regras heteronmicas. Em suma, o que ser cristo hoje? viver a f crist hoje! E o que viver a f crist hoje? Seria preferir uma certa forma de liturgia no momento em que a igreja local se rene para o exerccio de adorao? Seria perpetrar certos rituais tradicionais e desprezar outros? Seria preferir uma certa interpretao bblica a outra, nas disputas escolsticas a respeito de versos difceis da Escritura Sagrada? Seria achar-se dono da verdade teolgica, proprietrio do conhecimento do ser de Deus, douto nas velhas doutrinas e capaz de compreender os meandros dos paradoxos dogmticos? Seria experimentar certas iluminaes msticas e passar por experincias religiosas inefveis que infundem conhecimentos secretos que nos fazem mais espirituais que outros? No creio em nenhuma destas possveis respostas. Viver a f crist hoje viver o discipulado cristo, isto , ser um seguidor de Cristo hoje na terra, ser corpo de Cristo no mundo, reino de sacerdotes, luz do mundo e sal da terra. Ser cristo dizer no mera religiosidade, e sim vida espiritual relacional, abraando a responsabilidade pela reforma palingentica da criao de Deus, no combate ao pecado da objetificao de Deus e do prximo, na apropriao gloriosa da salvao por meio de Cristo em ns, no poder do Esprito Santo de Deus, que era, que , e que ser eternamente, a Ele seja dada toda a glria pelos Sculos dos Sculos.

B.

O que ser uma igreja crist hoje?

H apenas uma igreja, o Corpo de Cristo, una, santa, universal, fundada no ensino apostlico. Eu olho, entretanto, ao meu redor e vejo uma mirade de igrejas e denominaes. Precisamos, claro, buscar a unidade do genuno evangelho cristo por trs desta diversidade institucional. Todas estas denominaes e congregaes se dizem crists, mas em muitas delas difcil enxergar, por trs de toda uma larga crosta de badulaques e maquiagem, o genuno evangelho da graa transformadora, aquilo que deveria ser o corao pulsante de qualquer igreja que se chame crist. Eu uso a palavra evanglica com muito cuidado ultimamente, pois o termo j no mais sequer um referncia s boas novas da salvao pela graa mediante a f, mas sim uma indicao social de que se trata, em geral, de uma pessoa ou instituio crist no-catlico-romana. Grande parte destas igrejas evanglicas so, na verdade, a impensvel quimera: religies crists-pags. Elas esto de tal maneira influenciadas pelo neopaganismo de nossos tempos que nelas efetuou-se uma espcie de sntese demonaca entre o ritualismo e o pietismo cristos com uma cosmoviso nitidamente animista. Eu estou falando especialmente das igrejas chamadas neopentecostais, caracterizadas pela graa barata de uma religiosidade sem princpios ticos, pelo animismo de um mundo dominado por foras espirituais, e pela teologia da prosperidade, as infindveis barganhas com Deus que fariam os vendedores de indulgncias dos tempos de Lutero corarem de vergonha. Os desvios do pentecostalismo clssico (com a licena do oxmoro), so de outra natureza. Ns aqui destacaremos apenas os dois mais importantes. Primeiro, o legalismo pentecostal em que o evangelho da graa soobra num emaranhado de regras de conduta. O legalismo que tem levado os membros das igrejas pentecostais aos manicmios e os pastores pentecostais ao suicdio. O legalismo, esse cartesianismo da piedade, que pensa poder construir um povo genuinamente cristo por meio de imposies e controle dos costumes. O legalismo puritano das igrejas histricas tambm tem sido, entretanto, um motivo de vergonha para toda a comunidade crist, pois uma afronta ao evangelho daquele que comia com os ladres e as prostitutas, daquele que tocava e cuidava dos leprosos, daquele que curava aos sbados, e que afirmou ser o sbado feito para o homem, e no o homem para o sbado. E em segundo lugar, o sensorialismo. Todos sabemos que h muitos pentecost